quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE

 


Viver é tornar-se outro. Movimento que decanta no corpo. Sabemos disso, é certo, mas esse não é um caso isolado. Muitos escritores atravessam a vida na obscuridade para alcançar algum reconhecimento depois da morte. Se os sentimentos de um ocidental de hoje são idênticos aos de ontem, eles já não constituem um verdadeiro sentir; são apenas a repetição de vidas passadas no presente, transformando-nos, pouco a pouco, no cadáver vivo de uma vida que já passou, isto é, a primeira aurora do mundo. O poeta Cesário Verde (1855-1886) é exemplo disso. Sua correspondência revela grandes angústias, alimentadas tanto pela falta de reconhecimento literário quanto pelo incômodo de ser visto apenas como comerciante. Abraçar a nossa natureza imperfeita exige o apagamento dos vestígios do passado, um renascimento a cada alvorada e a restituição da emoção ao seu estado de pureza por meio de uma constante renovação. Até o fim da vida, Cesário continuou a ver a si mesmo como o “Sr. Verde, o comerciante”.

Este anoitecer é o primeiro anoitecer do mundo e, nele, e através dele, lembro-me de quantas vezes Cesário foi acusado de ser influenciado negativamente por Charles Baudelaire e suas Flores do Mal. Ao lê-lo hoje, nunca antes o tom rosado de seus versos mudou do amarelo para o branco quente, pesando tanto sobre as casas, sobre os rostos que confrontam o silêncio que desce à medida que a escuridão aumenta, seus olhos vazios. Mas hoje acordei cruel, frenético, exigente e não consigo tolerar nem mesmo os poetas mais malditos. Nunca antes experimentei esse tempo, essa luz, esses versos cujos obstáculos nos estimulam e nos transformam. E também sou tomado por uma fria raiva, por ter tido, como Cesário, um poema rejeitado por um jornal. Aconteça o que acontecer, sinto que algo mudará amanhã, e tudo o que vir será visto através de olhos reconstruídos, repletos de nova visão. Mas isso será só amanhã.


Subitamente — que visão de artista! —

Se eu transformasse os simples vegetais,

À luz do Sol, o intenso colorista,

Num ser humano que se mova e exista

Cheio de belas proporções carnais?!


Li que, em 1878, um autor desconhecido criticou o poema “Num bairro moderno”, no Diário de Portugal, chamando Cesário de poeta comum, sem talento e dono de uma retórica vazia. Às vezes, penso, é necessário manter alguma distância entre as pessoas e as coisas. Incrível. Os altos montes da cidade, as imponentes construções que as encostas íngremes sustentam e embelezam, os prédios amontoados de forma diversa, que a luz pinta com sombras e brilhos, são hoje os versos de Cesário e são, também, eu, porque os tenho sob os olhos, agora, porque os tenho dentro do punho, aqui; são os versos o que serei amanhã, e os amo da borda como um navio que cruza com outro e há saudades desconhecidas nessa travessia. É isso que me faz escrever, com os versos de Cesário, desviando-me, de novo, com imagens que se deslocam ambiguamente, entre a experiência de experimentar e a devoção de dormir.

Muito próximo, e os versos nos eclipsam; muito distante, e eles nos proscrevem, ao cair da noite, às ruas, à taciturnidade, à tristeza, provocando-nos, com suas sombras, um sentimento irracional de sofrer. Em 1873, o jornalista Eduardo Coelho apresentou Cesário aos leitores do jornal Diário de Notícias como poeta e homem de negócios, enfatizando que o jovem alternava entre os negócios e as noites de estudo, mantendo relações apropriadas mesmo quando o céu parecia baixo e enevoado. É espantoso como, mesmo após anos, pedaços dos versos de Cesário, que antes não foram descobertos, são expostos, agora, qual investigação arqueológica. O gás que se espalha pelo ar enjoa e incomoda, e os edifícios, com suas chaminés, assim como a multidão, adquirem uma tonalidade monótona e típica de Londres. Tudo isso são coisas da fala no simplesmente ser escuta, traçando a prévia da intensa mãe do início do sentir, partir e parir, a linguagem, ou seja, a constante revelação poemática. Há muito a descobrir e compreender.

Todos os pensamentos que deram vida à humanidade e todas as emoções que a humanidade jamais experimentou percorrem minha mente durante esta meditação que empreendo enquanto caminho pela praia, como um resumo sombrio dessa história que hoje me assalta. Silva Pinto, em carta a Manuel de Arriaga, que seria publicada no Diário da Tarde, escreve sobre Cesário, apresentando o poeta como um ser único, pensante e sofredor, à deriva neste velho mundo em que muitos sofrem e poucos refletem. Com isso em mente, caminho só pela praia à noite, vivenciando um tempo desconhecido, uma série de momentos desconexos, sem nada dizer, consciente de que toda a sabedoria que surge dos versos de Cesário nasce do espanto, enquanto táxis chacoalham ao fundo, levando passageiros que partem para o trem, e eu também queria partir, ir embora para algum lugar onde fosse realmente o meu lugar, onde conseguisse me encaixar, talvez Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo (qual?), pois olho ao redor e uma sensação de extrema náusea me sobrecarrega.

Digo um sorriso forçado e experimento em mim, comigo, os anseios de todos os tempos, de todos os versos, e comigo andam, como o brilho dum arrebol em vestes coloridas, à orla sentida do oceano, as inquietações de todas as eras, inclusive os versos de “Esplêndida”, lançados em 1874, no Diário de Notícias, que causaram enorme escândalo e fizeram surgir a fala de Ramalho Ortigão, dizendo que o poeta estava se tornando cada vez menos verde e cada vez mais Cesário. Metamorfoses e sonhos. O que os homens desejaram, mas não realizaram, o que foi destruído no instante de sua execução, e o que as consciências experimentaram sem que ninguém se manifestasse, tudo isso deu origem à mente atenta com a qual caminhei à noite à beira-mar, com seus versos, Cesário, essas negras panteras cuja espuma cobre e que atravessam em velocidade a rua, tão rápidas como uma epidemia, que atravessam e me atravessam por amor, para além de qualquer bem ou mal. Aqui, o que os amantes nunca confessaram um ao outro, os segredos que as mulheres ocultaram de seus maridos, os pensamentos que as mães guardaram sobre os filhos que não vieram a existir, os sentimentos que se esconderam em sorrisos ou em ocasiões perdidas, em tempos que não chegaram ou emoções que nunca floresceram — tudo isso, durante minha caminhada junto ao mar, foi comigo e voltou comigo, de olhos fechados, a sonhar, chamando como um turbilhão as marés que subiam e desciam intensamente a companhia que me colocava a sonhá-las, recordando-me, então, todas as histórias marítimas de invasores, saqueadores, corsários, embarcações, valentes, Camões no sul, nas águas, salvando seu livro, e majestosos navios a navegar, navios que nunca verei, cujas estruturas, feitas todas de madeira, lembram viveiros e gaiolas.

Somos aqueles que não somos, e a vida é imediata e melancólica, como a obra de Cesário, e ela salta, de viga em viga, quando os sinos dobram, qual gatos e morcegos. Teófilo Braga, ao se dirigir a Henrique das Neves, afirmou que um poeta contemporâneo é alguém que trabalha arduamente, com força e dignidade, e não deveria se humilhar a ponto de ocupar o mesmo nível que os lacaios. O ruído das marés à noite também é um ruído da noite, e, abalado pela escuridão, passo a duvidar de tudo, inclusive dos versos que leio e do entendimento crítico, enquanto os calafates retornam, em grande número, com o jaquetão ao ombro, cheio de sujeira seca. Sim, passo a duvidar agora e me parece que Teófilo Braga não compreendeu a ironia e o realismo psicológico presentes nos versos de Cesário; parece-me que nem todos sentiram os versos na própria alma, como a esperança contínua que se fragmenta no silêncio com um ruído inquieto de abissal espuma. Neles, esplêndidos, perco-me em sonhos, atravessando largos e estreitos ou vagando pelo cais, à noite, onde se encostam pequenos barcos. Cesário empregava, em seus versos, a vulgarização para evidenciar as barreiras de classe e a humilhação sentida pelas pessoas comuns diante da alta burguesia. Neles, 


[…] daria, contente e voluntário,

A minha independência e o meu porvir,

Para ser, eu poeta solitário,

Para ser, ó princesa sem sorrir,

Teu pobre trintanário.


E aos almoços magníficos do Mata

Preferiria ir, fardado, aí,

Ostentando galões de velha prata,

E de costas voltadas para ti,

Formosa aristocrata!


O amor, lê-se, é o incêndio de perpetuidade do ser amado, mas Teófilo Braga interpretou a poesia literalmente, vendo nela apenas uma falta de dignidade masculina e cívica, atributos impróprios para um “poeta moderno”.

Sinto as lágrimas derramadas por aqueles que alcançaram os versos de Cesário, e as lágrimas vertidas por aqueles que obtiveram algum sucesso com eles. Eu, que outrora fui um jovem brilhante e corajoso, sinto hoje o peso da idade, o contraste com os dias de juventude. Vejo como a publicação de “Em Petiz”, no Diário de Notícias, em 1879, reacendeu a controvérsia em torno da poesia de Cesário, levando o Diário Ilustrado a satirizar o poema por meio da paródia “Pérolas Realistas”, que criticava a verossimilhança das descrições, a linguagem empregada e o seu suposto valor moral. Trago as marcas da experiência, e todas elas, no calçadão à beira-mar, são para mim o segredo da noite e a certeza do abismo, com as horas a inspirar-me e a desassossegar-me. Ao ver alguns jovens seguindo a vida, ainda impulsionados pela paixão e pela convicção, rio de mim mesmo, daquela versão mais juvenil que se enganara tanto a respeito da vida, do amor, da glória, de Deus e de todas as coisas que realmente existem ou que um dia poderão vir a existir. Rio, no calçadão à beira-mar, do navio britânico de onde partem os escaleres. Quantos somos! Em terra, com o tilintar de pratos e talheres, ardem, durante o jantar, certos hotéis da moda. Como nos enganamos! Como nos enganamos!

Nas profundidades dessa noite, onde nos encontramos em meio a um ciclone de sensações, que grande oceano a ecoar a duplicidade da linguagem poética que manifesta a complexidade da vida. É aí que habita seu real valor. Apesar da recepção inicial negativa, a obra de Cesário foi revisitada: Fialho de Almeida, que chegou a preparar um prefácio para uma edição póstuma, destacou a originalidade de sua linguagem e a modernidade de sua sensibilidade poética, considerando-o o pioneiro de um novo modelo da poesia portuguesa. Versos esquecidos. Versos que deveríamos ter almejado. Versos alcançados e concretizados. Versos adorados e depois esquecidos. Todas as visões da linguagem só decifram o que a poesia de Cesário já decifrou e resolveu manter velado. Após sua morte, o Jornal do Comércio reconheceu que, embora tenha morrido praticamente desconhecido, sua obra revelava uma vocação poética única, original e independente.

