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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE

 


Viver é tornar-se outro. Movimento que decanta no corpo. Sabemos disso, é certo, mas esse não é um caso isolado. Muitos escritores atravessam a vida na obscuridade para alcançar algum reconhecimento depois da morte. Se os sentimentos de um ocidental de hoje são idênticos aos de ontem, eles já não constituem um verdadeiro sentir; são apenas a repetição de vidas passadas no presente, transformando-nos, pouco a pouco, no cadáver vivo de uma vida que já passou, isto é, a primeira aurora do mundo. O poeta Cesário Verde (1855-1886) é exemplo disso. Sua correspondência revela grandes angústias, alimentadas tanto pela falta de reconhecimento literário quanto pelo incômodo de ser visto apenas como comerciante. Abraçar a nossa natureza imperfeita exige o apagamento dos vestígios do passado, um renascimento a cada alvorada e a restituição da emoção ao seu estado de pureza por meio de uma constante renovação. Até o fim da vida, Cesário continuou a ver a si mesmo como o “Sr. Verde, o comerciante”.

Este anoitecer é o primeiro anoitecer do mundo e, nele, e através dele, lembro-me de quantas vezes Cesário foi acusado de ser influenciado negativamente por Charles Baudelaire e suas Flores do Mal. Ao lê-lo hoje, nunca antes o tom rosado de seus versos mudou do amarelo para o branco quente, pesando tanto sobre as casas, sobre os rostos que confrontam o silêncio que desce à medida que a escuridão aumenta, seus olhos vazios. Mas hoje acordei cruel, frenético, exigente e não consigo tolerar nem mesmo os poetas mais malditos. Nunca antes experimentei esse tempo, essa luz, esses versos cujos obstáculos nos estimulam e nos transformam. E também sou tomado por uma fria raiva, por ter tido, como Cesário, um poema rejeitado por um jornal. Aconteça o que acontecer, sinto que algo mudará amanhã, e tudo o que vir será visto através de olhos reconstruídos, repletos de nova visão. Mas isso será só amanhã.


Subitamente — que visão de artista! —

Se eu transformasse os simples vegetais,

À luz do Sol, o intenso colorista,

Num ser humano que se mova e exista

Cheio de belas proporções carnais?!


Li que, em 1878, um autor desconhecido criticou o poema “Num bairro moderno”, no Diário de Portugal, chamando Cesário de poeta comum, sem talento e dono de uma retórica vazia. Às vezes, penso, é necessário manter alguma distância entre as pessoas e as coisas. Incrível. Os altos montes da cidade, as imponentes construções que as encostas íngremes sustentam e embelezam, os prédios amontoados de forma diversa, que a luz pinta com sombras e brilhos, são hoje os versos de Cesário e são, também, eu, porque os tenho sob os olhos, agora, porque os tenho dentro do punho, aqui; são os versos o que serei amanhã, e os amo da borda como um navio que cruza com outro e há saudades desconhecidas nessa travessia. É isso que me faz escrever, com os versos de Cesário, desviando-me, de novo, com imagens que se deslocam ambiguamente, entre a experiência de experimentar e a devoção de dormir.

Muito próximo, e os versos nos eclipsam; muito distante, e eles nos proscrevem, ao cair da noite, às ruas, à taciturnidade, à tristeza, provocando-nos, com suas sombras, um sentimento irracional de sofrer. Em 1873, o jornalista Eduardo Coelho apresentou Cesário aos leitores do jornal Diário de Notícias como poeta e homem de negócios, enfatizando que o jovem alternava entre os negócios e as noites de estudo, mantendo relações apropriadas mesmo quando o céu parecia baixo e enevoado. É espantoso como, mesmo após anos, pedaços dos versos de Cesário, que antes não foram descobertos, são expostos, agora, qual investigação arqueológica. O gás que se espalha pelo ar enjoa e incomoda, e os edifícios, com suas chaminés, assim como a multidão, adquirem uma tonalidade monótona e típica de Londres. Tudo isso são coisas da fala no simplesmente ser escuta, traçando a prévia da intensa mãe do início do sentir, partir e parir, a linguagem, ou seja, a constante revelação poemática. Há muito a descobrir e compreender.

Todos os pensamentos que deram vida à humanidade e todas as emoções que a humanidade jamais experimentou percorrem minha mente durante esta meditação que empreendo enquanto caminho pela praia, como um resumo sombrio dessa história que hoje me assalta. Silva Pinto, em carta a Manuel de Arriaga, que seria publicada no Diário da Tarde, escreve sobre Cesário, apresentando o poeta como um ser único, pensante e sofredor, à deriva neste velho mundo em que muitos sofrem e poucos refletem. Com isso em mente, caminho só pela praia à noite, vivenciando um tempo desconhecido, uma série de momentos desconexos, sem nada dizer, consciente de que toda a sabedoria que surge dos versos de Cesário nasce do espanto, enquanto táxis chacoalham ao fundo, levando passageiros que partem para o trem, e eu também queria partir, ir embora para algum lugar onde fosse realmente o meu lugar, onde conseguisse me encaixar, talvez Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo (qual?), pois olho ao redor e uma sensação de extrema náusea me sobrecarrega.

Digo um sorriso forçado e experimento em mim, comigo, os anseios de todos os tempos, de todos os versos, e comigo andam, como o brilho dum arrebol em vestes coloridas, à orla sentida do oceano, as inquietações de todas as eras, inclusive os versos de “Esplêndida”, lançados em 1874, no Diário de Notícias, que causaram enorme escândalo e fizeram surgir a fala de Ramalho Ortigão, dizendo que o poeta estava se tornando cada vez menos verde e cada vez mais Cesário. Metamorfoses e sonhos. O que os homens desejaram, mas não realizaram, o que foi destruído no instante de sua execução, e o que as consciências experimentaram sem que ninguém se manifestasse, tudo isso deu origem à mente atenta com a qual caminhei à noite à beira-mar, com seus versos, Cesário, essas negras panteras cuja espuma cobre e que atravessam em velocidade a rua, tão rápidas como uma epidemia, que atravessam e me atravessam por amor, para além de qualquer bem ou mal. Aqui, o que os amantes nunca confessaram um ao outro, os segredos que as mulheres ocultaram de seus maridos, os pensamentos que as mães guardaram sobre os filhos que não vieram a existir, os sentimentos que se esconderam em sorrisos ou em ocasiões perdidas, em tempos que não chegaram ou emoções que nunca floresceram — tudo isso, durante minha caminhada junto ao mar, foi comigo e voltou comigo, de olhos fechados, a sonhar, chamando como um turbilhão as marés que subiam e desciam intensamente a companhia que me colocava a sonhá-las, recordando-me, então, todas as histórias marítimas de invasores, saqueadores, corsários, embarcações, valentes, Camões no sul, nas águas, salvando seu livro, e majestosos navios a navegar, navios que nunca verei, cujas estruturas, feitas todas de madeira, lembram viveiros e gaiolas.

