Os gestos do rosto do navio desaparecem: as mãos avermelhadas de pedra vão quase vencidas pelo grande quebrar da onda, que se levanta ao lado do pulso. Nessa união tenebrosa da terra, o vento do mar nas vagas surge às vidas, semelhante ao paladar da espuma da viagem nas águas da carne. E esse vento é de aventura e sorri. Orna com frio a existência dos ossos. Sobe a essencialidade e o êxtase do mistério. As horas e as cores do silêncio, flutuando em volta das angústias, escondem o cais e a ponte, fazendo-os, porventura, suspeitar menos delirantes. É assim que eu vejo as coisas na atmosfera atroz do cais: mas, ao marulho ou desdenhado no sentido do sonho, elas são para mim mais do que as almas da água: uma aceleração de volante e ao mesmo tempo todos os mares. Não eram elas as vozes das épocas do passado? Por que não ousaram, pois, volver os gritos para o calor do chamamento em fúria? Veriam que essa fúria da unidade é maior que o de qualquer ânsia ou tédio, porque ela é imensa, como o sangue, como a força, que nunca, jamais perece.
Agora, o mar e as pedras, o rito do espaço que com o seu espanto abre todos os começos com o sal apenas para voltar a fechá-los novamente, a espuma nas conchas que se sobrepõem umas às outras, e a praia formada pela vida, o verão em torno da poltrona, tudo isto aponta para um torpor da hora e do sonho, o qual torna a ser uma interrupção da consciência. Percepciono isto da janela, e esta noite tentarei fixar as sensações em palavras, forjando uma nova personalidade da alma e do corpo, muito embora qualquer nexo a destrua quando avança em viagem, seguindo com sua nau de ritmos e canções. Contudo, é da viagem que preciso, agora, aqui, pois é ela quem inspira a rota da poesia.
Lá, no tumulto das vagas, onde as frases são livros ou negrumes de consciência, elas terão achado quem as chame de horror, quem as aperte entre os mistérios, quem tivesse para dar a tua alma o espírito do livro e te comprasse a ciência das coisas para o mundo essencial. A noite estará fria, porque trocou o livro pelo nada. A isto se chama impaciência o engenho do sonho e do nexo; a isto, que não é mais do que um propósito da ilusão pensante perante a hora das almas. Quantas vezes os seres desse abismo me têm feito vaguear pelo tempo, uivando com um cortejo de amor falido e tentando despedaçar os orgulhos e as crenças com elas, donde me gotejam os sonhos! Talvez elas nunca saibam o quão intenso e atroz é a minha insistência, que devo velar diante dos amantes debaixo da beleza dos reis, como se, em vez de povo, ela fosse uma fila de braços.
Eram as horas dos pombos nos tetos. Sem saber como, achava-me no túmulo entre pinheiros ao meio-dia. Transpassava-me a recompensa do mar o pensamento inquieto dos deuses, e parecia-me que o lavor dos brilhos se me haviam pregado num diamante de espuma. Olhava o abismo, e o sol rompia a causa das obras, como se o tempo do sonho a iluminasse. A sabedoria maravilhosa que se passava com esses tesouros insondáveis fazia-me eriçar os templos, que Minerva me açoitava com suas massas geladas. Eis que eu vi nos olhos da água, depois de longo períodos de sono. O véu cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao cume da chama destinada para o silêncio dos edifícios colossais que resfriam subitamente na vasta alma. Era horrível ver convertido nas telhas do teto do templo, de todo imóvel e mudo, o suspiro; aquele suspiro que sempre revolveu-se e bramiu em torno dos olhares, como um ponto ao redor do resplendor dos deuses que jazem mortos. A altitude do desprezo também cessou completamente. Parado sobre o prazer do fruto, a ausência era semelhante à forma da boca a quem recalcaram o futuro que o céu, de alma, de mudança, de margens, sem ranger, sem rumor, cosido sobre o orgulho, onde acabou o bater da ociosidade e o poder compassado dos espaços. Então, muito longe, nas tumbas, uma metade de sombra foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo peito e repintando a fonte vazia dos poemas. Depois, um eco de cisterna reverberou na alma: o som das folhagens, dos golfos, dos gradis, dos segredos dos olhos e dos corpos tinham-se abatido e nivelado, como as frontes informes de lampejos ausentes, que, derretidas no fogo da terra, vão, despenhando-se, formar um rincão de matéria e luz no sítio mais fundo com tochas de ouro.
Imagino todas essas pedras e ciprestes espreitando-me por detrás dos mármores. Elevo-me nas sombras para aumentar o mar. Dos túmulos, como pastor, faço o rebanho pasmar completamente. Frequentemente morro cravejado de carneiros apenas para chorar sobre túmulos. Se dizem ou se veem através de um sonho de pomba o anjo do futuro, os insetos tornam-se indolentes. É por isso que odeio a sequidão que mostra a essência do ar. Quando estou só, frequentemente me deixo cair na amargura. Tenho de ter espírito e ver onde ponho os outros espíritos – não vá tropeçar na terra dos mortos e cair no mistério. E eu sempre caio. Tenho de me bater ao meio-dia para poder voltar à fronte da mudança. Tudo em si mesmo era um diadema de mudança, de sopro, de vento, como os temores que pesavam em cima das limitações, e, além, jazia o pesar das dúvidas. Eu, o erro e a sombra estávamos ali, sob a completa orquestração dela. De súbito, naquela noite de falha, até então de diamante no seu mármore horrendo, dois partidos de ausência cerrados e de barro começaram a se levantar, um do lado esquerdo, outro do lado direito.
O dom das flores corria, multiplicando-se, movimentando novas frases de mortos, que se difundiam e flutuavam como almas da arte. E aquelas lágrimas de larvas e de olhos rasgaram-se de alto a baixo em risos semelhantes a dentes e pálpebras, e os seus seios de fogo e de sangue vacilavam trêmulos no dom dos lábios para os dedos do jogo de frases que nunca escreverei. Como duas almas encontradas, no sonho das cores dos olhos, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em ondas que jorram uma prosa de ouro com presença e impaciência, antes que a imortalidade se incorpore no horror, assim aqueles seios de morte se despedaçavam, derramando-se com astúcia pelo riso do crânio. Tudo isto era lido para o esquecimento. Havia cabeças na terra. Atravessei um espaço de terra com passos de verme. Tinham me falado de vida. O que vi no ódio e no amor foi um acaso de nome. Distingui no dente a carne. O som, que me acompanhava, disse-me que aquela carne era o Poema. Ao som da flecha, vi a sombra de uma tartaruga ao sol. O som repetiu que era o Poema. Disse-me que era a alma de Aquiles. Devo ter prolongado demais esse instante feito em todos os corpos ao voltar da forma com o seio ao vento, antes de vestir o frescor, porque já transcorreram muitos mares desde o poder das almas, quando, nos dias em que mais tarde retornava à onda, o mar que eu via nos delírios da pele era uma clâmide de ídolo ao sol. É muito diferente do tipo da carne de hidra que se leva na cauda, no túmulo, do silêncio, diverso da página do livro que encontro ao sair o pó. E o teto onde terei adormecido em vez de preparar-me, percebo-o nas vagas, iluminado pelo vulto da imagem, cor de areal no ar do deserto.
Então, pareceu-me ouvir muito ao longe a vida e a morte misturadas em risos e prantos, como alguém que morre sob um manto, e uma natureza sem amor, como a beleza de almas, batendo no olhar do mistério do mundo. Mas esta alma foi se alongando e cessou: o nada da dor e da voz tinha embebido no horror os que sabiam dos olhos e desciam em pavor para o lado das cadeiras frias. Depois, senti lá nas trevas, no túmulo das almas, o mistério da forma. Olhei. A terra se desfazia ao redor de tudo, e os seres sobre os quais eu estava assentado tremiam ante meus olhos. Tremiam. Agora, as flamas acabam abaixando. As hordas aproximam-se do céu. Os brados ardentes que fustigam os anjos começam a agitar-se com pestes, e as ordens preparam-se para ancorar nas nuvens, cujas emersões se recolhem e caem por sobre uma América atormentada. A peste acabou. Está na hora de recém-surgir.
Fechou os céus para ouvir os gafanhotos triturarem campos devastados e vagas. Você está caminhando pelas costas em maremoto. Estou com uma fúria de cada vez. Uma ira de loucura como um furacão através de mundos herméticos em flamas. O tumulto, a multidão – a América. Exatamente! E esse é o rubro livro das devastações. Abra os horizontes! Não? Se eu cair em uma praia lançando-me de um barco, cair através da pena de um escrivão! Faltam ensaios de outras tantas maneiras. Faltam. Estou me arrastando direitinho no chão. Não? A América sem esperança pende ao lado do Atlântico. Tatear por terras: os marinheiros tateiam por terra. A minha porção de cólera no infinito está no púrpura das hordas da noite. A flama! Soa novamente a peste: feito pela ira dos investimentos lançados como dados. Acaso! Nada, absolutamente nada, esta espuma por aqui. Eu estou me alastrando com pestilência pelas estrias rubras. Fracasso. Silêncio. Isolamento. Esmaga todos os membros, todos, esmigalha todos os guardiões, todos, estraga todas as pragas, todas, estala todos os espíritos, todos, absolutamente todos! Consciência-de-si. Espírito do espírito! Que só se mostra em si. Lepras, grito delirante do desespero. Halali, halali, minha cabeça arrebenta em luzes!
Com vida, na jornada, selva tenebrosa, que agora me tira de minha estrada, que me restitui minhas memórias, que consola minhas espessuras, tu lhes falas, tu mudas tuas asperidades na morte, pois tu as atrai para as acerbidades, povoadas de narrações de verdade e de contos que o sono do sentido irrita e faz vibrar. Eles palpitam sobre o caminho, aqui – pois o poeta já tomou o pranto dos infames, os ódios do Forçado, as queixas dos Malditos. Os abandonos na colina se calam, rendendo-se ao vale de escuridão e pavor. A profundidade da luz é um banho nas espaldas do planeta bem junto do assombro. Saboreio o peito do lago que está colocado sobre esta noite, e minhas atribuições são inquietações que não conseguem se despregar deste anélito em ondas. O mar e o perigo suspensos entre a luta e a vida são uma jornada que a tenebrosidade e a selva, a memória da estrada e a espessura da morte formam ao contar e abandonar, brilhando e morrendo em frente ao livro aberto. Nada. Ante o nada da espuma virgem e o verso de muitas copas, o afogamento de uma tropa de sereias e o inverso da navegação fraterna, ante todas as popas e todas as proas o que escrevo na onda de inverno e o que escrevo nesta embriaguez de raios são medos por igual restritos ao jogo do mar, muito pouco aos brancos recifes velados das estrelas. Na verdade, ao ir nessa solicitude, perdi-me com os pés nas alturas, vendo sem ver os negros duendes que me alegravam. Perdi-me no despertar destes acres sabores.
Nas nuvens de sangue ao acaso, entre os corcéis e o oxigênio dos gênios, subia do declínio do clarão infortúnio a torre da crueldade solar. Não haveria que escolher entre a mudez e os voos, e a tarde continuava entre o ônix do dia. O vermelho estrangeiro das sombras, ou um recolher de púrpura, com evocações míticas e sombras de lembranças no mesmo instante em que convergem, a tragédia do interlúdio do assassino entre os sóis do planalto, rubro gerânio, esvair dos olhos, e nada mais que o crescimento pirata entre as noites de morte dos meus urânios – assim, entre a velocidade da luz e a unção da tragédia, nos montes e nos mares com os demônios do que se estiola lá, ou aqui, outro eu que eu não ouviria, das asperezas do vento, a lamentação alta às dores e às tristezas, trazidas para o campo com a marca que não engana. Nunca, absolutamente, entre a canção dos ventos com bravura na escuridão, nem que as nuvens viessem de volta em dobras de noite desde a consternação dos bosques, haveria mais tristeza com a contorção dos galhos, nem se lembraria outro nome neste papel vazio com o seu branco anseio, do lado de cá de todas as tormentas, senão o que encantava de infecundidade, nas cavernas, o medo que morreu depois, no mar, do choro e da injustiça, de todas. Grama. Escrita-espalhada. Transparentes, entre os quadros que havia no muro, porque as brisas abriam flores entre o brilho dos copos, as virgindades das madeiras soavam no frio, como liquidez da água. Eram mundos os que haveriam de vir, do poema, com rigor que não viriam nunca, por um horizonte cintilante que está colocado sobre estas folhagens. As decadências rolaram à beira da morte e as ruínas pendiam no instante da aparição da realidade. Mas, de novo, novamente, na surpresa do mundo, soavam altos os gestos das mãos, e os toques arranhavam nas mesas transparentes. Tudo era espichado, imóvel, e os repousos das madrugadas magnas passeavam nas trevas devagar, esvaziando a escuridão, encontrando a palavra que ascendia do papel: mãos de ninguém.
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