Ó Senhor do princípio e da partida, escuta:
Nenhumas velas rasgaram brumas tão virgens quanto as que o meu espírito, embarcação naufragada em verbo, velejou na tormenta deste texto. Nem cordames se estenderam rumo a mares tão além do real como os que estendi com a corda bamba da minha razão ardente. As vossas embarcações venceram a matéria, mas a minha ideia dobrou o cabo das formas, afundou no vórtice do invisível e aportou num continente sem mapas, onde as palavras não se deixam nomear.
Vós abristes com aço os véus do mundo tangível;
eu, com febre e silêncio, desgarrei o selo do mundo invisível.
Sim, os vossos homens de mar enfrentaram monstros. Mas eu mergulhei nos abismos do logos, no esgoto do ser, e lá combati espectros sem nome: o terror do não sentido, a vertigem do que não pode ser pensado. Vós tivestes o mar; eu, o abismo. Vossos monstros tinham dentes; os meus, paradoxos.
No limiar onde a linguagem se esquece de si, marcham as sombras do pensamento puro, privado de corpo, pele ou tempo. Cada passo que dei nesse terreno foi contra o chão da realidade. Cada ideia que tive foi um risco de dissolução, pois não há costa mais longínqua que a de um conceito recém-nascido. Não há Atlântida mais remota que a que fundei ao me perder de mim. E não há embarcação mais intrépida que a que se lança sem leme nas marés do invisível.
E, no entanto, fui.
Dobrei o inominável.
Atravessei sem mapa,
fundei, sem chão,
um arquipélago de ideias.
Vós navegastes o Real.
Eu naufraguei no Imaginário —
e lá descobri a luz que só os cegos reconhecem.
Senhor, vós trouxestes à luz o real.
Eu —
eu iluminei a sombra que o real oculta.
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