quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Do mar — 29

Ele ainda não se manifestou no ar sacudido; mas é ainda a íntima, recôndita e maldita essência duma essencialidade de mistério, que se faz presente como um bicho representativo de todos os gestos, cindido, na consciência das sensações, o objeto inerte e sentiente da omnívora crueldade. Roçagar pela face a alma, como deveria, esvazia, na vertigem tênue de confusas coisas – como se a transmigração total fosse o único estrondo das portinholas do navio. Sopro fundo e confuso. Tudo está excessivamente chispante. A capa no frio que impôs a urgência de esperar.

Com efeito, nessa sublime e desassossegada tessitura da orquestração da tinta da navegação, quais rotas seguir se não há mais após encenado por nenhuma delas? O horror à extensão das linhas. Na roda do leme? Riscar pela face a alma, o riscar instável e errante do espelho? Enfim, não é o sangue macio. 

A linha reta mal traçada, conservando a raiva, a ira e a inveja ao giro vivo do volante. O horizonte marítimo. A vida vai, paradoxalmente, para longe do proibido, transmigrando.

O mar passado, clássico à sua maneira. O gesto oscilante se precipitando em descoberta pesada, densa, à espera da realização messiânica. E ele ali, como que coagido pelo suplício, sutilmente presente. À luz baça do cais deserto. O horizonte desaparece e vai se velar nas velas.

No grande vácuo pequenino que brilha, de existência limitadíssima, há espírito de bruxa dançando invisível em volta dos gestos. Os paquetes que entram de manhã na barra. Quando treme já todo o chão, quantas velharias ressequidas e bizarras põem a descoberto os alicerces? Quantas coisas não foram sepultadas nas fundas galerias – como se estivesse soando noutro lugar e não se pudesse fazer ouvir? A tênue mancha do poema anfibológico.

O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Ocasional cais da dolorosa instabilidade e incompreensibilidade, soluço absurdo que as nossas almas derramam. Sopra o pano das velas no Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente é imitado (o ruído cego de arruaça cessa).

Horizonte marítimo mais vasto – épocas marítimas a chamar. Os navios de vela nos mares! Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Farol próximo na noite ainda escura. Para além das aparências das coisas. Lendas absolutamente cruéis e abomináveis. Albatrozes sombrios, a derramar reminiscências das almas sobre as extensões de mares desiguais.

O pavor pelas espinhas. Num sentido mais belo e mais vasto: está perto? As linhas das vigias. A vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! Ainda está longe? A serpente do mar sob a nuvem negra e ocasional.

De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma (garrafas com rolhas). Resta o apenas resta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário