quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O LIVRO QUE MATA A MORTE


Quando o editor voltara de viagem, marcamos um encontro em um café. Se penso isso hoje e olho, para ver se a verdade me aniquila a sede do ocorrido, antevejo apenas residências frias, rostos frios, movimentos frios. No entardecer em que escrevo, o dia chuvoso parara. O homem, simples, determinado e repleto de esperança, carregava uma bolsa com muitos livros. Nela, papéis, corpos e ideias. Tudo morto. Mas uma súbita alegria de ar fresco roçava-me contra a pele. Nós nos sentamos e, antes que nos servissem as bebidas, ele ergueu a bolsa, com alguma dificuldade, e a abriu. Naquele gesto, todos os seus movimentos eram pausas. A mesma pausa todos eles, enquanto lá fora as horas iam se desfolhando em azul-desbotado. Depois, começou a colocar alguns livros na mesa. Mas, até aquele momento, nada daquilo me dizia nada, só o desbotado azul reboando pelo chão da rua.

Em poucos minutos, já não tinha espaço para depositar as nossas bebidas. Nada daquilo deposto me era familiar, não porque o desconhecesse, mas porque não sabia, de fato, o que era. Dói viver, mas é na distância que se vive. Um a um, ele colocou os livros na mesa, enquanto uma ou outra luz era acesa nas vitrines da rua. Construindo o que prefigurava uma arquitetura babilônica, perdeu-se ali o mundo e sentir não importava. Eu deveria indicar um ou dois livros para publicar, mas, no profundo da alma — como verdade única daquele minuto —, havia uma grave e oculta aflição. Do alto de uma janela, alguém via encerrarem os expedientes, sustentando a melancolia e a solidão como o barulho de quem chora num tenebroso aposento.

Era o segundo semestre de um ano que não me lembro. O azul menos azul, que se projetava nas casas, crepusculizava ainda mais o momento indeterminado. Era tão grande o tédio, tão absoluto o pavor de estar vivo naquele instante, que não cogitava nada que pudesse adiantar de consolo, de contraveneno, de alívio ou esquecimento. Não me recordo quais livros estavam amontoados à nossa frente, pois, nessas tardes, inunda-me uma sensação pior que o enfado, mas que não posso nomear de outra maneira senão enfado. Dormir estremece-me como tudo, e sinto uma sensação de devastação sem espaço, de desgraça completa da alma. O fato é que minha cabeça extinguiu todos os livros anteriores quando ele me mostrou aquele robusto volume em outra língua.

Ali, tudo deslizava suave, turbilhão de brilho que passa, à taciturnidade da tarde insignificante, sombra sem bruma que atravessa o coração. Morrer espanta-me como tudo. Naquele instante, pedi que parasse, mas seguir e parar são a mesma coisa extraordinária. E tudo deslizava suave e sonoro com a imprecisa palidez cintilante e azul da tarde aquátil — suave e sonoro, doloroso sobre o chão gélido e leve, equiparando, em cinza e frio, a espera e a dúvida. Removi todo o peso supérfluo posto sobre a mesa e apontei: quero este. Só este. Este e nenhum outro. Tudo deslizava suave, cinzento oculto, unissonância lamentosa, tédio sem entorpecimento. Até então, eu era uma estante de garrafas vazias.

Aquele era o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa. Desde o início terroso do dia ardente e fictício, sombras turvas e de contornos mal cortados contornavam a cidade asfixiada. O editor, tão sincero quanto audacioso, apenas me disse que se tratava de uma obra muito comentada e me questionou o que ela abordava. Enquanto falava, pelos cantos da barra, contínuas e medonhas, aquelas sombras encavalavam-se, e eu devo ter murmurado algo, algumas frases de sua quarta capa. Nesse instante, uma previsão de catástrofe avançava com as sombras da imprecisa amargura da rua contra o sol desfigurado — foi o que pensei. Contudo, se penso agora, que saudade do vindouro tenho. Deixo que o olhar prosaico agasalhe o cumprimento morto do dia luminoso que se dissipava. Mas o que sei, seguramente, é que disse a ele, categórico, apontando para o livro: só este me basta.