Somos aqueles que não somos, e a vida é imediata e melancólica, como a obra de Cesário, e ela salta, de viga em viga, quando os sinos dobram, qual gatos e morcegos. Teófilo Braga, ao se dirigir a Henrique das Neves, afirmou que um poeta contemporâneo é alguém que trabalha arduamente, com força e dignidade, e não deveria se humilhar a ponto de ocupar o mesmo nível que os lacaios. O ruído das marés à noite também é um ruído da noite, e, abalado pela escuridão, passo a duvidar de tudo, inclusive dos versos que leio e do entendimento crítico, enquanto os calafates retornam, em grande número, com o jaquetão ao ombro, cheio de sujeira seca. Sim, passo a duvidar agora e me parece que Teófilo Braga não compreendeu a ironia e o realismo psicológico presentes nos versos de Cesário; parece-me que nem todos sentiram os versos na própria alma, como a esperança contínua que se fragmenta no silêncio com um ruído inquieto de abissal espuma. Neles, esplêndidos, perco-me em sonhos, atravessando largos e estreitos ou vagando pelo cais, à noite, onde se encostam pequenos barcos. Cesário empregava, em seus versos, a vulgarização para evidenciar as barreiras de classe e a humilhação sentida pelas pessoas comuns diante da alta burguesia. Neles, 


[…] daria, contente e voluntário,

A minha independência e o meu porvir,

Para ser, eu poeta solitário,

Para ser, ó princesa sem sorrir,

Teu pobre trintanário.


E aos almoços magníficos do Mata

Preferiria ir, fardado, aí,

Ostentando galões de velha prata,

E de costas voltadas para ti,

Formosa aristocrata!


O amor, lê-se, é o incêndio de perpetuidade do ser amado, mas Teófilo Braga interpretou a poesia literalmente, vendo nela apenas uma falta de dignidade masculina e cívica, atributos impróprios para um “poeta moderno”.

Sinto as lágrimas derramadas por aqueles que alcançaram os versos de Cesário, e as lágrimas vertidas por aqueles que obtiveram algum sucesso com eles. Eu, que outrora fui um jovem brilhante e corajoso, sinto hoje o peso da idade, o contraste com os dias de juventude. Vejo como a publicação de “Em Petiz”, no Diário de Notícias, em 1879, reacendeu a controvérsia em torno da poesia de Cesário, levando o Diário Ilustrado a satirizar o poema por meio da paródia “Pérolas Realistas”, que criticava a verossimilhança das descrições, a linguagem empregada e o seu suposto valor moral. Trago as marcas da experiência, e todas elas, no calçadão à beira-mar, são para mim o segredo da noite e a certeza do abismo, com as horas a inspirar-me e a desassossegar-me. Ao ver alguns jovens seguindo a vida, ainda impulsionados pela paixão e pela convicção, rio de mim mesmo, daquela versão mais juvenil que se enganara tanto a respeito da vida, do amor, da glória, de Deus e de todas as coisas que realmente existem ou que um dia poderão vir a existir. Rio, no calçadão à beira-mar, do navio britânico de onde partem os escaleres. Quantos somos! Em terra, com o tilintar de pratos e talheres, ardem, durante o jantar, certos hotéis da moda. Como nos enganamos! Como nos enganamos!

Nas profundidades dessa noite, onde nos encontramos em meio a um ciclone de sensações, que grande oceano a ecoar a duplicidade da linguagem poética que manifesta a complexidade da vida. É aí que habita seu real valor. Apesar da recepção inicial negativa, a obra de Cesário foi revisitada: Fialho de Almeida, que chegou a preparar um prefácio para uma edição póstuma, destacou a originalidade de sua linguagem e a modernidade de sua sensibilidade poética, considerando-o o pioneiro de um novo modelo da poesia portuguesa. Versos esquecidos. Versos que deveríamos ter almejado. Versos alcançados e concretizados. Versos adorados e depois esquecidos. Todas as visões da linguagem só decifram o que a poesia de Cesário já decifrou e resolveu manter velado. Após sua morte, o Jornal do Comércio reconheceu que, embora tenha morrido praticamente desconhecido, sua obra revelava uma vocação poética única, original e independente.

Valorizamos as coisas por causa de sua ausência. É preciso paciência. Foi apenas com a geração de Orpheu que Cesário Verde recebeu o merecido reconhecimento. Sua obra extrai o seu sustento da espantosa imprecisão da crença de que as coisas podem ser transmitidas através das palavras, e até se alimenta desse próprio estado de estupor, dessa sensação corrosiva de frustração. E algo nasce dessa fronteira; ela não é uma linha a ser cruzada, mas um lugar para esperar e observar, pois é lá que a vida reúne sua maior força. É preciso paciência. Em 1914, Mário de Sá-Carneiro, ao responder a uma pergunta sobre qual seria o livro mais belo dos últimos trinta anos, indica a obra de Cesário Verde, que se apresenta como ondulante de certo, vibrante de Europa, flutuante de Esforço. São reflexões que mesclamos com emoções enquanto experimentamos a intensidade do que seus versos despertam em nós durante a leitura. Trata-se de um processo interminável que exige cada instante das nossas vidas miseráveis. Entre a execução de uma coisa terrível e o primeiro impulso, todo o intervalo é como um fantasma ou um sonho horrível. Sim, é preciso paciência.

Guardo as dúvidas sem respostas no coração e me esforço para amar as próprias dúvidas como se amasse um quarto trancado ou um livro escrito em uma língua completamente estrangeira. São memórias que parecem sensações vivas. Fernando Pessoa escreve que existiram em Portugal, no século XIX, três poetas, apenas três, a quem legítimamente cabe o título de mestres. Três mestres, além do mar português, que significa viver tudo de todas as maneiras. São eles, segundo o poeta, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Erguendo-se das profundezas da noite convivendo com as minhas dúvidas, na esperança de que um caminho me conduza a alguma resposta, que algo se abra diante de mim, sem que eu perceba. Em outras palavras, a angústia que perpassa a obra de Cesário faz tudo estremecer e cria um movimento súbito e violento, que é subitamente interrompido, deixando para trás uma sensação de vertigem e um vazio suspenso à espera de um impulso nosso.

Em 1912, no seu artigo “A Nova Poesia Portuguesa no seu aspecto psicológico”, para a revista A Águia, Pessoa classifica Cesário como um dos criadores da poesia objetiva e, em 1916, como pioneiro inconsciente do desenvolvimento sensacionista em Portugal. Então, com isso em mente, não teríamos outra opção senão aceitar essa premonição pessoana, cientes de que não se trata nem disto nem do que aqui se encontra, e de que permanecemos muito, muito distantes de tudo, não nos restando outro caminho senão partir, agora, com os versos de Cesário, enquanto essas águas dançam em silêncio à orla durante a jornada noturna. Os heterônimos de Pessoa, encantados pelo poeta, oferecem o devido tributo a Cesário. Murmúrios e som fresco.

Às vezes, a maior gentileza que podemos oferecer aos que partiram é deixar suas histórias e seus testemunhos sem conclusão. Quem pode realmente saber o que pensavam ou desejavam? Apenas nossa respiração os acompanhava. Quem realmente se conhece por completo? Estamos sempre em uma dança com nossa própria sombra. Quantas coisas a música sugere e sabemos que não podem ser! Somos a própria escuridão. Quantas lembranças a noite traz que nos fazem chorar, mas que nunca aconteceram! Nosso coração não precisa ser machucado por ele mesmo. Voz solta na tranquilidade, a onda se desenrola, quebra e esfria, e há um som suave ao longo da praia. Estamos apenas sozinhos, agora, e devemos manter o mistério intacto disso como uma forma de dizer que somos mais do que podemos saber sobre nós mesmos. Bernardo Soares traz o seu testemunho:

 

[…] Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas.


E quanto morro também quando sinto por tudo, como Soares, ao ler Cesário, enquanto espero, sem esperança, vendo as formas imaginadas de seus versos com a mesma precisão com que capturo as concretas, sendo, linha a linha, o professor e o aluno. Quanto sinto quando assim erro, etéreo e humano, com o corpo suspenso de praia, ciente de que não há espaço para mim em espaço nenhum e que o amor é uma dádiva que virá algum dia, talvez, naturalmente. Quando me inclino sobre meus sonhos, é sobre qualquer coisa que me inclino, e todo o oceano de tudo, na noite em que vivo, ritma seus chascos e morre no meu percurso à beira-mar. Neles, ninguém precisa de mim. Se observo a vida passar, imagino qualquer coisa e chega-me a solidão dos versos de Alberto Caeiro:

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente.

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

 

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...


E ponho plantas em jarros, sozinho, estou completamente sozinho, mas sinto haver mais alguma coisa… Sinto. Estou sozinho com o pecado original, completamente sozinho comigo mesmo, nessas horas demoradas e vazias, por onde me escala do espírito à mente a melancolia de todo o ser, a tristeza de tudo ser ao mesmo tempo uma percepção minha e algo externo, que não está em meu alcance modificar. Talvez uma noite dessas, às dez horas, o amor apareça, tudo exploda e algo se ilumine dentro de mim. Quantas vezes os meus próprios sonhos se materializam, não com o intuito de substituir a realidade, mas para me revelarem suas semelhanças, ao me recusarem, ao aparecerem para mim a partir do exterior. Menos sofrimento, mais felicidade, ao cair da noite, ao acender das luzes nas grandes cidades. 

Não quero esquecer o que leio, mas também não quero deitar tudo isso no papel, não agora, embora eu seja o único capaz de narrar o que acontece quando tudo vai embora, sobretudo no momento em que o amor chegar e me consumir com a sua mão de mistério a dissolver o enigma de todas as coisas. E a solidão sempre vem, e tenho a sensação de que tudo já me aconteceu antes, há muito tempo. E não há nada. E há tudo. E já não consigo me lembrar de onde moro. E, se algo vier, será o amor pelo mestre Cesário ao brado de Álvaro de Campos:


E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!

Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,

Ó do “Sentimento de um Ocidental”!


Em cada rua, futuros casais passam por ali, parceiros de alfaiataria passam por ali, jovens apressados ​​em busca de prazer passam por ali, aposentados fumam cigarros em seus passeios habituais, e vagabundos preguiçosos que administram lojas atrás de alguma porta prestam pouca atenção. Seguimos pela liberdade por causa da liberdade, em particular e através de condições específicas. Ricardo Reis dedica as obras de Alberto Caeiro a Cesário. Para ver seu rosto, penso. E, assim, descobrimos que a liberdade que desejamos depende inteiramente da liberdade dos outros e que a liberdade dos outros depende da nossa própria. Saio para caminhar à noite, perambulando pelas ruas, lentamente, com força, fracamente, como os recrutas que caminham em grupos, como os sonâmbulos, às vezes muito barulhentos, às vezes mais do que barulhentos, não podendo fazer da liberdade o meu destino, a menos que eu faça da liberdade dos outros o meu destino.

A realidade só pode ser vista da perspectiva que cada um ocupa, fatalmente, no universo. Jacinto de Prado Coelho classificou Cesário como um pintor de atmosfera, Eduardo Lourenço o chamou de anjo moderno, e Eugênio de Andrade sentiu-se mais em dívida com ele do que como um sucessor. Embora compreendesse que, se me aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. Até as menores, mais simples, insignificantes e despercebidas coisas, quando vistas pelos olhos de Cesário, tornam-se grandiosas e complexas, especiais, observáveis, contemplativas e uma fonte de inspiração. Que este e este são correlacionados, e, como a realidade não pode ser inventada, a perspectiva também não pode ser falsa.

Aliviado por ter evitado a crise, suspiro, percebendo que nada mais me impediria, nem aquelas pessoas que aparecem por aqui de vez em quando, manifestando, como Cesário, a realidade objetiva do dia a dia, poeticamente. Não é o segundo do medo ou da falsidade; eu nunca conseguiria ser assim. Não há muitos carros a essa hora. Há uma paz de angústia no meu espírito, e minha tranquilidade é feita de resignação. Imagino  as cestas de verduras, as frutas, as madeiras, as ferramentas de carpinteiro, as ruas de Lisboa, as vitrines e as manhãs e noites movimentadas, iluminadas por lampiões a gás, que ganham beleza e significado nos versos de Cesário. Sou retirado da masmorra negra da minha consciência e passo a ser um integrante do poeta.

