domingo, 2 de outubro de 2022

112.

Você insiste tanto para que eu cuide dos desenhos da manhã geminados sobre o papel que bem desejava não tocar nessa luta dos gestos e das densidades para evitar dizer-lhe que trabalhei com linhas consumidas e recolhidas nos últimos dias. Jamais fui tão feliz com o tinteiro e com o carvão. Nunca o susto de um poeta no ar, estendendo-se como um sol sem nome ao mundo dos monstros, foi em mim completo e profundo. No entanto, com o lápis do poeta, não sei dizer a máquina de coisas imóveis. Minha faculdade de expressão é uma flor na noite. As ideias dos bichos no pouso do sangue flutuam e vacilam de tal modo diante do desabrochar da folha útil que não posso fixar os fantasmas dos poemas. Creio que, se trabalhasse a palavra sobre a mesa sem emoção, ou o funcionamento da natureza salgada, talvez conseguisse transmitir o princípio da morte ao meio-dia. Se isto continua, tomarei da palavra sobre a mesa sem emoção e a amassarei até fazer o círculo extinto da física. Por três vezes comecei a evaporação viva do mundo. Três vezes fiquei com a urina iluminada dos monstros. Desenhei, afinal, o susto e o sonho das palavras, e é preciso que o novo ar da lua me baste.

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