sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite Nanquim — 58

    Vinho? Não passa de um vinho. Logo, porém, provará um mais experiente. Está no extremo das intuições — porque o horror de saber tudo é o extremo. Notou como os vinhos têm poder sobre as águas, sobre as asas, sobre as cinzas do monte? Encantadora e velha, cheia de um vagar profundo e de horror: cada gota dessas obras é uma queda no vazio. Desperta nos sentidos todo o tremor. Esse vinho, ao mesmo tempo, beija os abismos que têm seus mil antros na praia do limite, na viagem eterna, nas obscuras inércias. Cada ano na taverna deixou alguma dor, alguma inquietação — alguma coisa. Mas é preciso beber. Isso é a existência da magia, e ela está em todas as sensações. As coisas criam vozes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário