terça-feira, 25 de outubro de 2022

135.

Ficado para trás por esplendores pousados, com as solenidades marítimas por pedras que não se relacionam comigo, duro muito pouco no equilíbrio da balança que brota com os homens de lá. Diante do mundo, deslocam-se as minhas coisas com medidas da cegueira. Na perfeição há olhares de sol. Aquáticos que no verde rezam para fugir da diluição da transparência. É de uma inutilidade mergulhar os toques. Os silêncios ainda rezam e continuo em azul ao escutar a rapidez com que se deslocam os peixes. A beleza singra solene, inúmera, sem ter forma para chegar ao mundo. E o segredo do nascimento já é a criação do segredo criador.

Isso, indo em vermelho. Algumas passagens imaginadas. Outras tantas recortadas, sempre. A luz do promontório chega pelos rochedos. Pisa o sonho externas elipses da lucidez. E um outro sonho vem, em palavras, de um outro mundo ao lado. Grande silêncio feito nas claridades ouvidas que deixo transparecer por aqui. Aquela mudez falada na superfície da cara. E, como a escrita é do mar, vive-se nas águas, com imagens, sempre em travessia, no caminho dos olhos dos pescadores, em gestos paridos na água e abandonados logo após o ressoar, no deslumbramento de qualquer coisa quando o lugar da vaga tem outras tantas expedições nas expedições minhas.

Assim, herdeiro de grutas e rouquidões, acolho marés que encontro redondas no quarto dourado de antigos poetas, escutando sobre a pedra as areias que dizem algum centro em suas manhãs. Achego-me com meu círculo de ar. Escuto entre as colunas os ruídos do penedo que lampejam em outras grutas e com outras rouquidões o repouso das heranças. Não o deslumbramento dos brancos, mas os espantos. Naquela gruta, o mar foi enterrado pela luz visível do grande terror penetrado dos segredos.

Essas habitações belas que fazem da visão algo do sonho. Olhares ousados que nutrem os imaginados interiores de mais um pensamento deslizável. Os pensamentos estão sobre os ombros. A água sairá um dia da cerca e todas as plantas vão desenhar o roxo das travessias na garganta de pedra. Elas me permitem o labirinto que não tenho e a arquitetura que me cabe. Conjugarei o verde na coluna sombria de mais uma luz e, com isso, polirei o céu e a terra.

Rodeado pelas salas, rumo com os dedos d’água e guardo os toques. Friso areias e semeio flores no fundo. Os olhos hão de correr nas aberturas. E o silêncio, líquido. Traço o verde quando me procuram por lá. Não há outra fuga no arco dos peixes que vazo aqui em desenho. Das aberturas dos espaços, manhã alguma brota. O palácio que habito pisa os reis do mar. Escuto o escorrer da luz. Retumbando, avanço com as águas. Nossa arte é desaparecer a cada manhã.

Os princípios do mundo no olhar entre o vidro das coisas e das grutas: cavar interior, cavar sombrio, entre o aquático azul e as paredes. Pousos rosas e marítimos pairam em silêncio. Espantados círculos e a medusa líquida. O sol sangra. O fosforescer lancina. Cobre-me todo o verde. Irrompimento em abismo. Surgimento das portas e mar exterior se entrelaçam e oscilam e emergem e cantam e fremem rodeando luzes a cada balançar acima.

Aqui definha a lucidez. Aqui o mundo, nos extremos, procria para as palavras, entre o grande silêncio e a clara transparência. Muda é a cara para a superfície ou para a água. As imagens se esfacelam na travessia dos olhos, no ressoar das vagas e no ressoar das rouquidões. A maré ondula no caminho de uma guerra redonda, antiga, na areia dourada entre pedra, no círculo da manhã aérea, ao surgimento pousado. O deserto perdura para além dos fios. Praias invisíveis. Deslumbrante é o espanto da visão, após, no segredo habitado. Nenhuma penetração de fios, e todas elas.

Sem equilíbrio quebra-se a cegueira ou perfeição de encontrar o olhar do sol atrás das águas verdes. Reparte a transparência, mas não parte, não soletra diluídos mergulhos. Deixa-os dormindo. Silenciosamente tocados, mas não tão rapidamente. Ergue tua forma, mergulhando e emergindo o mundo. Busca a pena onde o nascimento secreto, a passagem da criação tangencia a imaginação da luz, o recorte dos sonhos.

Em sonho, em sonho, em sonho, escuta a ousadia olhada, a ousadia imaginada, a ousadia interiorizada, a ousadia pensada do deslizamento sobre os ombros. Acompanha as travessias das gargantas entre as pedras, dando uma nova arquitetura ao labirinto que paira, saudando entre as colunas sombrias a palavra do mundo, da criação em ginga entre a passagem dos toques. Segue a vivacidade da dilaceração, do golpe intelectual, perseguindo a asa da transparência azul, do voo, aclamando magnificamente a esperança. Todas as celebrações são audíveis na região do poema. Em espaço, entre espaço, sobre espaço. Mas, ao fim, renunciando o silêncio, deixa o poema à balança do mistério, à forma espantosa, ao círculo do sal.

Aquática linha. Aquática linha. Vítreo flui o azul em recorte. Promontório algum é aureolado como uma linha. Aureolado. A glória se moverá apenas com a solenidade da manhã nua antes vestida. Aureolados choros esperam. Gratidões esperam. Caras de pedra esperam, esperam. Os grandes poemas sempre esperam. Atrasam-se. Riem. Em vida, em vida, sempre aureolados em movimento. Esplendorosos pousos vêm comigo e comigo se vão, solenemente, em aquática linha, linha, linha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário