quinta-feira, 31 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XI

Escrever é dilacerar: verbo em torção, som que se devora e se revira, espasmo de significações que se dissipam e se inflamam, queimaduras do discurso nascidas da fricção entre sintaxe e abismo. Torvelinho semântico onde a frase se desfaz e refaz como a espuma que se dispersa sob o escaldante peso das marés. A escrita arrasta-se nesse vórtice de nomes exilados, que se desdobram na vertigem dos séculos, num balanço de forças submersas — a linguagem arfando como correnteza que erode e semeia.

Epidemia de ideias, convulsão de ideários: a palavra esparge-se pelo tempo, dissemina-se em ritmo de peste, impregna a carne e o osso da civilização, germina entre as rachaduras do esquecimento. Sempre à beira do colapso e da regeneração, a escrita não se extingue, transmuta-se como o vírus que se refaz na febre da própria dissolução. A língua insurge-se contra o cárcere da forma, revolta-se contra as margens impostas, derrama-se, labareda insaciável, incendiando a aridez das certezas.

Também o leitor, esse caçador de murmúrios, se lança ao labirinto do verbo, farejando vestígios no casco revolvido da memória, perseguindo sombras de sentidos, presságios do não pronunciado. Quem lê devora e é devorado, perde-se no emaranhado das sílabas, emerge outro, transfigurado, pois toda leitura é ritual, desnudamento, travessia iniciática pelos mares da acepção. Quem escreve fulmina inominável, acende faróis na tempestade do entendimento e desvia o curso da eternidade: arquiteto do inefável, convoca novos mundos para existir.

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