Hoje, todas as barreiras desapareceram, e vejo a vida como uma grande página reluzente e vazia. Coloco tudo nela, arrisco-me. Todas as coisas de outrora sumiram, nenhuma delas significou nada, todas sem relação com meus sentimentos, indiferentes ao meu próprio destino, inconscientes. Quando o acaso atira uma pedra, o reflexo da voz desconhecida, vivo a salada coletiva da vida, tratando todas essas coisas em linguagem simples, consistente e geral, com impressionante precisão. Talvez seja ruim, num primeiro momento, mas é a única forma de fazer algo. Cesário foi comerciante e imenso poeta. Seus versos são o fio o qual me agarro enquanto busco a saída desse labirinto, inexistente, ainda que ninguém me espere do outro lado. Alguém disse que as figuras dos sonhos têm os mesmos relevos e contornos que as figuras da vida. E eu amo isso, vivendo com os versos de Cesário, seus versos que crescem e, se crescem, é porque nascem brotando em outros versos, tornando-me outro, a cada segundo, alguém que sonha entre alguma coisa e outra a correr além.


sexta-feira, 13 de junho de 2025

A sombra assinada: Pessoa em estado de Soares

Crio como quem sorri com os lábios cerrados. Há leveza no gesto, mas o peito range, ameaçando partir-se em lascas, como porcelana que cai sem aviso. Cito, de memória errante, Bernardo Soares, essa sombra delicada que Fernando Pessoa deixou inacabada no canto da alma. Não é um outro inteiro nem um mesmo disfarçado. É um pedaço arrancado, uma parte que lateja fora do corpo original. Pessoa chamou-lhe semi-heterônimo — nome preciso para o que pulsa sem se completar, para o que lembra, mas não se confunde. Fragmentado, Soares é esse sopro que quer ser inteiro e ao mesmo tempo foge disso. Um reflexo trêmulo, uma ausência presente que denuncia, no avesso, o próprio autor.

À semelhança de seu criador, Bernardo Soares vivia sozinho em uma morada alugada, próxima do ofício cotidiano, em Lisboa. Mas essa proximidade com o mundo terminava aí. Pessoa não era um homem entre outros. Era um campo de vozes. O poeta não via o absurdo como algo externo: ele se reconhecia nele, como se fosse feito da própria matéria do desajuste. Se houve unidade em sua figura, foi apenas a de um enigma que se ergue sobre si mesmo.

Seus heterônimos não nasceram do acaso, mas de uma inclinação íntima à metamorfose, à arte de parecer outro sendo ainda ele. Para Pessoa, fingir era menos disfarce do que desdobramento, um modo de explorar a vastidão interior que jamais se reduz a um só nome. Ao multiplicar-se em personas, não escapava de si, apenas redesenhava seus contornos, tocando e recusando sua essência ao mesmo tempo.

Quando abandona o verso e adentra o território da prosa, Fernando Pessoa se vê diante de um embate mais sutil e exigente. Na poesia, o desdobramento em vozes alheias ocorre com certa naturalidade. Os heterônimos emergem quase como máscaras que se moldam ao rosto do poeta, permitindo-lhe desaparecer enquanto fala por outros. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro são desdobramentos do mesmo centro, mas com traços tão definidos que parecem existir por conta própria, alheios ao poeta que os concebeu.

Na prosa, porém, o jogo se complica. Ali, a linguagem não oferece o mesmo véu simbólico; exige continuidade, corpo, estrutura, e isso obriga Pessoa a confrontar-se mais diretamente com sua própria presença. Sem o ritmo do poema para camuflar a origem, cada palavra retorna ao autor, que já não consegue ocultar-se com a mesma leveza. O espaço da prosa revela não apenas os personagens, mas as fissuras internas de quem os escreve.

A narrativa, para Pessoa, é uma forma de claustro; nela, a linguagem não o protege, mas o expõe. Ao contrário do verso, que lhe oferece fuga e transfiguração, a prosa exige permanência, revelando traços seus que talvez preferisse manter à sombra. Tanto ele quanto Bernardo Soares carregam a mesma inadequação profunda diante da vida concreta, um desalinho com a verdade sensível do mundo, que retorna como peso e não como experiência.

Nas cartas, esse mal-estar se deixa entrever com frequência. A Casais Monteiro, Pessoa descreve o modo como distribuiu suas possibilidades por entre os heterônimos: entregou a Caeiro a sua vocação para o despojamento instintivo e a encenação natural; a Reis, a disciplina do pensamento, temperada com a cadência que lhe era própria; e a Campos, o excesso de sentir que jamais ousou atribuir a si ou ao real. O fingimento, confessava, era mais fácil em verso, talvez por ser mais íntimo da invenção que da memória.

A incorporação de Bernardo Soares não se deu de forma abrupta, mas foi se insinuando gradualmente, como uma estratégia sutil de apagamento. O Livro do Desassossego, em suas primeiras aparições, ainda levava o nome de Fernando Pessoa. Eram textos fragmentários, de tom ensaístico, voltados à contemplação estética e à especulação abstrata. Contudo, à medida que o diário começava a infiltrar-se nas páginas, o autor recuava silenciosamente, cedendo espaço ao que viria a ser o seu semi-heterônimo.

Não foi uma decisão deliberada, mas uma consequência inevitável. Pessoa se deu conta de que a obra escapava ao controle inicial. Não era mais um exercício intelectual, mas um corpo em mutação, atravessado por inquietações que exigiam mais do que análise: pediam entrega. O que começou como um projeto estético tornou-se um espelho torto da existência, convocando um tipo de sinceridade que ele, como Pessoa, talvez não pudesse ou não quisesse sustentar. Assim nasceu Soares. Não como criação, mas como necessidade.

Em carta a Armando Côrtes-Rodrigues, Pessoa descreve o avanço da obra como uma enfermidade lenta, que se movia por dentro dele com ramificações densas e tortuosas. O Livro do Desassossego parecia crescer à revelia, como se tivesse vontade própria, uma matéria viva, inacabável. Incapaz de dar forma definitiva ao que acumulava, o autor adiava sistematicamente qualquer tentativa de organização. As tarefas se empilhavam no tempo futuro, onde jamais seriam cumpridas.

As páginas, mais do que textos, tornaram-se território de hesitações, anotações à margem, interrogações espalhadas, ideias partidas. Em vez de respostas, multiplicavam-se os fragmentos. Ainda assim, Pessoa seguia acrescentando trechos, num gesto insistente e incerto, como quem adia o fim na esperança de um dia ordenar o caos — ou pelo menos compreendê-lo.

