Hoje é Natal. A casa está cheia, mas nunca me senti tão sozinho. Sacro Natal lançado à degradação da experiência humana, sem que se ouça o canto dos anjos ao pé do ouvido. Nasce para este mundo um Deus, mas não chove como chove nos versos de Caeiro ou nas montanhas de Minas Douradas. Assisto à lenda encoberta como a um cadáver da família. Enquanto alguns arremetem mundo afora, reclino o olhar entre a resplandecência das árvores e os cafés tremulando na noite. E as estrelas, as estrelas, as estrelas a cobrir de tristeza as trilhas onde uma vez vi os magos a passar. A verdade não chegou ou partiu: foi o equívoco que se transformou. Mas aquele que tem o princípio do verão batendo à porta não deveria reclamar agora de solidão, não deveria beber do cálice da barbárie ou da renúncia, pois recebe hoje outra imortalidade — ainda que a passada fosse melhor. É preciso ser humano apesar dos gados, ter coerência apesar dos sofistas, desejar a vida apesar dos retóricos — e, dos dedos enlaçados, talvez nasça uma flor desbotada.
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