O último minuto. O derradeiro instante de um ciclo que se desmancha sem indícios, a primeira respiração de outro que se levanta sem rosto. Ergo os olhos e nada responde. O alto é um mistério sem anúncios, um abismo onde o olhar se perde e não retorna. O precipício não reflete, não se dobra ao humano desejo dos signos. O silêncio mineral escorre da espinha celeste — esse espectro translúcido de estrelas mortas que se impõe acima, sem cissuras. O tempo, se há, não se escreve no céu nem na terra, onde os passos deslizam sem deixar sulcos. Nasce dentro o tempo onde pulsa o não nomeado. Ele não se grava nos astros, que nada sabem de começos. Não se inscreve na matéria, que só repete. Fermenta na carne de quem delira, de quem erige calendários sobre o vácuo e declara ao universo indiferente: agora. Só o homem é capaz de fabricar auroras sem que o sol precise consentir e de arremessá-las contra o nada, esperando resposta.
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