Quando o editor voltara de viagem, marcamos um encontro em um café. Se penso isso hoje e olho, para ver se a verdade me aniquila a sede do ocorrido, antevejo apenas residências frias, rostos frios, movimentos frios. No entardecer em que escrevo, o dia chuvoso parara. O homem, simples, determinado e repleto de esperança, carregava uma bolsa com muitos livros. Nela, papéis, corpos e ideias. Tudo morto. Mas uma súbita alegria de ar fresco roçava-me contra a pele. Nós nos sentamos e, antes que nos servissem as bebidas, ele ergueu a bolsa, com alguma dificuldade, e a abriu. Naquele gesto, todos os seus movimentos eram pausas. A mesma pausa todos eles, enquanto lá fora as horas iam se desfolhando em azul-desbotado. Depois, começou a colocar alguns livros na mesa. Mas, até aquele momento, nada daquilo me dizia nada, só o desbotado azul reboando pelo chão da rua.
Em poucos minutos, já não tinha espaço para depositar as nossas bebidas. Nada daquilo deposto me era familiar, não porque o desconhecesse, mas porque não sabia, de fato, o que era. Dói viver, mas é na distância que se vive. Um a um, ele colocou os livros na mesa, enquanto uma ou outra luz era acesa nas vitrines da rua. Construindo o que prefigurava uma arquitetura babilônica, perdeu-se ali o mundo e sentir não importava. Eu deveria indicar um ou dois livros para publicar, mas, no profundo da alma — como verdade única daquele minuto —, havia uma grave e oculta aflição. Do alto de uma janela, alguém via encerrarem os expedientes, sustentando a melancolia e a solidão como o barulho de quem chora num tenebroso aposento.
Era o segundo semestre de um ano que não me lembro. O azul menos azul, que se projetava nas casas, crepusculizava ainda mais o momento indeterminado. Era tão grande o tédio, tão absoluto o pavor de estar vivo naquele instante, que não cogitava nada que pudesse adiantar de consolo, de contraveneno, de alívio ou esquecimento. Não me recordo quais livros estavam amontoados à nossa frente, pois, nessas tardes, inunda-me uma sensação pior que o enfado, mas que não posso nomear de outra maneira senão enfado. Dormir estremece-me como tudo, e sinto uma sensação de devastação sem espaço, de desgraça completa da alma. O fato é que minha cabeça extinguiu todos os livros anteriores quando ele me mostrou aquele robusto volume em outra língua.
Ali, tudo deslizava suave, turbilhão de brilho que passa, à taciturnidade da tarde insignificante, sombra sem bruma que atravessa o coração. Morrer espanta-me como tudo. Naquele instante, pedi que parasse, mas seguir e parar são a mesma coisa extraordinária. E tudo deslizava suave e sonoro com a imprecisa palidez cintilante e azul da tarde aquátil — suave e sonoro, doloroso sobre o chão gélido e leve, equiparando, em cinza e frio, a espera e a dúvida. Removi todo o peso supérfluo posto sobre a mesa e apontei: quero este. Só este. Este e nenhum outro. Tudo deslizava suave, cinzento oculto, unissonância lamentosa, tédio sem entorpecimento. Até então, eu era uma estante de garrafas vazias.
Aquele era o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa. Desde o início terroso do dia ardente e fictício, sombras turvas e de contornos mal cortados contornavam a cidade asfixiada. O editor, tão sincero quanto audacioso, apenas me disse que se tratava de uma obra muito comentada e me questionou o que ela abordava. Enquanto falava, pelos cantos da barra, contínuas e medonhas, aquelas sombras encavalavam-se, e eu devo ter murmurado algo, algumas frases de sua quarta capa. Nesse instante, uma previsão de catástrofe avançava com as sombras da imprecisa amargura da rua contra o sol desfigurado — foi o que pensei. Contudo, se penso agora, que saudade do vindouro tenho. Deixo que o olhar prosaico agasalhe o cumprimento morto do dia luminoso que se dissipava. Mas o que sei, seguramente, é que disse a ele, categórico, apontando para o livro: só este me basta.
A partir desse dia, instalou-se um universo pessoal. Para concretizá-lo, foi necessário antefalhar a existência, porque nem fantasiando-a ela me despontou voluptuosa. Já não consigo dizer quantos anos foram. Chegou a mim a exaustão das fantasias. Não me recordo quanto tempo dediquei à leitura do Livro do Desassossego. Tive, ao lê-lo, uma sensação estrangeira e fictícia, como a de ter tocado o fim de um caminho interminável. Sei que tudo foi uma jornada — uma experiência. Nela, transbordei para um espaço desconhecido e lá fiquei, dormente e estéril, reescrevendo, numa maneira de viver ou de morrer, uma vida que não me era, sendo, palavra a palavra, algo que fui. Em absoluto desassossego, com grandiosos segundos de afeto e afago, recitando aquela espécie de ensinamento que só Bernardo Soares soube produzir tão precisamente: não me encontro onde me sinto e, se me procuro, não sei quem é que me procura.
Li o livro estilhaço a estilhaço, jamais entrevendo uma sequência, e um completo tédio me amortecia. Singrando por aquela hábil e fictícia prancha do volume que detinha, sentia-me proscrito da minha própria alma, assistindo-me e testemunhando-me. Uma obra montada, uma entre tantas, adotando um raciocínio muito sensível e indulgente, considerando o seu teor. Com ela, as minhas impressões vogavam diante dos meus olhos como algo estrangeiro a mim — era uma obra cujas colorações externavam o acento das almas implicadas. Por assim ser, tudo nela me entediava de mim. Sim, todas as suas palavras eram, até o mais profundo de seu incógnito, da coloração do meu tédio, visto que, entre todos os corpos arrastados na obra, sempre estará o do leitor — a figura cardeal do livro.
Assim experienciei o Livro do Desassossego, vendo, pelo silêncio áureo dos céus ainda passivos, o extraordinário sepultamento da nossa esperança. Aqueles dias foram toda uma vida. Uma grande procissão de vazios se expandindo a cerúleo-escarlate pelo tremendo campo da superfície esbranquiçada. O que digo não é gesto metafórico, mas parece que morri quando comecei a transmigrar minhas experiências, plasmando minhas leituras em exercícios de escrita — àquela altura, qualquer pedinte que me conhecesse se espantaria ao tocar em mim. Durante o processo, vivia minha identificação com o poeta e com diversos fragmentos de sua obra. Tudo isso me era outra existência, a da metrópole que anoitece. No propósito temporal e melodioso da expressão. Tudo isso me era outra alma, a de quem repara a noite. Fomos reciprocamente marcados. E segui errante e simbólico, irrealmente senciente.
Pessoa começou a ganhar altitude velozmente. Nos indefinidos vestígio de luz por se dissipar antes que a tarde se transformasse em noite. Eram textos por todos os cantos, repercussões culturais e traduções. Naquele tempo, deleitava-me de errar sem refletir o que o mundo se tornava e andava como se nada tivesse solução. Aprazia-me, mais à fantasia que às sensações, a melancolia destroçada que carregava comigo e encarnava o poeta como se ele tivesse se voltado para suas incumbências. Perambulava e folheava em mim mesmo, sem consumar a leitura, a obra de fragmento de vertiginosas imagens, deixando a cena para o sobressalto, o deslumbramento, o horror, as incontáveis interrogações para todo aquele domínio tão lusitano. Assim, pouco a pouco, ia plantando indolentemente uma ideia que nunca se concluía, erguendo tudo como se nada houvesse.
Naquela época, arranquei da obra que se me manuseou na alma um conto indefinido por narrar. Hoje, Fernando Pessoa se tornou uma figura icônica, mercadológica, vendável, motivo de sua figura esculpida em frente ao café histórico A Brasileira, no Chiado. Mas tudo isso me é indiscriminadamente tedioso, e ainda avanço, concomitantemente, pelos caminhos, pelos entardeceres e pela leitura imaginada de sua obra. Há anos que saqueio e junto alguns fragmentos do poeta, emigrando e repousando em seus destroços como se estivesse a bordo de uma embarcação no meio da tempestade. Descobri, com eles, as faces de seu mundo, que já nos atravessam, percorrendo, verdadeiramente, suas múltiplas rotas. Após tantos estudos, interpretações e leituras experienciadas, o que trago são reminiscências de outro errático, fragmentos de imagens de noites ou dias e recortes de luxos diversos, a escorregar, a escorregar, a escorregar.
Em Fernando Pessoa, viver em si é morrer. Com isso, compreendemos hoje a expressão Deus sive natura dizendo que tudo é Deus, porque não vivemos um dia a mais que não seja, em verdade, um dia a menos. Em sentido pessoano, o análogo a isso seria dizer que Pessoa é tudo e tudo é Pessoa, posto que ele é o semeador de sonhos, sendo o gesto das brumas que vagam entre florestas extraordinárias, onde as palavras são habitações, estilos, vozes, sensações e saberes. Assim é. Se pensarmos esse “tudo” seriamente, devemos declarar que se trata de uma tremenda diversidade que nunca deseja encontrar Deus, nunca deseja saber, ao menos, se Deus existe, para, assim, criar heterônimos, papéis, costumes, linguagens, posturas, linhagens, inspirações, circunstâncias, contextos e excelências, transmigrando de universo para universo, de personificação para personificação, constantemente no sonho que mimoseia, eternamente no erro que anima. Dentro dessa estrutura viva, qualquer leitor percebe que tudo se metamorfoseia, que nada é como era ou como será. A verdade jamais, a conjunção com Deus jamais, o remanso jamais. Com alguns anos de leitura da obra, o próprio Pessoa sofreu mudanças, nunca desejando plenamente a serenidade, mas sempre uma fração dela, sempre desejando-a.
Seu extraordinário Desassossego continua circulando em múltiplas línguas. Nelas todas, somos finitude, e isso que chamamos vida é tão somente uma maneira de sonhar a vida verdadeira, o declínio do que realmente somos. Assim, a relação existente entre sonhar e viver é semelhante à que existe entre a vida e a morte. Será todo esse desassossego circular para dizer que a vida não é suficiente? Depois de anos, o editor permanece em atividade, levando consigo — suponho — outras bolsas com outros livros. Mais papéis, corpos e ideias. De fato, os mortos não morrem, nascem. Os nossos universos estão trocados: dormimos, e toda a vida que levamos são gestos oníricos, não metaforicamente, mas em uma direção real.
Seria a arte uma recusa à vida? Por vezes, diversas vezes, aliás, assalta-me o pensamento de que hoje, exatamente hoje, considerando todo o fardo suportado, seria a melhor hora para reler o Livro do Desassossego. Imaginamos que vivemos, mas na verdade estamos mortos: tudo o que em nossas ocupações consideramos elevado arrasta em seu bojo a morte. Vivemos apenas em estado de declínio. De resto, tudo é morte. Uma figura esculpida é um defunto, modelado somente para testemunhar a morte em contexto de incorruptibilidade e sossego. Mas um livro é o inverso disso. Agora é possível, Soares, agora é possível, além da turbulência e da mixórdia, seguir na contramão daquela amaldiçoada figura esculpida com o mesmo deleite de antigamente, submergindo na vida, submergindo em nós mesmos, dilapidando as correspondências entre nós e a vida, com esse espírito balançado da morte.
