quinta-feira, 27 de outubro de 2022

137.

A ruína da morte e a ruína da ilusão estão ambas na ruína do sonho e a ruína do sonho contida na ruína da ilusão. Se toda ruína é forçosamente exaltação, toda ruína é ruína das mãos. O que poderia ter sido é uma sombra que permanece, silenciosos ombros, num êxtase apenas de escombro. Tudo converge para um só fim, que é sempre morte. Ecoam noites nas mãos ao longo dos mantos que não percorremos em direção às poeiras que nunca abrimos para os seres. Assim ecoam no firmamento, em teus cabelos. Mas com que fim as mãos perturbam a voz sobre o mar de estrelas? Outras coroas, como pesadelos, aninham-se nas trevas. Entre as folhagens, procurando-as, procurando-as na luz das paisagens. Pelas coisas da mão aberta ao dia da morte, aceitaremos a luz dos olhos. Em nossa voz cega. Lá estavam os gestos imaginados e exaltados, movendo-se solares sob as mãos do mundo, na balança dos ombros, através da palidez da lua, e o marinheiro cantou, na praia, com a obscura mão imersa na piedade. E um perdido caminho triunfante as mãos trespassaram, porque os infinitos, nas coisas das mãos, recordavam dias. Lá estavam elas, como nas mortes, acolhidas e acolhedoras de sensações. Assim caminhamos, possessão a possessão, em impulsionada promessa, aos ombros da espera e da tarde, rumo à ausência do rosto, para mergulhar as mãos nas estátuas dos deuses. Estátuas dos deuses. Invasores das estátuas, cidades em ruínas, e os deuses inundados pelo tempo da morte verdadeira, e as vitórias se erguiam, sombrias, sombrias. As mãos flamejaram nos abrigos do perigo. E todos atrás de todos, nas janelas e nos corredores de palavras. Vai, disse o rosto, porque as mãos estão repletas de jogos, em conversas entardecidas, a reprimir a luz. O rosto dos homens não pode suportar tantos pesadelos. A ruína do sonho e a ruína da ilusão convergem para um só fim, que é sempre a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário