quarta-feira, 9 de novembro de 2022

149.

Vamos, sai do mar, compondo suas aves, desentranhando quem és desse peito de costas que jaz, em forma de espelho abandonado e abatido, no alcance das sombras da tua espera. Vamos, renasce! É tempo de sêmen. A paixão se decompõe sem rumor. Perde rapidamente as raízes, e o fio do fundo vem debruçar e penetrar regressos. As águas se insinuam na noite profunda das separações, corrompendo a solene insônia. Como luminosidades desse búzio, vemos aparecer, aqui e ali, em todos os cantos, mastros e lendas, as primeiras aberturas dos mares e dos crescimentos que vão exigir de ti segredos e corpos.

E eis o país atravessado por espadas. Pões a nostalgia no dia onde o perscrutamento tateia. Roubas o surgimento. Esta é a viagem dos rostos, de quem toda devassidão atormenta a incerteza, embaraça o próprio esqueleto e quer enganar o mundo. E não te percas em minhas navegações abstratas. Deixa-me o ar e os olhos. Espero a areia e o ácido. Canta-me crônicas de teu abandono. Enquanto os teus ossos minha extensão se entrega em susto. Temo não ter grande fala por tua imobilidade filosófica.

É apenas o primeiro esquecimento de um rumo esquecido. A mão e o corpo podem, ambos, como medusa, se juntar num sono. E é lá, bem na salsugem do corpo no qual se funde e confunde o que é nossa corrida, e o que pertence ao nosso enigma vivo, e o que pertence às nossas terras, e a nossos lumes e corações ocultos, e enfim o que são algas informes, e é lá que se encontra o que chamei de descida das pálpebras: o milênio, pois nossas pálpebras são as águas que nossos marinheiros navegam, são os movimentos dos metais de tudo que somos.

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