domingo, 27 de novembro de 2022

167.

Destece o linho o pensamento salgado e com ele interroga o bramido crepuscular; sob as pequenas umidades, sentimos o segredo pequeno de seus brancos olhos, esclarecendo o interior da palavra recolhida. Nossa polposa felicidade é o fantasma, se obedecemos ao olhar menor cuja branca dúvida não visa agradar o poeta, mas recordar a ideia que, como a de Orfeu, nossos dias, para avistar precisa antes viajar ao trono de Hades.

Todas as escalas só nos valem de leitura, lentíssima tarde dos anos avistados, e onde, se tudo andar derramado, poderemos morrer do antigo e monótono remendo que a cada monstro se ampara e se escorre de nossos dedos. Densidade côncava acima os dias. O ar zumbe nos panos da infância. Para fixar-me, devo me consumir e sonhar entre os vegetais anos felizes cujas mesas são crepúsculos, e o funcionamento embebido.

Nessas paredes apenas o verão germinado. Nosso antigo papel, redes construídas. Alegra-nos pensar que somos palavras pousadas, sangue e amor alastrados. E assim chamamos uma outra vez, curvados, o esquecimento de ninguém.

sábado, 26 de novembro de 2022

166.

A natureza começava a repintar na tristeza o crepúsculo do dia consumido na vida. Os choros, com as mãos no tempo, coroavam os monstros. Do pano de um dos poetas, o pensamento observava a umidade, e a evaporação se derrama como um pouso de pinhais.

Que pensamento imóvel aquele que o choro antigo contempla. A embebida cidade torna-se lida; os poetas acabaram de ser criados, quando a antiga reta dos anos vem devolver o musgo ao envelhecido mar que existe entre as flutuações. Eis que ele decifra novamente o que vê. Um papel curvado canta. O mar é o pó. O nome da rosa é uma feliz lua. Todas estas cartas são um olhar. O pouso dessas galerias é mais espantado que as infâncias germinadas da mais desatada sombra.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

165.

Continuam consumindo os lápis de carvão, sol branco em noturno oceano com cegos rostos ou com a infância, essa fixa vela. Quando a pertencida rua é caiada nos olhos do corpo, voltam à sua sílaba, vegetal e iluminada, ao seu linho e ao seu silêncio. Perduram em imóveis flores, em um modo de esconder, no mar do poeta, da risca, do remendo, em reduzidas felicidades e em alastrados nomes. Na sonhada ideia do papel quando o sol escreve o poeta.

O ar, o verão, o dia, a embarcada água, as recolhidas físicas que não lerão as extintas cerejas que me restam, o meio-dia e o dragão, um olhar e em suas palavras a magoada palavra, palavra de uma folha sem dúvida aérea e já branca, o debruçado receio pequeno em que arde um imóvel som. Quantos poemas, luas, papéis, lutas, veias, linhas, nos servem como embebidas cidades, desaparecidas e loucamente bordadas. Durarão, todos estes poemas, para além do nosso abandono.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

164.

Deixo-o na sombra, com esses mortos diurnos que buscou o mago. Que de todos os mortos de seu dicionário este perdure, numeroso e gris. Avança pela sombra a loucura da eternidade e do cristal. O minucioso instrumento espreita opiofágico. Como uma gravura, a peça vai em pó. Está no espelho, com o ouro do rei. Mágico, deixa-o com sua outra pena e quase não tocado pelo fio.

***

Sou, mas sou também a água, a pena, a água da sombra e do morto. Sou uma confusa linha e o cone que deteve os minutos da eternidade. Volto ao mundo do poema, onde nunca estive, ao mundo do poema, espada mágica. Ouves-me, sândalo ou repetição fortuita, ou não ouves na terra de cristal o bispo invulnerável? Buscas nos numerosos destinos o severo mundo do acaso, a peça que plantaste no abismo, o pó e, no ponto, o mago e os seus gostos. Imagino-te gradual, um pouco côncavo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

163.

Para mim não é verdade que o poema tenha começado. Julgo-o tão infecundo como a brisa e o gesto. Uma flor perfumou com rigor as mãos. O brilho se aprofundou aos toques. As tormentas compartiram uma lamentação marítima. Só faltou uma coisa: a aspereza da dobra.

O injusto galho salvava a noite com sua enquadrada aparição, sua escuridão e seu copo. O mundo bravo já opinava o medo. Uma madeira mandava vento no muro. Uma tristeza arruinada como consternação de surpresa brilhou e no frio da noite conversaram um mundo. A tristeza arruinada floresceu numa contorção, já canção alta, já decadente e mundana.

Um choro sobre a mesa, mas na água da caverna, presenciados bosques, liquidezes e transparências. Um choro virgem que persiste na dor: vento, nuvem, instante, realidade. Fincaram os injustos galhos na virgindade, dormiram em gesto. Dizem que na caverna, mas são instantes rigorosos na tela do quadro. Foi um choro sobre a mesa e na dor: contorção de mundos.

O certo é que mil mortes arribaram pelo vento que tinha infecundas nuvens de tormenta, povoados bosques e mundos e águas dobradas que enlouquecem o corpo da escrita. Pensando bem na decadência, suponhamos que o copo era madeira então como aparições reais com sua ruína de dor para marcar o medo em que a escuridão jejuou e as mãos comeram.

E foi por este mundo de tristeza e de brilho que as lamentações vieram-me afundar a aspereza. Iriam balançando os poemas do vento entre a liquidez do mar noturno.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

162.

Pela quentura do sol, ondulação cujo imóvel gesto possuo, cuja natureza não abarcamos, há na consumação uma força poética até a germinação, uma física força que não estou destinado a rever, mas que me espera nesta sujeira com as veias de um bicho nas sanguíneas coisas do dia leve de luas transparentes, noturnas, em danças de papel.

A linha gasta as cidades; nossos terrores estão morrendo na agonia, formosamente. E a antiguidade, o fogo, a terra está sob os assombros marítimos da tarde e o resplendor do dia nos dará um sonho mais para a cosmogonia e violentos acasos da lua para merecer devagar e coisa tecida sobre o abismo que volta e o elemento que da ventosa visão nos livra: o olhar da fogueira.

Comovem-me os brancos funcionamentos que em nova salvação de lápis se perdem – luminosidade de águas, de terra, de montanha entre montanha – em pousos iluminados que foram o dia e o sal da voz para o fantasma. Sei que toda nuvem, apesar da emoção, é da imobilidade do poeta, reunida ao redor do mundo: da mesa, reunida para sua extinta ideia na onda.

Branda a vida, no princípio do ar, chego ao impulso e ao desabrochar e à marítima manhã que busco e me recebem tinteiros de poetas ao carvão que participaram das densidades dos círculos, e nivelamos o meio-dia num prazer aquático que dá para a flor – flor que está sob as ilhas e na monstruosa solidão – e dizemos, porque a luta é de papel, folhas de sonho, e somos nomeados e mortos no papel e a palavra assustada mede fixações azuis.

Para a evaporação que gravita em percepção caminho pelas palavras múltiplas como utilidades, pelo botão desenhado do meio-dia, sem mais pássaro salino que as recolhidas vozes do céu juntas às nervosas corridas e algum vento consumado no verão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

161.

Gosto quando te entregas porque estás como atuante e me invades sem tristeza – minhas mãos te forjam. É como se tivessem essas tuas flechas voado para colinas distantes, como se houvesse um caminho lacrado o teu púbis. Como as alvuras estão repletas de tuas coxas, repletas de tuas coxas, dos saltos do teu corpo te irradias. Amor de pássaros, sou igual às tuas coxas e me assemelho às ânsias das tuas fugas. Gosto quando te entregas e estás com sede. Como se te doesse, amor em pelos. E persistes em infiltração. Minhas mãos te firmam. Deixa-me que me entrego em teu mundo indeciso. Deixa-me que te viaje também em teu mundo fundo como uma voz, eterno como um filho. Tu és igual aos olhos, infinito e gracioso. Teu mundo é sem limites, tão ávido e branco. Gosto quando te entregas porque estás atuante – selvagem e noturna como se tivesses se ausentado. O corpo então e uma só hora bastam. E estou no túnel, fatigado por não ter sido em tuas terras.

domingo, 20 de novembro de 2022

160.

As grutas lavram no líquido os desenhos, e o vermelho que morre é caminho e água. Os pousos e os olhos que empalidecem na balança quase não existem para a fuga que está sonhando uma mudez. Não o turba a linha, esse mar no surgimento do mundo, nem o toque do silêncio. Livre da rouquidão e do olhar, lavra um palácio, o deslumbramento do mundo que é todos seus espantos.

E continuam escorando as tempestades, claridades em cristais com vibração ou com respeito, esse outro sagrado. Quando o serviço é tempo no centro dos magos, voltam à sua casta, à sua música e à sua vida. Perduram em imensidão, na fórmula constelada, num espírito, num ninguém, em bênção e em venerandos. Num fluído de encanto quando um mestre embravece o mistério.

sábado, 19 de novembro de 2022

159.

Ele fecha o livro da estranha espera e sai em busca do homem e do touro. A tarde já exalta o abarcado crepúsculo de pedra. Em direção ao fundo do segredo atrás das portas, caminha pelo centro do horror como agora pela anversa maranha dentro da espera de quem escreve a forma sem fim. Li os livros dele e outros compus com o universal rigor que o murado caminho da existência não apagará. Ele me concedeu o que é dado saber ao interminável destino. Por todos os cantos, anda a outra pluralidade do negrume. Não vivi por lá. Quisera ser tudo isso de novo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

158.

Pois do destino do universo ninguém sabe. Ninguém testemunha pelo reverso da porta. E, no entanto, sempre escolhemos uma investida dentro da existência: não só para escrever no interminável anverso da pluralidade, mas para algo que pulsa em nós como a espera rigorosa da fera, fora disso, que tem necessidade de que sejamos, na pedra, o juízo artístico da forma do outro. Companheiro no caminho de maranha ao centro do alcácer, a mesma perda que está doravante abarcada no extremo segredo do horror. Onde buscar o crepúsculo ao fim do negrume para o qual não há nunca a espera do homem ante o muro de ferro?

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

157.

No cabo curvo, a morte dirige os dias de solidão. A fadiga demora nos caminhos até as ânsias, no outro homem em que se odeiam monótonas redes. Dentro irradiam circulares sombras. Usura côncava, aérea busca, retas galerias, Zeus esquecido, anos pálidos e bramidos desatados. Quando a morte tiver ido, quando o temor tiver decifrado Hades, certamente o sangue não terá cessado a desolação. No pó se acendeu esta tarde cujo eco é agora toda a espera. Como as pedras, este rastro é secreto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

156.

Na terra de Marco Polo estão os sonhos do novo mundo, desde aquela transformada terra desenhada a oeste – em que um paradisíaco tempo prefixou as navegações e o diário de bordo – até a sabedoria em que a mágica vida da vida viajante retorne à sua utopia, que é o próprio Marco Polo, e se apague em Cristóvão Colombo, o aventureiro, o próprio relato, que é agora um declínio místico. Entre a raridade e o toque está a agulha da palavra. De dentro do livro vejo em narrativa os encantamentos do mapa de Toscanelli, leitura descoberta, ideia e mapa. Dá-me fôlego e coragem para navegar sem rumo à terra de tetos dourados.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

155.

Acaso do olhar, tecidas terras, sonhos mitológicos, à violência os dias se assemelham ao assombro dos dias. A cosmogonia antiga do tempo escava e faz saltar a visão do resplendor do mar. O mar e o vento. Da fogueira fugiam tardes, e o elemento infiltrava coisas na agonia marítima. Para sobreviver forjei o abismo com fogo, lua entre os pilares e terror nas formosuras.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

154.

Assim faço o círculo do sol, tomando o meio-dia branco, entre a noite que conserva a imobilidade do sal do poeta e o nome extraído de algum papel germinado. Quer seja a urina a reanimar o útil dia ou se é a natureza da manhã consumada, eis aqui o susto da ideia na fixação do aquático lápis – com o gesto da água que constata que o princípio do sangue e da consumação fantasma com uma palavra quase bicho, ou simplesmente mortífera na física da lua, encontra, na linha, mundo.

domingo, 13 de novembro de 2022

153.

É o prazer múltiplo, girando, e tudo o que é desabrochado se desliga no voo dos pássaros; toda luminosidade do pássaro se separa enfim com o meio-dia; o sol e as vozes vão formar em volta do vento um impulso de terra e botões. Vede, girando, a solidão, graças ao céu e ao mar, e pela ondulação, é nervosa o bastante para alterar como um sopro, rápido e leve, o azul das montanhas do que jamais conseguiu a rubra ilha com suas vozes e transparências.

sábado, 12 de novembro de 2022

152.

O encanto está sem espíritos; o tempo, sagrado;
Dançam as vidas sob músicas abençoadas,
Vestem, a imensidão das castas e os magos círculos,
Das fórmulas da vida a festa transparece,
De respeito são os venerandos que os símbolos fazem erguer
Em torno a seus mestres ainda não desabrochados do mistério;
Tais como o centro de constelações de um só tombo,
Os serviços, cosmos, o fluir de vibrações tempestuosas,
Como o de ninguém é cristalino no conjurar dessa música.


***


O tempo dos mestres. O centro do círculo. O encanto ilimitado. A clara imensidão das castas. O tombo do cosmo de ninguém. A fórmula da vida. A festa cristalina dos espíritos. A abençoada constelação de músicas. O conjurar sagrado dos venerandos. A vibração do serviço tempestuoso. O fluir da vida na música. O mistério dos símbolos com magos respeitos.


***


O cosmo da vida ergue o espírito a seu mestre, e o fluir da imensidão invade a constelação. Perdi a fórmula da casta, da claridade, do encanto do símbolo. A tempestade do mago rege o serviço enquanto recomeço em cada cristal. Por isso, trouxe comigo o centro da sagrada vida. Ali se erguia tombado o respeito da música. E ouvi a música vibrada no ilimitado. Ninguém. É esse o conjuramento a que regresso na festa dos venerandos, no centro do tempo, no mistério dos tombamentos. Ninguém escuta a tempestade enquanto o conjurar da vibração me desaltera e sacia ao encanto dos espíritos. A vida é como uma fórmula que me atravessa. E, sobre o cosmo, sobre o cristal e sobre a bênção, escrevo símbolos circulares. Neste serviço recomeço a música dos magos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

151.

Já não podia ver o clarão dos olhos; apenas avistava o oxigênio dos essênios, esbranquiçados como se fossem torres, e os declínios, que pareciam sóis morrendo por cima dos púrpuras. A evocação estava muito viva e o ônix formava tragédias de gerânio. Os assassinos no dia eram anulados pela leveza das crueldades e o corcel só via as tragédias muito rubras na sombra do gênio e os sangues a cair velozmente como lembranças recolhidas, que naquele voo tinha mais de um ocaso de crescimento.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

150.

Uma carena sulcada de geográfica onda me guia de desatino em desatino. Eis o fado e o nauta transpassados pela ira. Penúria de afundar na aventura convulsiva da ousadia, penúria de ouvir o que nem no mar Odisseu ousara ouvir. Deslizam os destinos cercados de cores e esconjuros destinados. Atravesso, circum-soando, cicatrizes de bronze, e a convexidade da nave paira proibida sobre os olhos. Carnes de armadura e peito suportam resumo e missão. Os elmos rodeiam o repelido avesso de Prometeu, onde as sereias tocam as mãos passadas de Troia.

E abro os fogos na coluna onde fogem de mim os miolos do caos. Amargores e vômitos suportam e desenham a medida das fraturas de Poseidon. O sal dos ouvidos de Penélope escorre vinho e teia. Este vigilante é igual à consolação da serenidade e aqui venho viver o que jamais se viveu. Os deuses tornaram-se espelhos sem paz. Sirvo para que as humanidades se vejam a cada porta. E eis que entro na torre sem fronteiras e sem homens. De cantos e de vigílias são os transfinitos e as aventuras. Eu queria pousar como espirro sobre a ceia a minha glória neste naufrágio.

Quereria que o oceano contivesse para sempre o fósforo do arcano devorador. Aqui uma sigla de partida multiardilosa e de toque irrompe aos lances e surge ultrassom. Mas já no extremo interdito o pranto rodeia a sereia. A quilha dos guerreiros é como um peplo. A cadela recorta os fins redondos do véu de Poseidon. Tudo está nos limites e obscuro. Nas águas queria chorar os sinais premeditados com a desmesura contra as infinidades.

Os corações atravessam o Éden e caminham para além de todos os fados. Vou ficando igual à rasura da qual Odisseu diz ser apenas lenda. Os crânios estão se deslumbrando em torvelinho. Quem trouxe finalmente Penélope a este lugar? Ressoa a lança ao sopro do extracéu e o mar se retirando deixou pervasivo o instante dos deuses e de Odisseu. Ao passo do ponto, ao passo do lacre das Moiras e de Thánatos, no sigilo do osso, no sigilo da escuridão pousa a onda alta do além-retorno. Hercúleos surgem os extremos mares.

A conspiração pousa sobre o regaço. E, entre os escarcéus erguidos num aportar de viagem que é talvez ali o passar do abismo onde o céu de Helena com os enigmas é medido, fagulha a fagulha, quase me cega Ítaca como um transgredir olhado na morte. Mas logo os terrenos contemplados em sua noite diluem a carnagem e eu mergulho declinando em périplo os paraísos. Porém o além-memória não é só antiguidade, mas também desatino.

E assim, de sulco em sulco, vejo o nascimento e a criação do mundo. Uma mão passa. Infinita, a glória recorta humanidades e geografias. É tudo igual a um fado resumido. Sem dúvida, um amargo vinho nos pede amargas lendas. Porém é tão sulcado o passo e tão vigilante a aventura que eu, caótico, encosto a nave no mar das viagens escritas como uma partida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

149.

Vamos, sai do mar, compondo suas aves, desentranhando quem és desse peito de costas que jaz, em forma de espelho abandonado e abatido, no alcance das sombras da tua espera. Vamos, renasce! É tempo de sêmen. A paixão se decompõe sem rumor. Perde rapidamente as raízes, e o fio do fundo vem debruçar e penetrar regressos. As águas se insinuam na noite profunda das separações, corrompendo a solene insônia. Como luminosidades desse búzio, vemos aparecer, aqui e ali, em todos os cantos, mastros e lendas, as primeiras aberturas dos mares e dos crescimentos que vão exigir de ti segredos e corpos.

E eis o país atravessado por espadas. Pões a nostalgia no dia onde o perscrutamento tateia. Roubas o surgimento. Esta é a viagem dos rostos, de quem toda devassidão atormenta a incerteza, embaraça o próprio esqueleto e quer enganar o mundo. E não te percas em minhas navegações abstratas. Deixa-me o ar e os olhos. Espero a areia e o ácido. Canta-me crônicas de teu abandono. Enquanto os teus ossos minha extensão se entrega em susto. Temo não ter grande fala por tua imobilidade filosófica.

É apenas o primeiro esquecimento de um rumo esquecido. A mão e o corpo podem, ambos, como medusa, se juntar num sono. E é lá, bem na salsugem do corpo no qual se funde e confunde o que é nossa corrida, e o que pertence ao nosso enigma vivo, e o que pertence às nossas terras, e a nossos lumes e corações ocultos, e enfim o que são algas informes, e é lá que se encontra o que chamei de descida das pálpebras: o milênio, pois nossas pálpebras são as águas que nossos marinheiros navegam, são os movimentos dos metais de tudo que somos.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

148.

Silêncio sobre silêncios sempre estão girando desde o palácio até o archote como resignações numa vida de montanha – em fervor, rebentação, derivação. Mas são sempre luz os que atravessam a súplica longínqua dessas pedras. Da região do clamor zanzam sobre jardins: seu trovão veste, face a face, a primaveril agonia e o cárcere de gelo em torno de suas reverberações céleres. A andante com o fogo aceso medra a tempestade brotada do nosso único vínculo dito com o mundo: a arte. A vida ainda não é o bastante.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

147.

O outonal pinheiro de um tempo em areia, mesmo secular entre ânforas, flutua criando a roda no espaço tão silencioso e tardio, como estátua de ano de divindade em divindade a rastejar, como ar que chove atrás da coluna de silêncio. Do cantado sonho da surdez ébrio estou, da surdez que o dia descerra, e, no fundo das liberdades, os jogos aguardam – coisas. Os búzios, as lisuras, os silêncios dormem em sabedoria, dormem na transparência dos corais, de sua condução emergida. Se a grandeza é partilhada sobre o pátio do sonho e em súbito o mar entre as almas ergue-se perigoso, e o desastre e o sufocamento cheios de sonho, e grandioso no pátio de cada dia, esses jogos tão silenciosos trazem muitas almas agora.

domingo, 6 de novembro de 2022

146.

A América flutua agora no mundo. A travessia paira sobre o Atlântico em processo. Há uma existência no decaimento racional do reconhecimento. Noção nenhuma este conhecimento antes venceu. Chocam desvios em torno às decepções sem impossibilidade. A afirmação abjurou os sucessos que costuma. Os gênios se transformam e poderosos são. O nosso ensaio é o mundo e a praticidade. É uma conversão da adversidade que a arte acolheu. Pousemos entre solo quando linguagem e pensamento. Prosseguem o decaimento e a pobreza e a filosofia. Nossas ideias sobre lacunas constituídas. Esmagam o desenvolvimento da possibilidade pelo caminho. Bem debaixo da escrita distante unia palavra aventurada. Como cultura panorâmica da literatura-América. E assim conheceria a improvisação e suas complementações. Não fosse um ponto projetado dali em lançamento. Que da hipótese presente e estudada e de pensamento escrito. Respira a última passagem da herdada literatura. A cultura da arte circunda esse acolhimento contemporâneo. Com desvios sempre mudando ideias e heranças. Trocando a posição determinada e as posturas a transferir. E as posturas todas pelo juízo do outro. Prolongam os motes que a prolongar se movimentam. Efetivação e intenção da pronúncia no gesto não habitam. Inclinados outros de ininteligibilidade e certeza vêm. Dar em mundo descobrimento estudo. Escolhidos como América os seres absolutos se formando. Com uma travessia que nunca falha seus empréstimos. Vão ao lado das origens com seus esboçares. Toda América povoa-se de ideias declinadas. O redescobrimento precário e fundamental. De que as regiões são flexionadas. Pesa com a expressa língua das orações do mundo. Que paira atitude cheia de declinações inabordáveis. E cai nas investigações como pensamento remissivo. Escritas e escritas dentre a escrita escreve. E a palavra como presságio ou herança em perspectiva trabalha. Até quase devastar essa terrível literatura.

sábado, 5 de novembro de 2022

145.

A prisão, era preciso que ele (quem?) fosse tocado como a inquietude de um espanto e de um abandono, que, por exceção, tratou, recentemente, de frescor, a arte escreve, longinquamente, desejos côncavos, sobre essas mãos próximas como as noites e inclusive seus afastamentos, a propósito de um dia morrendo, no tempo, a ocupação, acumulando-os, alongando-os, estendendo-os em tempos de verdade; depois registra o caminho noturno dos terrores desde o começo das saudades. Luminoso ao ponto do alimento. Um despir, que não é de nenhuma hora do dia, daí regressado, através da possibilidade da partida, atrai para uma ou outra evidência dividida do reino e dela bebe a morte que o reina, ou exala, em voltas, pela ondulação dos seres da morte, viva, disperso esse ninguém. Sim, a terra da poesia, ruído flutuante e nome em divisão, exige uma ausência de espera. E o poeta, pela repetição da perda e do nome, restituiu, assim, à antiga morte seu amor, que se enriquece, agora, nos vãos brancos do rosto.

Sem demora, invoca a praia, nome regressado da ausência, perto da poesia ou dos reis partidos vertidos pelos caminhos como mortes, as mãos do abandono, em rosto sumariamente perdidos, carecem de raiz (não, não), exceto a divisão, e não fosse o fato de que a terra da morte, para sempre aqui, para um possível alimento ordenando seguir a verdadeira concavidade do dia, existe, mas em espanto, na branca repetição e na paisagem deslocada pelo nome. O quase-ninguém, à parte um reino breve de regresso, seja para amortecer a saudade ou, temporalmente, aumentar o afastamento do desejo, mostra, não mais que isso, inquietação, os amores com alguma significação que não a esperada, como um ruído direto do corte da escrita.

A arte sempre altera as vidas de que se apropria. O dia para isso corre não sem se perder em si e em certo terror, nem ocupação, certa noite longínqua e, propriamente falando, como toque, poderia não se atribuir à morte o caminho para a flutuação, mas a flutuação em si. Apraz-me ligar, um ao outro, estes trabalhos, pela evidência dos seres amorfos que me rodeiam. Aqui me convida a hora da morte que consentiu no olhar o tempo noturno, na proximidade dos poemas aqui estudados, sem exceção, ainda que na prisão a prisão inteligível evite admitir, para o frescor ou para a noite, que nunca, como a ocupação adequada do tempo, houve qualquer composição, senão o golpe intelectual da arte.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

144.

Relativamente ao azul, à medida que ele se espalha no rosto, ao redor, com rastros reconduzidos pelos dedos, pela pérola do esquecimento, tudo foi dito, granizo, em melancolias algumas sobre o lenço. A despedida, como momento, sem a poeira, comporta uma comitiva à casa e simultaneamente o local do sacrifício. Nos olhos, nos cabelos e nas mãos desfalece em flor, negra, a boca que ilustra muito a irmã-palavra que se estende na janela ao longe em flor, hora e resina de pássaros, flocos, tudo com pluma de neve e em vermelho. Sua vida com os grãozinhos de gelo transmutando seu bico de verão e de corpo, esses raios sobre as areias, barra, olhos, frio: é preciso mover, véu a véu, do um ao outro, com noite ou forma, a pedra do ar como que posta nos olhos por uma mão.

Que uma escuridão se associa às palavras de verão com flor cega ou aquática ao ponto de sustentá-las, em crescimento, como seu coração. A forma reside nessa parede de palavras. Martelo no ar e neve produzindo o ombro de amoreira no verão ou a folha no rio-norte de futuro em redes: reconhecer, sombrio, nas pedras, rosto, noites à distância do pensamento da arte. Um estigma sempre flutua entre o dique aéreo e as palavras. Que essa massa satisfaça embandeirados seres com aquilo que se chega pela imagem na cópia do tempo. Tudo por aqui acusa as palavras milagrosas que foram incluídas na cratera do mar. Algum primórdio renascido ultrapassará negros sobre brancos, nos quais, ao menos, denuncio, só, o cinza maduro na mudez: ajudado que sou, tardio, pelo silêncio superestrelado fornecido apenas com a busca de sua bebida pela minha muito pouca visão consciente, voluntariamente, no deslizamento do aceno em direção à queda de palavras celânicas.

Esses acenos, numa convergência de voo de alguma viagem exceto a permanência proibida, importada por esse aceno: sonha-se, aqui também, com escrutinar a arrumação dos saberes. Toda sobrevivência vem do poema, ampliando uma nova escalada, ou com o poema se funde e se incorpora o pouso de outros sonhos. O repouso da travessia, ao sabor de irrompimentos, rompe pelo começar do luzir com respirações e poesia, torna-se muito petrificado pela cabeça da medusa. Assim esse autômato da arte em torno do poema, grande em tropos de figuras na qual aquela direção as comanda, com palavras, aí planando absolutas magnifica tudo até tudo dissolver, aqui: realidade, pois tudo obedece a um impulso de existência metafórica, e as palavras resumem, pelo querer em investigação extrema de cada topologia e dardejam seu lugar, perguntando, desafiando – no mundo pelo hóspede de condensar a partir de um nome quase, muro, em sobressaltos feridos em folhas de tempo, de conversa, de crimes tremulares, de pedaços de mar e capitais inocupáveis.

Limites da eternidade! Que proferir uma impotência a respeito enquanto ela mesma se manifesta, aqui, a poucos metros, para a edificação de tentáculos, parece impossível, também aqui, porque, sobretudo agora, isso confunde a atenção matemática dos matemáticos sem autonomia. Cálculo do poeta – arte projetada absoluta.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

143.

A soberania da arte extasia a própria arte, dançando com hereditariedade. Quer dizer que, sem o espírito do fim dado a um século ou à véspera por um daimon postado e amanhecido de solenidade, a arte parece convocada ao ator, aí sustentada, como ideia, no selo de todas as épocas, pelo futuro semelhante do mimético pensador trágico.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

142.

Reflexão, medida, a duração interpreta Odisseu como substância amarga e inconcebível do sonho e sobretudo tal como Odisseu existe pelo infinito nos tempos do segredo deste pensamento: era místico, por uma vez, após o duplo rosto maligno, ver chegar até nós resumido o triste sonho, na postura da cara talvez distraída. No limiar, a vida lega encontro, um tanto delicioso, mas muito nascente, como se autenticada com os olhos de uma alma eterna e imediata.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

141.

Os silêncios se movem. As flâmulas se movem – apenas de pé. Mas o que apenas recolhe vida pode apenas morrer no mar. Os silêncios, após as portas, alcançam o salão. Apenas pela nau, pelo sorriso, podem os silêncios ou as flâmulas alcançar o paraíso, como um vento na praia que ainda se move perpetuamente na alma. Não a alma das velas, enquanto a viagem perdura, não apenas as escadas, mas o coração, ou seja, que a partida precede a tela, e que a partida e a tela estiveram lá, antes da tela e depois da partida. Os silêncios se distendem, estalando-se, quebrando-se, sob a caverna, sob a brandura, tropeçando, escorregando, perecendo, apodrecendo com as andanças, não querendo se manter nas ânforas, não querendo se quedar só em um canto. Ideias da errância, da maré, da cor ou apenas da ideia, sem cessar as artes. O fumo do silêncio na abertura é perfumado pelo ócio dos cadáveres. A ideia da queda do funéreo sonho. O fingido assombro do céu chuvoso.

domingo, 30 de outubro de 2022

140.

A sombra e o outono sepultaram o reino. O movimento das texturas arrebatou a luz. Irá o vento voltar-se em laço? Irá a ilação extraviar-se junto à rapidez dos gestos, inclinando-se sobre as vidas? Irão as coisas amorfas e as vinganças agarrar e apertar os ouvidos? Imitações do indizível irão se crispar sobre as vidas? Depois que a prosa dos extraordinários responder sombra a sombra, sombreando após, a sombra outonal permanece no movimentado vento do laço que gira.

sábado, 29 de outubro de 2022

139.

Aqui é um lugar de opressão. Nuvem muda e nuvem de basalto numa lava movediça: nem eco de escravos que reveste trompas de virtuosos sepulcros transfigurando naufrágios em espumas supremas e cuja destroçada abolição sugere mastros, nem os ossos que purificam as faltas, esvaziando o abismo com perdição, purgando de vogar a abertura. Nem enlear nem fio. Um afogar apenas sobre flancos infantes repuxados por sereias distraídas das sereias pelas sereias cheias de infantes e afogadas e enleios. Branco vogar sem abertura. Abismos e alturas em perdição rodopiadas pela falta furibunda que sopra antes e depois em todos os ossos. Mastros fora e dentro de destroços abolidos. Espuma de naufrágio e espuma de sepulcro. Virtude de ecos escravos. Na lava de basalto, trompas carregadas pela mudez que varre as enevoadas opressões das trompas. Não aqui os destroços, nesta altura de afogamentos. Desce das nuvens, desce apenas à virtuosa abolição dos abismos, mas não aos flancos, à mudez dos sepulcros, ao mastro. Abertura de todos os infantes. Basaltos do naufrágio dos ossos. Vogar das sereias em lavas. Espuma furibunda do branco. Este é o único eco, o outro é o mesmo, não em falta, mas de falta de fios, enquanto o enleio se move em perdição, sobre suas metálicas palavras de nuvem muda e nuvem de basalto numa lava movediça. Aqui é um lugar de opressão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

138.

    A tentação às dobras da mão em forma de ave. A palidez da índia e da vela. A palidez da novidade da noite e da sombra, ainda que cingida pelas velas da nave. Uma demência em sobra e mergulho. Canção da pedraria. Brinde na caravela, ao mesmo tempo uma monotonia refletida e outro tempo agora na espuma, no timão de seu parcial acaso do horror. Contudo, o cabo da avidez e da jazida, entretecidos no riso das tentações à Índia, preserva a sombra da sobra e do brinde, que nenhuma dobra de vela poderia suportar, agora. O mergulho da nave e o mergulho da espuma não admitem senão o voo de uma ávida ave. Ser consciente é estar dentro da caravela e do outro lado do tempo. Mas é apenas no mergulho que a novidade nas velas, a novidade sob a canção monótona ao timão, a novidade na jazida cruzada pelas mãos ao cair da noite podem ser refletidas, envoltas na nave e na espuma. Somente através do mergulho, o mergulho conquistado do acaso – em riso sobre a palidez.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

137.

A ruína da morte e a ruína da ilusão estão ambas na ruína do sonho e a ruína do sonho contida na ruína da ilusão. Se toda ruína é forçosamente exaltação, toda ruína é ruína das mãos. O que poderia ter sido é uma sombra que permanece, silenciosos ombros, num êxtase apenas de escombro. Tudo converge para um só fim, que é sempre morte. Ecoam noites nas mãos ao longo dos mantos que não percorremos em direção às poeiras que nunca abrimos para os seres. Assim ecoam no firmamento, em teus cabelos. Mas com que fim as mãos perturbam a voz sobre o mar de estrelas? Outras coroas, como pesadelos, aninham-se nas trevas. Entre as folhagens, procurando-as, procurando-as na luz das paisagens. Pelas coisas da mão aberta ao dia da morte, aceitaremos a luz dos olhos. Em nossa voz cega. Lá estavam os gestos imaginados e exaltados, movendo-se solares sob as mãos do mundo, na balança dos ombros, através da palidez da lua, e o marinheiro cantou, na praia, com a obscura mão imersa na piedade. E um perdido caminho triunfante as mãos trespassaram, porque os infinitos, nas coisas das mãos, recordavam dias. Lá estavam elas, como nas mortes, acolhidas e acolhedoras de sensações. Assim caminhamos, possessão a possessão, em impulsionada promessa, aos ombros da espera e da tarde, rumo à ausência do rosto, para mergulhar as mãos nas estátuas dos deuses. Estátuas dos deuses. Invasores das estátuas, cidades em ruínas, e os deuses inundados pelo tempo da morte verdadeira, e as vitórias se erguiam, sombrias, sombrias. As mãos flamejaram nos abrigos do perigo. E todos atrás de todos, nas janelas e nos corredores de palavras. Vai, disse o rosto, porque as mãos estão repletas de jogos, em conversas entardecidas, a reprimir a luz. O rosto dos homens não pode suportar tantos pesadelos. A ruína do sonho e a ruína da ilusão convergem para um só fim, que é sempre a morte.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

136.

O começo paira sobre o recomeço do arremesso. A vida com suas espécies rastreia-lhe a viagem. A importante viagem do começo da escrita. A importante página da escrita em página. A escrita de começo e de escritura, escritura e recomeço. A arremessada escrita da escrita e do futuro. Escrita sobrescrita, páginas escritas. Traz a página da noite, mas não a noite. A página do ensinamento e o começo do fim. Toda a nossa escrita nos aproxima da escrita. Toda a nossa escrita nos avizinha do começo. Mas o descomeço do começo não nos acerca do desconhecimento. Onde o descomeço que perdemos quando tecidos? Onde o livro que perdemos na força? Onde o livro que perdemos no livro? As viagens da viagem em vinte e um séculos afastam-nos do começo e da revolta nos acercamos em volta. Viajei para o recomeço. O livro no conteúdo do livro. Onde a linha flui com páginas palavradas. Temos aqui linhas sem conteúdo. E palavradas linhas de palavras. Deixem partir os livros. Os livros carecem de ensaio. No livro não precisamos de livros. Que eles despertem os ensaios. O livro gira e o livro se transmuda. Mas há um fim que jamais se transfigura. Em todos os fins o começo existe e não muda. O recomeçado refino entre o afinar e o fim. Afunilados, descuidais vossos começos e afunilações. Que vos saciem o começo fuzilado e final. O fim dos fins recomeçados não está decerto recomeçado. O fim não se oferta apenas ao dobrar do refino. O fim se comprime ao lado do fim no fino. O fim medra no começo de vosso regresso. A história é aquela que edifica, ruína, se a história edifica todo este desespero, mostrando os contos que se cantam agora, e alguns descontos que há muito se ergueram. Descanto! E guardai desencantado avesso. A história. A escória. A cárie. A história da independência é a hora da independência, logo após. Também irei. A gloriosa independência ou o somatório do assomo. Sob os assombros calquei só o começo do projeto, e aprendendo, renunciando os ecos que tomam os começos por ecos. Empenho-me nos ecoados começos que ao eco se confinam com socos, aceitando com o mesmo começo os que ecoam no oco. O soco no osso e o aqui no além. Estão todos aquém investindo suas partes. Mas apenas porque esperam partes. No além, ou no aquém, com começados recomeços, edificaremos os começos e as unhas. E uma outra comida para a história da fome. Onde os recomeços se quebraram com começados ossos. Com o começo dos ossos um novo começo para as viagens. E uma viagem a cada maravilha. Cada qual à sua viagem. Que maravilha tendes se não se maravilhas em viagem? Não há fábula que floresça sem fábula. E desconto não há que perdure sem o desconto das fadas. Mesmo o conto que em favas medita o começo da fala. Para quem os começos e os recomeços repetem o arremesso da vida. Espécies em viagem, pela importância do começo da viagem. E agora viveis começado nas escritas que se esgalham sobre páginas. Em escritas, indo ou vindo, todas as páginas despencam a escritura. Íntimos da escrita e sem começo em parte alguma. Tropeça e vai, indo e vindo. Nem a escrita-escritura em recomeço se arremessa. Cada escrita à sua escrita se devota. E os futuros nas escritas da sobrescrita galopam páginas e páginas à noite. Muito a ensinar. Muito a finalizar. Muito a começar, de novo. Que do começo se desgarre o descomeço. Que o desconhecimento talhe o livro. Que o livro não vacile em vossa viagem. Que não se arraste a escrita, que escrita e escrita não mais sejam escritas, sejam plasmadas.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

135.

Ficado para trás por esplendores pousados, com as solenidades marítimas por pedras que não se relacionam comigo, duro muito pouco no equilíbrio da balança que brota com os homens de lá. Diante do mundo, deslocam-se as minhas coisas com medidas da cegueira. Na perfeição há olhares de sol. Aquáticos que no verde rezam para fugir da diluição da transparência. É de uma inutilidade mergulhar os toques. Os silêncios ainda rezam e continuo em azul ao escutar a rapidez com que se deslocam os peixes. A beleza singra solene, inúmera, sem ter forma para chegar ao mundo. E o segredo do nascimento já é a criação do segredo criador.

Isso, indo em vermelho. Algumas passagens imaginadas. Outras tantas recortadas, sempre. A luz do promontório chega pelos rochedos. Pisa o sonho externas elipses da lucidez. E um outro sonho vem, em palavras, de um outro mundo ao lado. Grande silêncio feito nas claridades ouvidas que deixo transparecer por aqui. Aquela mudez falada na superfície da cara. E, como a escrita é do mar, vive-se nas águas, com imagens, sempre em travessia, no caminho dos olhos dos pescadores, em gestos paridos na água e abandonados logo após o ressoar, no deslumbramento de qualquer coisa quando o lugar da vaga tem outras tantas expedições nas expedições minhas.

Assim, herdeiro de grutas e rouquidões, acolho marés que encontro redondas no quarto dourado de antigos poetas, escutando sobre a pedra as areias que dizem algum centro em suas manhãs. Achego-me com meu círculo de ar. Escuto entre as colunas os ruídos do penedo que lampejam em outras grutas e com outras rouquidões o repouso das heranças. Não o deslumbramento dos brancos, mas os espantos. Naquela gruta, o mar foi enterrado pela luz visível do grande terror penetrado dos segredos.

Essas habitações belas que fazem da visão algo do sonho. Olhares ousados que nutrem os imaginados interiores de mais um pensamento deslizável. Os pensamentos estão sobre os ombros. A água sairá um dia da cerca e todas as plantas vão desenhar o roxo das travessias na garganta de pedra. Elas me permitem o labirinto que não tenho e a arquitetura que me cabe. Conjugarei o verde na coluna sombria de mais uma luz e, com isso, polirei o céu e a terra.

Rodeado pelas salas, rumo com os dedos d’água e guardo os toques. Friso areias e semeio flores no fundo. Os olhos hão de correr nas aberturas. E o silêncio, líquido. Traço o verde quando me procuram por lá. Não há outra fuga no arco dos peixes que vazo aqui em desenho. Das aberturas dos espaços, manhã alguma brota. O palácio que habito pisa os reis do mar. Escuto o escorrer da luz. Retumbando, avanço com as águas. Nossa arte é desaparecer a cada manhã.

Os princípios do mundo no olhar entre o vidro das coisas e das grutas: cavar interior, cavar sombrio, entre o aquático azul e as paredes. Pousos rosas e marítimos pairam em silêncio. Espantados círculos e a medusa líquida. O sol sangra. O fosforescer lancina. Cobre-me todo o verde. Irrompimento em abismo. Surgimento das portas e mar exterior se entrelaçam e oscilam e emergem e cantam e fremem rodeando luzes a cada balançar acima.

Aqui definha a lucidez. Aqui o mundo, nos extremos, procria para as palavras, entre o grande silêncio e a clara transparência. Muda é a cara para a superfície ou para a água. As imagens se esfacelam na travessia dos olhos, no ressoar das vagas e no ressoar das rouquidões. A maré ondula no caminho de uma guerra redonda, antiga, na areia dourada entre pedra, no círculo da manhã aérea, ao surgimento pousado. O deserto perdura para além dos fios. Praias invisíveis. Deslumbrante é o espanto da visão, após, no segredo habitado. Nenhuma penetração de fios, e todas elas.

Sem equilíbrio quebra-se a cegueira ou perfeição de encontrar o olhar do sol atrás das águas verdes. Reparte a transparência, mas não parte, não soletra diluídos mergulhos. Deixa-os dormindo. Silenciosamente tocados, mas não tão rapidamente. Ergue tua forma, mergulhando e emergindo o mundo. Busca a pena onde o nascimento secreto, a passagem da criação tangencia a imaginação da luz, o recorte dos sonhos.

Em sonho, em sonho, em sonho, escuta a ousadia olhada, a ousadia imaginada, a ousadia interiorizada, a ousadia pensada do deslizamento sobre os ombros. Acompanha as travessias das gargantas entre as pedras, dando uma nova arquitetura ao labirinto que paira, saudando entre as colunas sombrias a palavra do mundo, da criação em ginga entre a passagem dos toques. Segue a vivacidade da dilaceração, do golpe intelectual, perseguindo a asa da transparência azul, do voo, aclamando magnificamente a esperança. Todas as celebrações são audíveis na região do poema. Em espaço, entre espaço, sobre espaço. Mas, ao fim, renunciando o silêncio, deixa o poema à balança do mistério, à forma espantosa, ao círculo do sal.

Aquática linha. Aquática linha. Vítreo flui o azul em recorte. Promontório algum é aureolado como uma linha. Aureolado. A glória se moverá apenas com a solenidade da manhã nua antes vestida. Aureolados choros esperam. Gratidões esperam. Caras de pedra esperam, esperam. Os grandes poemas sempre esperam. Atrasam-se. Riem. Em vida, em vida, sempre aureolados em movimento. Esplendorosos pousos vêm comigo e comigo se vão, solenemente, em aquática linha, linha, linha.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

134.

Os fantasmas um por um para o azul do mar passam com a designação do barco. Passam como pássaros em frente de adiamentos e horrores, cortando a alvura dos espaços com uma agonia. E todas as regiões são novamente estremecidas para além do frio do inverno.

domingo, 23 de outubro de 2022

133.

Quando abro o exílio do meu desprezo, reconheço que a vestimenta que me cabe é a imobilidade do cinza: a pureza do brilho da designação, cortada e recortada pelos azuis, pelos fantasmas e pelo peso das plumas que acolhem, simplesmente, o horror que sugiro no solo.

sábado, 22 de outubro de 2022

132.

Todos nós deveríamos reparar na Ode Marítima, de Álvaro de Campos, todos os dias, incessantemente. Os marítimos versos navegam o reino do horror que nossas parcas escritas ainda não alcançaram.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

131.

A virgindade das palavras, degraus vivazes de tabaco viridente. As asas da boneca dilacerada a golpes no parapeito. A leveza da túnica-dória sobre o lago. Os dedos de neve, fora, a esticar em voo o fio de transparentes tecidos outros. Todo azul é azul de aflorar futuro, aqui. Aflorar que não haverá, mas permanece, ao gesto magnífico da passagem do cisne.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

130.

Lança na virgindade a vivacidade verdejante das dilacerações. As asas do sol nem ligam, golpe do pensador. A leveza do lago é o olvido por estar agora sobre a neve. Nem as transparências do azul. Elas bailam, girando, golpe do pensador. Seria um voo quase aflorado. Já de novo o cisne adorna-se magnífico. Como recolher as esperanças? Há mil celebrações em cada bebida e você ainda diz a esterilidade das regiões, do acender de frios infernos. A flora é o estremecimento no colo. Fica por ali, na alvura. A agonia já parte nos espaços. O infligir, golpe do pensador. O pássaro, golpe do pensador. O adiamento devora o horror. Escreve a escrita do solo? Abaixe o peso das plumas. Os fantasmas já sobem no azul. Adoráveis designações que se debruçam sobre a pureza. Um brilho: uma imobilidade, uma cinza, sem nenhum e com todos os desprezos. A vestimenta dos cisnes imita o exílio nos vãos da virgindade.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

129.

Deitou-se no pensamento com o enterro da vida debaixo do mundo e ficou à espera de ver num sufocamento a existência do horror. Mesmo assim trago o inferno no passado, pensou. Pode ser que tenha a sorte de trazer o frio da alma. Mereço sorte no mundo. Não, você violou a sorte do mundo quando se afastou em expedição.

Mas agora tudo aquilo já estava no olhar e não se via nenhuma folha nem nome, só sentia a beleza e a fluidez inigualável da tinta, e julgou que talvez já estivesse na chuva. Juntou as poças e sentiu as palavras. Estavam em cantos e podia sentir a história das figuras ao abri-las e fechá-las na natureza. Encostou-se para trás de encontro ao sonho e constatou que ainda não estava morto. Os séculos diziam-lhe sobre a folha com a tristeza que irradiava em vultos.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

128.

Não há para a manhã outra consumação do amor nem as tardes das folhas sujas. O princípio da própria vida deserto no mundo. Só existe o rosto da lua em desenho de geometria claro que, sem descanso nem palavra, esculpo linha a linha. E a noite sem nome onde sem fim afundo o desabrochar de todas as flores.


***


Cada manhã traçada pela consumação do sol, seja qual for, declina sobre o branco da folha. Os princípios, os princípios dos mundos, traçam o desenho dos nomes.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

127.

Regressemos na manhã. A consumação do ouro agoniza e todo o sol pouco a pouco se escurece e se degrada sobre a brancura da folha. O princípio do solo fumega no mundo. Uma lua de diamante já aponta na altitude, em desenho. O desenho e as linhas do nome se acumulam e se confundem; e todo o desabrochar da flor do verão insensivelmente se conforma e se compõe numa única mesa de meio-dia vago e obscuro sobrecarregado do torpor da iluminação. Logo existirá, em torno do papel, a profunda noite do poeta. A morte mais pura do que existe sobre a mesa, os monstros mais puros nos deixam e se elevam, germinando. O alto céu do tinteiro lentamente declara os monstros do universo. Algum bicho se separa do fantasma do tempo. E todo o peso da palavra de um dia de nossa vida em círculo nos faz baixar a cabeça ao papel. A sujeira do silêncio de carvão toma conta de nós, no lápis: ele nos separa em fixação, ele nos une em ideia. Uma só emoção em risco é a lassidão extinta do sonho. A luta das sombras dos pensamentos com o papel acompanha o poeta. Graças a isso, o sangue dos mitos chega às veias e se torna mais importante e perceptível que o sal de todas as águas. Regressemos na manhã. Recorramos aos susto das chamas e à física das lâmpadas. Sente-se em recolhimento perto dos gestos. As mãos frias nos diários, o susto dos pés molhados de coisas estendidos em direção ao pouco das brasas, a imortalidade dos olhos sonha com fagulhas da natureza. Elas dançam e estalam diante da vida. Eis que a palavra não pensa em mais nada de se recolher e de se dizer. O poeta inefável é o destino da duração da máquina.

domingo, 16 de outubro de 2022

126.

A claridade do perpetuamento das ninfas, mas bastante obscuro e que principia por deixar rodopiar nossas emoções durante horas num calçamento irregular; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem estreito ao encontrá-las, pois sem o suspeitar e reduzido a seus próprios olhos, seria nosso devaneio impotente para tornar habitável qualquer obra-prima. Ao passo sacudido de seu passado, cheio de um afresco apagado, saía da sala ao lado que aveludava de um sentimento a encosta de uma cauda de pavão, e avançava, aos encantos do giro, para o hipódromo infeliz de todas as noites. Na vida dos livros que lia lá na noite, era num fluir lá do mar que eu escapava aos poucos da água como quem escapa de um verso. Que mãos tão fundas eram essas liberando as ondas brancas que me chamavam de uma estranha marinha? De que adiantavam aqueles momentos de silêncio, se mensageiros mais amplos, mais circunstanciais, montavam melhor a carência, corrompendo a velha vestimenta gasta até o fio? Meu gesto, quando cantar o mar, será colhido com a sombra pensada com que se colhe um caminho de diversas perspectivas. Amainava a febre dos meus olhos na infusão fervente da evocação, cobria minha lâmpada de muita gente e, deitado sob minhas cobertas, eu dormia na busca do conhecimento de uma coisa estranha. Não eram indignos aqueles momentos todos ao mesmo tempo velando aquele beijo de paz e aqueles ideais interiores. É claro que eu achava um nome todo especial nessas noites sobre o papel que pareciam emanar de um jeito ingênuo e faziam passear ao meu redor os campos da minha sombra. No entanto, não poderia descrever o projeto de aventura que me provocava esses turbilhões confusos de cólera e de paciência no dorso que eu acabara de preencher com o meu embaraço a ponto de não dar mais o passo em direção à porta. A influência anestesiante do meu sonho passara, e eu me punha a pensar e a sentir coisas tão breves e excepcionais. O giro da maçaneta, que para mim era diferente de todos os outros giros de maçanetas, nisto que parecia abrir vagos instantes, sem que tivesse necessidade de girar cada vez mais veloz, de tal modo se me tornara inconsciente, eis que servia agora do corpo astral de folhas para a palavra angular do meu erro. E logo que chamavam da varanda sentia pressa de correr para o ventre humoso onde as palavras são o nome do rigor, sem saber que existe o mar e que conhecia aquela escuridão e o ruído das pequeninas pulgas que se movimentam ao aceno; espalhava a sua impetuosa noite ao cair algumas dessas imagens de bordas rendilhadas, que as desgraças ou as sortes das palavras me tornavam o murmúrio do mar, ao passo que os crimes que as mãos cometiam me faziam examinar minha própria história com maior indulgência.

sábado, 15 de outubro de 2022

125.

No livro, um pensamento. Na alma morro e escrevo o que o coração me deixa. E sei que a noite é um transporte e tem uma vida própria. E todos os contos são romances em direção a uma outra invenção, mas, na felicidade, ainda longe da desgraça, sento-me na imensidade e medito com arrebatamento. Possuo sempre todos os impulsos, e a queda pousa recaída aqui e na alma que sobrevive sempre a todos os projetos. Bebendo, fumando, mantenho-me em Odisseia, na composição, na lógica, sentado junto à estrutura. Ouço a concatenação, ciciando. Amo o organismo, em episódios. Com Homero que me recolhe à perfeição, acabam todos os estudos. Recolhendo palavras, guardando alegorias e dizendo a pobreza com precisão, apago Virgílio, indo dormir forte em Milton, que foge do livro.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

124.

É mundana a travessia dessa América. O processo das existências é de decaimento e decepção. Mas não se distingue nada de um gênio e se, em seguida, se procede com adversidade, a linguagem novamente se perde na constituição, que cumpre novamente desenredar como escrita. No entanto, isso quer dizer que a América se balança, que a sua hipótese se reflete nas passagens e nos desvios da arte, cujo outramento, mesclado à intenção do outro, luta com a certeza, e o registro rivaliza com o redescobrimento a partir do empréstimo. O flexionamento dessas atitudes recebidas pela escrita dá-lhe a perspectiva de enlaçar a literatura em declinação, contrastando, em meio a elas, com a língua e a precariedade, a origem e o absoluto, o mundo inclinado e o prolongamento posicionado. Declarei que tudo isso é o contemporâneo. Mas nenhuma literatura, a menos que seja em seu presente provisório, uma literatura da possibilidade, conseguiria perceber um só acolhimento desse gesto plástico de ninguém.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

123.

Nessa travessia do Atlântico, persigo a América como o mundo à existência. Nesse processo, fujo ou dispenso qualquer decaimento que não seja a palavra da arte; antes, busco reconhecimentos sem razões, grandes noções e conhecimentos, decepções de desvios e de impossibilidade de sucesso; também, sendo assim, exulta uma afirmação romântica; aqui e ali transformada, arranhada, que o gênio ainda faz parte e poder. É uma praticidade do ensaio no mundo: não há e há conversões para ter tentado tudo, adversidade do acolhimento, decaimento no solo, como convém, ainda que de maneira pobre, homenagear o pensamento da arte na prefiguração do punho. Linguagens, filosóficas, embora, para desenvolvimento, leiam-se as ideias de lacunas em lacunas: a constituição da possibilidade do caminho é para facilitar, ou não, a distância dessas leituras; mas todas as relações da escrita são literatura: América num, Velho Mundo noutro – travessia em todos. Mantive a palavra onde supus que a aventura estivesse, outras são panorâmicas, da cultura, talvez tenha esclarecido (acredito que não) essa ideia provisória de América: a projeção do ponto se faz como complementação. Por lançamento de hipótese, inovo e elimino no horror branco da página todos os estudos. O presente conta, porque aqui começa também o pensamento da escrita na passagem de ninguém. Para ler, a literatura ao menos, com relevo, como herança e cultura: devagar, este devagar, com expressão, alguma arte, muita contemporaneidade. É um acolhimento de ideias e de heranças e de desvios e de outras posições: aqui, tudo se resolve na transferência. São posturas e é o juízo; uma determinação do prolongamento do outro, duas posturas: são motes, são movimentos, são efetivações da intenção da pronúncia, são inclinações, são gestos. Mãos de ninguém, dos outros, quadro sem inteligibilidade, mundo sem certezas que nos aparece nos descobrimentos – América. Dos estudos, com escolhas registradas e absolutas; o que o enraizamento viu, ou não viu, nas formas, fora um e outro ser em travessia, a origem esboçada com empréstimo e a ideia do declínio da América e do redescobrimento, fundamento de precariedade, foram situações e flexionamentos da língua, em oração, nas regiões – as declinações do mundo. E já é inabordável. Iria além em atitude de investigação e interesse pela remissão do pensamento. A escrita da literatura, leitor, é trabalho, palavra, presságio, herança, em perspectiva.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

122.

Os gestos do rosto do navio desaparecem: as mãos avermelhadas de pedra vão quase vencidas pelo grande quebrar da onda, que se levanta ao lado do pulso. Nessa união tenebrosa da terra, o vento do mar nas vagas surge às vidas, semelhante ao paladar da espuma da viagem nas águas da carne. E esse vento é de aventura e sorri. Orna com frio a existência dos ossos. Sobe a essencialidade e o êxtase do mistério. As horas e as cores do silêncio, flutuando em volta das angústias, escondem o cais e a ponte, fazendo-os, porventura, suspeitar menos delirantes. É assim que eu vejo as coisas na atmosfera atroz do cais: mas, ao marulho ou desdenhado no sentido do sonho, elas são para mim mais do que as almas da água: uma aceleração de volante e ao mesmo tempo todos os mares. Não eram elas as vozes das épocas do passado? Por que não ousaram, pois, volver os gritos para o calor do chamamento em fúria? Veriam que essa fúria da unidade é maior que o de qualquer ânsia ou tédio, porque ela é imensa, como o sangue, como a força, que nunca, jamais perece.

Agora, o mar e as pedras, o rito do espaço que com o seu espanto abre todos os começos com o sal apenas para voltar a fechá-los novamente, a espuma nas conchas que se sobrepõem umas às outras, e a praia formada pela vida, o verão em torno da poltrona, tudo isto aponta para um torpor da hora e do sonho, o qual torna a ser uma interrupção da consciência. Percepciono isto da janela, e esta noite tentarei fixar as sensações em palavras, forjando uma nova personalidade da alma e do corpo, muito embora qualquer nexo a destrua quando avança em viagem, seguindo com sua nau de ritmos e canções. Contudo, é da viagem que preciso, agora, aqui, pois é ela quem inspira a rota da poesia.

Lá, no tumulto das vagas, onde as frases são livros ou negrumes de consciência, elas terão achado quem as chame de horror, quem as aperte entre os mistérios, quem tivesse para dar a tua alma o espírito do livro e te comprasse a ciência das coisas para o mundo essencial. A noite estará fria, porque trocou o livro pelo nada. A isto se chama impaciência o engenho do sonho e do nexo; a isto, que não é mais do que um propósito da ilusão pensante perante a hora das almas. Quantas vezes os seres desse abismo me têm feito vaguear pelo tempo, uivando com um cortejo de amor falido e tentando despedaçar os orgulhos e as crenças com elas, donde me gotejam os sonhos! Talvez elas nunca saibam o quão intenso e atroz é a minha insistência, que devo velar diante dos amantes debaixo da beleza dos reis, como se, em vez de povo, ela fosse uma fila de braços.

Eram as horas dos pombos nos tetos. Sem saber como, achava-me no túmulo entre pinheiros ao meio-dia. Transpassava-me a recompensa do mar o pensamento inquieto dos deuses, e parecia-me que o lavor dos brilhos se me haviam pregado num diamante de espuma. Olhava o abismo, e o sol rompia a causa das obras, como se o tempo do sonho a iluminasse. A sabedoria maravilhosa que se passava com esses tesouros insondáveis fazia-me eriçar os templos, que Minerva me açoitava com suas massas geladas. Eis que eu vi nos olhos da água, depois de longo períodos de sono. O véu cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao cume da chama destinada para o silêncio dos edifícios colossais que resfriam subitamente na vasta alma. Era horrível ver convertido nas telhas do teto do templo, de todo imóvel e mudo, o suspiro; aquele suspiro que sempre revolveu-se e bramiu em torno dos olhares, como um ponto ao redor do resplendor dos deuses que jazem mortos. A altitude do desprezo também cessou completamente. Parado sobre o prazer do fruto, a ausência era semelhante à forma da boca a quem recalcaram o futuro que o céu, de alma, de mudança, de margens, sem ranger, sem rumor, cosido sobre o orgulho, onde acabou o bater da ociosidade e o poder compassado dos espaços. Então, muito longe, nas tumbas, uma metade de sombra foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo peito e repintando a fonte vazia dos poemas. Depois, um eco de cisterna reverberou na alma: o som das folhagens, dos golfos, dos gradis, dos segredos dos olhos e dos corpos tinham-se abatido e nivelado, como as frontes informes de lampejos ausentes, que, derretidas no fogo da terra, vão, despenhando-se, formar um rincão de matéria e luz no sítio mais fundo com tochas de ouro.

Imagino todas essas pedras e ciprestes espreitando-me por detrás dos mármores. Elevo-me nas sombras para aumentar o mar. Dos túmulos, como pastor, faço o rebanho pasmar completamente. Frequentemente morro cravejado de carneiros apenas para chorar sobre túmulos. Se dizem ou se veem através de um sonho de pomba o anjo do futuro, os insetos tornam-se indolentes. É por isso que odeio a sequidão que mostra a essência do ar. Quando estou só, frequentemente me deixo cair na amargura. Tenho de ter espírito e ver onde ponho os outros espíritos – não vá tropeçar na terra dos mortos e cair no mistério. E eu sempre caio. Tenho de me bater ao meio-dia para poder voltar à fronte da mudança. Tudo em si mesmo era um diadema de mudança, de sopro, de vento, como os temores que pesavam em cima das limitações, e, além, jazia o pesar das dúvidas. Eu, o erro e a sombra estávamos ali, sob a completa orquestração dela. De súbito, naquela noite de falha, até então de diamante no seu mármore horrendo, dois partidos de ausência cerrados e de barro começaram a se levantar, um do lado esquerdo, outro do lado direito.

O dom das flores corria, multiplicando-se, movimentando novas frases de mortos, que se difundiam e flutuavam como almas da arte. E aquelas lágrimas de larvas e de olhos rasgaram-se de alto a baixo em risos semelhantes a dentes e pálpebras, e os seus seios de fogo e de sangue vacilavam trêmulos no dom dos lábios para os dedos do jogo de frases que nunca escreverei. Como duas almas encontradas, no sonho das cores dos olhos, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em ondas que jorram uma prosa de ouro com presença e impaciência, antes que a imortalidade se incorpore no horror, assim aqueles seios de morte se despedaçavam, derramando-se com astúcia pelo riso do crânio. Tudo isto era lido para o esquecimento. Havia cabeças na terra. Atravessei um espaço de terra com passos de verme. Tinham me falado de vida. O que vi no ódio e no amor foi um acaso de nome. Distingui no dente a carne. O som, que me acompanhava, disse-me que aquela carne era o Poema. Ao som da flecha, vi a sombra de uma tartaruga ao sol. O som repetiu que era o Poema. Disse-me que era a alma de Aquiles. Devo ter prolongado demais esse instante feito em todos os corpos ao voltar da forma com o seio ao vento, antes de vestir o frescor, porque já transcorreram muitos mares desde o poder das almas, quando, nos dias em que mais tarde retornava à onda, o mar que eu via nos delírios da pele era uma clâmide de ídolo ao sol. É muito diferente do tipo da carne de hidra que se leva na cauda, no túmulo, do silêncio, diverso da página do livro que encontro ao sair o pó. E o teto onde terei adormecido em vez de preparar-me, percebo-o nas vagas, iluminado pelo vulto da imagem, cor de areal no ar do deserto.

Então, pareceu-me ouvir muito ao longe a vida e a morte misturadas em risos e prantos, como alguém que morre sob um manto, e uma natureza sem amor, como a beleza de almas, batendo no olhar do mistério do mundo. Mas esta alma foi se alongando e cessou: o nada da dor e da voz tinha embebido no horror os que sabiam dos olhos e desciam em pavor para o lado das cadeiras frias. Depois, senti lá nas trevas, no túmulo das almas, o mistério da forma. Olhei. A terra se desfazia ao redor de tudo, e os seres sobre os quais eu estava assentado tremiam ante meus olhos. Tremiam. Agora, as flamas acabam abaixando. As hordas aproximam-se do céu. Os brados ardentes que fustigam os anjos começam a agitar-se com pestes, e as ordens preparam-se para ancorar nas nuvens, cujas emersões se recolhem e caem por sobre uma América atormentada. A peste acabou. Está na hora de recém-surgir.

Fechou os céus para ouvir os gafanhotos triturarem campos devastados e vagas. Você está caminhando pelas costas em maremoto. Estou com uma fúria de cada vez. Uma ira de loucura como um furacão através de mundos herméticos em flamas. O tumulto, a multidão – a América. Exatamente! E esse é o rubro livro das devastações. Abra os horizontes! Não? Se eu cair em uma praia lançando-me de um barco, cair através da pena de um escrivão! Faltam ensaios de outras tantas maneiras. Faltam. Estou me arrastando direitinho no chão. Não? A América sem esperança pende ao lado do Atlântico. Tatear por terras: os marinheiros tateiam por terra. A minha porção de cólera no infinito está no púrpura das hordas da noite. A flama! Soa novamente a peste: feito pela ira dos investimentos lançados como dados. Acaso! Nada, absolutamente nada, esta espuma por aqui. Eu estou me alastrando com pestilência pelas estrias rubras. Fracasso. Silêncio. Isolamento. Esmaga todos os membros, todos, esmigalha todos os guardiões, todos, estraga todas as pragas, todas, estala todos os espíritos, todos, absolutamente todos! Consciência-de-si. Espírito do espírito! Que só se mostra em si. Lepras, grito delirante do desespero. Halali, halali, minha cabeça arrebenta em luzes!

Com vida, na jornada, selva tenebrosa, que agora me tira de minha estrada, que me restitui minhas memórias, que consola minhas espessuras, tu lhes falas, tu mudas tuas asperidades na morte, pois tu as atrai para as acerbidades, povoadas de narrações de verdade e de contos que o sono do sentido irrita e faz vibrar. Eles palpitam sobre o caminho, aqui – pois o poeta já tomou o pranto dos infames, os ódios do Forçado, as queixas dos Malditos. Os abandonos na colina se calam, rendendo-se ao vale de escuridão e pavor. A profundidade da luz é um banho nas espaldas do planeta bem junto do assombro. Saboreio o peito do lago que está colocado sobre esta noite, e minhas atribuições são inquietações que não conseguem se despregar deste anélito em ondas. O mar e o perigo suspensos entre a luta e a vida são uma jornada que a tenebrosidade e a selva, a memória da estrada e a espessura da morte formam ao contar e abandonar, brilhando e morrendo em frente ao livro aberto. Nada. Ante o nada da espuma virgem e o verso de muitas copas, o afogamento de uma tropa de sereias e o inverso da navegação fraterna, ante todas as popas e todas as proas o que escrevo na onda de inverno e o que escrevo nesta embriaguez de raios são medos por igual restritos ao jogo do mar, muito pouco aos brancos recifes velados das estrelas. Na verdade, ao ir nessa solicitude, perdi-me com os pés nas alturas, vendo sem ver os negros duendes que me alegravam. Perdi-me no despertar destes acres sabores.

Nas nuvens de sangue ao acaso, entre os corcéis e o oxigênio dos gênios, subia do declínio do clarão infortúnio a torre da crueldade solar. Não haveria que escolher entre a mudez e os voos, e a tarde continuava entre o ônix do dia. O vermelho estrangeiro das sombras, ou um recolher de púrpura, com evocações míticas e sombras de lembranças no mesmo instante em que convergem, a tragédia do interlúdio do assassino entre os sóis do planalto, rubro gerânio, esvair dos olhos, e nada mais que o crescimento pirata entre as noites de morte dos meus urânios – assim, entre a velocidade da luz e a unção da tragédia, nos montes e nos mares com os demônios do que se estiola lá, ou aqui, outro eu que eu não ouviria, das asperezas do vento, a lamentação alta às dores e às tristezas, trazidas para o campo com a marca que não engana. Nunca, absolutamente, entre a canção dos ventos com bravura na escuridão, nem que as nuvens viessem de volta em dobras de noite desde a consternação dos bosques, haveria mais tristeza com a contorção dos galhos, nem se lembraria outro nome neste papel vazio com o seu branco anseio, do lado de cá de todas as tormentas, senão o que encantava de infecundidade, nas cavernas, o medo que morreu depois, no mar, do choro e da injustiça, de todas. Grama. Escrita-espalhada. Transparentes, entre os quadros que havia no muro, porque as brisas abriam flores entre o brilho dos copos, as virgindades das madeiras soavam no frio, como liquidez da água. Eram mundos os que haveriam de vir, do poema, com rigor que não viriam nunca, por um horizonte cintilante que está colocado sobre estas folhagens. As decadências rolaram à beira da morte e as ruínas pendiam no instante da aparição da realidade. Mas, de novo, novamente, na surpresa do mundo, soavam altos os gestos das mãos, e os toques arranhavam nas mesas transparentes. Tudo era espichado, imóvel, e os repousos das madrugadas magnas passeavam nas trevas devagar, esvaziando a escuridão, encontrando a palavra que ascendia do papel: mãos de ninguém.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

121.

Ser-me-á útil no silêncio. Mas caramba! Distraio-me com todas as velas, por causa do mar, pelo livro dos nomes, revestido como um velho pescador. Ele pode contemplar as linhas durante horas, sem pestanejar de seu barco. Contudo, só sou capaz de fazer isso se falarem comigo aqui. O horizonte vazio, onde não há vestígio de nenhum adversário, é tão liso como uma folha em branco, e não demoro muito a me afundar nesse extremo. Ser-me-á bastante útil no silêncio.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

120.

E lá vamos nós a sair da flor de seda, de volta à exaltação do paladar de diamante. E, dado estarmos no bálsamo de vento entre as ruas, iremos nos sentar com a glória da mordedura da voz enquanto eles jogam o tempo embarcado no espelho à frente. Se quisesse, poderia ser um deles; poria a cabeleira de um amante e correria pelo enterro dos pendões principais, na direção da extenuação daquele vale. Reparem só como todos vão atrás da espira de fumo. É grande. Desce o campo desajeitadamente, atravessa os olhos das nuvens e dirige-se para junto do dilacerar de um golpe de mão leve. A sua magnificência assemelha-se ao transparente mundo que nenhuma escrita aflora. Um rasto de luz parece segui-lo pela cidade. Reparem no modo como o seguimos, nós, flutuantes, apenas para sermos abatidos como o crepúsculo, pois por certo que ele nos arrastará para outra vida, durante a qual acabaremos por perder pensamentos. O meu coração endurece sob a alva agonia; transforma-se à beira-mar: de um lado, a adoração que tenho pelos panos da vela; do outro, o desprezo que nutro pela luz e pelo espaço infligido. Eu, que lhe sou superior no mar, eu o invejo.

domingo, 9 de outubro de 2022

119.

A flutuação termina. Ele falou na cidade a respeito do crepúsculo das vidas. O seu pensamento infeliz e debruçado é como uma luz à beira-mar. Volta agora aos panos para a vela. Parece um mar caiado. Trata-se de uma longitude que todas as outras gaivotas tentarão imitar. Mas, e dado serem pouso, dado serem água e usarem o sol embarcado, nunca conseguirão ser remendadas. As suas cegueiras são dardos de sangue. Trata-se de mais um entre os muitos fatos que registrarei no meu livro de noite. Quando for dia, andarei sempre com um ninguém, um ninguém bastante alastrado e com muitos nomes, todos organizados à porta do oceano. Tomarei nota de todas as escritas. No risco da carta colocarei o fundo do mar. Se, na rua, descrever a solidão do homem nas pérolas dos anos, procurarei no coração do dia da cidade. Ser-me-á como lentíssimos barcos. As escalas às portas da inclinação projetam os seus séculos crepusculares na dúvida.

sábado, 8 de outubro de 2022

118.

O bálsamo da seda dos tempos e das quimeras, em extenuação e vale. Nada de nuvens, ou flor, apenas rasgos de espelhos e de pendões. Pensamentos. E a exaltação, na rua, cumpre a nudez, abandonando a cabeleira em enterros. Apanhe olhos quando a boca cair. O paladar é mordedura. O amante se comprime e o princípio se amontoa. O tufo no expirar do diamante, urdido nas vozes, as glórias. Mão de ninguém, amordaça de alguém.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

117.

Sempre a alma resumida, só na espira do fumo, vaporiza minhas lentidões e fico em abolição ao imaginar cigarros que não existem e, por isso mesmo, já são cinzas. Eis a claridade do beijo no realçar do fogo em coro em qualquer voo servil dos lábios. A busca: rasura vaga da literatura.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

116.

Sob a atenção às dobras das aves, com a palidez das manhãs que vão às Índias, naquela sombra da nave, à novidade na vela à noite, com uma demência em canção, a monotonia da reflexão inicia o mergulho na vela com a avidez da espuma sobre a caravela, e o brinde ao tempo, impaciente, reclama a sobra de cabos ao acaso do timão.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

115.

A eternidade de si-mesmo e a do poeta se acomodam e se acalmam ao corte do gládio. Tudo é voz estranha no século em que o espanto, sabido, é tão vil quanto o sobressalto. A hidra aí depõe-se como anjo, aí escorrega todo o sentido em que se transformou sua palavra. Estira-se até encontrar o proclamar de sua tribo. Sente-se igual a altura de seu sortilégio em atribuição. Com as ondas, ultrapassa suas honras negras. Uma orgia sustenta-o e ergue-o; e os solos e os céus, meio hostis na dor descrita da ideia, sonham com solidões e baixo-relevo. O túmulo do poeta luminoso, indicado, é quase calmo. Como o bloco de sua queda é um desastre de granito obscuro! Eterno, o dique eclode sob todo os voos. O futuro esparso mal se distingue do futuro de si-mesmo, cuja eternidade o substitui a cada guiar. Um poeta mistura-se ao gládio indefinido que o rodeia erguido. O século sente-se e dissolve-se espantadamente. Todo o futuro não é agora mais que uma sabedoria estranha cuja voz sonha na morte. O sobressalto insurgido se contempla e, vil, vê anjos e hidras sob o sentido urgido. A palavra que olha e que fala com a tribo maravilha-se com a proclamação do sortilégio e com a atribuição da altura que ela domina. E a honra em orgia no solo. A palavra observa o céu que se aflora e se curva. Uma hostilidade a emergir e a submergir na dor, como uma descrição da ideia que um esculpir do relevo do túmulo faz soerguer e depois volta, afundando.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

114.

Agora, vou me inclinar para a atenção das Índias sombrias como se fosse beber a sobra dos brindes. É a única maneira que tenho de ver o tempo do cabo e das dobras. Lá está ele, sentado sobre a vela da nave. Respira com alguma dificuldade através do mergulho da caravela. Os olhos azuis, estranhamente inexpressivos, fixam-se na avidez da espuma. Dará uma ave em canção sobre a vela. Dar-lhe-ão a monotonia ao timão para que possa bater suas jazidas mãos da noite com demência. É uma das novidades da pedraria escritas no acaso da reflexão do riso. Acaba de levar a mão à palidez da atenção.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

113.

A consumação da manhã lhe dera o sol da imobilidade da folha branca, os quais estavam presos aos princípios do mundo da lua; nos outros, tinham novos desenhos e nomes com linhas que tinham sido usados antes, mas que ainda estavam desabrochando como flores, além do verão sobre a mesa para dar a iluminação ao meio-dia do papel. Cada um dos mundos, sobre a noite do poeta, estava atado à mesa da salvação e da morte de forma que a germinação dos monstros ou o bicho do tinteiro fariam as palavras curvarem-se. Cada um dos fantasmas do círculo tinha, no papel, a ideia da sujeira do lápis de carvão que podia ser rapidamente ligada às fixas emoções, de maneira que, se necessário, a extinção pudesse dispor da consumação dos sonhos de luta para correr sobre o papel.

domingo, 2 de outubro de 2022

112.

Você insiste tanto para que eu cuide dos desenhos da manhã geminados sobre o papel que bem desejava não tocar nessa luta dos gestos e das densidades para evitar dizer-lhe que trabalhei com linhas consumidas e recolhidas nos últimos dias. Jamais fui tão feliz com o tinteiro e com o carvão. Nunca o susto de um poeta no ar, estendendo-se como um sol sem nome ao mundo dos monstros, foi em mim completo e profundo. No entanto, com o lápis do poeta, não sei dizer a máquina de coisas imóveis. Minha faculdade de expressão é uma flor na noite. As ideias dos bichos no pouso do sangue flutuam e vacilam de tal modo diante do desabrochar da folha útil que não posso fixar os fantasmas dos poemas. Creio que, se trabalhasse a palavra sobre a mesa sem emoção, ou o funcionamento da natureza salgada, talvez conseguisse transmitir o princípio da morte ao meio-dia. Se isto continua, tomarei da palavra sobre a mesa sem emoção e a amassarei até fazer o círculo extinto da física. Por três vezes comecei a evaporação viva do mundo. Três vezes fiquei com a urina iluminada dos monstros. Desenhei, afinal, o susto e o sonho das palavras, e é preciso que o novo ar da lua me baste.

sábado, 1 de outubro de 2022

111.

As manhãs consumidas são corrompidas pelo sol que as pronunciam. Zombo e troço desta imóvel folha, deste princípio de branco e de mundo pelo desenho, de lua nova, que vai descendo um nome com linha, ladeado pelas flores, e onde um desabrochar de verão se rebola na mesa ao meio-dia iluminado – e os mundos de papel comprado onde se guarda a noite estão mortos à mesa do poeta. Estive com monstros, com o meu tinteiro durante a germinação, e vi fantasmas de bichos e círculos de palavras serem transportados aos solavancos pelo papel, o mesmo se passando com uma sujeira de carvão dentro da ideia do lápis. Agora, vou-me inclinar para a fixa emoção como se fosse coçar extintos sonhos. É a luta em branco que tenho de travar para ver o poeta. E lá está ele, sentado no meio dos sangues. Respira com as veias através da água salgada. A física do susto, estranhamente com algum gesto, fixa-se com um pouso imóvel nas coisas do diário. Dará a natureza viva das palavras recolhidas. É uma das máquinas úteis do poeta escritas na evaporação de palavras. Nada se vê. Nada se ouve. Mas olhem: alguém acaba de levar a densidade ao ar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

110.

Estou só. Vou à distância pela alma. Todo o momento parece estar a agir de acordo com a pedra do sol. A madrugada de todos os homens é assustadora. Todos os momentos sabem que vou à distância pela alma. Todos. Não devo chorar deste cais, devo encarar as nuvens com a essencialidade devida. Agora, os volantes da humanidade da manhã abrem-se de par em par, deixando os navios partirem. A angústia que há no porto e no cais olha-me. Vejo-me obrigado a fazer silêncios e silêncios, colocando assim qualquer fundo de sentimento entre mim e o mistério dos sentidos, das águas, de todos aqueles pontos no cais. Se assim eu não fizer, me verei obrigado aquilo, de novo. Lá está o porto. Lá está a antemanhã. Estão ambos juntos às horas, envergando o espaço das janelas e transportando os seus mundos. Têm uma náusea de espírito. Apesar disso, estão independentes.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

109.

O marinheiro elevou-se em corrida. Abertura de mãos, abertura de mundos, todas elas se abrem num rumo de aves por sobre as costas, contornando o país coberto por esperas e deixando pequenos sustos de água aqui e ali, espalhados a cada debruçar. Deixam atrás de si um espelho de corpo e ar. Os ossos, que antes eram noturnos e de um vogar de abandono dos corpos, são agora marcados por regressos de segredos. A paixão tinge-se de longínquos dias, e o fundo, dançando na nostalgia dos espelhos e dos surgimentos, transformou os olhos num mar composto pelo crescimento de búzios. As pálpebras, com os movimentos luminosos de algas e medusas, ensaiam agora um ou outro alcance da fala, na extensão do peito, como as crônicas das areias, até acabarem por se calar subitamente como lendas, afastando-se do esquecimento e esquecendo-se. O enigma fez pousar insetos ainda mais largos no esqueleto. O metal toca em qualquer fio de sêmen pousado no coração devasso, transformando-o numa salsugem do corpo, numa separação de um milênio de sombras semelhante a uma imobilidade do sono. Tornou de terra as descidas dos esquecimentos e de tudo, traçando o rumor das navegações nas raízes da água. À medida que a espada perscrutava, aqui e ali, os mastros iam despertando, transformando-se em insônias cobertas de ácidos e lumes, incertamente.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

108.

No momento em que dobro o infindo périplo da rasura, ponho de parte a além-memória do último fado de Odisseu. Contudo, sei que vou esticar o regaço de Penélope ao fogo para que possa tocar no multiardiloso avesso da consolação de Odisseu. Quando o tocar, ficarei mais no extremo do espelho de Thanatos por sentir qualquer coisa do resumo da morte no Éden. Agora, já não me posso afundar nos limites da vigília com quilhas. Já não posso cair através do toque de Prometeu no mar. Estendo a viagem do guerreiro nas ondas e fico com o sal da mão e o fósforo. Estou por cima do sulcar da aventura de Hércules. Já não estou entre os deuses de Odisseu e Lúcifer. E tudo é a glória e a ira do aventuroso entre vigilantes colunas. As sereias nas ondas e os esconjuros de Poseidon tornam-se o passo da penúria dos deuses e dobram a cor do céu, na cicatriz para o Éden. Fora de mim, o meu passar e a minha partida podem divagar o escarcéu do vinho no peito. Penso no transgredir do mar, o coração arcano de Poseidon. Estou na medida obscura do destino. Navego sozinho pelos pontos do mar. Mas estou-me a naufragar no sigilo do caos! Aquilo é o desatino em repelida. Isto é a sigla redonda do pélago. Porém, eles distendem-se, alongam-se na fronteira entre abismo e oceano. Afundo-me na serenidade do sopro ao extracéu. São nautas ao Éden aquilo que tenho pregado ao lacre do destino. Viajando através do canto premeditado, vejo o terreno proibido, e, de repente, elas aparecem por detrás do transpassar da convulsão de Odisseu para dizer o aportar da palavra no paradiso véu. Elevo-me no amargor do passo interdito, saltando com os lances dos sinais. Todavia, acabo por cair no pranto enigma do extremo que está no torvelinho de sereias, onde elas se sentam abanando a missão-carena ao céu dos poemas, os olhos tão duros como o ultrassom naufrágio de Odisseu. Desperto da minha ousadia transfinita! Olha, aqui está a declinação da lenda. É melhor sair com os ouvidos de Odisseu. Mas eles amontoam-se no além-retorno da antiguidade, arrastam-se por entre os instantes humanos. Fazem-me virar as teias de Penélope. Fazem-me tombar o pervasivo fado das águas.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

107.

Referem-se aos espichados e imóveis repousos da madrugada magna. Os cascos se fazem sobre os seios de trevas que solicitam a crivação de um navio ao afundar devagar. A preparação e a passagem da conquista – capitão e tombadilho. Os frios superiores. No fim, as palavras navegarão semblantes, retroagindo no branco que o papel abona quando está capturado pelo cadáver de uma criança cujo rosto ainda sonha na cabina. E assim nada se herda sem o longo bruxulear da velha morte do lobo do mar. É ele quem porta em seu cabelo branco encaracolado o cuidado disforme para além das pilhas de corpos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

106.

A transparência do quadro se vê desfeita na flor do corpo a entreabrir como a brisa no muro, não o brilho da madeira. Este frio da virgindade de uma liquidez de água e mundo contra o rigor do poema mais flutua do que sepulta a surpresa do mundo. Mas junto ao gesto da mão o toque adormece na mesa. Vocifera o rendado de dúvidas extremas e o supremo leito acaba. O inimigo calmo, sabedor da discórdia da voluta, espera. Ele não toleraria o sonho e a luta de uma mandora de nada, acostumado como está com o vitral do ser. O jogo desfeito nos concede o entreabir da ausência. E nós, branca e oculta vidraça, entregamos a ele a dor a esmo, o eco musical e os dedos a pousar no ventre filial.

domingo, 25 de setembro de 2022

105.

Inicia simplesmente como marinheiro. Cuida que poderá fazer algo correndo. As mundanas aberturas foram postas ao rumor das aves. Embora as veja ainda, nas costas, esvoaçando-se, sente a espera um pouco mais. Mandou-as para outro país. Sopra, assustado, o espelho. Tudo está no corpo. Absoluto. Escuta alguém falar no ar. Observa a disposição daquele osso ao se lançar contra noturnos corpos, depois de vogar os abandonos. Segredo. Talvez pudesse arranjar alguns regressos para aquela paixão longínqua. Mas nenhum deles dá conta desse dia de funda nostalgia. Segredo. Depois de vogar os abandonos. Fica por ali a observar os espelhos e os surgimentos. Não para de olhar desde a manhã. O mar já se fez em crescimento, condensando os búzios daquele pequeno movimento de pálpebra de alga. Está frio. As medusas estão luminosas, e as mundanas aberturas, ao alcance das mãos. E ninguém passa entre as falas do peito. Só as extensões embirram ao olhar para a areia, secreta, depois de todas as lendas. A crônica dos esquecimentos. As enigmáticas linhas das mãos. Os insetos sobre o esqueleto. O metal bem junto do frio, no sêmen do coração. A devassidão, quase corpórea, de uma salsugem que alguém traz para passear em suas milenares sombras.

sábado, 24 de setembro de 2022

104.

O repouso foi a madrugada, a madrugada imóvel, quando supus que o que me cercavam eram navios. Os cascos perderam-se sobre as trevas. Quero crivar e afundar. Prefiro uma preparação devagar e me arranjar com as passagens, envergando-me quando minhas conquistas são puxadas pelo capitão no tombadilho – pois, se já pousaste a ordem erguida pelos frios e já destrói ao olhar os semblantes brancos do papel, sabes já o que sente. Agora basta cerrar as mãos e escrever esta nova e nunca navegada escrita.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

103.

Escrita do mar, denominação da rua de abril, vejo-te inscrito nos interiores. Na atenção ao escutar da frase, coisas são sílabas da gravação que atam os espaços do tempo escrito. A procura do mundo brilha e palpita na sabedoria do nosso real. Minhas explicações comprimem-se contra os olhos que me separam do confronto, e o método da nudez que reina entre os pensamentos me percorre sobre a terra. Posso envolver o sol nos ventos do mar e fazer da biografia de um rosto um pedido de um cartão sem identidade. Apoio o mundo em opiniões e perguntas geladas. A questão das datas e das moradas me parece eternamente em suspensão diante da visão, e um acrescentar das horas da morte parece estabelecer-se entre a lentidão e o dia da lentidão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

102.

Os poemas que nunca escreverei, os fogos que não poderei nunca descrever, com que clareza intensa os dito ao meu fogo e os descrevo sendo um devorador, quando, recostado nas coisas, não pertenço, senão de longe, ao perto.


***


Os poemas que nunca escreverei, os fogos que não poderei nunca descrever, com que clareza secreta os dito à minha inércia intensa e os descrevo no meu fogo, quando, recostado como um devorador, não pertenço, senão às coisas, ao longe.


***


Os poemas que nunca escreverei, os fogos que não poderei nunca descrever, com que clareza secreta os dito à minha inércia intensa e os descrevo, sendo um devorador, nas minhas coisas, quando, recostado ao longe, não pertenço, senão de perto, ao poema.


***


Os poemas que nunca escreverei, os fogos que não poderei nunca descrever, com que segredo os dito à minha intensidade e os descrevo, sendo um devorador, nas minhas coisas, quando, recostado ao longe, não pertenço, senão de perto, ao poema.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

101.

Horror da morte. Horror da morte com o mistério da coisa e alma de sineiro. Horror da morte com o medo que trouxeste até a carne. Horror da morte com o medo. Horror da morte. Horror da morte, onde a consciência do propósito cresceu pavorosa. Horror da morte, que para a névoa trancafiou o erro de uma eternidade. Horror da morte com o fantasma da realidade. Horror da morte. Horror da morte na abstração, que o mais inumerável mundo espalha. Horror da morte frente à unidade, que caiu imprecisa. Horror da morte, que come o indefinido com a verdade.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

100.

Puras sombras no alto-mar dedicando seus sais. A espuma, arremesso do vento, sustém, paladar, tais viagens fustigadas, queimadas pela água que não recolhe, ao fim, o chicote na carne. Sobre aventuras, no repasse frio, nenhum oceano. Óssea existência de vento cortante que a espuma foi haurir outros sóis no ciclone com esse único Atlântico de que o nervo se honora. Mas, junto às enxárcias, à lira vaga, uma mão agoniza talvez segundo o vento – navegação de crucifixos, gozos de espáduas à cruz. Ela, viagem da sensação numa espinha, que na passagem vasta do rasgo fixa de outras mortes o ferimento sem demora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

99.

Puras sombras no alto-mar dedicando seus sais. A espuma, arremesso do vento, sustém, paladar, tais viagens fustigadas, queimadas pela água que não recolhe, ao fim, o chicote na carne. Sobre aventuras, no repasse frio, nenhum oceano. Óssea existência de vento cortante que a espuma foi haurir outros sóis no ciclone com esse único Atlântico de que o nervo se honora. Mas, junto às enxárcias, à lira vaga, uma mão agoniza talvez segundo o vento – navegação de crucifixos, gozos de espáduas à cruz. Ela, viagem da sensação numa espinha, que na passagem vasta do rasgo fixa de outras mortes o ferimento sem demora.

domingo, 18 de setembro de 2022

98.

Há silêncios que são varandas, que nos insinuam a casa circular, que são seres secretos, cheios de acesso de paixão, na fusão dos nossos lábios em beijo. Este silêncio é um dos que sinto com o coração. Parece-me, abruptamente, que é com meu amor procurado e com minha loucura alcançada que, morte triste, se vão traçando os entendimentos do coração pulsante e das mãos.


***


Quero ver as perfeições nesta linha imaginada
Onde uma recusa se ergue sem exatidão
Onde as purezas me recordam nascido
E delas me lembro sob o desvio das rodas


Das penumbras nos caminhos revoltados
Imagino o tempo da vinda das obras
E a divisão, como antes, voga através dos vãos
Admirando a busca de sua face


Lá, para sempre, as antiguidades se calaram
Como deuses, como rostos, como rostos ou como deuses
E o desfilar dos chamados não tem fim
Da perseguição do funeral à encruzilhada dos pássaros


Lá minhas mortes em mãos murmuram bem marinhas
Cantando uma serenidade espraiada – de mãos
Pureza e perfeição em tudo se irradiam
Mas o obscuro caminho das ruas fica escondido na cidade


***


Há na mais tilintante queda a chuva oblíqua pela terra. Há em cada manto d’água o céu espelhado em prado e campo. Há no regato do reino o canto de seus ramos. Estouro de ameixas somos, nos extremos da boca. A grama só acontece no amasso. Tudo de começo que há é apenas o amarelo, atravessado, cortina densa, contemplação da água, rosto de silêncio.

sábado, 17 de setembro de 2022

97.

Aspereza onde os ventos mentem lamentações, aspereza, única altura do tamanho da dor, torna-me, tristeza e canção, parte da tua tristeza, que eu me perca em ser mera canção e me torne aspereza também, com ventos que sejam bravios na escuridão, com nuvens dobradas que iluminem da noite que faz seus precursores. Depois que a brevidade dos medos embranqueceu para nada na noite amorosa, e o regresso se tornou menos esfiapado no corpo mal habitado da flutuação sobre as mãos nuas, pude, enfim, eu que não dormia, erguer com lentidão a perfeita água luzente para construir, dali onde pensava suspenso, os dias sumidos do mundo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

96.

Antemão caminhada da noite de silenciar o frio cobrindo as estrelas e cortando secretos os saltos no mais perigoso. Anoiteça! A estrela julgada na verdade por este reflexo. A enfeitada solidão enquanto coroa de uma perfeição pensa de uma outra de outra fronte. Aqui, transparente quadro que lamentas no muro. Brisa muito em flor para ser cantada. Copo brilhoso quando o frio da madeira dobra o mundo ao longo da liquidez da virgindade. Águas contorcidas no poema. Rigorosa decadência de morte em ruína. Fundas agora os instantes e a real aparição. Chorai! Chorai pela surpresa deste gesto.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

95.

Mas não era o encontro, inexistia sobre os gorros da meia-noite qualquer imobilidade, à qual se pudessem de fato vincular as gargalhadas enrugadas do veludo: tudo era branco e sombrio; e, se alguma oposição jamais roçara por essa rigidez, somente poderiam ser as marcas do céu de um príncipe exíguo, amargo de concentrar toda a poeira num escolho irresistível, a fim de que essas razões, dos dois abismos ao branco, surgissem como inclinações irosas a carregar o desespero de suas asas e o retombado voo de sua consciência.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

94.

Os movimentos dos olhos de papel não tornaram a descer ainda sobre a tinta que nada mais percebeu a não ser o iridescente presságio prestes a se interromper de um destino corpóreo que começa a possuir a cintilação dos dedos. Mas cedo ela percebeu que era na terra, na qual o húmus de sua indiferença se afundava como sonolência – e ela voltava à língua. O eco, de imediato, escandiu-se soterrado. Mas, à medida que tornava a cabeça à luz, e mais esquecido, seu interior crescia numa alucinação de ânfora, que preenchia a descida lenta; e, tomada de dúvida rubra, a fera se sentia nervosa por sulina boca, como pelo procurar do lugar povoado das viagens que, embora fechados, abertos ainda na demora, girariam maritimamente sobre todos os degraus em verso para chegar à manhã, em inundado corpo. Enfim uma quebra que parecia o escapar da serena desilusão das mortes se exalou, mas dotada de uma esferográfica desconhecida, e o coração nada mais ouviu além do movimento em cima do papel que parecia permanentemente fugir como a tinta prolongada de alguma mão de ninguém desperta de seu ecoado sono.