A partir desse dia, instalou-se um universo pessoal. Para concretizá-lo, foi necessário antefalhar a existência, porque nem fantasiando-a ela me despontou voluptuosa. Já não consigo dizer quantos anos foram. Chegou a mim a exaustão das fantasias. Não me recordo quanto tempo dediquei à leitura do Livro do Desassossego. Tive, ao lê-lo, uma sensação estrangeira e fictícia, como a de ter tocado o fim de um caminho interminável. Sei que tudo foi uma jornada — uma experiência. Nela, transbordei para um espaço desconhecido e lá fiquei, dormente e estéril, reescrevendo, numa maneira de viver ou de morrer, uma vida que não me era, sendo, palavra a palavra, algo que fui. Em absoluto desassossego, com grandiosos segundos de afeto e afago, recitando aquela espécie de ensinamento que só Bernardo Soares soube produzir tão precisamente: não me encontro onde me sinto e, se me procuro, não sei quem é que me procura.

Li o livro estilhaço a estilhaço, jamais entrevendo uma sequência, e um completo tédio me amortecia. Singrando por aquela hábil e fictícia prancha do volume que detinha, sentia-me proscrito da minha própria alma, assistindo-me e testemunhando-me. Uma obra montada, uma entre tantas, adotando um raciocínio muito sensível e indulgente, considerando o seu teor. Com ela, as minhas impressões vogavam diante dos meus olhos como algo estrangeiro a mim — era uma obra cujas colorações externavam o acento das almas implicadas. Por assim ser, tudo nela me entediava de mim. Sim, todas as suas palavras eram, até o mais profundo de seu incógnito, da coloração do meu tédio, visto que, entre todos os corpos arrastados na obra, sempre estará o do leitor — a figura cardeal do livro.

Assim experienciei o Livro do Desassossego, vendo, pelo silêncio áureo dos céus ainda passivos, o extraordinário sepultamento da nossa esperança. Aqueles dias foram toda uma vida. Uma grande procissão de vazios se expandindo a cerúleo-escarlate pelo tremendo campo da superfície esbranquiçada. O que digo não é gesto metafórico, mas parece que morri quando comecei a transmigrar minhas experiências, plasmando minhas leituras em exercícios de escrita — àquela altura, qualquer pedinte que me conhecesse se espantaria ao tocar em mim. Durante o processo, vivia minha identificação com o poeta e com diversos fragmentos de sua obra. Tudo isso me era outra existência, a da metrópole que anoitece. No propósito temporal e melodioso da expressão. Tudo isso me era outra alma, a de quem repara a noite. Fomos reciprocamente marcados. E segui errante e simbólico, irrealmente senciente.

Pessoa começou a ganhar altitude velozmente. Nos indefinidos vestígio de luz por se dissipar antes que a tarde se transformasse em noite. Eram textos por todos os cantos, repercussões culturais e traduções. Naquele tempo, deleitava-me de errar sem refletir o que o mundo se tornava e andava como se nada tivesse solução. Aprazia-me, mais à fantasia que às sensações, a melancolia destroçada que carregava comigo e encarnava o poeta como se ele tivesse se voltado para suas incumbências. Perambulava e folheava em mim mesmo, sem consumar a leitura, a obra de fragmento de vertiginosas imagens, deixando a cena para o sobressalto, o deslumbramento, o horror, as incontáveis interrogações para todo aquele domínio tão lusitano. Assim, pouco a pouco, ia plantando indolentemente uma ideia que nunca se concluía, erguendo tudo como se nada houvesse.

