quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE

 


Viver é tornar-se outra pessoa. Movimento que decanta no corpo. Sabemos disso, é certo, mas esse não é um caso isolado. Muitos escritores atravessam a vida na obscuridade para alcançar algum reconhecimento depois da morte. Se os sentimentos de um ocidental de hoje são idênticos aos de ontem, eles já não constituem um verdadeiro sentir; são apenas a repetição de vidas passadas no presente, transformando-nos, pouco a pouco, no cadáver vivo de uma vida que já passou, isto é, a primeira aurora do mundo. O poeta Cesário Verde (1855-1886) é exemplo disso. Sua correspondência revela grandes angústias, alimentadas tanto pela ausência de reconhecimento literário quanto pelo incômodo de ser visto apenas como comerciante. Abraçar a nossa natureza imperfeita exige o apagamento dos vestígios do passado, um renascimento a cada alvorada e a restituição da emoção ao seu estado de pureza por meio de uma constante renovação. Até o fim da vida, Cesário continuou a ver a si mesmo como o “Sr. Verde, o comerciante”.

Este anoitecer é o primeiro anoitecer do mundo e, nele, e através dele, lembro-me de quantas vezes Cesário foi acusado de ser influenciado negativamente por Charles Baudelaire e suas Flores do Mal. Ao lê-lo hoje, nunca antes o tom rosado de seus versos mudou do amarelo para o branco quente, pesando tanto sobre as casas, sobre os rostos que confrontam o silêncio que desce à medida que a escuridão aumenta, seus olhos vazios. Mas hoje acordei cruel, frenético, exigente e não consigo tolerar nem mesmo os poetas mais estranhos. Nunca antes experimentei esse tempo, essa luz, esses versos cujos obstáculos nos estimulam e nos transformam. E também sou tomado por uma fria raiva, por ter tido, como Cesário, um poema rejeitado por um jornal. Aconteça o que acontecer, sinto que algo mudará amanhã, e tudo o que vir será visto através de olhos reconstruídos, repletos de nova visão. Mas isso será só amanhã.


Subitamente — que visão de artista! —

Se eu transformasse os simples vegetais,

À luz do Sol, o intenso colorista,

Num ser humano que se mova e exista

Cheio de belas proporções carnais?!


Li que, em 1878, um autor desconhecido criticou o poema “Num bairro moderno”, no Diário de Portugal, chamando Cesário de poeta comum, sem talento e detentor de uma retórica vazia. Às vezes, penso, é necessário manter alguma distância entre as pessoas e as coisas. Incrível. Os altos montes da cidade, as imponentes construções que as encostas íngremes sustentam e embelezam, os prédios amontoados de forma diversa, que a luz pinta com sombras e brilhos, são hoje os versos de Cesário e são, também, eu, porque os tenho sob os olhos, agora, porque os tenho dentro do punho, aqui; são os versos o que serei amanhã, e os amo da borda como um navio que cruza com outro e há saudades desconhecidas nessa travessia. É isso que me faz escrever, com os versos de Cesário, desviando-me, aqui, com imagens que se deslocam ambiguamente, entre a experiência de experimentar e a devoção de dormir.

Muito próximo, e os versos nos eclipsam; muito distante, e eles nos proscrevem, ao cair da noite, às ruas, à taciturnidade, à tristeza, provocando-nos, com suas sombras, um sentimento irracional de sofrer. Em 1873, o jornalista Eduardo Coelho apresentou Cesário aos leitores do jornal Diário de Notícias como poeta e homem de negócios, enfatizando que o jovem alternava entre os negócios e as noites de estudo, mantendo relações apropriadas mesmo quando o céu parecia baixo e enevoado. É espantoso como, mesmo após anos, pedaços dos versos de Cesário, que antes não foram descobertos, são expostos, agora, qual investigação arqueológica. O gás que se espalha pelo ar enjoa e incomoda, e os edifícios, com suas chaminés, assim como a multidão, adquirem uma tonalidade monótona e típica de Londres. Tudo isso são coisas da fala no simplesmente ser escuta, traçando a prévia da intensa mãe do início do sentir, partir e parir, a linguagem, ou seja, a constante revelação poemática. Há muito a descobrir e compreender.

Todos os pensamentos que deram vida à humanidade e todas as emoções que a humanidade jamais experimentou percorrem minha mente durante esta meditação que empreendo enquanto caminho pela praia, como um resumo sombrio dessa história que hoje me assalta. Silva Pinto, em carta a Manuel de Arriaga, que seria publicada no Diário da Tarde, escreve sobre Cesário, apresentando o poeta como um ser único, pensante e sofredor, à deriva neste velho mundo em que muitos sofrem e poucos refletem. Com isso em mente, caminho só pela praia à noite, vivenciando um tempo desconhecido, uma série de momentos desconexos, sem nada dizer, consciente de que toda a sabedoria que surge dos versos de Cesário nasce do espanto, enquanto táxis chacoalham ao fundo, levando passageiros que partem para o trem, e eu também queria partir, ir embora para algum lugar onde fosse realmente o meu lugar, onde conseguisse me encaixar, talvez Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo (qual?), pois olho ao redor e uma sensação de extrema náusea me sobrecarrega.

Digo um sorriso forçado e experimento em mim, comigo, os anseios de todos os tempos, de todos os versos, e comigo andam, como o brilho dum arrebol em vestes coloridas, à orla sentida do oceano, as inquietações de todas as eras, inclusive os versos de “Esplêndida”, lançados em 1874, no Diário de Notícias, que causaram enorme escândalo e fizeram surgir a fala de Ramalho Ortigão, dizendo que o poeta estava se tornando cada vez menos verde e cada vez mais Cesário. Metamorfoses e sonhos. O que os homens desejaram, mas não realizaram, o que foi destruído no instante de sua execução, e o que as consciências experimentaram sem que ninguém se manifestasse, tudo isso deu origem à mente atenta com a qual caminhei à noite à beira-mar, com seus versos, Cesário, essas negras panteras cuja espuma cobre e que atravessam em velocidade a rua, tão rápidas como uma epidemia, que atravessam e me atravessam por amor, para além de qualquer bem ou mal. Aqui, o que os amantes nunca confessaram um ao outro, os segredos que as mulheres ocultaram de seus maridos, os pensamentos que as mães guardaram sobre os filhos que não vieram a existir, os sentimentos que se esconderam em sorrisos ou em ocasiões perdidas, em tempos que não chegaram ou emoções que nunca floresceram — tudo isso, durante minha caminhada junto ao mar, foi comigo e voltou comigo, de olhos fechados, a sonhar, chamando como um turbilhão as marés que subiam e desciam intensamente a companhia que me colocava a sonhá-las, recordando-me, então, todas as histórias marítimas de invasores, saqueadores, corsários, embarcações, valentes, Camões no sul, nas águas, salvando seu livro, e majestosos navios a navegar, navios que nunca verei, cujas estruturas, feitas todas de madeira, lembram viveiros, gaiolas.

Somos aqueles que não somos, e a vida é imediata e melancólica, como a obra de Cesário, e ela salta, de viga em viga, quando os sinos dobram, qual morcegos. Teófilo Braga, ao se dirigir a Henrique das Neves, afirmou que um poeta contemporâneo é alguém que trabalha arduamente, com força e dignidade, e não deveria se humilhar a ponto de ocupar o mesmo nível que os lacaios. O ruído das marés à noite também é um ruído da noite, e, abalado pela escuridão, passo a duvidar de tudo, inclusive dos versos que leio e do entendimento crítico, enquanto os calafates retornam, em grande número, com o jaquetão ao ombro, cheio de sujeira seca. Sim, passo a duvidar agora e me parece que Teófilo Braga não compreendeu a ironia e o realismo psicológico presentes nos versos de Cesário Verde; parece-me que nem todos sentiram os versos na própria alma, como a esperança contínua que se fragmenta no silêncio com um ruído inquieto de abissal espuma. Neles, esplêndidos, perco-me em sonhos, atravessando largos e estreitos ou vagando pelo cais, à noite, onde se encostam pequenos barcos. Cesário empregava, em seus versos, a vulgarização para evidenciar as barreiras de classe e a humilhação sentida pelas pessoas comuns diante da alta burguesia. Neles, 


[…] daria, contente e voluntário,

A minha independência e o meu porvir,

Para ser, eu poeta solitário,

Para ser, ó princesa sem sorrir,

Teu pobre trintanário.


E aos almoços magníficos do Mata

Preferiria ir, fardado, aí,

Ostentando galões de velha prata,

E de costas voltadas para ti,

Formosa aristocrata!


O amor, lê-se, é o incêndio de perpetuidade do ser amado, mas Teófilo Braga interpretou a poesia literalmente, vendo nela apenas uma falta de dignidade masculina e cívica, atributos impróprios para um “poeta moderno”.

Sinto as lágrimas derramadas por aqueles que alcançaram os versos de Cesário, e as lágrimas vertidas por aqueles que obtiveram algum sucesso com eles. Eu, que outrora fui um jovem brilhante e corajoso, sinto hoje o peso da idade, o contraste com os dias de juventude. Vejo como a publicação de “Em Petiz”, no Diário de Notícias, em 1879, reacendeu a controvérsia em torno da poesia de Cesário Verde, levando o Diário Ilustrado a satirizar o poema por meio da paródia “Pérolas Realistas”, que criticava a verossimilhança das descrições, a linguagem empregada e o seu suposto valor moral. Trago as marcas da experiência, e todas elas, no calçadão à beira-mar, são para mim o segredo da noite e a certeza do abismo, com as horas a inspirar-me e a desassossegar-me. Ao ver alguns idosos seguindo a vida, ainda impulsionados pela paixão e pela convicção, rio de mim mesmo, daquela versão mais jovem que se enganara tanto a respeito da vida, do amor, da glória, de Deus e de todas as coisas que realmente existem ou que um dia poderão vir a existir. Rio, no calçadão à beira-mar, do navio britânico de onde partem os escaleres. Quantos somos! Em terra, com o tilintar de pratos e talheres, ardem, durante o jantar, certos hotéis da moda. Como nos enganamos! Como nos enganamos!

Nas profundidades dessa noite, onde nos encontramos em meio a um ciclone de sensações, que grande oceano a ecoar a duplicidade da linguagem poética que manifesta a complexidade da vida. É aí que habita seu real valor. Apesar da recepção inicial negativa, a obra de Cesário foi revisitada: Fialho de Almeida, que chegou a preparar um prefácio para uma edição póstuma, destacou a originalidade de sua linguagem e a modernidade de sua sensibilidade poética, considerando-o o pioneiro de um novo modelo da poesia portuguesa. Versos esquecidos. Versos que deveríamos ter almejado. Versos alcançados e concretizados. Versos adorados e depois esquecidos. Todas as visões da linguagem só decifram o que a poesia de Cesário já decifrou e resolveu manter velado. Após sua morte, o Jornal do Comércio reconheceu que, embora tenha morrido praticamente desconhecido, sua obra revelava uma vocação poética única, original e independente.

Valorizamos as coisas por causa de sua ausência. É preciso paciência. Foi apenas com a geração de Orpheu que Cesário Verde recebeu o merecido reconhecimento. Sua obra extrai o seu sustento da espantosa imprecisão da crença de que as coisas podem ser transmitidas através das palavras, e até se alimenta desse próprio estado de estupor, dessa sensação corrosiva de frustração. E algo nasce dessa fronteira; ela não é uma linha a ser cruzada, mas um lugar para esperar e observar, pois é lá que a vida reúne sua maior força. É preciso paciência. Em 1914, Mário de Sá-Carneiro, ao responder a uma pergunta sobre qual seria o livro mais belo dos últimos trinta anos, indica a obra de Cesário Verde, que se apresenta como ondulante de certo, vibrante de Europa, flutuante de Esforço. São reflexões que mesclamos com emoções enquanto experimentamos a intensidade do que seus versos despertam em nós durante a leitura. Trata-se de um processo interminável que exige cada instante das nossas vidas miseráveis. Entre a execução de uma coisa terrível e o primeiro impulso, todo o intervalo é como um fantasma ou um sonho horrível. É preciso paciência.

Guardo as dúvidas sem respostas no coração e me esforço para amar as próprias dúvidas como se amasse um quarto trancado ou um livro escrito em uma língua completamente estrangeira. São memórias que parecem sensações vivas. Fernando Pessoa escreve que existiram em Portugal, no século XIX, três poetas, apenas três, a quem legítimamente cabe o título de mestres. Três mestres, além do mar português, que significa viver tudo.  São eles, segundo o poeta, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Erguendo-se das profundezas da noite convivendo com as minhas dúvidas, na esperança de que um caminho me conduza a alguma resposta, que algo se abra diante de mim, sem que eu perceba. Em outras palavras, a angústia que perpassa a obra de Cesário faz tudo estremecer e cria um movimento súbito e violento, que é subitamente interrompido, deixando para trás uma sensação de vertigem e um vazio suspenso à espera de um impulso nosso.

Em 1912, no seu artigo “A Nova Poesia Portuguesa no seu aspecto psicológico”, para a revista A Águia, Pessoa classifica Cesário como um dos criadores da poesia objetiva e, em 1916, como pioneiro inconsciente do desenvolvimento sensacionista em Portugal. Então, com isso em mente, não teríamos outra opção senão aceitar essa premonição pessoana, cientes de que não se trata nem disto nem do que aqui se encontra, e de que permanecemos muito, muito distantes de tudo, não nos restando outro caminho senão partir, agora, com os versos de Cesário, enquanto essas águas dançam em silêncio à orla durante a jornada noturna. Os heterônimos de Pessoa, encantados pelo poeta, oferecem o devido tributo a Cesário. Murmúrios e som fresco.

Às vezes, a maior gentileza que podemos oferecer aos que partiram é deixar suas histórias e seus testemunhos sem conclusão. Quem pode realmente saber o que pensavam ou desejavam? Apenas nossa respiração os acompanhava. Quem realmente se conhece por completo? Estamos sempre em uma dança com nossa própria sombra. Quantas coisas a música sugere e sabemos que não podem ser. Somos a própria escuridão. Quantas lembranças a noite traz que nos fazem chorar, mas que nunca aconteceram! Nosso coração não precisa ser machucado por ele mesmo. Voz solta na tranquilidade, a onda se desenrola, quebra e esfria, e há um som suave ao longo da praia. Estamos apenas sozinhos, agora, e devemos manter o mistério intacto disso como uma forma de dizer que somos mais do que podemos saber sobre nós mesmos. Bernardo Soares traz o seu testemunho:

 

[…] Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas.


E quanto morro também quando sinto por tudo, como Soares, ao ler Cesário, enquanto espero, sem esperança, vendo as formas imaginadas de seus versos com a mesma precisão com que capturo as concretas, sendo, linha a linha, o professor e o aluno. Quanto sinto quando assim erro, etéreo e humano, com o corpo suspenso de praia, ciente de que não há espaço para mim em espaço nenhum e que o amor é uma dádiva que virá algum dia, talvez, naturalmente. Quando me inclino sobre meus sonhos, é sobre qualquer coisa que me inclino, e todo o oceano de tudo, na noite em que vivo, ritma seus chascos e morre no meu percurso à beira-mar. Neles, ninguém precisa de mim. Se observo a vida passar, imagino qualquer coisa e chega-me a solidão dos versos de Alberto Caeiro:

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente.

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

 

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...


E ponho plantas em jarros, sozinho, estou completamente sozinho, mas sinto haver mais alguma coisa… Sinto. Estou sozinho com o pecado original, completamente sozinho comigo mesmo, nessas horas demoradas e vazias, por onde me escala do espírito à mente a melancolia de todo o ser, a tristeza de tudo ser ao mesmo tempo uma percepção minha e algo externo, que não está em meu alcance modificar. Talvez uma noite dessas, às dez horas, o amor apareça, tudo exploda e algo se ilumine dentro de mim. Quantas vezes os meus próprios sonhos se materializam, não com o intuito de substituir a realidade, mas para me revelarem suas semelhanças, ao me recusarem, ao aparecerem para mim a partir do exterior. Menos sofrimento, mais felicidade, ao cair da noite, ao acender das luzes nas grandes cidades. Não quero esquecer o que leio, mas também não quero deitar tudo isso no papel, não agora, embora eu seja o único capaz de narrar o que acontece quando tudo vai embora, sobretudo no momento em que o amor chegar e me consumir com a sua mão de mistério a dissolver o enigma de todas as coisas. E a solidão sem vem, e tenho a sensação de que tudo já me aconteceu antes, há muito tempo. E não há nada. E há tudo. E já não consigo me lembrar de onde moro. E, se algo vier, será o amor pelo mestre Cesário ao brado de Álvaro de Campos:


E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!

Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,

Ó do “Sentimento de um Ocidental”!


Em cada rua, futuros casais passam por ali, parceiros de alfaiataria passam por ali, jovens apressados ​​em busca de prazer passam por ali, aposentados fumam cigarros em seus passeios habituais, e vagabundos preguiçosos que administram lojas atrás de alguma porta prestam pouca atenção. Ricardo Reis dedica as obras de Alberto Caeiro a Cesário. Para ver seu rosto, penso. Saio para caminhar à noite, perambulando pelas ruas, lentamente, com força, fracamente, como os recrutas que caminham em grupos, como os sonâmbulos, às vezes muito barulhentos, às vezes mais do que barulhentos. Jacinto de Prado Coelho classificou Cesário como um pintor de atmosfera, Eduardo Lourenço o chamou de anjo moderno, e Eugénio de Andrade sentiu-se mais em dívida com ele do que como um sucessor. Embora compreendesse que, se me aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. Até as menores, mais simples, insignificantes e despercebidas coisas, quando vistas pelos olhos de Cesário, tornam-se grandiosas e complexas, especiais, observáveis, contemplativas e uma fonte de inspiração.

Aliviado por ter evitado a crise, suspirei, percebendo que nada mais me impediria. Pessoas comuns aparecem de vez em quando. Cesário Verde conseguiu expressar poeticamente a realidade objetiva do dia a dia. Não era um momento de medo ou falsidade, pois eu jamais conseguiria ser assim com ninguém. Não há muitos carros a essa hora. Há uma paz de angústia no meu coração, e minha tranquilidade é feita de resignação. Em sua obra, vemos cestas de verduras, frutas, madeira, ferramentas de carpinteiro, as ruas de Lisboa, vitrines e as manhãs e noites movimentadas, iluminadas por lampiões a gás, que ganham beleza e significado. Sou retirado da masmorra negra de minha própria consciência e passo a ser um integrante do poeta.

Hoje, todas as barreiras desapareceram. Todas essas coisas sumiram, nenhuma delas significava nada para mim, todas sem relação com meus sentimentos, indiferentes ao meu próprio destino, inconscientes, e, quando o acaso atira uma pedra, o eco da voz desconhecida, vivo a salada coletiva da vida. Todas essas coisas são tratadas em linguagem simples, consistente e geral, com impressionante precisão. Cesário Verde foi um comerciante e um grande poeta. Desvendo os fios que seus versos me dão e encontro a saída do labirinto. Ninguém espera por mim. Alguém, alguém disse, as figuras dos sonhos têm o mesmo relevo e contornos que as figuras da vida. E eu amo tudo isso, vivendo seus versos, tornando-me outra pessoa, com esta obra-prima da poesia portuguesa do século XIX.





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