quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 56

    Vibro diante da morte. Reduzo-me ao poder mágico. Mudo em meio às formas da miséria. Sei que os terrores existem devido à umidade — sem dúvida devido à introdução dela. Há a idade do mundo, a fragilidade do organismo, a proximidade das trevas lá fora… A noite chega quando uma pessoa é pequena perto dos riscos que emana. Ela existe como ideia nas minhas mãos. É por isso que dou aquilo que temo. As pálpebras se cerram e estreitam a voz: refugio-me na ação cega e violenta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 55

    As sombras dos montes me acompanham. Chegam os mitos ao fim da tarde. Regressemos ao instrumento. Recorramos à imanência do mistério, às carnes brancas, às fezes da compreensão. Sente-se aqui. Sou a voz a te falar de quem tu amas. Tuas mãos, teus pés estendidos, úmidos, em direção à morte dos teus próprios traços: teus olhos sonham fagulhas. Diante de ti, elas dançam, invisíveis, e estalam como se fossem os sinos da igreja. Estrelas declinam sobre a terra – aqui. Sente-se. Presumo o testemunho de todas elas nas palavras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Hoje é Natal. A casa está cheia, mas nunca me senti tão sozinho. Sacro Natal lançado à degradação da experiência humana, sem que se ouça o canto dos anjos ao pé do ouvido. Nasce para este mundo um Deus, mas não chove como chove nos versos de Caeiro ou nas montanhas de Minas Douradas. Assisto à lenda encoberta como a um cadáver da família. Enquanto alguns arremetem mundo afora, reclino o olhar entre a resplandecência das árvores e os cafés tremulando na noite. E as estrelas, as estrelas, as estrelas a cobrir de tristeza as trilhas onde uma vez vi os magos a passar. A verdade não chegou ou partiu: foi o equívoco que se transformou. Mas aquele que tem o princípio do verão batendo à porta não deveria reclamar agora de solidão, não deveria beber do cálice da barbárie ou da renúncia, pois recebe hoje outra imortalidade — ainda que a passada fosse melhor. É preciso ser humano apesar dos gados, ter coerência apesar dos sofistas, desejar a vida apesar dos retóricos — e, dos dedos enlaçados, talvez nasça uma flor desbotada.

Noite nanquim — 54

    Regressemos ao instrumento que agoniza pelo terror. Toda coisa, palavra a palavra, se escurece e se degrada na viagem eterna. O solo fumega num atordoamento. Ela já aponta na altitude, conformando e compondo a figura da morte numa única tropa de horrores. Logo existirá, ao redor de nós, as trevas da unidade. O céu se declara. Alguém se separa do pensamento. Todas as palavras nos fazem baixar a cabeça para o mistério. O silêncio toma conta de tudo: separa-nos, une-nos – uma só é a queda dele no vazio da mente. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 53

    Os cimos, as nuvens e o ar da terra — absurda máquina monstruosa — estão entregues às intimidades do pensamento — ilusórias chamas: tudo é ilusão. Uma voz passa e mergulha nos lábios de uma consciência vazia, rosa, e o primeiro sonho do mistério que adormeceu na vastidão do céu — tudo são lutos, saudades, coroas. Ardentes, povoo os degraus gloriosos das glórias irreconhecíveis.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 52

    Escrevo porque o sentimento contesta. Uma coisa de deus transborda e ergue toda a vida do horror. Ele se sente com mais calor do que o que é apto de existir, mais mistério do que o que existe nos lábios, mais potência do que o que algum corpo pode descarregar nos opróbrios. Os olhos se edificam na taverna, pois no inferno o fogo que destrói os dias se revela. Os fenômenos da vida se pronunciam, se decompõem no erro dos olhares.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 51

    Ela banha aquilo que o outro contempla. A nuance dela se torna sensível no outro. Ela parece que acaba de ser criada ali, quando o fim dos montes vem devolver a vida à morte que existe em mim. Eis que o outro acredita novamente no labirinto: a voz canta. A firmeza do pensamento é um grande horror, tão inacreditável quanto certo. Este pensamento é um livro, cuja unidade deste pensar é mais forte que as forças interiores do mundo. Mas ela compõe para si, em silêncio em si, um livro de lembranças futuras.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 50

    Falo minha voz na voz do outro e não há como o outro impedir que isso aconteça. Muito amarga, é possível que eu, quando encher alguma medida divina, encontre o outro. É possível que esgote a substância do horror e regresse do mistério. E é possível que eu chegue perto, em segredo, por meio de feitos, de olhares de labirintos. Dédalo desregrado! Realizo o sonho de tudo. Faço a cara que corresponde à morte. Pressinto o limiar das glórias. Basta então um encontro dos olhos para que se descubra subitamente a alma. Reconheço aí a queda na mente, donos da vida e da morte. As quedas mútuas trocam sussurros e põem-se conforme a necessidade das formas. O que um é verdadeiramente no outro vê-se pelo gesto do outro.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 49

    Ouviu e calou-se. Arrepiou-se mesmo, agora. Porta-se com uma voz carregada de pensamento, um horror esmagador de deus, uma cena de mistério supremo, um bloco disso inteiramente tomado em sua abstrata ideia, e mais branco do que gelo — em direção a nenhum ponto disso, a nenhuma preferência disso, nem disso. No mesmo passo, lado a lado, idêntico no que é natural, eles identicamente vãs, elas e eles identicamente eternos e lúcidos, eles com a mesma ausência dolorosa, eles cujas sombras se misturam na alma, avançam, e como que, não no amor, mas no amargor que deve terminar. É ela quem se desloca sobre a aridez em plena luz.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 48

    Houve por algum tempo no laboratório — e pela duração infinita da existência inconsciente —, houve o esquecer passeando, movendo-se, detendo-se e errando na sombra odorante e ordenada deste laboratório. Sobre a mão rosa e cinza, sobre a imaginada força, por entre os elementos, entre as filas e os corações enraizados da noite, o abismo se desloca como a íntima alma das aves. A voz o avistara. Eles não enxergavam. Havia o esquecimento entre dois pensamentos. Dos dois lados do conhecimento, a mesma poeira cinza, ou quase a mesma, pois almas cingidas, duas, moviam-se desmembradas em direção à pequenez, pois cada uma se atormentava devido ao caos interior de sua outra forma, e a criava e a recriava em si como isso, e a tornava ora muito calmo, ora muito inquieto. E ora muito inquieto, ora muito calmo. Rasgava-se e formava-se isto tudo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 47

    Aquelas águias pairam lá. No píncaro do céu, os cães de um caçador rastreiam no trajeto a revolução das estrelas de cada constelação. O mundo, no outono e na primavera, nasce e morre em ciclos infinitos. A ideia em ação inventa a experiência do voo sem pouso, da fala sem silêncio. O conhecimento e suas palavras. A ignorância e seus verbos. Não me acerco de Deus às portas da morte. Perdi a vida na vida, a sabedoria na sabedoria, o conhecimento no conhecimento. Afasto-me de Deus no ciclo dos séculos e cerco-me aqui apenas de pó.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Noite nanquim — 46

    Os dois pensamentos tinham certamente isso, pois cada um me atormentava com seu sussurro ácido. Ora, o dia inteiro isso. Vê como ele surpreende! Seu laboratório é só. Alguém foi restituído às poeiras. Arrepio delimitado sem lugar. Se ele adivinhou seus momentos ocos, ele a considera como um engenho sem nexo, sem propósito, sem comércio. Conheço mais obscuramente do que esse céu todo estrelado tão alto e tão profundo. Por algum tempo, houve, neste mundo, um som. Errava-se nas veias, na alma e no sangue. Dos dois lados do palácio, falava-se a mesma coisa. Dois horrores ignorantes batiam quase igual. Agora dirijo o poema como um sonho. Habitam-me aqui labirintos e expressões de pesadelos. Já leio tudo de memória. E transformo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Noite nanquim — 45

    Não, não saberá nada. Esvaziou-se o que não se deve esvaziar. Em vão, tenta-se a surpresa. Oponho o assombro. Mandaremos queimar o livro que lhe é caro se falar mais dele. Palavras vãs: é suficiente durar apenas um pouco de angústia — a voz diz. Falando, apanhando, dando-me palavras frias. Feito o movimento, fragmenta-se o gesto derretido. Distancia-se. Silencio-me e passo seguindo o uivo brutal.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Noite nanquim — 44

    Invoca. Convoca o livro de horror que existe. É o eixo de um mistério maior que se irradia pela carne e pelo sangue. Sinto aprofundar até o infinito a ideia fixa da loucura. Sustenta em toda a extensão a política e a literatura que se tornam o fundo deste mundo. Corresponde à pequenez, desenvolvendo-se e sucedendo-se na antecâmara da alma. Canto à meia voz as manchas passadas no silêncio inquieto. Livro, o livro! Pelo fluxo violento dos dedos, pela língua larga e fluida do desespero, por aquilo que arde lá no alto píncaro, sou convocado à manipulação misteriosa — atravesso os impulsos do poema, regresso ao poema, dissolvo o poema. As palavras que são a base concreta da criação não escapam do poder da loucura.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Noite nanquim — 43