Valorizamos as coisas por causa de sua ausência. É preciso paciência. Foi apenas com a geração de Orpheu que Cesário Verde recebeu o merecido reconhecimento. Sua obra extrai o seu sustento da espantosa imprecisão da crença de que as coisas podem ser transmitidas através das palavras, e até se alimenta desse próprio estado de estupor, dessa sensação corrosiva de frustração. E algo nasce dessa fronteira; ela não é uma linha a ser cruzada, mas um lugar para esperar e observar, pois é lá que a vida reúne sua maior força. É preciso paciência. Em 1914, Mário de Sá-Carneiro, ao responder a uma pergunta sobre qual seria o livro mais belo dos últimos trinta anos, indica a obra de Cesário Verde, que se apresenta como ondulante de certo, vibrante de Europa, flutuante de Esforço. São reflexões que mesclamos com emoções enquanto experimentamos a intensidade do que seus versos despertam em nós durante a leitura. Trata-se de um processo interminável que exige cada instante das nossas vidas miseráveis. Entre a execução de uma coisa terrível e o primeiro impulso, todo o intervalo é como um fantasma ou um sonho horrível. Sim, é preciso paciência.

Guardo as dúvidas sem respostas no coração e me esforço para amar as próprias dúvidas como se amasse um quarto trancado ou um livro escrito em uma língua completamente estrangeira. São memórias que parecem sensações vivas. Fernando Pessoa escreve que existiram em Portugal, no século XIX, três poetas, apenas três, a quem legítimamente cabe o título de mestres. Três mestres, além do mar português, que significa viver tudo de todas as maneiras. São eles, segundo o poeta, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Erguendo-se das profundezas da noite convivendo com as minhas dúvidas, na esperança de que um caminho me conduza a alguma resposta, que algo se abra diante de mim, sem que eu perceba. Em outras palavras, a angústia que perpassa a obra de Cesário faz tudo estremecer e cria um movimento súbito e violento, que é subitamente interrompido, deixando para trás uma sensação de vertigem e um vazio suspenso à espera de um impulso nosso.

Em 1912, no seu artigo “A Nova Poesia Portuguesa no seu aspecto psicológico”, para a revista A Águia, Pessoa classifica Cesário como um dos criadores da poesia objetiva e, em 1916, como pioneiro inconsciente do desenvolvimento sensacionista em Portugal. Então, com isso em mente, não teríamos outra opção senão aceitar essa premonição pessoana, cientes de que não se trata nem disto nem do que aqui se encontra, e de que permanecemos muito, muito distantes de tudo, não nos restando outro caminho senão partir, agora, com os versos de Cesário, enquanto essas águas dançam em silêncio à orla durante a jornada noturna. Os heterônimos de Pessoa, encantados pelo poeta, oferecem o devido tributo a Cesário. Murmúrios e som fresco.

Às vezes, a maior gentileza que podemos oferecer aos que partiram é deixar suas histórias e seus testemunhos sem conclusão. Quem pode realmente saber o que pensavam ou desejavam? Apenas nossa respiração os acompanhava. Quem realmente se conhece por completo? Estamos sempre em uma dança com nossa própria sombra. Quantas coisas a música sugere e sabemos que não podem ser! Somos a própria escuridão. Quantas lembranças a noite traz que nos fazem chorar, mas que nunca aconteceram! Nosso coração não precisa ser machucado por ele mesmo. Voz solta na tranquilidade, a onda se desenrola, quebra e esfria, e há um som suave ao longo da praia. Estamos apenas sozinhos, agora, e devemos manter o mistério intacto disso como uma forma de dizer que somos mais do que podemos saber sobre nós mesmos. Bernardo Soares traz o seu testemunho:

 

[…] Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas.


E quanto morro também quando sinto por tudo, como Soares, ao ler Cesário, enquanto espero, sem esperança, vendo as formas imaginadas de seus versos com a mesma precisão com que capturo as concretas, sendo, linha a linha, o professor e o aluno. Quanto sinto quando assim erro, etéreo e humano, com o corpo suspenso de praia, ciente de que não há espaço para mim em espaço nenhum e que o amor é uma dádiva que virá algum dia, talvez, naturalmente. Quando me inclino sobre meus sonhos, é sobre qualquer coisa que me inclino, e todo o oceano de tudo, na noite em que vivo, ritma seus chascos e morre no meu percurso à beira-mar. Neles, ninguém precisa de mim. Se observo a vida passar, imagino qualquer coisa e chega-me a solidão dos versos de Alberto Caeiro:

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente.

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

 

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...


E ponho plantas em jarros, sozinho, estou completamente sozinho, mas sinto haver mais alguma coisa… Sinto. Estou sozinho com o pecado original, completamente sozinho comigo mesmo, nessas horas demoradas e vazias, por onde me escala do espírito à mente a melancolia de todo o ser, a tristeza de tudo ser ao mesmo tempo uma percepção minha e algo externo, que não está em meu alcance modificar. Talvez uma noite dessas, às dez horas, o amor apareça, tudo exploda e algo se ilumine dentro de mim. Quantas vezes os meus próprios sonhos se materializam, não com o intuito de substituir a realidade, mas para me revelarem suas semelhanças, ao me recusarem, ao aparecerem para mim a partir do exterior. Menos sofrimento, mais felicidade, ao cair da noite, ao acender das luzes nas grandes cidades. 

Não quero esquecer o que leio, mas também não quero deitar tudo isso no papel, não agora, embora eu seja o único capaz de narrar o que acontece quando tudo vai embora, sobretudo no momento em que o amor chegar e me consumir com a sua mão de mistério a dissolver o enigma de todas as coisas. E a solidão sempre vem, e tenho a sensação de que tudo já me aconteceu antes, há muito tempo. E não há nada. E há tudo. E já não consigo me lembrar de onde moro. E, se algo vier, será o amor pelo mestre Cesário ao brado de Álvaro de Campos:


E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!

Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,

Ó do “Sentimento de um Ocidental”!


Em cada rua, futuros casais passam por ali, parceiros de alfaiataria passam por ali, jovens apressados ​​em busca de prazer passam por ali, aposentados fumam cigarros em seus passeios habituais, e vagabundos preguiçosos que administram lojas atrás de alguma porta prestam pouca atenção. Seguimos pela liberdade por causa da liberdade, em particular e através de condições específicas. Ricardo Reis dedica as obras de Alberto Caeiro a Cesário. Para ver seu rosto, penso. E, assim, descobrimos que a liberdade que desejamos depende inteiramente da liberdade dos outros e que a liberdade dos outros depende da nossa própria. Saio para caminhar à noite, perambulando pelas ruas, lentamente, com força, fracamente, como os recrutas que caminham em grupos, como os sonâmbulos, às vezes muito barulhentos, às vezes mais do que barulhentos, não podendo fazer da liberdade o meu destino, a menos que eu faça da liberdade dos outros o meu destino.

A realidade só pode ser vista da perspectiva que cada um ocupa, fatalmente, no universo. Jacinto de Prado Coelho classificou Cesário como um pintor de atmosfera, Eduardo Lourenço o chamou de anjo moderno, e Eugênio de Andrade sentiu-se mais em dívida com ele do que como um sucessor. Embora compreendesse que, se me aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. Até as menores, mais simples, insignificantes e despercebidas coisas, quando vistas pelos olhos de Cesário, tornam-se grandiosas e complexas, especiais, observáveis, contemplativas e uma fonte de inspiração. Que este e este são correlacionados, e, como a realidade não pode ser inventada, a perspectiva também não pode ser falsa.

Aliviado por ter evitado a crise, suspiro, percebendo que nada mais me impediria, nem aquelas pessoas que aparecem por aqui de vez em quando, manifestando, como Cesário, a realidade objetiva do dia a dia, poeticamente. Não é o segundo do medo ou da falsidade; eu nunca conseguiria ser assim. Não há muitos carros a essa hora. Há uma paz de angústia no meu espírito, e minha tranquilidade é feita de resignação. Imagino  as cestas de verduras, as frutas, as madeiras, as ferramentas de carpinteiro, as ruas de Lisboa, as vitrines e as manhãs e noites movimentadas, iluminadas por lampiões a gás, que ganham beleza e significado nos versos de Cesário. Sou retirado da masmorra negra da minha consciência e passo a ser um integrante do poeta.

Hoje, todas as barreiras desapareceram, e vejo a vida como uma grande página reluzente e vazia. Coloco tudo nela, arrisco-me. Todas as coisas de outrora sumiram, nenhuma delas significou nada, todas sem relação com meus sentimentos, indiferentes ao meu próprio destino, inconscientes. Quando o acaso atira uma pedra, o reflexo da voz desconhecida, vivo a salada coletiva da vida, tratando todas essas coisas em linguagem simples, consistente e geral, com impressionante precisão. Talvez seja ruim, num primeiro momento, mas é a única forma de fazer algo. Cesário foi comerciante e imenso poeta. Seus versos são o fio o qual me agarro enquanto busco a saída desse labirinto, inexistente, ainda que ninguém me espere do outro lado. Alguém disse que as figuras dos sonhos têm os mesmos relevos e contornos que as figuras da vida. E eu amo isso, vivendo com os versos de Cesário, seus versos que crescem e, se crescem, é porque nascem brotando em outros versos, tornando-me outro, a cada segundo, alguém que sonha entre alguma coisa e outra a correr além.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Noite nanquim — 71

    Mortal urânio acelerando borboletas. Dia imortal preparando-se para o voo dos cíclames. Uma dança-espada escrevendo ilusões e delírios. A lâmina cursiva em lua, entre dragões, vara de bambu e lianas, passa ignorando. São penas, plumas e canetas a cada instante. O holograma irradia continuamente as palavras (radiação de holograma estável), como se fosse a cristalização do tempo (como uma pessoa que viaja no tempo). Viga fixa. Feixes de sombra. Vaga o branco na vaga, delineando pelas estradas as beiras de alguém, logrando nas páginas brancas os nós de outras entradas. O sujeito escolta insubjetivo o nunca que por ali há.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Noite nanquim — 70

    Sobe, palavra a palavra, o gemido ilegível que há nas bocas da noite. O silêncio deita sua ardente concentração. É a hora — lendo e lendo —, o levante, o despertar que estremece aquele que tem algo a dizer. Orelha, boca, testemunho – tudo aqui. A água profunda está tão calma – fluxo do nada. As águas das coisas-reais, das coisas-espirituais, das almas em pedra-entidades são tão transparentes quanto o ponto traçado do corpo ao infinito. Nada turva. Enquanto as almas despontadas mal se oferecem ao firmamento, o navio ao vento sonha rumo às manhãs. Navegação celeste. Sonho tudo isso da abóbada astronômica. Sistema horizontal escorrendo disforme as sensações. Graus – Zênite e Nadir. A poesia é a guerra de Troia continuada. Aqui todos os mortos ressuscitam com os rastros que crescem de outra boca sobre a noite do verão.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Noite nanquim — 69

    Existe um número imenso de horrores. Moinhos giram dispersamente. A visão permite o pensamento: pulsação de vozes. Enquanto as misérias elevadas sobre os barcos navegam nas brumas, à deriva, sem esperança de porto, os desequilibrados beijam os lábios do abismo. A voz no seio da noite sem medida – nas muitas horas em que a fito. Desperto. Ergo-me. Sigo – um passo na imensa profundeza. As viagens no último limite propõem a hybris de Odisseu. Interceptado, o ponto imaginário jogado nos ombros. Abro a esfera celeste. Ela, desastre, sistema Órion em ascensão: a trajetória ao redor do observador culminará na hora – os vazios em queda na mente. Decifro o eixo vertical.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Noite nanquim — 68

    Fole de poesias rupestres. O realismo com inscrições do não. A poesia cósmica no pulmão. Raios à beira-fôlego na última acupuntura da língua. Orbito com os corvos da morte sobre os portões do mundo, bruxuleando corpos manchados de palavras. Que encontro de olhares selará nossos lampejos? Esta voz! Há em mim. Encontro-me no ato desconhecido. Lema de horror inconcebível e imperceptível. As trocas entre esse céu semeado de vozes. O pensamento, as mãos e os restos do abismo. Possa eu, dessas manchas vivas, dessas marcas de gestos que estão sobre meus braços em abandono, dessas loucuras que subsistem nas inércias obscuras da minha mão, nos meus olhos, e desses vigores que renascem nos meus poros, possa eu, nas curvas desses rodeios, dessas falas tão chãs e mal apaziguadas, fazer algo tão estrangeiro e tão reflexivo ao movimento leve dessas luzes separadas.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Noite nanquim — 67

    Os dados lançados sobre as tábuas ainda rolam na face do tempo – digo, talvez não querendo dizer. Nada mais admirável. Qual a ideia mais digna do homem? Envolvo aquilo que ignoro na construção dos medos. Faço do desconhecido a peça da vida. Fronte apoiada na escuridão, sobre a fronte do mistério. Essa questão parece suspensa diante da queda. Há voz nesse vazio. Uma espécie de equilíbrio parece estabelecer-se entre espíritos.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Noite nanquim — 66

    Refaço o aberto que sonha e anseia o dia: o improvável como horizonte da arte ou o horizonte como arte do improvável. Nome do segredo na voz. Denominação da coisa desconhecida no mistério. Vê-se inscrito nos lábios. Os quatro cumes da voz esquartejada sobre essa noite tão viva e fria. No centro da imensa figura, elas são joias que atam os membros da existência. Aquele sinal brilha e palpita na cinta do átrio. Comprime-se contra o destino que o separa das gotas de lodo e de rubis. O arrepio do fogo que reina entre as estrelas percorre os saudosos dias. Eles! Voo das corujas de Hegel. Minérvicas falas.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Noite nanquim — 65

    Torno-me longo. Alongo-me nos intervalos com a insana sanidade das mãos. Forma. A voz segue a voz que ela engendra, despertando-a, acalmando-a, brincando na superfície da vida que ela envolve. O ser e o ser são vozes na sombra do mundo. Há potências, massas, membros, mãos que se tocam, que se compõem, tacitamente, interrogando-se, respondendo-se. Cofre da alma em si por gestos, assaltos e contrastes animados e resolvidos. Tudo se confunde no extraordinário horror das desilusões que nascem e renascem pela suprema inconsciência funda. Pensamento do único com o único. Troca e partilha. Busca do vazio no vazio. Perfeição vizinha da superfície lúcida. É preciso uma espécie de morte pelo horror para desenlaçar essa voz e devolvê-la ao mundo em mundos. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Noite nanquim — 64

    Atiro, agora, o destino como uma bomba: vou pelas vias da loucura. Enfim, sucumbo sobre o livro de horror do mundo. Que se façam as trevas do pensamento! Que as palavras ao sopro das mãos apenas se rendam no céu estrelado – a terra sobe às estrelas. A pluma irradia o instante do holograma instável. Não temos mais nomes, rostos e olhos no universo. A aparência de tudo se desvanece com o hábito. E não há mais distância entre lâmpadas. A substância do nada não existe mais. Consciência oca. Esqueci as faces, e todas as formas não me são mais familiares. Não há senão a voz para colher outras consciências. O instante não faz mais distinção entre as sombras das noites passadas e das noites futuras: as pessoas se apagaram.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Noite nanquim — 63

    Um relâmpago atravessa a substância do caos dos seres. A mentira se mostra e foge por meio da consciência alheia. O dia passado reluz nos olhares, desenvolvendo-se e apagando-se mais uma vez numa espécie de egoísmo transcendental – fenda do dia. Respiro para tornar inúteis as formas do pensamento, esquecendo para ser, abandonando-me para agir. Surgiu estrangeira, estranha à noite terrível da amplificação. Depois deu espaço ao lado para um bizarro outro-eu de algum tempo anacrônico. Entre um momento tão próximo, tão carnal, tão intimamente perto com esta voz de um horror inteiramente inumano, a ausência sorri o pranto da alma. Como a chuva que escorre pela persiana do tempo, as luzes do teto, com um estilo de elipse zenital, olham de um prisma fixo. Cristal: feixes de solidão.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Noite nanquim — 62

    A propriedade essencial da voz é este poder que ela tem de atravessar outras vozes. Os pensamentos e as imagens em lados opostos se atravessam. Tudo aparece assim em meio a circunstâncias que não são convenientes e esperadas. Uma às vezes passa através da outra. As vozes voam como uma flecha disparada em um ponto de frágil preocupação, em direção ao centro de um sistema de verdades. O tempo dos dados ainda colide nas tábuas sem face – jamais abolirá.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Noite nanquim — 61

    Dança sobre o papel: na noite inquieta, vórtice de pluma nanquim, enlua-se a morte consciente. A forma se cerra tão hermética que convoca as mãos para os mistérios dos mares e dos rios, do Tempo e do Espaço. A fugidia plenitude do nada alarma o toque no espírito. Cria todos os raciocínios da vida e recomeça mais uma vez o conhecimento das faces. As palavras excedem sobre os ombros o tédio e o ódio. Os desequilíbrios, a firmeza do terror, erguendo e conduzindo, beijam os lábios do abismo. Os milhões do mundo e as armadilhas colocadas sobre a alma caem e perecem na mente vazia. Abandona todas as vozes. Todas as vozes o abandonam. Torna-se as próprias mãos invisíveis. É preciso acariciar e esmagar, matar e perecer, submeter e dominar – encadeando inteiramente as malhas da rede.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Noite nanquim — 60

    Sente-se seguro. Sonha a segurança dos póstumos no simples dos fatos. Estou atrás de ti (o mistério). Levo o olhar de toda a gente. Tudo vem do fundo da inconsciência. Sonho passado. Voz concluída no deserto da mente. Existo, chegando ao atrevimento. Volto-me em direção aos grilhões e entrego os pulsos. Elas, sempre elas, quantas delas nesses fragmentos. Idiotice. Tolice (palavra ainda muito doce). É por isso que esvazio a mente: para que elas caiam do nada ao nada, cada vez mais. Este livro é ilegível. A alma sobre essas linhas aguarda os choques da multidão. Já me fiz em tudo com palavras. Faço-me agora no Nada.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Noite nanquim — 59

    De súbito, sinto o naufrágio nos vórtices da miséria. Quem está, assim, tão perto de mim nos campos? Não ouso jogar minhas mãos para as grades da janela. Sei muito bem que agarrei, já nas alturas, a coisa viva que mudará toda a mente. Estou aqui com todas as formas do pensamento, com todas as povoações, com todas as consequências do horror. Tudo se aproxima. Espero o instante em que haja mais espera. As paredes sem reboco. Sinto a fatalidade que há na voz. Meus lábios se abaterão sobre o teor do enigma como outra criatura.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite nanquim — 58

    Vinho? Não passa de um vinho. Logo, porém, provará um mais experiente. Está no extremo das intuições — porque o horror de saber tudo é o extremo. Notou como os vinhos têm poder sobre as águas, sobre as asas, sobre as cinzas do monte? Encantadora e velha, cheia de um vagar profundo e de horror: cada gota dessas obras é uma queda no vazio. Desperta nos sentidos todo o tremor. Esse vinho, ao mesmo tempo, beija os abismos que têm seus mil antros na praia do limite, na viagem eterna, nas obscuras inércias. Cada ano na taverna deixou alguma dor, alguma inquietação — alguma coisa. Mas é preciso beber. Isso é a existência da magia, e ela está em todas as sensações. As coisas criam vozes.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Noite nanquim — 57

    Sirva-se de mistério. Existe sustento e carne? Os degraus gargalharam para o mistério. O pescador trouxe tudo para o laboratório – mal voltara de lá. Você deve se servir de um mistério maior. É um prazer que você se sirva daquilo que chamamos suspiro, lágrima, desolação. Quero ver os elementos que tremem aquilo que faz tremer quaisquer recantos. Retiro o temor do nada, apanho-o do rosto e o sigo para tristeza, para cima da vida, elevado ao grau de tudo. Com esse íntimo, beba o vinho que lhe verto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O LIVRO QUE MATA A MORTE


Quando o editor voltara de viagem, marcamos um encontro em um café. Se penso isso hoje e olho, para ver se a verdade me aniquila a sede do ocorrido, antevejo apenas residências frias, rostos frios, movimentos frios. No entardecer em que escrevo, o dia chuvoso parara. O homem, simples, determinado e repleto de esperança, carregava uma bolsa com muitos livros. Nela, papéis, corpos e ideias. Tudo morto. Mas uma súbita alegria de ar fresco roçava-me contra a pele. Nós nos sentamos e, antes que nos servissem as bebidas, ele ergueu a bolsa, com alguma dificuldade, e a abriu. Naquele gesto, todos os seus movimentos eram pausas. A mesma pausa todos eles, enquanto lá fora as horas iam se desfolhando em azul-desbotado. Depois, começou a colocar alguns livros na mesa. Mas, até aquele momento, nada daquilo me dizia nada, só o desbotado azul reboando pelo chão da rua.

Em poucos minutos, já não tinha espaço para depositar as nossas bebidas. Nada daquilo deposto me era familiar, não porque o desconhecesse, mas porque não sabia, de fato, o que era. Dói viver, mas é na distância que se vive. Um a um, ele colocou os livros na mesa, enquanto uma ou outra luz era acesa nas vitrines da rua. Construindo o que prefigurava uma arquitetura babilônica, perdeu-se ali o mundo e sentir não importava. Eu deveria indicar um ou dois livros para publicar, mas, no profundo da alma — como verdade única daquele minuto —, havia uma grave e oculta aflição. Do alto de uma janela, alguém via encerrarem os expedientes, sustentando a melancolia e a solidão como o barulho de quem chora num tenebroso aposento.

Era o segundo semestre de um ano que não me lembro. O azul menos azul, que se projetava nas casas, crepusculizava ainda mais o momento indeterminado. Era tão grande o tédio, tão absoluto o pavor de estar vivo naquele instante, que não cogitava nada que pudesse adiantar de consolo, de contraveneno, de alívio ou esquecimento. Não me recordo quais livros estavam amontoados à nossa frente, pois, nessas tardes, inunda-me uma sensação pior que o enfado, mas que não posso nomear de outra maneira senão enfado. Dormir estremece-me como tudo, e sinto uma sensação de devastação sem espaço, de desgraça completa da alma. O fato é que minha cabeça extinguiu todos os livros anteriores quando ele me mostrou aquele robusto volume em outra língua.

Ali, tudo deslizava suave, turbilhão de brilho que passa, à taciturnidade da tarde insignificante, sombra sem bruma que atravessa o coração. Morrer espanta-me como tudo. Naquele instante, pedi que parasse, mas seguir e parar são a mesma coisa extraordinária. E tudo deslizava suave e sonoro com a imprecisa palidez cintilante e azul da tarde aquátil — suave e sonoro, doloroso sobre o chão gélido e leve, equiparando, em cinza e frio, a espera e a dúvida. Removi todo o peso supérfluo posto sobre a mesa e apontei: quero este. Só este. Este e nenhum outro. Tudo deslizava suave, cinzento oculto, unissonância lamentosa, tédio sem entorpecimento. Até então, eu era uma estante de garrafas vazias.

Aquele era o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa. Desde o início terroso do dia ardente e fictício, sombras turvas e de contornos mal cortados contornavam a cidade asfixiada. O editor, tão sincero quanto audacioso, apenas me disse que se tratava de uma obra muito comentada e me questionou o que ela abordava. Enquanto falava, pelos cantos da barra, contínuas e medonhas, aquelas sombras encavalavam-se, e eu devo ter murmurado algo, algumas frases de sua quarta capa. Nesse instante, uma previsão de catástrofe avançava com as sombras da imprecisa amargura da rua contra o sol desfigurado — foi o que pensei. Contudo, se penso agora, que saudade do vindouro tenho. Deixo que o olhar prosaico agasalhe o cumprimento morto do dia luminoso que se dissipava. Mas o que sei, seguramente, é que disse a ele, categórico, apontando para o livro: só este me basta.

A partir desse dia, instalou-se um universo pessoal. Para concretizá-lo, foi necessário antefalhar a existência, porque nem fantasiando-a ela me despontou voluptuosa. Já não consigo dizer quantos anos foram. Chegou a mim a exaustão das fantasias. Não me recordo quanto tempo dediquei à leitura do Livro do Desassossego. Tive, ao lê-lo, uma sensação estrangeira e fictícia, como a de ter tocado o fim de um caminho interminável. Sei que tudo foi uma jornada — uma experiência. Nela, transbordei para um espaço desconhecido e lá fiquei, dormente e estéril, reescrevendo, numa maneira de viver ou de morrer, uma vida que não me era, sendo, palavra a palavra, algo que fui. Em absoluto desassossego, com grandiosos segundos de afeto e afago, recitando aquela espécie de ensinamento que só Bernardo Soares soube produzir tão precisamente: não me encontro onde me sinto e, se me procuro, não sei quem é que me procura.

Li o livro estilhaço a estilhaço, jamais entrevendo uma sequência, e um completo tédio me amortecia. Singrando por aquela hábil e fictícia prancha do volume que detinha, sentia-me proscrito da minha própria alma, assistindo-me e testemunhando-me. Uma obra montada, uma entre tantas, adotando um raciocínio muito sensível e indulgente, considerando o seu teor. Com ela, as minhas impressões vogavam diante dos meus olhos como algo estrangeiro a mim — era uma obra cujas colorações externavam o acento das almas implicadas. Por assim ser, tudo nela me entediava de mim. Sim, todas as suas palavras eram, até o mais profundo de seu incógnito, da coloração do meu tédio, visto que, entre todos os corpos arrastados na obra, sempre estará o do leitor — a figura cardeal do livro.

Assim experienciei o Livro do Desassossego, vendo, pelo silêncio áureo dos céus ainda passivos, o extraordinário sepultamento da nossa esperança. Aqueles dias foram toda uma vida. Uma grande procissão de vazios se expandindo a cerúleo-escarlate pelo tremendo campo da superfície esbranquiçada. O que digo não é gesto metafórico, mas parece que morri quando comecei a transmigrar minhas experiências, plasmando minhas leituras em exercícios de escrita — àquela altura, qualquer pedinte que me conhecesse se espantaria ao tocar em mim. Durante o processo, vivia minha identificação com o poeta e com diversos fragmentos de sua obra. Tudo isso me era outra existência, a da metrópole que anoitece. No propósito temporal e melodioso da expressão. Tudo isso me era outra alma, a de quem repara a noite. Fomos reciprocamente marcados. E segui errante e simbólico, irrealmente senciente.

Pessoa começou a ganhar altitude velozmente. Nos indefinidos vestígio de luz por se dissipar antes que a tarde se transformasse em noite. Eram textos por todos os cantos, repercussões culturais e traduções. Naquele tempo, deleitava-me de errar sem refletir o que o mundo se tornava e andava como se nada tivesse solução. Aprazia-me, mais à fantasia que às sensações, a melancolia destroçada que carregava comigo e encarnava o poeta como se ele tivesse se voltado para suas incumbências. Perambulava e folheava em mim mesmo, sem consumar a leitura, a obra de fragmento de vertiginosas imagens, deixando a cena para o sobressalto, o deslumbramento, o horror, as incontáveis interrogações para todo aquele domínio tão lusitano. Assim, pouco a pouco, ia plantando indolentemente uma ideia que nunca se concluía, erguendo tudo como se nada houvesse.

Naquela época, arranquei da obra que se me manuseou na alma um conto indefinido por narrar. Hoje, Fernando Pessoa se tornou uma figura icônica, mercadológica, vendável, motivo de sua figura esculpida em frente ao café histórico A Brasileira, no Chiado. Mas tudo isso me é indiscriminadamente tedioso, e ainda avanço, concomitantemente, pelos caminhos, pelos entardeceres e pela leitura imaginada de sua obra. Há anos que saqueio e junto alguns fragmentos do poeta, emigrando e repousando em seus destroços como se estivesse a bordo de uma embarcação no meio da tempestade. Descobri, com eles, as faces de seu mundo, que já nos atravessam, percorrendo, verdadeiramente, suas múltiplas rotas. Após tantos estudos, interpretações e leituras experienciadas, o que trago são reminiscências de outro errático, fragmentos de imagens de noites ou dias e recortes de luxos diversos, a escorregar, a escorregar, a escorregar.

Em Fernando Pessoa, viver em si é morrer. Com isso, compreendemos hoje a expressão Deus sive natura dizendo que tudo é Deus, porque não vivemos um dia a mais que não seja, em verdade, um dia a menos. Em sentido pessoano, o análogo a isso seria dizer que Pessoa é tudo e tudo é Pessoa, posto que ele é o semeador de sonhos, sendo o gesto das brumas que vagam entre florestas extraordinárias, onde as palavras são habitações, estilos, vozes, sensações e saberes. Assim é. Se pensarmos esse “tudo” seriamente, devemos declarar que se trata de uma tremenda diversidade que nunca deseja encontrar Deus, nunca deseja saber, ao menos, se Deus existe, para, assim, criar heterônimos, papéis, costumes, linguagens, posturas, linhagens, inspirações, circunstâncias, contextos e excelências, transmigrando de universo para universo, de personificação para personificação, constantemente no sonho que mimoseia, eternamente no erro que anima. Dentro dessa estrutura viva, qualquer leitor percebe que tudo se metamorfoseia, que nada é como era ou como será. A verdade jamais, a conjunção com Deus jamais, o remanso jamais. Com alguns anos de leitura da obra, o próprio Pessoa sofreu mudanças, nunca desejando plenamente a serenidade, mas sempre uma fração dela, sempre desejando-a.

Seu extraordinário Desassossego continua circulando em múltiplas línguas. Nelas todas, somos finitude, e isso que chamamos vida é tão somente uma maneira de sonhar a vida verdadeira, o declínio do que realmente somos. Assim, a relação existente entre sonhar e viver é semelhante à que existe entre a vida e a morte. Será todo esse desassossego circular para dizer que a vida não é suficiente? Depois de anos, o editor permanece em atividade, levando consigo — suponho — outras bolsas com outros livros. Mais papéis, corpos e ideias. De fato, os mortos não morrem, nascem. Os nossos universos estão trocados: dormimos, e toda a vida que levamos são gestos oníricos, não metaforicamente, mas em uma direção real.

Seria a arte uma recusa à vida? Por vezes, diversas vezes, aliás, assalta-me o pensamento de que hoje, exatamente hoje, considerando todo o fardo suportado, seria a melhor hora para reler o Livro do Desassossego. Imaginamos que vivemos, mas na verdade estamos mortos: tudo o que em nossas ocupações consideramos elevado arrasta em seu bojo a morte. Vivemos apenas em estado de declínio. De resto, tudo é morte. Uma figura esculpida é um defunto, modelado somente para testemunhar a morte em contexto de incorruptibilidade e sossego. Mas um livro é o inverso disso. Agora é possível, Soares, agora é possível, além da turbulência e da mixórdia, seguir na contramão daquela amaldiçoada figura esculpida com o mesmo deleite de antigamente, submergindo na vida, submergindo em nós mesmos, dilapidando as correspondências entre nós e a vida, com esse espírito balançado da morte.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 56

    Vibro diante da morte. Reduzo-me ao poder mágico. Mudo em meio às formas da miséria. Sei que os terrores existem devido à umidade — sem dúvida devido à introdução dela. Há a idade do mundo, a fragilidade do organismo, a proximidade das trevas lá fora… A noite chega quando uma pessoa é pequena perto dos riscos que emana. Ela existe como ideia nas minhas mãos. É por isso que dou aquilo que temo. As pálpebras se cerram e estreitam a voz: refugio-me na ação cega e violenta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 55

    As sombras dos montes me acompanham. Chegam os mitos ao fim da tarde. Regressemos ao instrumento. Recorramos à imanência do mistério, às carnes brancas, às fezes da compreensão. Sente-se aqui. Sou a voz a te falar de quem tu amas. Tuas mãos, teus pés estendidos, úmidos, em direção à morte dos teus próprios traços: teus olhos sonham fagulhas. Diante de ti, elas dançam, invisíveis, e estalam como se fossem os sinos da igreja. Estrelas declinam sobre a terra – aqui. Sente-se. Presumo o testemunho de todas elas nas palavras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Hoje é Natal. A casa está cheia, mas nunca me senti tão sozinho. Sacro Natal lançado à degradação da experiência humana, sem que se ouça o canto dos anjos ao pé do ouvido. Nasce para este mundo um Deus, mas não chove como chove nos versos de Caeiro ou nas montanhas de Minas Douradas. Assisto à lenda encoberta como a um cadáver da família. Enquanto alguns arremetem mundo afora, reclino o olhar entre a resplandecência das árvores e os cafés tremulando na noite. E as estrelas, as estrelas, as estrelas a cobrir de tristeza as trilhas onde uma vez vi os magos a passar. A verdade não chegou ou partiu: foi o equívoco que se transformou. Mas aquele que tem o princípio do verão batendo à porta não deveria reclamar agora de solidão, não deveria beber do cálice da barbárie ou da renúncia, pois recebe hoje outra imortalidade — ainda que a passada fosse melhor. É preciso ser humano apesar dos gados, ter coerência apesar dos sofistas, desejar a vida apesar dos retóricos — e, dos dedos enlaçados, talvez nasça uma flor desbotada.