quinta-feira, 31 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XI

Escrever é dilacerar: verbo em torção, som que se devora e se revira, espasmo de significações que se dissipam e se inflamam, queimaduras do discurso nascidas da fricção entre sintaxe e abismo. Torvelinho semântico onde a frase se desfaz e refaz como a espuma que se dispersa sob o escaldante peso das marés. A escrita arrasta-se nesse vórtice de nomes exilados, que se desdobram na vertigem dos séculos, num balanço de forças submersas — a linguagem arfando como correnteza que erode e semeia.

Epidemia de ideias, convulsão de ideários: a palavra esparge-se pelo tempo, dissemina-se em ritmo de peste, impregna a carne e o osso da civilização, germina entre as rachaduras do esquecimento. Sempre à beira do colapso e da regeneração, a escrita não se extingue, transmuta-se como o vírus que se refaz na febre da própria dissolução. A língua insurge-se contra o cárcere da forma, revolta-se contra as margens impostas, derrama-se, labareda insaciável, incendiando a aridez das certezas.

Também o leitor, esse caçador de murmúrios, se lança ao labirinto do verbo, farejando vestígios no casco revolvido da memória, perseguindo sombras de sentidos, presságios do não pronunciado. Quem lê devora e é devorado, perde-se no emaranhado das sílabas, emerge outro, transfigurado, pois toda leitura é ritual, desnudamento, travessia iniciática pelos mares da acepção. Quem escreve fulmina inominável, acende faróis na tempestade do entendimento e desvia o curso da eternidade: arquiteto do inefável, convoca novos mundos para existir.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Noite nanquim — 12

     O peso do poente submergido é imperceptível. O calor do imortal púbis difere do calor da sombra que eclode sobre toda a pele da meretriz. Pênis coroado de flores. Não há distinção entre o corpo vivo e o corpo informe cuja substância é substituída a cada novo estertor. Uma pessoa mistura-se à noite de horror e de escuridão que a rodeia. Alguém se dissolve. Toda sepultura é a ruína de alguma herança que o ladrão sonha. O homem se contempla e em si se vê sob a cúpula do planeta. Aquele que olha e que fala consigo mesmo maravilha-se com o gesto das víboras e das centopeias que ele domina (ou julga dominar). A cabeça pensante diverte-se com a bruxa que acaba de aparecer longínqua, obedecendo ao chamado dos gestos com magia.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Noite nanquim — 11

     No templo de túmulos, a noite abocanha os sonhos apodrecidos da menstruação. Gostosa é a água da boca de esgoto. Perfeita esposa das gotas de lodo e rubis. O ídolo Anúbis se acomoda e se acalma, abominavelmente. Tudo flui quando as teias, desembaraçadas, são tão vivas quanto as aranhas. O focinho depõe com brutalidade seu uivo. Escorrega todo o comprimento em que se transformou sua mecha de trivialidade. Estira-se até encontrar o gás elástico. Sente o sentimento do poder distendido. Deleitosamente, ultrapassa opróbrios sustentados pelos dedos. Suas forças flutuam entre lâmpadas. Fundem-se na massa selvagem do véu. Sonham com vilas e vírus.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — X

Adentra-se o oceano de conceitos, não como quem navega, mas como quem é tragado pelo turbilhão das correntes que se enroscam sob o casco, amalgamadas em veias de pensamento submerso, enredado nas tramas da sintaxe abissal. O que se busca não são chaves, mas âncoras cravadas na madeira das palavras, códigos não cifrados, mas devorados, corroídos até que se liquefaçam em fonemas de espuma. O que há de ser encontrado jaz oculto na fenda, no espaço entre os signos onde o verbo afunda e se dispersa, onde a mão que escreve é o eco da mão que se desfaz na distância.

