quarta-feira, 29 de abril de 2026

Noite nanquim — 66

    Refaço o aberto que sonha e anseia o dia: o improvável como horizonte da arte ou o horizonte como arte do improvável. Nome do segredo na voz. Denominação da coisa desconhecida no mistério. Vê-se inscrito nos lábios. Os quatro cumes da voz esquartejada sobre essa noite tão viva e fria. No centro da imensa figura, elas são joias que atam os membros da existência. Aquele sinal brilha e palpita na cinta do átrio. Comprime-se contra o destino que o separa das gotas de lodo e de rubis. O arrepio do fogo que reina entre as estrelas percorre os saudosos dias. Eles! Voo das corujas de Hegel. Minérvicas falas.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Noite nanquim — 65

    Torno-me longo. Alongo-me nos intervalos com a insana sanidade das mãos. Forma. A voz segue a voz que ela engendra, despertando-a, acalmando-a, brincando na superfície da vida que ela envolve. O ser e o ser são vozes na sombra do mundo. Há potências, massas, membros, mãos que se tocam, que se compõem, tacitamente, interrogando-se, respondendo-se. Cofre da alma em si por gestos, assaltos e contrastes animados e resolvidos. Tudo se confunde no extraordinário horror das desilusões que nascem e renascem pela suprema inconsciência funda. Pensamento do único com o único. Troca e partilha. Busca do vazio no vazio. Perfeição vizinha da superfície lúcida. É preciso uma espécie de morte pelo horror para desenlaçar essa voz e devolvê-la ao mundo em mundos. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Noite nanquim — 64

    Atiro, agora, o destino como uma bomba: vou pelas vias da loucura. Enfim, sucumbo sobre o livro de horror do mundo. Que se façam as trevas do pensamento! Que as palavras ao sopro das mãos apenas se rendam no céu estrelado – a terra sobe às estrelas. A pluma irradia o instante do holograma instável. Não temos mais nomes, rostos e olhos no universo. A aparência de tudo se desvanece com o hábito. E não há mais distância entre lâmpadas. A substância do nada não existe mais. Consciência oca. Esqueci as faces, e todas as formas não me são mais familiares. Não há senão a voz para colher outras consciências. O instante não faz mais distinção entre as sombras das noites passadas e das noites futuras: as pessoas se apagaram.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Noite nanquim — 63

    Um relâmpago atravessa a substância do caos dos seres. A mentira se mostra e foge por meio da consciência alheia. O dia passado reluz nos olhares, desenvolvendo-se e apagando-se mais uma vez numa espécie de egoísmo transcendental – fenda do dia. Respiro para tornar inúteis as formas do pensamento, esquecendo para ser, abandonando-me para agir. Surgiu estrangeira, estranha à noite terrível da amplificação. Depois deu espaço ao lado para um bizarro outro-eu de algum tempo anacrônico. Entre um momento tão próximo, tão carnal, tão intimamente perto com esta voz de um horror inteiramente inumano, a ausência sorri o pranto da alma. Como a chuva que escorre pela persiana do tempo, as luzes do teto, com um estilo de elipse zenital, olham de um prisma fixo. Cristal: feixes de solidão.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Noite nanquim — 62

    A propriedade essencial da voz é este poder que ela tem de atravessar outras vozes. Os pensamentos e as imagens em lados opostos se atravessam. Tudo aparece assim em meio a circunstâncias que não são convenientes e esperadas. Uma às vezes passa através da outra. As vozes voam como uma flecha disparada em um ponto de frágil preocupação, em direção ao centro de um sistema de verdades. O tempo dos dados ainda colide nas tábuas sem face – jamais abolirá.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Noite nanquim — 61

    Dança sobre o papel: na noite inquieta, vórtice de pluma nanquim, enlua-se a morte consciente. A forma se cerra tão hermética que convoca as mãos para os mistérios dos mares e dos rios, do Tempo e do Espaço. A fugidia plenitude do nada alarma o toque no espírito. Cria todos os raciocínios da vida e recomeça mais uma vez o conhecimento das faces. As palavras excedem sobre os ombros o tédio e o ódio. Os desequilíbrios, a firmeza do terror, erguendo e conduzindo, beijam os lábios do abismo. Os milhões do mundo e as armadilhas colocadas sobre a alma caem e perecem na mente vazia. Abandona todas as vozes. Todas as vozes o abandonam. Torna-se as próprias mãos invisíveis. É preciso acariciar e esmagar, matar e perecer, submeter e dominar – encadeando inteiramente as malhas da rede.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Noite nanquim — 60

    Sente-se seguro. Sonha a segurança dos póstumos no simples dos fatos. Estou atrás de ti (o mistério). Levo o olhar de toda a gente. Tudo vem do fundo da inconsciência. Sonho passado. Voz concluída no deserto da mente. Existo, chegando ao atrevimento. Volto-me em direção aos grilhões e entrego os pulsos. Elas, sempre elas, quantas delas nesses fragmentos. Idiotice. Tolice (palavra ainda muito doce). É por isso que esvazio a mente: para que elas caiam do nada ao nada, cada vez mais. Este livro é ilegível. A alma sobre essas linhas aguarda os choques da multidão. Já me fiz em tudo com palavras. Faço-me agora no Nada.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Noite nanquim — 59

    De súbito, sinto o naufrágio nos vórtices da miséria. Quem está, assim, tão perto de mim nos campos? Não ouso jogar minhas mãos para as grades da janela. Sei muito bem que agarrei, já nas alturas, a coisa viva que mudará toda a mente. Estou aqui com todas as formas do pensamento, com todas as povoações, com todas as consequências do horror. Tudo se aproxima. Espero o instante em que haja mais espera. As paredes sem reboco. Sinto a fatalidade que há na voz. Meus lábios se abaterão sobre o teor do enigma como outra criatura.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite nanquim — 58

    Vinho? Não passa de um vinho. Logo, porém, provará um mais experiente. Está no extremo das intuições — porque o horror de saber tudo é o extremo. Notou como os vinhos têm poder sobre as águas, sobre as asas, sobre as cinzas do monte? Encantadora e velha, cheia de um vagar profundo e de horror: cada gota dessas obras é uma queda no vazio. Desperta nos sentidos todo o tremor. Esse vinho, ao mesmo tempo, beija os abismos que têm seus mil antros na praia do limite, na viagem eterna, nas obscuras inércias. Cada ano na taverna deixou alguma dor, alguma inquietação — alguma coisa. Mas é preciso beber. Isso é a existência da magia, e ela está em todas as sensações. As coisas criam vozes.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Noite nanquim — 57

    Sirva-se de mistério. Existe sustento e carne? Os degraus gargalharam para o mistério. O pescador trouxe tudo para o laboratório – mal voltara de lá. Você deve se servir de um mistério maior. É um prazer que você se sirva daquilo que chamamos suspiro, lágrima, desolação. Quero ver os elementos que tremem aquilo que faz tremer quaisquer recantos. Retiro o temor do nada, apanho-o do rosto e o sigo para tristeza, para cima da vida, elevado ao grau de tudo. Com esse íntimo, beba o vinho que lhe verto.