quinta-feira, 29 de setembro de 2022

109.

O marinheiro elevou-se em corrida. Abertura de mãos, abertura de mundos, todas elas se abrem num rumo de aves por sobre as costas, contornando o país coberto por esperas e deixando pequenos sustos de água aqui e ali, espalhados a cada debruçar. Deixam atrás de si um espelho de corpo e ar. Os ossos, que antes eram noturnos e de um vogar de abandono dos corpos, são agora marcados por regressos de segredos. A paixão tinge-se de longínquos dias, e o fundo, dançando na nostalgia dos espelhos e dos surgimentos, transformou os olhos num mar composto pelo crescimento de búzios. As pálpebras, com os movimentos luminosos de algas e medusas, ensaiam agora um ou outro alcance da fala, na extensão do peito, como as crônicas das areias, até acabarem por se calar subitamente como lendas, afastando-se do esquecimento e esquecendo-se. O enigma fez pousar insetos ainda mais largos no esqueleto. O metal toca em qualquer fio de sêmen pousado no coração devasso, transformando-o numa salsugem do corpo, numa separação de um milênio de sombras semelhante a uma imobilidade do sono. Tornou de terra as descidas dos esquecimentos e de tudo, traçando o rumor das navegações nas raízes da água. À medida que a espada perscrutava, aqui e ali, os mastros iam despertando, transformando-se em insônias cobertas de ácidos e lumes, incertamente.

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