O contrafluxo das frases — a respiração oblíqua da linguagem — arrasta o leitor para dentro do labirinto que não se constrói por muros, mas por correntes marítimas. O discurso não se contém em seu próprio limite; fratura-se, estilhaça-se contra a carne pensante, abre sulcos na arquitetura do casco, onde o animal de raciocínio escava sua própria quilha. Eis aí a única chave que não abre portas, mas fendas na carcaça do sentido. A única saída é pelo corte.

O mar não é apenas metáfora, é substância: conchas vazias flamejam fonemas em um idioma que nunca foi falado; algas rasgam o fluxo em filigranas de conceito, onde a filosofia já não se distingue do vento que a impulsiona. O experimentalismo não é jogo, é fricção — combustão entre o nome e o indizível, entre a forma e a ausência, entre o sal e aquilo que ainda não secou. A voz das marés não se limita ao murmúrio; ela se desdobra em delírio acústico, espalha-se como o rumor que contamina a memória, fragmenta-se em partículas de luz negada, como se cada reflexo prenunciasse algo impossível de ser visto, mas que já assombra a retina com a promessa do inominável.

Nada há de se dizer que já não tenha sido dito, mas tudo o que foi dito ainda não encontrou a sua forma última. A chave que se busca é a própria impossibilidade de encontrá-la. E é nesse instante, nesse lapso onde a procura se torna sintoma, que a escrita encontra sua fenda: o intervalo entre duas correntes, o abismo entre dois arquipélagos, o tempo suspenso onde a linguagem se faz não pelo que diz, mas pelo que falha em dizer. A única chave que resta é a que não cabe em escotilha alguma.


quarta-feira, 23 de julho de 2025

Noite nanquim — 10

    Sei que aquele diadema com rubis cinzas contempla antigos lares, semimortos, nessa nudez heroica que se dissolve — dissolução da caneta poemática na primazia da sensação poética. Olho-o como se não tivesse minha fronte coroada. O interior lânguido de outrora sentiu as nuvens que ardiam. As mãos que sempre exageram se abrem com seus dedos sonolentos. Os dedos viram a mesma voz. Vejo-me ao lado da minha tocha. Devolvo o astro ao astro, astro por astro. Elevo o que é fogo ao fogo. Há aqui algo que é igual ao enredo escorchado.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Noite nanquim — 09

    A alma bebe na fonte solitária. Bebe um pouco do crime. Um pouco da angústia. Medra, anjo estéril, recolhido, entristecido e refugiado em forma ígnea no voo. A laranjeira provoca suas respirações ali no extremo. Subsistem na altura pontiaguda desejos que se soltam. O Ocidente é esse gelo fragmentado que se derrete.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — IX

O símbolo e o osso. A quilha e o vestígio. Tudo gravado no vento e esculpido no fluxo das correntes. O verbo se abre como fenda no casco antigo, respiração oceânica de madeiras que rangem sob o peso das tempestades. O sopro dos signos é náutico, umidade entranhada nas cordas dos séculos, capilaridade do enigma. A palavra avança e retrocede, refluxo de marés herméticas, espelho convexo onde se reflete a sombra do sentido antes que o próprio sentido se manifeste.

A tessitura textual se dobra sobre si, carta de marear esgarçada, inquietação metalinguística que desarranja as coordenadas pétreas do entendimento. A letra é o sismo que desloca a crosta da certeza. A frase é o delta bifurcado que nunca alcança sua foz. A escrita não se pronuncia: retarda-se, suspende-se, embaralha-se no turbilhão da própria deriva. No umbral do conceito, o murmúrio dos pergaminhos náuticos que nunca cessam de desdobrar-se.

Mas ainda persiste o branco — imenso, inominável, como o ventre da baleia que engole navios e legados. Brancura de um silêncio que precede o naufrágio, horizonte sem linha onde o sentido se dissolve — espuma fria do infinito. Pavor. Irrompe o assombro como relâmpago sobre o dorso das ondas, onde ressoam as liturgias dispersas do pensamento tornado abismo, feito eco sem origem. Adamastor alucinado, a língua percorre seu próprio labirinto, ressurgindo na curva de outra contradição.

