O último minuto. O derradeiro instante de um ciclo que se desmancha sem indícios, a primeira respiração de outro que se levanta sem rosto. Ergo os olhos e nada responde. O alto é um mistério sem anúncios, um abismo onde o olhar se perde e não retorna. O precipício não reflete, não se dobra ao humano desejo dos signos. O silêncio mineral escorre da espinha celeste — esse espectro translúcido de estrelas mortas que se impõe acima, sem cissuras. O tempo, se há, não se escreve no céu nem na terra, onde os passos deslizam sem deixar sulcos. Nasce dentro o tempo onde pulsa o não nomeado. Ele não se grava nos astros, que nada sabem de começos. Não se inscreve na matéria, que só repete. Fermenta na carne de quem delira, de quem erige calendários sobre o vácuo e declara ao universo indiferente: agora. Só o homem é capaz de fabricar auroras sem que o sol precise consentir e de arremessá-las contra o nada, esperando resposta.
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Do mar — 32
O Lobo do Mar contempla a distância. É a entrada. Na saída, os excessos, ainda imaginados. Escoam as linhas. Treme. A praia deserta. A voz. Os rubros momentos de suposição. O quebrar das ondas, a fechar antes as espumas. Tranca o canto. Embala longe o tormento. Coléricas, as aparições precipitaram-se. Logo a ânsia alastra-se à noite de fome. Os passos cadentes. Nos jardins, pálidos, intactos apelos. No recôndito fundo do mar, tomado o navio, esconde-te, Igitur. Um silêncio carnoso o cobre e o alastra em ondas.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Do mar — 31
Com quilha, risca o caminho teu salto – paraíso de náufragos. Degustas teu diamante. Está na hora de saber quem puxa as cordas. Cegos gestos mais violentos. Remunerar a cor em piedoso consolo. Ondulas tu. Ondulas por último. Rumorejas. Tua surdez. Fostes à ilha. Havia esperança. Confrangadas comoções cacimbas. Não ajudas a construí-las? Tu, sereno, carrega. O fingimento que lá dentro cabe. Filas sobre nadas. Nada. As dissolvidas trevas tão próximas.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Do mar — 30
Sim, o navio, o velho navio. Velas do passado. Mares e horizontes. A alma abrevia. Nada se sustenta, respira. Tuas coisas não serão suficientes. Pelo mar, eleito ao céu, naufrágio. Os ventos da distância. Treme o volante. A boca anuncia. Manhã das faces salgadas. Urra o vento. O calor brinca nas vagas. Asas. Desta voz nada resta. Água posta. Gáveas e galdropes. Os brinquedos, escotilhas e caldeiras. Desta hora não encerras ido. Turva-se a significação de pedra. Cascos de navios, sob os cabos, ao longe, as paisagens. A distância morta. Galga os nervos. Tordos! Nem a morte a iluminar estes olhos vazios. Desliza a espada. Soçobra na tempestade. O suspiro nu. Rei de braços. Filas de nada ante a alegria. Palpita a frase. Espesso horror. Tu sombreias as verdades. Tu sombreias!
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
Do mar — 29
Ele ainda não se manifestou no ar sacudido; mas é ainda a íntima, recôndita e maldita essência duma essencialidade de mistério, que se faz presente como um bicho representativo de todos os gestos, cindido, na consciência das sensações, o objeto inerte e sentiente da omnívora crueldade. Roçagar pela face a alma, como deveria, esvazia, na vertigem tênue de confusas coisas – como se a transmigração total fosse o único estrondo das portinholas do navio. Sopro fundo e confuso. Tudo está excessivamente chispante. A capa no frio que impôs a urgência de esperar.
Com efeito, nessa sublime e desassossegada tessitura da orquestração da tinta da navegação, quais rotas seguir se não há mais após encenado por nenhuma delas? O horror à extensão das linhas. Na roda do leme? Riscar pela face a alma, o riscar instável e errante do espelho? Enfim, não é o sangue macio.
A linha reta mal traçada, conservando a raiva, a ira e a inveja ao giro vivo do volante. O horizonte marítimo. A vida vai, paradoxalmente, para longe do proibido, transmigrando.
O mar passado, clássico à sua maneira. O gesto oscilante se precipitando em descoberta pesada, densa, à espera da realização messiânica. E ele ali, como que coagido pelo suplício, sutilmente presente. À luz baça do cais deserto. O horizonte desaparece e vai se velar nas velas.
No grande vácuo pequenino que brilha, de existência limitadíssima, há espírito de bruxa dançando invisível em volta dos gestos. Os paquetes que entram de manhã na barra. Quando treme já todo o chão, quantas velharias ressequidas e bizarras põem a descoberto os alicerces? Quantas coisas não foram sepultadas nas fundas galerias – como se estivesse soando noutro lugar e não se pudesse fazer ouvir? A tênue mancha do poema anfibológico.
O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Ocasional cais da dolorosa instabilidade e incompreensibilidade, soluço absurdo que as nossas almas derramam. Sopra o pano das velas no Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente é imitado (o ruído cego de arruaça cessa).
Horizonte marítimo mais vasto – épocas marítimas a chamar. Os navios de vela nos mares! Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Farol próximo na noite ainda escura. Para além das aparências das coisas. Lendas absolutamente cruéis e abomináveis. Albatrozes sombrios, a derramar reminiscências das almas sobre as extensões de mares desiguais.
O pavor pelas espinhas. Num sentido mais belo e mais vasto: está perto? As linhas das vigias. A vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! Ainda está longe? A serpente do mar sob a nuvem negra e ocasional.
De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma (garrafas com rolhas). Resta o apenas resta.