O fracasso em concluir a empreitada acabou gerando uma obra sem forma fixa, irregular, mas justamente por isso singular, múltipla em tons, vozes e intenções. O Livro do Desassossego não se fecha nem se define, permanece aberto, cambiante, feito de sobras e lampejos. Bernardo Soares o nomeia com precisão: uma “autobiografia sem fatos”, escrita não para narrar eventos, mas para expor o ruído interior de quem escreve.

Na tentativa vã de impor ordem ao caos que compunha o manuscrito, Pessoa acabava por reconhecer que aquela desarticulação não era um defeito, mas um reflexo, a própria imagem do autor que oscilava entre delírio e lucidez. Em carta a Casais Monteiro, admite essa propensão constante a mudar de rosto, a forjar versões de si como quem veste disfarces. Fingir, para ele, era menos artifício do que instinto, um modo de existir por meio da multiplicação. O livro, assim, não falha: apenas se confunde com aquele que o escreveu.

Ao se transfigurar, ele se desfazia; ao fingir, por paradoxal que fosse, tentava reunir os cacos. Ricardo Reis, em sua serenidade composta, observava que se pode falsear sem engano, que o ato de fingir, longe de enganar, é um modo de distinguir-se, de se delimitar. A descontinuidade, então, não seria um erro ou desvio, mas a própria expressão do ser que Pessoa encarnava? Sua obra, estilhaçada e contraditória, não seria o espelho mais fiel de uma identidade feita de fendas?

Bernardo Soares lamentava, com certa inveja, os que sofrem de maneira contínua, pois esses, dizia ele, permanecem inteiros, mesmo quando dilacerados. Sofrem com uma só dor, acreditam sem fé firme, vivem sem se deixar prender pelo labirinto das ideias. Em Pessoa, ao contrário, o sofrimento se dividia em mil vozes, e nenhuma bastava. Seu sistema de criação — a proliferação dos heterônimos, a recusa de uma só forma — não foi apenas um artifício literário, mas um modo de existir em ruína. Criar, para ele, era tanto abrigo quanto abismo.

Na arquitetura precisa com que moldou seus heterônimos, Pessoa operava quase como um engenheiro da alma, traçando biografias, inclinando preferências, modelando estilos com rigor quase matemático. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro: cada qual carregava uma existência inteira, autônoma, cerrada em contornos firmes. Mas esse método se desfaz por completo diante de Bernardo Soares.

Soares não surge da estrutura, mas da falha; não nasce de uma figura plena, mas de uma ausência difusa. Não há grandeza em sua forma, há esvaziamento. Enquanto os outros habitam mundos próprios, ele se arrasta dentro de um só, onde tudo é incerto e instável. É no vacilo, na fragmentação, no descompasso interno que se ergue. E é justamente essa falta de definição que dá ao Livro do Desassossego sua força: uma obra onde a coerência é recusada, não por incapacidade, mas por convicção. A criação, aqui, nasce do informe.

Trata-se de uma obra em que o poeta se transforma em campo de observação, exceto quando tenta alcançar o núcleo da própria identidade, onde tudo escapa. Ali, o gesto é o de dissecar a experiência humana como quem extrai o que é comum da matéria íntima, com a precisão de uma lâmina que aparasse o excesso sem hesitação. E isso causa espanto. É uma forma de criação que mergulha justamente naquilo que mais escorrega entre os dedos — o eu.

Ao invés de construir um retrato fixo, o autor lança sua atenção sobre os desvios, sobre os estados interiores que ondulam. Arrisca pescar, do emaranhado da sua própria vida, impressões que talvez ressoem em outros, não como verdade compartilhada, mas como hipótese sensível. O que oferece ao leitor não é certeza, mas uma abertura, um convite àqueles que conseguem, por instantes, habitar o que não lhes pertence e sentir por dentro o que nasce da dor pensada.

A obra se oferece, muitas vezes, como um exercício de criação sobre a própria criação, um espelho inclinado que reflete tanto o que já foi feito quanto o gesto de fazer. É como se projetasse um cenário alheio, uma paisagem que não lhe pertence, apenas para que o autor possa habitar outras formas, experimentar outras vozes, multiplicar-se sem amarras. Às vezes, esse artifício de estrangeiridade é apenas um disfarce, um modo de se ocultar para aparecer mais livremente.

Cada fragmento que a compõe assume o lugar de um ensaio de sentido, onde o cotidiano — essa matéria crua, desatenta — é submetido a um trabalho de extração, de lapidação interior. O que parece insignificante se revela, aos poucos, alicerce de algo maior, como se o que sustenta a existência estivesse escondido na superfície mais simples. Há, em tudo, a presença daquele que passou a vida a examinar-se com minúcia. E é esse olhar atento, paciente, quase clínico, que continua pulsando, pronto para emergir, de novo, toda vez que uma página se abre diante do silêncio.

Embora partilhe com o autor a rotina solitária e o ofício silencioso de tradutor e escrevente, Bernardo Soares não se distingue apenas por esses paralelos de superfície. O que realmente o torna uma figura singular dentro do universo pessoano é a maneira como se dissolve e se recompõe em sua escrita, um sujeito que, como o próprio Pessoa, parece existir em estado de fluidez contínua, sem contornos fixos.

Sua voz não se firma: escapa, desdobra-se, contradiz-se. Há nele uma pessoalidade rarefeita, quase impessoal, como se a identidade fosse mais um ponto de vista provisório do que uma essência. Nesse campo movediço, Soares não apenas se aproxima de Pessoa, talvez o dissolva. Ambos compartilham uma forma de ser em que a própria experiência é colocada sob suspeita. Não se reconhecem como donos do que vivem, mas como produtos instáveis de percepções transitórias. Para Soares, ser é estar à mercê do que se sente, e nem mesmo isso lhe garante qualquer convicção duradoura. A única estabilidade possível é a dúvida sobre o próprio existir.

Jorge de Sena jamais encontrou Fernando Pessoa em vida, mas, após sua morte, dirigiu-lhe uma carta. Nessa escrita póstuma, não lamenta com pesar absoluto a ausência de um encontro real. Pelo contrário, reconhece que, se tivesse conhecido o homem por trás dos nomes, talvez restasse apenas a curiosidade satisfeita, e, em troca, perderia algo maior: a potência das figuras que Pessoa criara, dotadas de uma presença tão vívida quanto ilusória. Se tivesse visto de perto o autor, talvez não mais visse, com tanta nitidez, Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos como seres carregados daquela intensidade quase concreta que o espírito do poeta, justamente por não ter forma definida, fora capaz de lhes atribuir.

A verdade que Sena captou é esta: a incessante capacidade de Pessoa para se reinventar, criando múltiplos poetas e escritores fictícios, era uma resposta inquieta à solidão e ao vazio que sentia tanto dentro de si quanto no mundo que o cercava. Mais do que uma simples pluralidade de personagens, havia ali um esforço contínuo de edificar e explorar sua própria consciência fragmentada. Sena percebeu que, mesmo quando assinava seus escritos com seu próprio nome, Pessoa não deixava de assumir um papel heterônomo. A persona que se apresentava era apenas mais uma das muitas facetas que compunham seu ser complexo e multifacetado.

domingo, 24 de novembro de 2024

Tudo isso é o rio dos destinos, é a música da vida


Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego, após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado — eis o que era o seu propósito.


Alemão naturalizado suíço, Hermann Hesse (1877-1962) se tornou uma grande descoberta literária, com obras como Demian (1919) e O lobo da estepe (1927), onde a obstinação e a rebelião se manifestam contundentemente. O vínculo gerado tanto pelo jovem turbulento da primeira obra quanto pelo adulto determinado da segunda era inegável. Nossa própria natureza indomesticável se via refletida nas personagens. Porém, Hesse também contribuiu para a maturidade por meio de obras como O jogo das contas de vidro (1943), que explora a procura pelo saber até a ancianidade de seus personagens, destacando-a como o verdadeiro traço da orientação do homem. Assim, Hermann Hesse ganhou notoriedade entre os adeptos da contracultura, sendo visto como um dos seus mentores. Com uma natureza insubmissa e um forte espírito contestador, o autor mostrava também um profundo interesse por experiências esotéricas, sobretudo após sua jornada à Índia em 1911, que o levou a se aprofundar na mística hindu. Sua influência se estendeu por todo um período, com suas obras sendo frequentemente encontradas nas mochilas de viajantes nos anos 60 e 70.

Sidarta (1922) é uma obra extraordinária que atrai diversos leitores, mas desperta uma curiosidade particular em dois grupos. Primeiro, é claro, entre os fãs de seu criador, Hermann Hesse. Em segundo lugar, aqueles que se interessam pelas ideias do oriente ou pela crescente influência dessas maneiras de vivência no mundo do ocidente contemporâneo. Hesse tem uma sensibilidade poética e é profundamente atravessado pelos temas que aborda. O seu vínculo com a filosofia indiana é repleta de ternura, porém ele não se subordina a seus pensamentos. O seu propósito não é afirmar a superioridade de um pensamento sobre o outro, mas explorar as lições que cada campo do conhecimento consegue oferecer.

Sidarta narra a jornada de um jovem indomesticável que alcança o saber na idade avançada. Quando, entre os pensadores ocidentais, possivelmente apenas Arthur Schopenhauer (1788-1860) atentara à reflexão clássica indiana, a obra descreve a busca da protagonista pela consumação completa na qualidade de indivíduo — aquilo que os hindus conhecem como Irradiação, a experimentação da união do sujeito com o Todo. Essa foi a grande proeza de Siddharta Gautama, o verdadeiro Buda, que renunciou às questões mundanas, atingiu a Luz e ofereceu o restante de sua vida a mostrar o curso da existência àqueles que o seguiram. No entanto, o Sidarta de Hermann Hesse não narra a vida do verdadeiro Buda, que aqui aparece simplesmente como um personagem acessório. Esse herói é um Sidarta diferente, cujo caminho apresenta algumas similaridades com o de Gotama, mas também divergências intensas e importantes.

Ambos os Sidartas descendem de famílias privilegiadas e compartilham idêntico propósito: alcançar a Luz. Entretanto, suas inspirações e caminhos são distintos. Gotama é filho de um monarca que o envolve em júbilos, tentando protegê-lo do tormento inerente à vida humana. No entanto, o jovem acaba encontrando a enfermidade, a passagem do tempo e o perecimento da matéria, decidindo deixar o lar para uma jornada transcendental. Por outro lado, o pai de Sidarta de Hesse, um brâmane, oferece-lhe uma educação religiosa já na infância. Sidarta, porém, percebe que a transcendência não está em acumular saber, mas em vivenciar plenamente a experimentação — assim, também deixa o seu lar em busca de significado. Para Buda, o ponto central é a suplantação da dor; para Sidarta, a problemática está na insuficiência das doutrinas religiosas, incluindo a do próprio Buda. 

Como Buda, Sidarta vira um samana, um abdicante que leva uma existência itinerante, dependendo da caridade para se sustentar. Enquanto Buda reconhece a futilidade da ascese clássica, que envolve jejuns e punições corporais, e compreende que a transcendência é alcançada por meio da meditação apropriada, Sidarta chega à conclusão de que as doutrinas são inúteis, incluindo as de Buda. Aqui, fica evidente que o autor não planeja apresentar ou simplificar a filosofia indiana; ao contrário, ele busca um diálogo crítico com essa tradição. Essa ênfase na vivência direta, em contraste com o ensino acadêmico, reflete o espírito do movimento hippie, que, influenciado por essa ideia, originou a contracultura. Esse embate é evidente em uma conversa entre Sidarta e Buda, onde o primeiro atesta as conquistas do segundo, porém contesta a eficácia de seus ensinos, afirmando que ninguém alcança a salvação por meio da doutrina.

Sidarta afirma a Buda que nenhuma pessoa pode expressar em palavra ou doutrina o que acontece consigo durante sua transcendência. Depois, ele questiona, de forma desafiante, que existe uma lacuna neste ensinamento, por mais distinto que ele se apresente. Não podemos compreender o mistério daquela experimentação vivida por Augusto, que foi única entre todos. Se a doutrina não proporciona essa compreensão, o que poderá oferecer? Sidarta intui que essa compreensão é alcançada por meio da experiência real. Seu objetivo é eliminar o ego. Ao longo de sua jornada, ele absorve diversas experiências novas. No entanto, percebe que, quanto mais se esforça para se desvincular do Eu, mais acaba retornando a ele. Surge, então, a dúvida sobre estar realmente avançando ou se apenas se ilude ao buscar o fundamental, a Verdadeira Senda. Assim, conclui que não há aprendizagem, só conhecimento. 


Sidarta acabava de abandonar o último mestre que surgira no curso da sua jornada; abandonara também a ele, o mestre supremo, o mais sábio de todos, o Santíssimo, o Buda. Fizera-se necessário distanciar-se dele. Já não fora possível aceitar os preceitos de Gotama.


[…]


“Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo. Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!”


Após seu diálogo com Buda, ele decide deixar a busca pelos samanas e retorna à vida comum, proporcionando a si mesmo uma forma de transcendência inversa, um levantar para o universo palpável, apreciando o encantamento e os prazeres físicos. Seus novos mentores — um negociante chamado Kamasvami e uma cortesã chamada Kamala — o instruem sobre como adquirir riqueza e desfrutá-la em busca do prazer contínuo. Com o passar dos anos, a visão de negócios de Sidarta se torna cada vez mais aguçada. Em pouco tempo, ele acumula uma grande fortuna e se entrega aos prazeres da vida, como jogos, bebidas e festas, tendo ao seu alcance tudo o que o universo corpóreo pode oferecer. Contudo, Sidarta se sente desvinculado dessa realidade, ciente de que tudo não passa de uma ilusão. À medida que ele se aprofunda em bens materiais, a insatisfação cresce, e ele se vê preso em uma roda de descontentamentos, tentando se libertar por meio de jogos de azar, excessos de bebidas e relacionamentos efêmeros.

Embora tenha atingido a riqueza e se sinta afortunado, logo cai em prostração. Vagar no Sansara, na quimera do universo sensório, é, no entanto, uma fase basilar para o conhecimento existencial, longe das ilusões das filosofias. Sozinha, a busca mística não é capaz de sobrepujar o domínio dos sentidos. Esse é um mote presente em toda a produção de Hesse. Ele busca a pureza da alma, porém sua lealdade primordial é à progenitora, à corporalidade com a qual a alma mantém um vínculo inviolável. Compreender a uniformidade deste dualismo e dessa contradição intransigente é a maior provocação enfrentada por cada buscador — e a contribuição a esse entendimento é a herança central deixada pelo autor.

Subsiste em nós uma desordem, subsistem os vácuos que, por vezes, nos levam para os perigosos percursos do vazio. A potência do Despertar, entretanto, restitui nossas potências. O verbo do Despertar é mais amplo: é centro de força. O verbo do Despertar é uma tempestade prestes a se formar. Temos, no excerto em alusão, uma ideia de que o pensamento é um procedimento sempre tortuoso e confuso. Hesse, nesse sentido, questiona, ao longo da obra, em que proporção a linguagem e o pensamento estão entretecidos. Subsiste um pensar antes da linguagem? De largada, é praticamente unânime sustentarmos a ideia de que não existiria linguagem sem pensamento (e vice-versa). Mas o que nos declara Hesse? Quais seriam as especulações que poderiam ser empreendidas? Haveria um pensamento antes do pensamento? Qual seria o compasso disso? Todas as reflexões e mais algumas estão em pauta. 


Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana.


[…]


Uma ideia. Pois não. Confesso-te meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e ideias.


Hesse não faz concessões quando se trata de raciocínio. Não existem saídas rápidas, como afirmam os respeitáveis filósofos. A urgência consiste na ação do pensamento em si. Quem organiza a desordem? De acordo com Theodor Adorno (1903-1969), se analisarmos a influência crucial do inconsciente na criação — que por muitas vezes é mais eloquente do que o pensar consciente —, podemos arrematar que é o inconsciente que confere coesão ao material ainda não verbalizado. A estrutura física capta sensações dispersas, a inteligência gera cortes de visões tumultuárias, e é o inconsciente que harmoniza cada um desses componentes tangíveis. A linguagem, contudo, estrutura a ação mesma do inconsciente.

Em Sidarta, Hesse explora temas como a busca pela iluminação espiritual e o autoconhecimento. Ele experimenta o ascetismo, o prazer material e até a vida de um homem comum, plasmando a ideia de que o caminho para a sabedoria é individual e ultrapassa doutrinas fixas. A jornada de Sidarta sugere que o entendimento verdadeiro e a paz interior não vêm de seguir regras ou gurus, mas de se abrir à experiência direta da vida e encontrar a harmonia entre o espírito e o mundo material. Para isso, há um só percurso: a sensibilidade conectada, imersa em profundezas de uma memória emocional. É preciso captar e administrar elementos sensíveis, mesmo sem utilizar linguagens, independentemente de quais sejam, pois, no princípio de tudo, há um deserto absoluto, um abismo total. Trata-se do isolamento fundamental da criação, como mencionaria Maurice Blanchot (1907-2003). Um isolamento cardeal para o autor e para o leitor.

Assim, Sidarta se aventura em profundezas insondáveis, nas nuances ciclônicas, nas amplas indagações iniciáticas, nos labirintos da sedução dramática, no venerável criador do cosmos, nas naturezas vitais da ruína, na hélice persistente da recomposição, nas proscrições estelares, nas forças e intensidades materiais, nas manifestações do que é sutil, no diálogo pleno entre o espiritual e o material, nas sequências sensoriais, na voluptuosidade primordial do clamor do livro. Sidarta imerge, galopeia e drapeja em liberdade, criando nas escritas sistemas geográficos, paisagens da natureza, intempéries narrativas, ecos de desordem e giros pluricelulares.


Em nenhum outro momento se lhe haviam comunicado de modo tão claro e lindo a voz e o símbolo do curso das águas. Parecia-lhe que o rio lhe revelava algum segredo especial, alguma coisa ignota, que ainda o aguardasse. Nesse rio, quisera afogar-se. Nesse rio, submergia o velho, o exausto, o desesperado Sidarta. Mas o novo Sidarta, tomado de profundo amor a essas águas que lá corriam, resolvia não se separar delas por muito tempo.


[…]


Não, o verdadeiro buscador, aquele que realmente se empenhasse em achar algo, jamais poderia submeter-se a nenhuma doutrina. Mas, quem tivesse encontrado alguma solução, seria capaz de aprovar toda e qualquer doutrina, todos os caminhos e objetivos, já que nada mais o distanciaria dos milhares de outros homens que viviam na Eternidade e impregnavam-se do Divino.


Para alcançar a finalidade máxima, os mentores se mostram dispensáveis. Sidarta decide não seguir o amigo Govinda e não se torna seguidor do Buda. Contudo, assim como Buda em sua jornada, ele alcança a Iluminação. Sua lealdade inabalável à própria vivência o leva à mesma conquista, sem dogmas, sem guias. O real mentor de Sidarta, além do apoio do navegante Vasudeva, é o próprio rio. Esse é o ponto central que Hesse quer destacar: tudo ao nosso redor pode nos ensinar, desde que saibamos escutar. Sidarta passa anos observando o rio, enquanto Vasudeva o orienta a desvendar os inúmeros mistérios que essa correnteza sussurra. Durante suas reflexões à beira d'água, Sidarta é assaltado por uma visão: da mesma maneira que o fluxo do rio segue seu caminho até o mar e retorna na forma de chuva, cada estrutura de existência está trançada em um curso eterno, sem um início ou um final definidos. O nascimento e a morte são aspectos de uma totalidade que ultrapassa o tempo. Vida e morte, felicidade e amargura, bondade e maldade — todos esses elementos são segmentos de um todo e elementares para a compreensão do verdadeiro sentido da existência. Após Sidarta absorver os ensinamentos do rio, Vasudeva revela que sua missão à beira do rio chegou ao fim. Ele se retira para a mata e deixa Sidarta encarregado de guiar o barco ao longo do rio.

A narrativa se encerra com o encontro de Sidarta e Govinda. Sidarta percebe que a verdadeira sabedoria não pode ser ensinada, uma vez que as palavras têm suas limitações e não conseguem veicular a totalidade da irradiação. A ironia é que Govinda, que se aplica inteiramente a ser aluno do Buda, não chega à mesma conclusão. Ele acaba se limitando a assumir a vida monástica, sem alcançar a santidade. Para Govinda, o mais gratificante é testemunhar a felicidade de Sidarta, ao ver o sorriso do amigo e entender que o sorriso do todo que transcende a superficialidade das ilusões — o sorriso do sincronismo que ultrapassa os ciclos eternos de vida e morte — era o mesmo sorriso sereno, sutil, talvez gentil, talvez sarcástico, que o Buda exibiu e que ele havia observado com grande respeito por diversas vezes. Govinda entendia que era dessa maneira que as criaturas divinas sorririam.


Certamente refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos. Olha, meu querido Govinda, entre as ideias que se me descortinaram encontra-se esta: a sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice.


Reconhecendo que todos precisam fundar seu percurso individual rumo à transcendência, Sidarta, depois de atingi-la, não tenta professar aos demais ou auxiliar seus pares a alcançarem a mesma redenção, como realizaram Cristo, Buda etc. Ele simplesmente promove seu modesto trabalho como navegante, levando pessoas de um lado ao outro do rio. A real natureza das criaturas magistrais, conforme sugere Hermann Hesse, é a extrema simplicidade. Os ideais do oriente não se configuram como doutrina, que, na verdade, é uma criação grega, ou seja, do ocidente. Muito desse pensamento não valoriza a razão da mesma maneira e não busca compreender e explicar a realidade como fazem os ocidentais desde os tradicionais helenos. Este modo de pensar — especialmente o Budismo — funciona mais como uma prática psicoterapêutica. Sua abordagem é mais voltada para a experiência do que para a teoria. O intuito é curar ou salvar o sujeito; deseja-se remover do espírito a flecha da escuridão e o tormento que o restringe. De fato, a desconfiança quanto à questionável potência das disciplinas é também um hábito budista, ao menos a partir de quando Nāgārjuna refutou coerentemente a viabilidade de uma abstração lógica, num movimento frequentemente comparado ao realizado por Immanuel Kant (1724-1804) em Crítica da razão pura.

Para realizarmos uma introspecção, é necessário ir além do ego, ultrapassando a individualidade e as predisposições genéticas, mergulhando nas profundezas do mundo arquetípico. Hesse acreditava convictamente que conseguimos transformar o mundo ao mudarmos nossa maneira de percebê-lo. A aflição, a desgraça e a deterioração individual surgem da maneira como vivemos a vida, influenciados por nossas posturas e perspectivas deturpadas do mundo. Semelhante aos existencialistas, Hermann Hesse observava o ser humano como refém de suas próprias criações. No entanto, ao contrário de Albert Camus (1913-1960) e Jean-Paul Sartre (1905-1980), ele propunha que a resolução das dificuldades do ser humano poderia ser alcançada por intermédio de um despertar espiritual, que exige uma busca interior. No caso de Sidarta, ele não visa seguir um ensinamento específico. A verdadeira realidade não pode ser aprisionada em conceitos ou ideias, destacando a distinção entre o puro conhecimento e o anseio de aprender. O caminho para a iluminação, em sua visão, é uma trilha solitária e não acessível a transportes públicos. A jornada precisa ser perpetrada individualmente e sem obstáculos, já que a verdadeira ciência não pode ser transmitida.

Os hippies receberam Hermann Hesse com entusiasmo, com sua metodologia de existência que mesclava a ousadia sexual a prazeres sensoriais, bailantes, melodiosos e o enlevo proporcionado por matérias psicotrópicas — tudo isso amalgamado em uma dimensão de reflexão espiritual. Para o movimento hippie, não existia conflito entre desfrutar o mundo material e desenvolver o mundo espiritual. O acento do autor na importância única da vivência pessoal expõe uma perspectiva centrada no indivíduo. O que realmente importa não é o dito, mas o experienciado; do mesmo modo, a importância não está em uma irmandade religiosa, mas em todo o indivíduo. O sentido da vida é uma demanda que tem importância apenas para cada sujeito, como seres únicos que somos; é, portanto, uma busca pessoal, e nem mesmo a figura de Deus é suficiente para englobar a totalidade. Hermann Hesse se mantém inflexível e destemido nessa postura. A salvação é viável, mas é responsabilidade de cada um descobrir seu próprio curso. E esse curso é exclusivo, não podendo ser compartilhado com nenhuma pessoa. 

A valorização da experimentação direta é um dos pilares do Zen. Da mesma forma, os costumes tântricos também reconhecem a importância de diversas vivências, até mesmo as que a religião tradicional poderia rotular como profanas. Portanto, não podemos afirmar que a perspectiva de Hesse seja inteiramente inédita. Na verdade, não é. No entanto, o verdadeiro encantamento de seu Sidarta brilha. Aquilo que nos impressiona é essa natureza sobrenatural, que não existe nas doutrinas e nos tratamentos psicológicos, o encantamento presente nas artes poéticas e literárias. Em última análise, é o encantador entusiasmo de Sidarta que evidencia a real profundidade desta obra brilhante e verdadeiramente extraordinária.


— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres. Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem. Reza ela: “O oposto de cada verdade é igualmente verdade.” Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. Ora de unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade.