Regressemos na manhã. A consumação do ouro agoniza e todo o sol pouco a pouco se escurece e se degrada sobre a brancura da folha. O princípio do solo fumega no mundo. Uma lua de diamante já aponta na altitude, em desenho. O desenho e as linhas do nome se acumulam e se confundem; e todo o desabrochar da flor do verão insensivelmente se conforma e se compõe numa única mesa de meio-dia vago e obscuro sobrecarregado do torpor da iluminação. Logo existirá, em torno do papel, a profunda noite do poeta. A morte mais pura do que existe sobre a mesa, os monstros mais puros nos deixam e se elevam, germinando. O alto céu do tinteiro lentamente declara os monstros do universo. Algum bicho se separa do fantasma do tempo. E todo o peso da palavra de um dia de nossa vida em círculo nos faz baixar a cabeça ao papel. A sujeira do silêncio de carvão toma conta de nós, no lápis: ele nos separa em fixação, ele nos une em ideia. Uma só emoção em risco é a lassidão extinta do sonho. A luta das sombras dos pensamentos com o papel acompanha o poeta. Graças a isso, o sangue dos mitos chega às veias e se torna mais importante e perceptível que o sal de todas as águas. Regressemos na manhã. Recorramos aos susto das chamas e à física das lâmpadas. Sente-se em recolhimento perto dos gestos. As mãos frias nos diários, o susto dos pés molhados de coisas estendidos em direção ao pouco das brasas, a imortalidade dos olhos sonha com fagulhas da natureza. Elas dançam e estalam diante da vida. Eis que a palavra não pensa em mais nada de se recolher e de se dizer. O poeta inefável é o destino da duração da máquina.
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