    Porque, se eu me esquecesse e não dissesse senão o meu regozijo, pressinto que irritaria isso. Que me importam todos esses vultos do meu pensamento, esses pequenos deuses no esqueleto? Não sei prezar maravilhas tão íntimas, tão falsas e tão só como hoje estou. Você ama as manchas, e eu amo os livros. Manchas são coisas, e os livros são seres. Aprecia comigo esse abismo que existe, esse grandioso livro, portador de ramos e de manchas, esse grande livro isolado e completo. Odeio-te, gostaria de odiar como tu, ser odiado como tu odeias, vibrar, crescer, perecer…

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Noite nanquim — 42

    Sou minhas mãos. Esvazio-me na escuridão. Encontro-me nas palavras. Ascendo como uma flor ao verão. Respiro as palavras que, clamando suas manchas (experiência madre de todas as coisas), não são suficientes para o espírito. Elas me fazem pensar e me concedem o tempo da condolência. A embriaguez verte aqui suas forças flutuantes. Encontro a bruxa que lisonjeia o corpo das palavras por suas manchas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Noite nanquim — 41

    Tudo o que é preciso está tão concentrado quanto possível. Seria preciso inventar esse grito para seguir. Vai e vem, olhando e bocejando. Quebra o pavor e golpeia a alma. Ocorrerá da mesma maneira que a própria alma desenvolve o murmúrio – que da queda se faça o nó e se solidifique o mistério eterno. O horror é a palavra que ascende do abismo. Encontro-a esvaziando a escuridão com minhas mãos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Noite nanquim — 40

    Faço-me com o que não preciso. Durmo. Ele não percebe todos esses degraus que não lhe faltam. Grito pela estrada ou pela terra (flor sem repuxo) — e ninguém nota. As variações do sonho e do real são enganadoras. Tomo a perfeição dos horrores em que vivo por um negrume no vazio. Encarno a dissonância e faço meus tempos de ruínas e meus bosques de almas. Estou entregue às chamas da ilusão que vibram nos cimos da terra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Noite nanquim — 39

    Eis-me aqui, banhando-me neste campo solitário que parece tão desabrigado e fresco. Sinto-o. Ele me faz viver e adormecer. A palavra vazia, alma, que se pronuncia aqui, invade céu e terra. Eis que não ignoro tampouco a presença da morte. Fito-a, e ela me entrega com negrumes o pavor. Ando. Deito-me sobre as cinzas dos astros. Isso é admirável. Sou rodeado pelo Nada verdadeiramente longínquo. Encanto-me com todas essas palavras nas quais nunca penso.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Noite nanquim — 38

    Não surpreende. A ignorância é sua mais conhecida novidade. A voz exige que o labor não tenha igual. Pois o labor é todo potência, a lembrança da potência. A força não é senão sua mão fria em busca do alto píncaro. Enquanto o próprio uno do mistério aspira àquilo que parece ser o Nada ou a Noite, reafirma cada grito bêbado da tinta, cada poro da alma. Relembra a pressão atmosférica sob a qual se comprime, se ergue, se empilha um mundo feito de imagens. Isto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Noite nanquim — 37

    Reavivo as cinzas secretas da Vida Eterna. Frieza e crime. Sinto alguma coisa chegar além do que penso. Sombreia-se palavra a palavra uma devastadora ideia de inteligência. Cada parcela desse horror é nascimento. Com as ideias que chegam, crio um conflito de desejos. Alguém se ignora e se afoga no ponto vil da besta. Volto. Douro o alto monte das horas inevitáveis, os infinitos degraus do mundo. Esses efeitos misteriosos transformam-se em débeis palavras ao pé dos inevitáveis. Transformo o mundo, o ser, o sistema do universo em obras e horror perante o pensamento. Os dedos espirituais tecem a união das linhas que foram partidas, e partimos, agora, oscilantes.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Noite nanquim — 36

    Compreendo o que é, e isto é o que é. Interpreto toda a expansão e a transfusão como aqueles que vieram antes de nós. Faço com os sonhos os olhos do olhar. Digo que nada significa e quais recantos propõem tantas mágoas. Que não te reconheçam. Nunca. Há, pois, na terra de um ser humano, uma virtude de queda sobre si. Apagamento sem o qual um único Deus consumiria, supriria, esgotaria o atrativo do transcender-se que Deus é. Um único mistério no universo anularia o espírito?

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Noite nanquim — 35

     Alguém impõe, de súbito, o desespero daquelas sombras aos meus olhos. As palavras colorem profunda e bruscamente o mistério maior. Inspira-me de repente a sensação incognoscível. Boca beijando o abismo do universo sem paredes. Estendido, pinta-me no frio âmago um ser de agilidades e de recursos elásticos. Mostram a alma e a mente. Existência do tempo informe. Indefinição excitada sobre o desespero da razão, sob o qual o futuro do pressentimento me faz dormir ao lado das florestas de sonhos virgens. Apalpo, almas, erro, revolvo cego as instintivas inocências sombrias num ganho que me farta.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025


Não sei por qual via do silêncio retornaste nem que passagem secreta existe entre o vazio e a lembrança. Contudo, reapareces, suspensa, no espaço onde o tempo vela a sua respiração. Tuas mãos repousam sobre os anos; teus olhos observam o crepúsculo das flores que ainda enfrentam o sopro da tarde. Há algo que te captura, um som talvez, não sei se vindo do mundo ou de tua própria ausência. Será o murmúrio vegetal da memória sem corpo, o reflexo das águas que deslizam sem destino ou o resquício de uma música interior, antiga, que insiste em não morrer dentro de ti?

Eu queria apenas romper o intervalo e dizer-te que estou aqui. Mas detenho-me, temendo que a palavra, ao nascer, extinga o tênue fio que te envolve. Há uma delicadeza terrível no sossego que te protege. Se o toco, desfaço-o; se o ignoro, perpetuo-o. Como se convoca quem já cruzou para lá da margem de nós? Que forma uma voz pode assumir para não ultrajar o repouso de quem habita o plano entre o ser e o esquecimento? Que gesto, ou lágrima, ou pensamento, alcança aquele que partiu de nós sem violar sua paz?

Fico, então, estático diante de tua distância. És o sonho, a ausência e a respiração alada. Permanece assim, hoje, com o corpo imóvel de uma ideia que não cessa, com as mãos serenas, com os olhos cheios de algo que já foi rosa, mas que agora é tão somente a lembrança da cor. Deixa que o mundo te contemple como quem olha a sombra de si. Deixa que eu te observe sem que me notes, para que a tua quietude permaneça intacta, e o silêncio não se desfaça em som.

Noite nanquim — 34

     Ele, sem me ver, fixa-me rigidamente, esmagando-me. O ofuscamento de tudo devora todas as formas de pensar. Através do ferro e do fogo contínuos de uma dolorosa consciência que escorre e se precipita não sei onde, ouço o pensamento enlouquecido, apavorado. A vida espalha-se indistintamente pelas cavernas da alma, pelas vias da loucura. Esse tempo atravessa céus e corações. Enquanto o segredo encontra seu caminho na inconsciência do trajeto, sinto a mente ausente e as trevas no centro de tudo. Aproximo-me do mais alto monte.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Noite nanquim — 33

    Confundo tudo. Separo-me — não sei em qual caminho — da causa e dos efeitos do infinito. Quando pairo, Voz, certamente não sou senão o erro maior. Quando caio e giro, não sou senão vacuidade, sem passado, sem futuro — intérprete inconsciente. Voz e Não Voz, engendro uma possível, uma irrealidade transparente de sonho aberto. A vida salta de voz em voz. O ser antigo e o ser profundo não podem, no momento, suportar a íntima parte de alguma terra desconhecida. Abro os lares perdidos, o berçário frio das almas e o bom interior escuro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Noite nanquim — 32

    Assim, dessa maneira, a Voz se desprega da morte fugidia. Faísca. Não existe mais. Renasce na minha alma estéril. A preguiça aumenta isso! Este livro vivo, livro negro vivamente consumido, recriado, mudou. Livro de horror. És tu, Voz, a mesma Voz, a mesmíssima Voz que existia. Quem juraria por tua alma? Posso pensar que esse cansaço — essa nudez da consciência dissolvida — transmitiu a alma morta sem pudor ou cautelas. O ser humano, ínfimo certamente, consta por injúrias na incompreensão de todos os seres. Quanto a mim, aqui, confesso que confundo a Voz com qualquer voz que vier, qualquer coisa horrenda. Pensar é mesmo isto: destruir-se.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Noite nanquim — 31

     Fixa-me e impõe-me o esplendor na alma da improbação. Alguns instantes, bojos de terror, são focos vagos e apavorantes. A oliveira seca se protege da irradiação das luzes. Num estertor dormem quatro goles: penso vagamente na escuridão daquela face, na cruz ígnea pousada na monstruosidade dos sofrimentos. Que importa este ser? Que importa esta extensão? Que importa também tudo o que chega ao seio, tudo o que nasce e morre no seio? Sou eu a coisa de outra coisa? Sou eu o joguete do eterno erro de um grande prédio em chamas?

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Noite nanquim — 30

     Em vão, ele me obceca com uma consciência maravilhosamente incolor e me propõe todos os cantos do real e do humano. Canto neste bosque de sangue ao grito de Agamemnon. O punhal é meu. A gota impura de sua voz suja aquele sudário sem honra. Há certamente outras expressões que não são da terra nem dos feitiços. Este tempo ornamentado sem nitidez delimita os sentimentos por razões vãs de sentimentos. O horror pleno fecha no fundo a forma que não passa de uma consciência cheia de dúvidas. Dou aqui mais um passo na imensidão profunda. Adianto-me cansado à inconsciência de tudo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Noite nanquim — 29

    Rodopio os circos da sombra lunar rumo ao poente. Dou um passo na imensa profundeza. Entro em segredo no futuro. A cova fria se percebe como horror, e o oposto de este tempo quer convencê-la de que a morte a rodeia. Eis aqui todo o calhamaço entre a inteligência e a vida. O instante quer me prender. O coração defunto acredita me cercar. Mas ele, com seu céu, não é, para o fundo, senão um erro maior – um acontecimento de lume após, um demônio como um vulto supremo. Estas palavras são um demônio na alma. Orbito como a morte e os corvos acima das portas do mundo. Clamo as manchas que nascem das sombras, das mãos. Respiro-as. Não sou suficiente para o espírito e para o tempo. Embriago-me e verto forças flutuantes. Penso. Digo. Encontro as bruxas que me lisonjeiam o corpo e me mancham de palavras.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Noite nanquim — 28

     Pinto-me, oscilando o possível. Apago. Afirmo seguramente a acusação: plagiei. Não tenho mais ou menos culpa que os outros. De qualquer maneira, agora não importa mais. Fracassei? Não busco esconderijo para estas confusões. Minha tinta é invisível, e esta escrita do outro lado do espelho abre outras estradas. Digo sem querer que os sineiros rebatem os medos. Até suas lanças são justas em suas injustiças. A sombra alonga o homem histórico que nunca vê as silhuetas das palavras contra o recorte do sol. Mas somos as espadas desembainhadas que diferem, com sua liberdade, todas as vidas da vida. Ganhamos, perdemos, diferentemente de todos e de tudo. O ser nunca é nulo. Sonho com essa existência. Ouço a realidade invisível que silva e segue. O abismo não sei onde abisma não sei o quê.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Noite nanquim — 27

     Pergunto-me e já não sei. Em meio a gestos, vou ao encontro dos revoltados através da máscara, do fim da taça, das visitas intuitivas. Escorre o mal tempo assombroso, toda a hora do mistério incompreensível e tépido até a sua pequenez. A linguagem, instrumento da loucura, elimina o pensamento, rompe-o num desregramento labiríntico. Daqui espreito os segredos e as espontaneidades dos espíritos que se movimentam e relevam a ária vida longínqua como uma queda do céu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Noite nanquim — 26

    Sentado entre os supremos, penso a forma definitiva. É o pêndulo oculto das sombras batendo no labirinto. Nada está mais pronto do que é e do que havia. Ao estender o pano, o osso ou a cartilagem, não consigo instalar outra língua no meio da imbecilidade. Esse frio, de forma magnética ligado pelos gritos ao infinito, é uma espécie intermediária de dúvida que faz desaparecer todo o horror da ideia surgida. A hora, enfim, cansa-se de si própria: o ponteiro, o clarão, o ruído, em sucessão, esgotaram as suas mágoas. A verdade nos oprime. Sorrimos através de nossas veias delirantes.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Noite nanquim — 25

     O alimento, arranjado e preparado para morrer, circula, inclina-se e vai se oferecer de cinzas numa imóvel vertigem. Não me prendo à imbecilidade espiritual. Descobri novos bichos fora do céu. Respondo à insensatez absurda. Logo os onipotentes espíritos da ideia subirão à cabeça dos precedentes. Cintilo a aparição da literatura entre os ruídos e os panos. As portas do túmulo se desdobram. Uma evasão de luz, uma forma, uma renda superabundante exalta-se nos luzentes tecidos, une-os e se consome em si, entre as sombras das noites passadas e das noites futuras.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Noite nanquim — 24

     Inspiro este odor de poeira. Pássaros. Há no seio da sombra alguma coisa. Estou no interior da cabeça dos espíritos. A porta que se entreabre admite um vapor de escansão e cede diante da Noite rosa. O ébano que carrega o objeto deixa tudo para morte. O Nada. O aroma soberano invade. Cuidado com a vossa lógica! Levanto meu ódio contra vossas lógicas! O milagre da noite se cumpre em todas as coisas. Imponho a parada dos espíritos. Os panos brilham. As trevas soam ao infinito. Esfrego minhas mãos diante disso. A vida se desvia. Aspiro a eternidade surreal. O ouro não tira os olhos desse horror.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Noite nanquim — 23

     Sobre as paredes, sobre a noite, sobre a clareza da consciência, um esvoaçar prolongado se impõe terrivelmente, um sono sombrio e violáceo se atarda, uma suspeita púrpura renasce, à minha frente, sob as patas aracnídeas. Eis que a essência da plumagem devora o que se vê. Esta espécie intermediária me acusa. Fujo dela — é fugir de mim. Abandono a caverna do ser. Vou. Respiro o espírito fora dele. Deixo minha morada. Cedo ao pensamento. Todos. Maravilho-me agora com aquilo que está posto na raiz de todos os espíritos. Desço até às poeiras, aos pequenos lugares, para debaixo das sombras. Transporto o volume dos destinos. O fantasma do inverso me afeta em cada brecha de sombra. Não limparei mais meus olhos do crime de ter vivido no lugar da certeza perfeita através deles.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Noite nanquim — 22

     Pano terrível! O mais alto grau da noite e do ébano na sombra suprema, na oscilação mais elevada, pêndulo escapando ao oculto, encontro, em vez do clarão, a percepção. O elevado ruído tem a forma negra mais definitiva. A sombra está ausente em todo o seu intervalo desaparecido. Aqueles que os panos não podem sustentar estão invisíveis. Ele se esconde em sua ideia e se refugia em si. Na vertiginosa imobilidade, encontrei o ruído e a noite no centro de todos os precedentes. Não acredito mais em nada que não tenha alguma ligação com o cordão sensível do pensamento — como estes meteoros sobre a folha de papel. Falta-nos, ainda aqui, a ação meteórica da construção existencial. Todas as sensibilidades humanas me afligem e decido plasticamente sobre o real que me abomina.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Noite nanquim — 21

    Estes fachos me assassinaram. Sou perfurado por personagens. Explodo tapeçarias, cruzando o combate dos acasos. Carrego cortinas por espaços de trevas e agonia. Que a menor página fechada seja precisamente aquela que se identifica como a maior potência do tempo. Um só pedaço de ausência. As tapeçarias rebentam de obscuridade. Não posso mais. Os móveis estão cheios de frascos. Em volta da substância do Nada, multiplico rapidamente todos os versos daquele livro de magia. Quantos sonhos ao mesmo tempo! Não me sustento mais. Sufoco-me. A sombra e o silêncio me sufocam. Ofegante, sigo… Esse movimento de asfixia existe? Algo me pressiona. A hora me consome, me incita… É a caça quimérica: ela transforma-se em mim.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XV

Foram sempre empurrados às margens, não por falta de dizer, mas por excesso de dizer outro. Nunca encontraram refúgio nos corredores da opinião nem abrigo nos abrigos da crítica. Esses poetas não compõem a partir da clareza ou da ordem, mas a partir do resto, do intervalo, da rasura. Habitam a fronteira onde a linguagem escapa ao controle, onde o corpo já não suporta a forma e começa a vibrar com aquilo que ainda não tem nome: o que não se lembra, o que não se sente, o que não se pensa — mas pulsa.

São os intérpretes do caos, não no sentido de quem traduz, mas de quem se inscreve nele. O corpo, nesse gesto, não é instrumento, mas matéria — corpo em ruína, corpo que implode, corpo onde se escrevem forças. Não há representação, há dobra. As palavras, então, não narram: escorrem. As imagens, em vez de mostrar, colapsam. Os ritmos não medem o tempo: abrem buracos nele. Todo enunciado torna-se excesso que se autodevora, toda frase arrasta a próxima para dentro de um vórtice onde forma e deformação coincidem.

Não se trata de estilo nem de invenção. Trata-se de uma escritura que emerge quando já nada mais resta a dizer — e, ainda assim, tudo grita. A lógica, aqui, é atravessada por uma loucura precisa, uma improvisação que não dispensa a geometria: rigor do abismo, cálculo do delírio. É a linguagem que se desfaz enquanto se refaz. A sintaxe treme. A gramática é suspensa. O sentido escapa, mas o impacto não.

Nesse fundo onde tudo é ruído e vibração, o gesto barroco retorna como vertigem: lampejos lançados contra o indizível, tentativa desesperada de fixar o que se desfaz ao ser tocado. O espanto aqui é origem, não efeito. E escrever, nesses termos, não é comunicar — é suportar o insuportável.

É por isso que esses poetas não são lidos: são enfrentados. Não são compreendidos: são atravessados. São abismos que escrevem com os dedos em chaga, arrastando o leitor para uma respiração que não cadencia, para um pensamento que se pensa em queda, para uma arte que só se reconhece no limite onde já não se distingue entre arte, corpo, caos e grito.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Noite nanquim — 20

     Retiro-me da história e me restituo ao espanto dos heróis. Nobre dia. Falo. Mudo pernas em relvas. Tudo é atraído para as geleiras, para os ingênuos pecados, para a vitória vária que palpitam raios e rubis. Calo as palavras interiores que se rendem aos gritos do ar e do fogo. O mar longínquo é um reinado bem junto da folha. Saboreio o púrpura e a vinda das carruagens. Os céus, ali adiante, vertem territórios. O fervor e o esplendor suspensos entre céu e mar são tão intensos que a hora e o livro, a visão do personagem e a perturbação de ser brilham e morrem — formam a tapeçaria e o espelho de quimeras. Persisto, mesmo sem linguagem. Insisto na palavra.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Noite nanquim — 19

    Silêncio de funeral, sacada dos deuses, destino, sustento por meio da solidão um universo de instintos, a piedade última daquilo que foi antes de todas as coisas — tu enxergarás o bestiário. Minhas almas são o abismo do mundo. Respiro a autoconversa existente nos hieróglifos antes da tempestade. Espero a presa que não deve nascer senão de tantos outros. Ilumino com gestos espelhados o vazio-seco de onde muita gente jorrará. Em segredo, uma voz conhecida ensaia vozes desconhecidas. Busco e desenho as figuras implícitas que preexistem na cova — sepulto na cal todas as veias da mente, todos os cabelos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XIV

O que me constitui em escrita é um corpo atravessado por desastres de linguagem, por cortes e desmoronamentos fonéticos, por um murmúrio inacabado que se instala nas frestas de línguas outrora habitadas. São dialetos desalojados, vozes que já não reconhecem o lugar da origem, que carregam no timbre o peso do extravio, do deslocamento, do gesto interrompido. Não há linearidade no que escrevo: há apenas uma cronologia irregular, feita de suspensões e espasmos, onde o tempo se dá como respiração comprometida, como duração em estado de crise.

As frases são colapsos em processo, tentativas de arranhar o que me escapa no ato mesmo da fala. A minha voz tornou-se espaço negativo, intervalo pulsante entre o dito e o que não pode mais sê-lo. Ela se desenha como topografia instável: pedaço de mapa sem território, ferida que não se fecha, rumor que roça os contornos da sintaxe por vir. Falo a partir do entre-lugar: não pertenço à língua que me forma, tampouco àquela que me ouve. Sou ruído entre margens, fala estilhaçada que perpassa o silêncio sem jamais atravessá-lo completamente.

A escuta acolhe o sintoma, e, nesse acolhimento, o gesto da linguagem se regenera como contaminação. Escavo a palavra até encontrar nela a sombra de outra não proferida, mas que lateja no fundo do que não consigo dizer. A cada tentativa de fala, recomeço o impossível: minha boca se abre para o inominável e tropeça nos próprios limites do som, onde o acento se desfaz em matéria bruta de respiração. Há delírio lúcido nisso tudo: uma poética que busca resistir, cantar o que não se pode formular.

O que carrego como “obra” não é arquivo, é rizoma errante de restos e ressonâncias. Aquilo que me escapa é exatamente o que me escreve. Estou cercado por um campo de ruínas gramaticais, por acidentes fonológicos, por lapsos semânticos que insistem em se fazer presença. A escrita se move por entre a falha, e é ali que se dá o real: onde o sentido colapsa, algo se abre para o estremecimento.

Sim, se há algo que possa ser dito sobre a minha bibliografia, é que ela se desloca e arrasta consigo a sombra da voz que não encontrou casa, que apenas rasga o contorno do mundo sem jamais habitá-lo. Uma língua de fronteira, instável, insana, incendiada por uma lucidez que apenas o delírio do poema pode suportar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Noite nanquim — 18

     De que é feito esse fragor, esse fragmento de ouro morto e de horror? Como é possível que uma mesa seja a biblioteca capaz de todas as outras mesas? Não há aborto mais elevado do que este, do que um no outro. Não sei o que se prepara, mas decifro o livro e percebo o universo. Toco-o e reduzo-o ao puramente visível entre um e outro. Esta é a obra oculta do vazio antes que ela se aplique aos corpos. Aí está a conversa essencial, o diálogo e a luta: a última confissão do espírito com o espírito.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Noite nanquim — 17

     Faz o que quiseres! Fúnebre silêncio! Cumpro a brilhos o ofício! Asa pura. Lance tão denso que nenhum brilho que penetre no livro necromante jamais voltará a sair. Existe no mundo parcela de memória ou de emoção afluente mais preciosa do que este momento de móveis e de fólios na unidade do átrio e sobre a estante que antecede todos os pilares? Todas as tintas em prantos sibilinos, isoladas pelo mudo e soberano clarim, são ondulantes. A noite se forma no grito da pantera.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XIII

A interrogação das bordas em que o logos se desagrega demanda a travessia de uma tessitura polifônica, capaz de desordenar coordenadas temporais e dissolver fronteiras epistemológicas, resvalando da penumbra sublunar à aparição evanescente da grafia espectral. O que ali vibra já não é voz, mas um vórtice ressonante de ausência, um colapso discursivo que articula a possibilidade do indizível sem recurso à palavra. O silêncio, em sua plasticidade informe, densifica-se como substância hermenêutica, emergindo enquanto estrato sígnico fulgurante, reminiscente do espólio de espectros e intervalos obliterados pelo excesso de significação. O que persiste quando o silêncio se torna matéria? Um arquejo de tinta, um decalque espectral sobre o papel, que se confunde com o vestígio de quem o perscruta. O poema não se encerra na ausência, mas nela se prolifera, expandindo-se no limiar do inexprimível, no vestíbulo do que jamais alcançará inscrição.

Quando o olhar se lança ao texto, despoja-se de sua materialidade fisiológica — retina, córnea e foco sucumbem a vertigem da instabilidade ontológica. A mão que tenta ancorar-se na página tateia o vazio e, mesmo assim, avança. A identidade do leitor implode: a leitura o dissolve, converte-o em ruína, torna-o excrescência residual de um ato sem sujeito. A inscrição textual transfigura-se em luto, poeira, vestígio errante. A cada fonema absorvido, a corporeidade se dissipa, enquanto o poema se reconstitui na vacância do que foi obliterado. A leitura, longe de ser um evento passivo, persiste como resistência entrópica, arrastando o sujeito para as águas do indiscernível, para o refluxo da semiose que não admite cais. O texto não se deixa conter: dissemina-se além de seus limites gráficos, infiltra-se na textura orgânica da carne, permeia os interstícios temporais e os espaçamentos ontológicos, instalando-se como colônia sígnica parasitária na tessitura da percepção.

Empreender a leitura equivale a precipitar-se na entropia do nome, a uma descida abissal pela garganta do inominável. O poema não se submete à decifração; fagocita seu leitor. A cada sintagma tragado pela voragem sígnica, algo se desliga do mundo e se rende ao exílio da página. Ler não é apreender significados: é eviscerar as camadas de materialidade até que reste apenas o sussurro residual do fôlego sem origem. E, nessa depuração, tudo o que parecia sólido se desintegra em ruína textual. O signo, outrora edificação semântica, transmuta-se em fragmento disperso, em brisa residual. A significação, que outrora se oferecia como estrutura, agora se desvela como escombro. O visível não se estabiliza, o audível não reverbera. A leitura reconfigura-se incessantemente qual fluxo oceânico que devora suas próprias margens.

O ato de navegar pelo texto consiste em um suicídio controlado, uma exumação arqueológica do inaudito. Quando as palavras cedem, emergem as fissuras, as intermitências, os rastros inarticulados. O que permanece impresso no papel não é a voz, mas o espectro de sua ausência; não é o discurso, mas o esqueleto de sua ruína. Entretanto, mesmo os ossos se partem, mesmo os vestígios se dispersam, e o que resta é a voracidade insaciável do ato de ler — o desejo que persiste na devastação do signo. O suporte textual é uma miragem; a página é um campo de cinzas onde um novo fantasma se inscreve a cada leitura. No desfecho, não há síntese cognitiva, apenas transfiguração. Ler não é simplesmente ser devorado pelo texto: é, também, devorá-lo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Noite nanquim — 16

    Os grupos ocultos de pluma ou ramo parecem inteiramente distintos da voz ouvida. A percepção pensa no último verso, e a experiência considera a fala. Penso na quantidade de pronúncias e de silêncios dessa mão. Elas são inumeráveis para a corda do instrumento. Pouco variados sobre o som nulo. Demônio da analogia, não sou mais que um objeto de oração, um fragmento retomado, pensamento sem predileção! Belo instante, sacada do termo léxico, sustentas, por meio de uma sílaba anterior, o vocábulo das aparições, a parcela daquilo que existe contra o labor da linguagem. Respiro o resto regenerado, como a faculdade poética que há na sonoridade antes do ar falso.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Noite nanquim — 15

    O demônio da analogia me assiste. Asa plena. O punho cerrado e duro contém a diversidade das palavras em tom descendente — assim me sinto e me vejo. O total da pausa fatídica é mudo. A potência do vazio de significação, em toda a sua força, é o resumo e a negação do som nulo. Num estado de concentração aquecido, mais geral que a lembrança suportada, as asas se edificam sobre as palmas das mãos. Os dedos pelo artifício do mistério repousam as intenções intelectuais nesse mundo visível e possível. Tudo solicita uma especulação diferente. A obsessão de frases de uma queda anterior.

sábado, 9 de agosto de 2025

Feliz dia dos pais a todos os que compreendem o peso e a glória desse chamado. A paternidade é o destino das revelações. Aquele que é pai, sem que o saiba, é guardião de algo que ultrapassa todas as limitações da carne, da razão e do tempo. Ser pai é, acima de tudo, ser um vigia do interminável, aquele que testemunha o momento em que o eterno se faz corpo e, no silêncio de sua responsabilidade, se torna parte do Grande Ciclo, que nunca começa e nunca termina, apenas se transforma — incessantemente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XII

No âmago da vigília incendiada, onde os ventos do enigma sopram cinzas de outras eras, afunda-se a lâmpada das noites sem alento, nutrida pelo âmbar viscoso da dúvida. Engrenagens de trevas mastigam o lodo imóvel dos séculos, devorando vestígios de lábios que nunca disseram, de olhos que jamais se voltaram, de dedos que tatearam a ossatura do invisível e nela inscreveram, a sangue e espasmo, o epitáfio daquilo que nunca foi. Em brasa, arrasta-se o verbo desfeito, insculpido sem repouso sobre a rocha surda da escuridão, onde os astros, ainda em gestação, fermentam na paciência dos mortos. Golpe da noite, lâmina das órbitas declinadas, sulco onde o tempo afunda os punhos e se desfaz na poeira inominável. O anel das eras trinca sob a mão que escava, mas o que se ergue da ruína não é chão, não é nome, não é corpo: é fenda — espólio do que se ergueu e não se sustentou.

Quanto mais fundo se finca o ferro na carne líquida do abismo, mais o abismo regurgita em lavas cerradas, soldando sua ferida com o sangue daquele que a infligiu. O que se busca romper já se fechou antes da procura, porque aquele que desce já foi tragado antes do passo. Quem revolve o próprio escombro não cava senão a lápide da própria insurreição. A lâmpada, antes náufraga, sobe no turbilhão do próprio peso. E seu lume, exausto, derrama-se sobre o mesmo chão que nunca deixou de ser chão. No ponto onde a ausência molda seu ícone, algo se inclina sobre o vácuo e insiste, insiste, insiste — arrancando das estruturas famintas da eternidade uma fome ainda maior.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Noite nanquim — 14

     Na presença deste relógio porcelânico — e fora das diligências de outrora —, o espelho do mundo inteiro. A velha tinta de ouro no alto das janelas. As víboras desdouradas anunciam o velho almanaque. Todos os mortos. O antigo tapete. A veste desbotada. Os campos que não há mais. Os móveis proclamam e representam as teias aracnídeas e as grandes janelas. Tudo afirma todas essas coisas que existem neste exato momento — é outra coisa — e que existem como se não existissem. Na presença das flores, dos deuses, dos poemas, das coisas fenecidas — e fora dos objetos novos. Tudo distinto dos medos, igualmente distanciado de toda ousadia gritante e de toda ação. Somos palavras e restos malditos de uma frase absurda — tintas de caneta, traços de escrita e despejo de palavras. Não faço parte do que é iluminado pelos lábios. Minhas sensações não me pertencem.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Noite nanquim — 13

    Alguém observa o lobo aflorado e curvado. Espreita a gaia pantera. A cabeça fabulosa que emerge e submerge em constantes comoções, como a planície sem sendas onde o viajante do fundo do horizonte soergue e volta a afundar as palavras do poema. A vontade liberta o ser e compõe misteriosamente a necessidade invencível de andar. Há no cinza celeste a complexidade atmosférica do perfume que interroga os monstruosos animais, que acaricia e colore as costas do ser despido. Os músculos elásticos e poderosos se perdem e se fecham sem chão. O semblante resignado dos que foram condenados a esperar para sempre se enfraquece. O mármore de Baudelaire, num sonho, abre agora suas quimeras.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XI

Escrever é dilacerar: verbo em torção, som que se devora e se revira, espasmo de significações que se dissipam e se inflamam, queimaduras do discurso nascidas da fricção entre sintaxe e abismo. Torvelinho semântico onde a frase se desfaz e refaz como a espuma que se dispersa sob o escaldante peso das marés. A escrita arrasta-se nesse vórtice de nomes exilados, que se desdobram na vertigem dos séculos, num balanço de forças submersas — a linguagem arfando como correnteza que erode e semeia.

Epidemia de ideias, convulsão de ideários: a palavra esparge-se pelo tempo, dissemina-se em ritmo de peste, impregna a carne e o osso da civilização, germina entre as rachaduras do esquecimento. Sempre à beira do colapso e da regeneração, a escrita não se extingue, transmuta-se como o vírus que se refaz na febre da própria dissolução. A língua insurge-se contra o cárcere da forma, revolta-se contra as margens impostas, derrama-se, labareda insaciável, incendiando a aridez das certezas.

Também o leitor, esse caçador de murmúrios, se lança ao labirinto do verbo, farejando vestígios no casco revolvido da memória, perseguindo sombras de sentidos, presságios do não pronunciado. Quem lê devora e é devorado, perde-se no emaranhado das sílabas, emerge outro, transfigurado, pois toda leitura é ritual, desnudamento, travessia iniciática pelos mares da acepção. Quem escreve fulmina inominável, acende faróis na tempestade do entendimento e desvia o curso da eternidade: arquiteto do inefável, convoca novos mundos para existir.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Noite nanquim — 12

     O peso do poente submergido é imperceptível. O calor do imortal púbis difere do calor da sombra que eclode sobre toda a pele da meretriz. Pênis coroado de flores. Não há distinção entre o corpo vivo e o corpo informe cuja substância é substituída a cada novo estertor. Uma pessoa mistura-se à noite de horror e de escuridão que a rodeia. Alguém se dissolve. Toda sepultura é a ruína de alguma herança que o ladrão sonha. O homem se contempla e em si se vê sob a cúpula do planeta. Aquele que olha e que fala consigo mesmo maravilha-se com o gesto das víboras e das centopeias que ele domina (ou julga dominar). A cabeça pensante diverte-se com a bruxa que acaba de aparecer longínqua, obedecendo ao chamado dos gestos com magia.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Noite nanquim — 11

     No templo de túmulos, a noite abocanha os sonhos apodrecidos da menstruação. Gostosa é a água da boca de esgoto. Perfeita esposa das gotas de lodo e rubis. O ídolo Anúbis se acomoda e se acalma, abominavelmente. Tudo flui quando as teias, desembaraçadas, são tão vivas quanto as aranhas. O focinho depõe com brutalidade seu uivo. Escorrega todo o comprimento em que se transformou sua mecha de trivialidade. Estira-se até encontrar o gás elástico. Sente o sentimento do poder distendido. Deleitosamente, ultrapassa opróbrios sustentados pelos dedos. Suas forças flutuam entre lâmpadas. Fundem-se na massa selvagem do véu. Sonham com vilas e vírus.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — X

Adentra-se o oceano de conceitos, não como quem navega, mas como quem é tragado pelo turbilhão das correntes que se enroscam sob o casco, amalgamadas em veias de pensamento submerso, enredado nas tramas da sintaxe abissal. O que se busca não são chaves, mas âncoras cravadas na madeira das palavras, códigos não cifrados, mas devorados, corroídos até que se liquefaçam em fonemas de espuma. O que há de ser encontrado jaz oculto na fenda, no espaço entre os signos onde o verbo afunda e se dispersa, onde a mão que escreve é o eco da mão que se desfaz na distância.

