quinta-feira, 24 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — X

Adentra-se o oceano de conceitos, não como quem navega, mas como quem é tragado pelo turbilhão das correntes que se enroscam sob o casco, amalgamadas em veias de pensamento submerso, enredado nas tramas da sintaxe abissal. O que se busca não são chaves, mas âncoras cravadas na madeira das palavras, códigos não cifrados, mas devorados, corroídos até que se liquefaçam em fonemas de espuma. O que há de ser encontrado jaz oculto na fenda, no espaço entre os signos onde o verbo afunda e se dispersa, onde a mão que escreve é o eco da mão que se desfaz na distância.

O contrafluxo das frases — a respiração oblíqua da linguagem — arrasta o leitor para dentro do labirinto que não se constrói por muros, mas por correntes marítimas. O discurso não se contém em seu próprio limite; fratura-se, estilhaça-se contra a carne pensante, abre sulcos na arquitetura do casco, onde o animal de raciocínio escava sua própria quilha. Eis aí a única chave que não abre portas, mas fendas na carcaça do sentido. A única saída é pelo corte.

O mar não é apenas metáfora, é substância: conchas vazias flamejam fonemas em um idioma que nunca foi falado; algas rasgam o fluxo em filigranas de conceito, onde a filosofia já não se distingue do vento que a impulsiona. O experimentalismo não é jogo, é fricção — combustão entre o nome e o indizível, entre a forma e a ausência, entre o sal e aquilo que ainda não secou. A voz das marés não se limita ao murmúrio; ela se desdobra em delírio acústico, espalha-se como o rumor que contamina a memória, fragmenta-se em partículas de luz negada, como se cada reflexo prenunciasse algo impossível de ser visto, mas que já assombra a retina com a promessa do inominável.

Nada há de se dizer que já não tenha sido dito, mas tudo o que foi dito ainda não encontrou a sua forma última. A chave que se busca é a própria impossibilidade de encontrá-la. E é nesse instante, nesse lapso onde a procura se torna sintoma, que a escrita encontra sua fenda: o intervalo entre duas correntes, o abismo entre dois arquipélagos, o tempo suspenso onde a linguagem se faz não pelo que diz, mas pelo que falha em dizer. A única chave que resta é a que não cabe em escotilha alguma.


Nenhum comentário:

Postar um comentário