Naquela época, arranquei da obra que se me manuseou na alma um conto indefinido por narrar. Hoje, Fernando Pessoa se tornou uma figura icônica, mercadológica, vendável, motivo de sua figura esculpida em frente ao café histórico A Brasileira, no Chiado. Mas tudo isso me é indiscriminadamente tedioso, e ainda avanço, concomitantemente, pelos caminhos, pelos entardeceres e pela leitura imaginada de sua obra. Há anos que saqueio e junto alguns fragmentos do poeta, emigrando e repousando em seus destroços como se estivesse a bordo de uma embarcação no meio da tempestade. Descobri, com eles, as faces de seu mundo, que já nos atravessam, percorrendo, verdadeiramente, suas múltiplas rotas. Após tantos estudos, interpretações e leituras experienciadas, o que trago são reminiscências de outro errático, fragmentos de imagens de noites ou dias e recortes de luxos diversos, a escorregar, a escorregar, a escorregar.

Em Fernando Pessoa, viver em si é morrer. Com isso, compreendemos hoje a expressão Deus sive natura dizendo que tudo é Deus, porque não vivemos um dia a mais que não seja, em verdade, um dia a menos. Em sentido pessoano, o análogo a isso seria dizer que Pessoa é tudo e tudo é Pessoa, posto que ele é o semeador de sonhos, sendo o gesto das brumas que vagam entre florestas extraordinárias, onde as palavras são habitações, estilos, vozes, sensações e saberes. Assim é. Se pensarmos esse “tudo” seriamente, devemos declarar que se trata de uma tremenda diversidade que nunca deseja encontrar Deus, nunca deseja saber, ao menos, se Deus existe, para, assim, criar heterônimos, papéis, costumes, linguagens, posturas, linhagens, inspirações, circunstâncias, contextos e excelências, transmigrando de universo para universo, de personificação para personificação, constantemente no sonho que mimoseia, eternamente no erro que anima. Dentro dessa estrutura viva, qualquer leitor percebe que tudo se metamorfoseia, que nada é como era ou como será. A verdade jamais, a conjunção com Deus jamais, o remanso jamais. Com alguns anos de leitura da obra, o próprio Pessoa sofreu mudanças, nunca desejando plenamente a serenidade, mas sempre uma fração dela, sempre desejando-a.

Seu extraordinário Desassossego continua circulando em múltiplas línguas. Nelas todas, somos finitude, e isso que chamamos vida é tão somente uma maneira de sonhar a vida verdadeira, o declínio do que realmente somos. Assim, a relação existente entre sonhar e viver é semelhante à que existe entre a vida e a morte. Será todo esse desassossego circular para dizer que a vida não é suficiente? Depois de anos, o editor permanece em atividade, levando consigo — suponho — outras bolsas com outros livros. Mais papéis, corpos e ideias. De fato, os mortos não morrem, nascem. Os nossos universos estão trocados: dormimos, e toda a vida que levamos são gestos oníricos, não metaforicamente, mas em uma direção real.

Seria a arte uma recusa à vida? Por vezes, diversas vezes, aliás, assalta-me o pensamento de que hoje, exatamente hoje, considerando todo o fardo suportado, seria a melhor hora para reler o Livro do Desassossego. Imaginamos que vivemos, mas na verdade estamos mortos: tudo o que em nossas ocupações consideramos elevado arrasta em seu bojo a morte. Vivemos apenas em estado de declínio. De resto, tudo é morte. Uma figura esculpida é um defunto, modelado somente para testemunhar a morte em contexto de incorruptibilidade e sossego. Mas um livro é o inverso disso. Agora é possível, Soares, agora é possível, além da turbulência e da mixórdia, seguir na contramão daquela amaldiçoada figura esculpida com o mesmo deleite de antigamente, submergindo na vida, submergindo em nós mesmos, dilapidando as correspondências entre nós e a vida, com esse espírito balançado da morte.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 56

    Vibro diante da morte. Reduzo-me ao poder mágico. Mudo em meio às formas da miséria. Sei que os terrores existem devido à umidade — sem dúvida devido à introdução dela. Há a idade do mundo, a fragilidade do organismo, a proximidade das trevas lá fora… A noite chega quando uma pessoa é pequena perto dos riscos que emana. Ela existe como ideia nas minhas mãos. É por isso que dou aquilo que temo. As pálpebras se cerram e estreitam a voz: refugio-me na ação cega e violenta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 55

    As sombras dos montes me acompanham. Chegam os mitos ao fim da tarde. Regressemos ao instrumento. Recorramos à imanência do mistério, às carnes brancas, às fezes da compreensão. Sente-se aqui. Sou a voz a te falar de quem tu amas. Tuas mãos, teus pés estendidos, úmidos, em direção à morte dos teus próprios traços: teus olhos sonham fagulhas. Diante de ti, elas dançam, invisíveis, e estalam como se fossem os sinos da igreja. Estrelas declinam sobre a terra – aqui. Sente-se. Presumo o testemunho de todas elas nas palavras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Hoje é Natal. A casa está cheia, mas nunca me senti tão sozinho. Sacro Natal lançado à degradação da experiência humana, sem que se ouça o canto dos anjos ao pé do ouvido. Nasce para este mundo um Deus, mas não chove como chove nos versos de Caeiro ou nas montanhas de Minas Douradas. Assisto à lenda encoberta como a um cadáver da família. Enquanto alguns arremetem mundo afora, reclino o olhar entre a resplandecência das árvores e os cafés tremulando na noite. E as estrelas, as estrelas, as estrelas a cobrir de tristeza as trilhas onde uma vez vi os magos a passar. A verdade não chegou ou partiu: foi o equívoco que se transformou. Mas aquele que tem o princípio do verão batendo à porta não deveria reclamar agora de solidão, não deveria beber do cálice da barbárie ou da renúncia, pois recebe hoje outra imortalidade — ainda que a passada fosse melhor. É preciso ser humano apesar dos gados, ter coerência apesar dos sofistas, desejar a vida apesar dos retóricos — e, dos dedos enlaçados, talvez nasça uma flor desbotada.

Noite nanquim — 54

    Regressemos ao instrumento que agoniza pelo terror. Toda coisa, palavra a palavra, se escurece e se degrada na viagem eterna. O solo fumega num atordoamento. Ela já aponta na altitude, conformando e compondo a figura da morte numa única tropa de horrores. Logo existirá, ao redor de nós, as trevas da unidade. O céu se declara. Alguém se separa do pensamento. Todas as palavras nos fazem baixar a cabeça para o mistério. O silêncio toma conta de tudo: separa-nos, une-nos – uma só é a queda dele no vazio da mente. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 53

    Os cimos, as nuvens e o ar da terra — absurda máquina monstruosa — estão entregues às intimidades do pensamento — ilusórias chamas: tudo é ilusão. Uma voz passa e mergulha nos lábios de uma consciência vazia, rosa, e o primeiro sonho do mistério que adormeceu na vastidão do céu — tudo são lutos, saudades, coroas. Ardentes, povoo os degraus gloriosos das glórias irreconhecíveis.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 52

    Escrevo porque o sentimento contesta. Uma coisa de deus transborda e ergue toda a vida do horror. Ele se sente com mais calor do que o que é apto de existir, mais mistério do que o que existe nos lábios, mais potência do que o que algum corpo pode descarregar nos opróbrios. Os olhos se edificam na taverna, pois no inferno o fogo que destrói os dias se revela. Os fenômenos da vida se pronunciam, se decompõem no erro dos olhares.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 51

    Ela banha aquilo que o outro contempla. A nuance dela se torna sensível no outro. Ela parece que acaba de ser criada ali, quando o fim dos montes vem devolver a vida à morte que existe em mim. Eis que o outro acredita novamente no labirinto: a voz canta. A firmeza do pensamento é um grande horror, tão inacreditável quanto certo. Este pensamento é um livro, cuja unidade deste pensar é mais forte que as forças interiores do mundo. Mas ela compõe para si, em silêncio em si, um livro de lembranças futuras.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 50

    Falo minha voz na voz do outro e não há como o outro impedir que isso aconteça. Muito amarga, é possível que eu, quando encher alguma medida divina, encontre o outro. É possível que esgote a substância do horror e regresse do mistério. E é possível que eu chegue perto, em segredo, por meio de feitos, de olhares de labirintos. Dédalo desregrado! Realizo o sonho de tudo. Faço a cara que corresponde à morte. Pressinto o limiar das glórias. Basta então um encontro dos olhos para que se descubra subitamente a alma. Reconheço aí a queda na mente, donos da vida e da morte. As quedas mútuas trocam sussurros e põem-se conforme a necessidade das formas. O que um é verdadeiramente no outro vê-se pelo gesto do outro.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 49

    Ouviu e calou-se. Arrepiou-se mesmo, agora. Porta-se com uma voz carregada de pensamento, um horror esmagador de deus, uma cena de mistério supremo, um bloco disso inteiramente tomado em sua abstrata ideia, e mais branco do que gelo — em direção a nenhum ponto disso, a nenhuma preferência disso, nem disso. No mesmo passo, lado a lado, idêntico no que é natural, eles identicamente vãs, elas e eles identicamente eternos e lúcidos, eles com a mesma ausência dolorosa, eles cujas sombras se misturam na alma, avançam, e como que, não no amor, mas no amargor que deve terminar. É ela quem se desloca sobre a aridez em plena luz.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 48

    Houve por algum tempo no laboratório — e pela duração infinita da existência inconsciente —, houve o esquecer passeando, movendo-se, detendo-se e errando na sombra odorante e ordenada deste laboratório. Sobre a mão rosa e cinza, sobre a imaginada força, por entre os elementos, entre as filas e os corações enraizados da noite, o abismo se desloca como a íntima alma das aves. A voz o avistara. Eles não enxergavam. Havia o esquecimento entre dois pensamentos. Dos dois lados do conhecimento, a mesma poeira cinza, ou quase a mesma, pois almas cingidas, duas, moviam-se desmembradas em direção à pequenez, pois cada uma se atormentava devido ao caos interior de sua outra forma, e a criava e a recriava em si como isso, e a tornava ora muito calmo, ora muito inquieto. E ora muito inquieto, ora muito calmo. Rasgava-se e formava-se isto tudo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 47

    Aquelas águias pairam lá. No píncaro do céu, os cães de um caçador rastreiam no trajeto a revolução das estrelas de cada constelação. O mundo, no outono e na primavera, nasce e morre em ciclos infinitos. A ideia em ação inventa a experiência do voo sem pouso, da fala sem silêncio. O conhecimento e suas palavras. A ignorância e seus verbos. Não me acerco de Deus às portas da morte. Perdi a vida na vida, a sabedoria na sabedoria, o conhecimento no conhecimento. Afasto-me de Deus no ciclo dos séculos e cerco-me aqui apenas de pó.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Noite nanquim — 46

    Os dois pensamentos tinham certamente isso, pois cada um me atormentava com seu sussurro ácido. Ora, o dia inteiro isso. Vê como ele surpreende! Seu laboratório é só. Alguém foi restituído às poeiras. Arrepio delimitado sem lugar. Se ele adivinhou seus momentos ocos, ele a considera como um engenho sem nexo, sem propósito, sem comércio. Conheço mais obscuramente do que esse céu todo estrelado tão alto e tão profundo. Por algum tempo, houve, neste mundo, um som. Errava-se nas veias, na alma e no sangue. Dos dois lados do palácio, falava-se a mesma coisa. Dois horrores ignorantes batiam quase igual. Agora dirijo o poema como um sonho. Habitam-me aqui labirintos e expressões de pesadelos. Já leio tudo de memória. E transformo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Noite nanquim — 45

    Não, não saberá nada. Esvaziou-se o que não se deve esvaziar. Em vão, tenta-se a surpresa. Oponho o assombro. Mandaremos queimar o livro que lhe é caro se falar mais dele. Palavras vãs: é suficiente durar apenas um pouco de angústia — a voz diz. Falando, apanhando, dando-me palavras frias. Feito o movimento, fragmenta-se o gesto derretido. Distancia-se. Silencio-me e passo seguindo o uivo brutal.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Noite nanquim — 44

    Invoca. Convoca o livro de horror que existe. É o eixo de um mistério maior que se irradia pela carne e pelo sangue. Sinto aprofundar até o infinito a ideia fixa da loucura. Sustenta em toda a extensão a política e a literatura que se tornam o fundo deste mundo. Corresponde à pequenez, desenvolvendo-se e sucedendo-se na antecâmara da alma. Canto à meia voz as manchas passadas no silêncio inquieto. Livro, o livro! Pelo fluxo violento dos dedos, pela língua larga e fluida do desespero, por aquilo que arde lá no alto píncaro, sou convocado à manipulação misteriosa — atravesso os impulsos do poema, regresso ao poema, dissolvo o poema. As palavras que são a base concreta da criação não escapam do poder da loucura.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Noite nanquim — 43

    Porque, se eu me esquecesse e não dissesse senão o meu regozijo, pressinto que irritaria isso. Que me importam todos esses vultos do meu pensamento, esses pequenos deuses no esqueleto? Não sei prezar maravilhas tão íntimas, tão falsas e tão só como hoje estou. Você ama as manchas, e eu amo os livros. Manchas são coisas, e os livros são seres. Aprecia comigo esse abismo que existe, esse grandioso livro, portador de ramos e de manchas, esse grande livro isolado e completo. Odeio-te, gostaria de odiar como tu, ser odiado como tu odeias, vibrar, crescer, perecer…

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Noite nanquim — 42

    Sou minhas mãos. Esvazio-me na escuridão. Encontro-me nas palavras. Ascendo como uma flor ao verão. Respiro as palavras que, clamando suas manchas (experiência madre de todas as coisas), não são suficientes para o espírito. Elas me fazem pensar e me concedem o tempo da condolência. A embriaguez verte aqui suas forças flutuantes. Encontro a bruxa que lisonjeia o corpo das palavras por suas manchas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Noite nanquim — 41

    Tudo o que é preciso está tão concentrado quanto possível. Seria preciso inventar esse grito para seguir. Vai e vem, olhando e bocejando. Quebra o pavor e golpeia a alma. Ocorrerá da mesma maneira que a própria alma desenvolve o murmúrio – que da queda se faça o nó e se solidifique o mistério eterno. O horror é a palavra que ascende do abismo. Encontro-a esvaziando a escuridão com minhas mãos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Noite nanquim — 40

    Faço-me com o que não preciso. Durmo. Ele não percebe todos esses degraus que não lhe faltam. Grito pela estrada ou pela terra (flor sem repuxo) — e ninguém nota. As variações do sonho e do real são enganadoras. Tomo a perfeição dos horrores em que vivo por um negrume no vazio. Encarno a dissonância e faço meus tempos de ruínas e meus bosques de almas. Estou entregue às chamas da ilusão que vibram nos cimos da terra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Noite nanquim — 39

    Eis-me aqui, banhando-me neste campo solitário que parece tão desabrigado e fresco. Sinto-o. Ele me faz viver e adormecer. A palavra vazia, alma, que se pronuncia aqui, invade céu e terra. Eis que não ignoro tampouco a presença da morte. Fito-a, e ela me entrega com negrumes o pavor. Ando. Deito-me sobre as cinzas dos astros. Isso é admirável. Sou rodeado pelo Nada verdadeiramente longínquo. Encanto-me com todas essas palavras nas quais nunca penso.