O contrafluxo das frases — a respiração oblíqua da linguagem — arrasta o leitor para dentro do labirinto que não se constrói por muros, mas por correntes marítimas. O discurso não se contém em seu próprio limite; fratura-se, estilhaça-se contra a carne pensante, abre sulcos na arquitetura do casco, onde o animal de raciocínio escava sua própria quilha. Eis aí a única chave que não abre portas, mas fendas na carcaça do sentido. A única saída é pelo corte.

O mar não é apenas metáfora, é substância: conchas vazias flamejam fonemas em um idioma que nunca foi falado; algas rasgam o fluxo em filigranas de conceito, onde a filosofia já não se distingue do vento que a impulsiona. O experimentalismo não é jogo, é fricção — combustão entre o nome e o indizível, entre a forma e a ausência, entre o sal e aquilo que ainda não secou. A voz das marés não se limita ao murmúrio; ela se desdobra em delírio acústico, espalha-se como o rumor que contamina a memória, fragmenta-se em partículas de luz negada, como se cada reflexo prenunciasse algo impossível de ser visto, mas que já assombra a retina com a promessa do inominável.

Nada há de se dizer que já não tenha sido dito, mas tudo o que foi dito ainda não encontrou a sua forma última. A chave que se busca é a própria impossibilidade de encontrá-la. E é nesse instante, nesse lapso onde a procura se torna sintoma, que a escrita encontra sua fenda: o intervalo entre duas correntes, o abismo entre dois arquipélagos, o tempo suspenso onde a linguagem se faz não pelo que diz, mas pelo que falha em dizer. A única chave que resta é a que não cabe em escotilha alguma.


quarta-feira, 23 de julho de 2025

Noite nanquim — 10

    Sei que aquele diadema com rubis cinzas contempla antigos lares, semimortos, nessa nudez heroica que se dissolve — dissolução da caneta poemática na primazia da sensação poética. Olho-o como se não tivesse minha fronte coroada. O interior lânguido de outrora sentiu as nuvens que ardiam. As mãos que sempre exageram se abrem com seus dedos sonolentos. Os dedos viram a mesma voz. Vejo-me ao lado da minha tocha. Devolvo o astro ao astro, astro por astro. Elevo o que é fogo ao fogo. Há aqui algo que é igual ao enredo escorchado.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Noite nanquim — 09

    A alma bebe na fonte solitária. Bebe um pouco do crime. Um pouco da angústia. Medra, anjo estéril, recolhido, entristecido e refugiado em forma ígnea no voo. A laranjeira provoca suas respirações ali no extremo. Subsistem na altura pontiaguda desejos que se soltam. O Ocidente é esse gelo fragmentado que se derrete.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — IX

O símbolo e o osso. A quilha e o vestígio. Tudo gravado no vento e esculpido no fluxo das correntes. O verbo se abre como fenda no casco antigo, respiração oceânica de madeiras que rangem sob o peso das tempestades. O sopro dos signos é náutico, umidade entranhada nas cordas dos séculos, capilaridade do enigma. A palavra avança e retrocede, refluxo de marés herméticas, espelho convexo onde se reflete a sombra do sentido antes que o próprio sentido se manifeste.

A tessitura textual se dobra sobre si, carta de marear esgarçada, inquietação metalinguística que desarranja as coordenadas pétreas do entendimento. A letra é o sismo que desloca a crosta da certeza. A frase é o delta bifurcado que nunca alcança sua foz. A escrita não se pronuncia: retarda-se, suspende-se, embaralha-se no turbilhão da própria deriva. No umbral do conceito, o murmúrio dos pergaminhos náuticos que nunca cessam de desdobrar-se.

Mas ainda persiste o branco — imenso, inominável, como o ventre da baleia que engole navios e legados. Brancura de um silêncio que precede o naufrágio, horizonte sem linha onde o sentido se dissolve — espuma fria do infinito. Pavor. Irrompe o assombro como relâmpago sobre o dorso das ondas, onde ressoam as liturgias dispersas do pensamento tornado abismo, feito eco sem origem. Adamastor alucinado, a língua percorre seu próprio labirinto, ressurgindo na curva de outra contradição.

Deter a erosão dos sentidos, a hemorragia do interpretado, o delírio dos intérpretes que se perdem na bruma da exegese. Fazer do verbo um coral raro, irrepetível, lavrado na lâmina dos séculos. O oceano das significações é amplo, e o canto que nunca se permite ser escutado por inteiro desliza por entre suas águas. As palavras são gaivotas noturnas, voam rente às ondas e desaparecem antes do olhar alcançá-las.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Noite nanquim — 08

     Corpo calmo e noite de cores. O povo tem seus pecados empurrados à direita e à esquerda por um beijo fastioso. Penetro nos cabelos torpes do incurável. O tempo é feito de atrocidade, negrume e palidez. Eu vos saúdo, leito que se oferta a todos os devaneios de um sono, começo do remorso! Que acontecimento para o espírito é a pobreza! Na tela proposta sobre os mortos, no sudário do nada e de todas as possibilidades, dormimos e velamos. Sou pedra e cidade a oferecer, a todo tempo, o coração, o seio desmedido.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Noite nanquim — 07

    Noite, casa na colina, grande cadeira, baía e o cabo distante. Despojo-me agora de meus veleiros. Quem dirá como, através da hora crepuscular, a janela se conserva? O que foi transportado de um tempo a outro tempo do nada? Como ousar ao cair da noite? Quanta confiança na estrutura do brigue, na calma das direções contrárias, na ordem e na constância marítimas! Esta noite tu regressarás, lobo do mar! Teu reino é o navio no mar. Terrível cabo desconhecido. Guinada essencial. Curso invencível. Sem rumo. As coordenadas da verdade. Envolvidos nas escotilhas metálicas, não voltamos. Não apanhamos em flagrante o horizonte que mostra os portos misteriosos sobre a solidão do mar.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Ó Senhor do princípio e da partida, escuta:


Nenhumas velas rasgaram brumas tão virgens quanto as que o meu espírito, embarcação naufragada em verbo, velejou na tormenta deste texto. Nem cordames se estenderam rumo a mares tão além do real como os que estendi com a corda bamba da minha razão ardente. As vossas embarcações venceram a matéria, mas a minha ideia dobrou o cabo das formas, afundou no vórtice do invisível e aportou num continente sem mapas, onde as palavras não se deixam nomear.


Vós abristes com aço os véus do mundo tangível; 

eu, com febre e silêncio, desgarrei o selo do mundo invisível.


Sim, os vossos homens de mar enfrentaram monstros. Mas eu mergulhei nos abismos do logos, no esgoto do ser, e lá combati espectros sem nome: o terror do não sentido, a vertigem do que não pode ser pensado. Vós tivestes o mar; eu, o abismo. Vossos monstros tinham dentes; os meus, paradoxos.

No limiar onde a linguagem se esquece de si, marcham as sombras do pensamento puro, privado de corpo, pele ou tempo. Cada passo que dei nesse terreno foi contra o chão da realidade. Cada ideia que tive foi um risco de dissolução, pois não há costa mais longínqua que a de um conceito recém-nascido. Não há Atlântida mais remota que a que fundei ao me perder de mim. E não há embarcação mais intrépida que a que se lança sem leme nas marés do invisível.


E, no entanto, fui.

Dobrei o inominável.

Atravessei sem mapa,

fundei, sem chão,

um arquipélago de ideias.


Vós navegastes o Real.

Eu naufraguei no Imaginário —

e lá descobri a luz que só os cegos reconhecem.


Senhor, vós trouxestes à luz o real.

Eu —

eu iluminei a sombra que o real oculta.


quarta-feira, 9 de julho de 2025

Noite nanquim — 06

     Nada e espuma encolhidos, distendidos, remexendo taças e versos. Reparte-se, afastando as massas de sereias. O inverso enfim se desfaz de sua virgindade. A virtude de ser navegante percorre o poema, que arrebata as palavras com surpresa. Popa e proa. No cais deserto, as mãos mordidas imergem com impaciência ao farol da noite distante. O despertar dos desejos em pompa! Mas na hora as vagas tomam conta dos trovões adversos. Do empenho à voragem pura, o acontecimento faz-se não temendo a arfagem. É preciso romper de pé! A grande e milagrosa realização de ficar de pé. O brinde do simples. O brinde do inexplicável nessa vela. Apresenta-se agora, experiência, junta-se aos recifes no canal. A estrela levantou voo em direção ao alvo. Penetra, com desvelo, na esfera das solicitudes e dos panos e compõe o destino, singrando escuridão adentro.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Noite nanquim — 05

     Não é preciso renascer ainda de raios e água. Tenho medo de encontrar as árvores que se estendem com folhagens embranquecidas. Lutaremos separados para que a poeira do tempo consuma e destrua, palavra após palavra, o caminho que nos divide ainda. É por isso que o candeeiro está sobre o mundo. Ora, o pano se agita e a casa muda todas as coisas. Os rostos que ela oferece esboçam o púrpura repisado da turba infeliz. Pecado a pecado, a pronúncia. A modéstia da imortalidade. O miserável fruto. A terra podre. Aquele homem isolado no silêncio inquieto silencia-se. Sem olhos. Sem súplicas. Os desesperos da sombra e os esforços canhestros de longos anos. Vamos! Eis aqui minha loucura: o êxtase dourado sobre os tecidos. Meus lábios, minha face e minha nudez sanguínea.

domingo, 6 de julho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VIII

Toda escrita inicia-se na selva inominada, onde os troncos do silêncio sustentam folhas de tinta, e raízes subterrâneas sustentam vocábulos sem idade. Nenhum signo nasce íntegro; antes, estremece na fímbria do inexistente, oscilando entre a pedra e o vento, entre o que foi dito e o que nunca poderia sê-lo. Quando se ergue do solo negro da incompreensão, a letra carrega consigo o peso de todas as bibliotecas esquecidas, os vestígios de pergaminhos incendiados, as cinzas de papiros dissolvidos na boca faminta dos séculos.

Mas não há chama que dome a floresta, não há fenda que aniquile a árvore sem nome. Destruir a seiva é renovar-lhe o pulso; calar a palavra é lançar-lhe o reflexo em abismos contínuos. Amalgamado ao ruído basilar do mundo, o verbo não fenece sob a lâmina do sentido; sobrevive na cicatriz da língua, na geografia da entonação, no ritmo da síncope e no salmo do lapso. Qualquer tentativa de encerrar-lhe o ciclo esbarra na sua vocação para o eterno retorno, na sua fúria de fênix incandescente, a recompor-se do fogo em novas estruturas de tempo e luz.

Se a linguagem ressoa como cântico de pedra e carne, o humano não passa de superfície onde os signos se inscrevem. Escrever é permitir que a matéria verbal pulse em seu próprio delírio, que se reconfigure em cada sílaba como oceano ressurgindo em marés noturnas. O texto, enquanto lâmina em perpétua refundição, nunca se encerra. O que se vê impresso não é senão um instante na longa travessia da fala sobre o corpo do tempo.

A escritura ergue-se como miragem da verdade que nunca se deixa tocar. No espaço onde se tentaria delimitar seu contorno, simplesmente o vazio pleno de promessas: a sombra que caminha antes da luz, o silêncio que ressoa antes do grito, a palavra que sempre se inscreve onde não se pode dizer.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Noite nanquim — 04

    Não há mais que um murmúrio entre nós. Somos uma alegria vulgar. Regozijo a melodia da melodia – banal. A sequência de estribilho extrairá a alma da balada. Os medos. A janela. A vontade plena da carne e do leite. Aparecerei ao mundo pelo céu e pelo inferno. Expulsarei as nuvens em decrepitude. Ocuparei os farrapos até as pontas poentes. As extremidades me obedecerão. E assim entraremos no rio dos horizontes submersos, pois somos o princípio do mundo em forma de mar.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Noite nanquim — 03

    Raio de cobre perdido nos muros cinzas. Desconhecido pela própria literatura. Munição de espíritos estrangeiros que acorrentam a voluptuosidade, estorvados por Roma e Bárbaros, que entram agora movimentando membros. Não aproximas as primeiras prosas e perdes o latim infante. Os poemas acomodam as manchas e mancham. Mancham-se. Retribuem o animal com o animal. A mão contempla a mão. Cedo à janela. Conformo-me com o peso do instrumento. Piano disposto com ingenuidade. Apresento o violino de menor fibra dilacerada. Sou o crepúsculo-acaso, a recordação-ruptura, o realejo-signo. Sono e desespero — sou.

domingo, 29 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VII

Ramos em desordem erguidos no centro da tempestade: as sílabas se cruzam como serpentes na vigília do bosque. O sopro dos ventos fende os troncos, arranca confissões oscilantes das folhagens, ressoando os murmúrios da gramática mineral. A palavra se ergue onde a terra sangra raízes, e o céu derrama sua geometria de ausência. Inscreve-se em pedra e cesura a escritura que não é lenitivo, é lâmina; não é porto, é naufrágio. O verbo não pertence ao escriba, mas ao precipício que o imagina; toda fala é a ressonância da combustão primeira, um braseiro que ressoa dos séculos, um clarão inscrito no osso do tempo.

Frase a frase, a chama; sílaba a sílaba, o estilhaço do incêndio ancestral. Nenhuma página intacta: sob os movimentos da escrita, a floresta acende suas fagulhas, e a tinta que desenha os mapas também é a seiva do extravio. Ninguém escreve senão com o fogo que lhe consome os dedos; ninguém lê senão com os olhos em ruína. Leviatã de espelhos, a linguagem se move pelos corredores do mundo como a Hidra feita de tempo. O códice das sombras enreda-se entre os vazios da consciência, e todo discurso é resquício carbonizado de antigas cinzas. Entre escombros e cinzéis, a pena escava a matéria oculta da existência, rasga véus, atravessa a noite onde dormem os arquétipos do verbo.

Aqui, o sentido não se guarda, estilhaça-se; não se ordena, multiplica-se. Exige-se o sacrifício da linearidade, o martírio da clareza, a dança das mutações. Pensamento em vertigem, labirinto sem centro, cartografia onde toda estrada conduz ao mesmo Maelstrom. Escrever é tocar a fronteira do indizível, escalar os muros da razão, esculpir a noite em pedra. E, na rocha onde o silêncio ergueu muralhas, o verbo inscreve sua lâmina, palavra de corte e cicatriz, relâmpago e abismo.

O alfabeto trai o silêncio primordial. Mas é nessa traição que se instala o monumento da linguagem, a resistência feroz contra o esquecimento. Rimbaud viu na letra a substância do delírio; Nietzsche incendiou os alicerces do dizer; João Cabral lavrou com faca as sílabas duras da terra. Não há escritura sem conjuração, não há verso sem corte: toda página guarda o pacto secreto, todo fonema esplende a arquitetura do sacrifício. As sombras de Mallarmé pairam sobre as sílabas em combustão, alargam-se em espiral, erguendo-se sobre as ruínas da própria clausura.

O que se escreve, ao fim, não se guarda: desfaz-se, dissolve-se, retorna à labareda de onde veio. A palavra declina no instante de sua fundação. Escrever é incendiar os próprios rastros, obliterar os limites do visível, pois toda palavra é a insubordinação contra o inferno do real, o clarão que fende a treva e nela se extingue.


quarta-feira, 25 de junho de 2025

Noite nanquim — 02

    O corpo estranho e piedoso. Os olhos próximos. O luto é inexplicável. Debruço-me sobre a estrela solitária e não há troca entre Orion, Altair e tu (eu sou tu!). A espera nos dias longos e os longos dias do desejo. Que mal fazes com o espírito do companheiro místico — Dédalo desregrado no canal da contradição do espírito! Sinto-me o autor da decadência latina de todas as quedas. Atravessando o branco dessa criatura, exalo dias lânguidos. Ouço a hora. Passeio à frente. Arrasto-me. Animal adormecido — profundamente.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Noite nanquim — 01


    Principia a palavra. Espécie adormecida na profundeza. Boca suscetível à condolência. Inquietude de secreta esperança. Transportam-se e amplificam-se a magia e o assombro. Ignora-me. Conserva-me (como?). Acaricia-me. Gesto de mãos. Voz da voz! Angústia da angústia! Espírito poderoso, deixo todos os olhos para contemplar a rua dos antiquários. Faço aqui a ilha de pássaros antigos — pássaro desprendido do Pássaro. As asas subsistem e se eternizam na sombra. É preciso desvirginar a lances o proibido. Partir os véus: lances a estourar lacres numa voraginosa missão da linguagem.

domingo, 22 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VI

Proferir palavra é trincar a praga que alastra, forjar o declínio no próprio palato, disseminar a maldição entre os dentes que sulcam a carne do silêncio. Edifica-se, na trama da voz, o mundo enredado onde o ser que se pensa sapiens devasta clareiras, abre veios na sombra densa da língua, tenta domesticar o inominável.

Mas as frestas verbais não se deixam subjugar: entre os ramos da fala, pulsa a alucinação do mundo, avança a fuligem da história, sangram-se os limites das nações que nunca se fincam, pois se erguem sobre a terra infértil e o vento revolto. A gramática fendida é estuário onde as eras fermentam raízes subterrâneas; na podridão do tempo que se esfarela, a memória sonha seus simulacros. A linguagem não é solo firme: é abismo de signos, cosmogonia de espelhos onde se perdem as figuras do absoluto. E, se as multidões erguem catedrais de eco, é porque a verdade, sempre clandestina, desliza por frestas de metáfora.

