segunda-feira, 11 de maio de 2026

Noite nanquim — 71

    Mortal urânio acelerando borboletas. Dia imortal preparando-se para o voo dos cíclames. Uma dança-espada escrevendo ilusões e delírios. A lâmina cursiva em lua, entre dragões, vara de bambu e lianas, passa ignorando. São penas, plumas e canetas a cada instante. O holograma irradia continuamente as palavras (radiação de holograma estável), como se fosse a cristalização do tempo (como uma pessoa que viaja no tempo). Viga fixa. Feixes de sombra. Vaga o branco na vaga, delineando pelas estradas as beiras de alguém, logrando nas páginas brancas os nós de outras entradas. O sujeito escolta insubjetivo o nunca que por ali há.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Noite nanquim — 70

    Sobe, palavra a palavra, o gemido ilegível que há nas bocas da noite. O silêncio deita sua ardente concentração. É a hora — lendo e lendo —, o levante, o despertar que estremece aquele que tem algo a dizer. Orelha, boca, testemunho – tudo aqui. A água profunda está tão calma – fluxo do nada. As águas das coisas-reais, das coisas-espirituais, das almas em pedra-entidades são tão transparentes quanto o ponto traçado do corpo ao infinito. Nada turva. Enquanto as almas despontadas mal se oferecem ao firmamento, o navio ao vento sonha rumo às manhãs. Navegação celeste. Sonho tudo isso da abóbada astronômica. Sistema horizontal escorrendo disforme as sensações. Graus – Zênite e Nadir. A poesia é a guerra de Troia continuada. Aqui todos os mortos ressuscitam com os rastros que crescem de outra boca sobre a noite do verão.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Noite nanquim — 69

    Existe um número imenso de horrores. Moinhos giram dispersamente. A visão permite o pensamento: pulsação de vozes. Enquanto as misérias elevadas sobre os barcos navegam nas brumas, à deriva, sem esperança de porto, os desequilibrados beijam os lábios do abismo. A voz no seio da noite sem medida – nas muitas horas em que a fito. Desperto. Ergo-me. Sigo – um passo na imensa profundeza. As viagens no último limite propõem a hybris de Odisseu. Interceptado, o ponto imaginário jogado nos ombros. Abro a esfera celeste. Ela, desastre, sistema Órion em ascensão: a trajetória ao redor do observador culminará na hora – os vazios em queda na mente. Decifro o eixo vertical.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Noite nanquim — 68

    Fole de poesias rupestres. O realismo com inscrições do não. A poesia cósmica no pulmão. Raios à beira-fôlego na última acupuntura da língua. Orbito com os corvos da morte sobre os portões do mundo, bruxuleando corpos manchados de palavras. Que encontro de olhares selará nossos lampejos? Esta voz! Há em mim. Encontro-me no ato desconhecido. Lema de horror inconcebível e imperceptível. As trocas entre esse céu semeado de vozes. O pensamento, as mãos e os restos do abismo. Possa eu, dessas manchas vivas, dessas marcas de gestos que estão sobre meus braços em abandono, dessas loucuras que subsistem nas inércias obscuras da minha mão, nos meus olhos, e desses vigores que renascem nos meus poros, possa eu, nas curvas desses rodeios, dessas falas tão chãs e mal apaziguadas, fazer algo tão estrangeiro e tão reflexivo ao movimento leve dessas luzes separadas.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Noite nanquim — 67

    Os dados lançados sobre as tábuas ainda rolam na face do tempo – digo, talvez não querendo dizer. Nada mais admirável. Qual a ideia mais digna do homem? Envolvo aquilo que ignoro na construção dos medos. Faço do desconhecido a peça da vida. Fronte apoiada na escuridão, sobre a fronte do mistério. Essa questão parece suspensa diante da queda. Há voz nesse vazio. Uma espécie de equilíbrio parece estabelecer-se entre espíritos.