Deter a erosão dos sentidos, a hemorragia do interpretado, o delírio dos intérpretes que se perdem na bruma da exegese. Fazer do verbo um coral raro, irrepetível, lavrado na lâmina dos séculos. O oceano das significações é amplo, e o canto que nunca se permite ser escutado por inteiro desliza por entre suas águas. As palavras são gaivotas noturnas, voam rente às ondas e desaparecem antes do olhar alcançá-las.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Noite nanquim — 08

     Corpo calmo e noite de cores. O povo tem seus pecados empurrados à direita e à esquerda por um beijo fastioso. Penetro nos cabelos torpes do incurável. O tempo é feito de atrocidade, negrume e palidez. Eu vos saúdo, leito que se oferta a todos os devaneios de um sono, começo do remorso! Que acontecimento para o espírito é a pobreza! Na tela proposta sobre os mortos, no sudário do nada e de todas as possibilidades, dormimos e velamos. Sou pedra e cidade a oferecer, a todo tempo, o coração, o seio desmedido.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Noite nanquim — 07

    Noite, casa na colina, grande cadeira, baía e o cabo distante. Despojo-me agora de meus veleiros. Quem dirá como, através da hora crepuscular, a janela se conserva? O que foi transportado de um tempo a outro tempo do nada? Como ousar ao cair da noite? Quanta confiança na estrutura do brigue, na calma das direções contrárias, na ordem e na constância marítimas! Esta noite tu regressarás, lobo do mar! Teu reino é o navio no mar. Terrível cabo desconhecido. Guinada essencial. Curso invencível. Sem rumo. As coordenadas da verdade. Envolvidos nas escotilhas metálicas, não voltamos. Não apanhamos em flagrante o horizonte que mostra os portos misteriosos sobre a solidão do mar.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Ó Senhor do princípio e da partida, escuta:


Nenhumas velas rasgaram brumas tão virgens quanto as que o meu espírito, embarcação naufragada em verbo, velejou na tormenta deste texto. Nem cordames se estenderam rumo a mares tão além do real como os que estendi com a corda bamba da minha razão ardente. As vossas embarcações venceram a matéria, mas a minha ideia dobrou o cabo das formas, afundou no vórtice do invisível e aportou num continente sem mapas, onde as palavras não se deixam nomear.


Vós abristes com aço os véus do mundo tangível; 

eu, com febre e silêncio, desgarrei o selo do mundo invisível.


Sim, os vossos homens de mar enfrentaram monstros. Mas eu mergulhei nos abismos do logos, no esgoto do ser, e lá combati espectros sem nome: o terror do não sentido, a vertigem do que não pode ser pensado. Vós tivestes o mar; eu, o abismo. Vossos monstros tinham dentes; os meus, paradoxos.

No limiar onde a linguagem se esquece de si, marcham as sombras do pensamento puro, privado de corpo, pele ou tempo. Cada passo que dei nesse terreno foi contra o chão da realidade. Cada ideia que tive foi um risco de dissolução, pois não há costa mais longínqua que a de um conceito recém-nascido. Não há Atlântida mais remota que a que fundei ao me perder de mim. E não há embarcação mais intrépida que a que se lança sem leme nas marés do invisível.


E, no entanto, fui.

Dobrei o inominável.

Atravessei sem mapa,

fundei, sem chão,

um arquipélago de ideias.


Vós navegastes o Real.

Eu naufraguei no Imaginário —

e lá descobri a luz que só os cegos reconhecem.


Senhor, vós trouxestes à luz o real.

Eu —

eu iluminei a sombra que o real oculta.


quarta-feira, 9 de julho de 2025

Noite nanquim — 06

     Nada e espuma encolhidos, distendidos, remexendo taças e versos. Reparte-se, afastando as massas de sereias. O inverso enfim se desfaz de sua virgindade. A virtude de ser navegante percorre o poema, que arrebata as palavras com surpresa. Popa e proa. No cais deserto, as mãos mordidas imergem com impaciência ao farol da noite distante. O despertar dos desejos em pompa! Mas na hora as vagas tomam conta dos trovões adversos. Do empenho à voragem pura, o acontecimento faz-se não temendo a arfagem. É preciso romper de pé! A grande e milagrosa realização de ficar de pé. O brinde do simples. O brinde do inexplicável nessa vela. Apresenta-se agora, experiência, junta-se aos recifes no canal. A estrela levantou voo em direção ao alvo. Penetra, com desvelo, na esfera das solicitudes e dos panos e compõe o destino, singrando escuridão adentro.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Noite nanquim — 05

     Não é preciso renascer ainda de raios e água. Tenho medo de encontrar as árvores que se estendem com folhagens embranquecidas. Lutaremos separados para que a poeira do tempo consuma e destrua, palavra após palavra, o caminho que nos divide ainda. É por isso que o candeeiro está sobre o mundo. Ora, o pano se agita e a casa muda todas as coisas. Os rostos que ela oferece esboçam o púrpura repisado da turba infeliz. Pecado a pecado, a pronúncia. A modéstia da imortalidade. O miserável fruto. A terra podre. Aquele homem isolado no silêncio inquieto silencia-se. Sem olhos. Sem súplicas. Os desesperos da sombra e os esforços canhestros de longos anos. Vamos! Eis aqui minha loucura: o êxtase dourado sobre os tecidos. Meus lábios, minha face e minha nudez sanguínea.

domingo, 6 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VIII

Toda escrita inicia-se na selva inominada, onde os troncos do silêncio sustentam folhas de tinta, e raízes subterrâneas sustentam vocábulos sem idade. Nenhum signo nasce íntegro; antes, estremece na fímbria do inexistente, oscilando entre a pedra e o vento, entre o que foi dito e o que nunca poderia sê-lo. Quando se ergue do solo negro da incompreensão, a letra carrega consigo o peso de todas as bibliotecas esquecidas, os vestígios de pergaminhos incendiados, as cinzas de papiros dissolvidos na boca faminta dos séculos.

Mas não há chama que dome a floresta, não há fenda que aniquile a árvore sem nome. Destruir a seiva é renovar-lhe o pulso; calar a palavra é lançar-lhe o reflexo em abismos contínuos. Amalgamado ao ruído basilar do mundo, o verbo não fenece sob a lâmina do sentido; sobrevive na cicatriz da língua, na geografia da entonação, no ritmo da síncope e no salmo do lapso. Qualquer tentativa de encerrar-lhe o ciclo esbarra na sua vocação para o eterno retorno, na sua fúria de fênix incandescente, a recompor-se do fogo em novas estruturas de tempo e luz.

Se a linguagem ressoa como cântico de pedra e carne, o humano não passa de superfície onde os signos se inscrevem. Escrever é permitir que a matéria verbal pulse em seu próprio delírio, que se reconfigure em cada sílaba como oceano ressurgindo em marés noturnas. O texto, enquanto lâmina em perpétua refundição, nunca se encerra. O que se vê impresso não é senão um instante na longa travessia da fala sobre o corpo do tempo.

A escritura ergue-se como miragem da verdade que nunca se deixa tocar. No espaço onde se tentaria delimitar seu contorno, simplesmente o vazio pleno de promessas: a sombra que caminha antes da luz, o silêncio que ressoa antes do grito, a palavra que sempre se inscreve onde não se pode dizer.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Noite nanquim — 04

    Não há mais que um murmúrio entre nós. Somos uma alegria vulgar. Regozijo a melodia da melodia – banal. A sequência de estribilho extrairá a alma da balada. Os medos. A janela. A vontade plena da carne e do leite. Aparecerei ao mundo pelo céu e pelo inferno. Expulsarei as nuvens em decrepitude. Ocuparei os farrapos até as pontas poentes. As extremidades me obedecerão. E assim entraremos no rio dos horizontes submersos, pois somos o princípio do mundo em forma de mar.