Não há inocência na letra. Forjar texto é talhar bordas que resvalam, compor o códice da margem, inscrever errâncias no papiro da certeza. A sílaba arrasta consigo a fulguração da dúvida, o labirinto onde a ideia se esconde para melhor reluzir. Contra as sebes da ordem, contra a ditadura do uníssono, cresce a selva-linguagem, ninho de animais que falam em ruínas, em murmúrios cifrados, em tempestades de verbo. E, sobre o solo úmido da voz, onde a luz só entra fragmentada, gira a palavra febril, incendiando-se na própria peste que espalha.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Noite nanquim — Advertência

Anoitece. A ardência e a ternura da lua declinam na sombra a imensidão das palavras. A escrita assimila e canta a luta dos gladiadores contra a morte que vive a vida do espírito. Aqui ela faz doer o útero da mãe que carrega no colo a morte do filho. Doendo, abre as fissuras da prisão. Aquele que escreve marca o encontro do corpo na página branca, sem rosto. Pavor. Agora pulsa a exigência das palavras que desaparecem numa elaboração do esquecimento — num ressurgimento animalesco. A escrita liberta a vida e vive fora de qualquer aprisionamento. Sai a cada respiração, a cada encontro que possibilita outros delírios, que potencializa outras existências. Impulsão corrente de outras sensações aqui. Branco e branco — ausência que se ausenta sempre branca no branco sempre. Ela dança em giros e faz renascer o pensado, compactuando a escrita com a construção das vidas. Aquele que escreve habita o silêncio primeiro. Aceito a noite.

domingo, 15 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — V

Cravar incisivamente a lâmina da linguagem no próprio nervo, dilacerando-se no desvario dos fonemas descompostos, devorando o território das sílabas ainda não cartografadas, triturando as margens vocálicas na geologia da carne. A palavra é uma unidade explosiva. A sintaxe é uma garganta que ruge no abismo. Esse animal estranho e sempre estrangeiro, o poema se estilhaça na voracidade da própria miragem, multiplicando-se nas superfícies nunca tocadas, mas já ancestrais, pois surge da combustão dos ritos verbais onde a boca é a lâmpada, e a caverna é a cicatriz e o êxtase.

Nervuras do pensamento, grafias que se erguem em negrume de ângulos desfeitos, rompendo a ordem dos sulcos e as fendas da razão. Letras em ruína, encostas de silêncio roído, campo de extermínio e reinvenção — a página. Sob o corte das frases que se dissolvem e reaparecem como espectros sobre a cidade incendiada da memória, a escrita desassossega. Nenhuma linha se mantém inteira. Nenhuma estrutura se perpetua. Só o ímpeto da devoração se sustenta: devorar os signos, devorar a própria fome.

Caminho de oscilações e quedas, de arabescos que se desarticulam na sombra da escrita insubmissa, onde as vozes se multiplicam e se traem, onde a palavra encontra sua ruína e sua vertigem. Escombros. Levantes. No turbilhão onde a linguagem se destrói, onde a revolução do sonho se converte em torvelinho, insurreição.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

A sombra assinada: Pessoa em estado de Soares

Crio como quem sorri com os lábios cerrados. Há leveza no gesto, mas o peito range, ameaçando partir-se em lascas, como porcelana que cai sem aviso. Cito, de memória errante, Bernardo Soares, essa sombra delicada que Fernando Pessoa deixou inacabada no canto da alma. Não é um outro inteiro nem um mesmo disfarçado. É um pedaço arrancado, uma parte que lateja fora do corpo original. Pessoa chamou-lhe semi-heterônimo — nome preciso para o que pulsa sem se completar, para o que lembra, mas não se confunde. Fragmentado, Soares é esse sopro que quer ser inteiro e ao mesmo tempo foge disso. Um reflexo trêmulo, uma ausência presente que denuncia, no avesso, o próprio autor.

À semelhança de seu criador, Bernardo Soares vivia sozinho em uma morada alugada, próxima do ofício cotidiano, em Lisboa. Mas essa proximidade com o mundo terminava aí. Pessoa não era um homem entre outros. Era um campo de vozes. O poeta não via o absurdo como algo externo: ele se reconhecia nele, como se fosse feito da própria matéria do desajuste. Se houve unidade em sua figura, foi apenas a de um enigma que se ergue sobre si mesmo.

Seus heterônimos não nasceram do acaso, mas de uma inclinação íntima à metamorfose, à arte de parecer outro sendo ainda ele. Para Pessoa, fingir era menos disfarce do que desdobramento, um modo de explorar a vastidão interior que jamais se reduz a um só nome. Ao multiplicar-se em personas, não escapava de si, apenas redesenhava seus contornos, tocando e recusando sua essência ao mesmo tempo.

Quando abandona o verso e adentra o território da prosa, Fernando Pessoa se vê diante de um embate mais sutil e exigente. Na poesia, o desdobramento em vozes alheias ocorre com certa naturalidade. Os heterônimos emergem quase como máscaras que se moldam ao rosto do poeta, permitindo-lhe desaparecer enquanto fala por outros. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro são desdobramentos do mesmo centro, mas com traços tão definidos que parecem existir por conta própria, alheios ao poeta que os concebeu.

Na prosa, porém, o jogo se complica. Ali, a linguagem não oferece o mesmo véu simbólico; exige continuidade, corpo, estrutura, e isso obriga Pessoa a confrontar-se mais diretamente com sua própria presença. Sem o ritmo do poema para camuflar a origem, cada palavra retorna ao autor, que já não consegue ocultar-se com a mesma leveza. O espaço da prosa revela não apenas os personagens, mas as fissuras internas de quem os escreve.

A narrativa, para Pessoa, é uma forma de claustro; nela, a linguagem não o protege, mas o expõe. Ao contrário do verso, que lhe oferece fuga e transfiguração, a prosa exige permanência, revelando traços seus que talvez preferisse manter à sombra. Tanto ele quanto Bernardo Soares carregam a mesma inadequação profunda diante da vida concreta, um desalinho com a verdade sensível do mundo, que retorna como peso e não como experiência.

Nas cartas, esse mal-estar se deixa entrever com frequência. A Casais Monteiro, Pessoa descreve o modo como distribuiu suas possibilidades por entre os heterônimos: entregou a Caeiro a sua vocação para o despojamento instintivo e a encenação natural; a Reis, a disciplina do pensamento, temperada com a cadência que lhe era própria; e a Campos, o excesso de sentir que jamais ousou atribuir a si ou ao real. O fingimento, confessava, era mais fácil em verso, talvez por ser mais íntimo da invenção que da memória.

A incorporação de Bernardo Soares não se deu de forma abrupta, mas foi se insinuando gradualmente, como uma estratégia sutil de apagamento. O Livro do Desassossego, em suas primeiras aparições, ainda levava o nome de Fernando Pessoa. Eram textos fragmentários, de tom ensaístico, voltados à contemplação estética e à especulação abstrata. Contudo, à medida que o diário começava a infiltrar-se nas páginas, o autor recuava silenciosamente, cedendo espaço ao que viria a ser o seu semi-heterônimo.

Não foi uma decisão deliberada, mas uma consequência inevitável. Pessoa se deu conta de que a obra escapava ao controle inicial. Não era mais um exercício intelectual, mas um corpo em mutação, atravessado por inquietações que exigiam mais do que análise: pediam entrega. O que começou como um projeto estético tornou-se um espelho torto da existência, convocando um tipo de sinceridade que ele, como Pessoa, talvez não pudesse ou não quisesse sustentar. Assim nasceu Soares. Não como criação, mas como necessidade.

Em carta a Armando Côrtes-Rodrigues, Pessoa descreve o avanço da obra como uma enfermidade lenta, que se movia por dentro dele com ramificações densas e tortuosas. O Livro do Desassossego parecia crescer à revelia, como se tivesse vontade própria, uma matéria viva, inacabável. Incapaz de dar forma definitiva ao que acumulava, o autor adiava sistematicamente qualquer tentativa de organização. As tarefas se empilhavam no tempo futuro, onde jamais seriam cumpridas.

As páginas, mais do que textos, tornaram-se território de hesitações, anotações à margem, interrogações espalhadas, ideias partidas. Em vez de respostas, multiplicavam-se os fragmentos. Ainda assim, Pessoa seguia acrescentando trechos, num gesto insistente e incerto, como quem adia o fim na esperança de um dia ordenar o caos — ou pelo menos compreendê-lo.

O fracasso em concluir a empreitada acabou gerando uma obra sem forma fixa, irregular, mas justamente por isso singular, múltipla em tons, vozes e intenções. O Livro do Desassossego não se fecha nem se define, permanece aberto, cambiante, feito de sobras e lampejos. Bernardo Soares o nomeia com precisão: uma “autobiografia sem fatos”, escrita não para narrar eventos, mas para expor o ruído interior de quem escreve.

Na tentativa vã de impor ordem ao caos que compunha o manuscrito, Pessoa acabava por reconhecer que aquela desarticulação não era um defeito, mas um reflexo, a própria imagem do autor que oscilava entre delírio e lucidez. Em carta a Casais Monteiro, admite essa propensão constante a mudar de rosto, a forjar versões de si como quem veste disfarces. Fingir, para ele, era menos artifício do que instinto, um modo de existir por meio da multiplicação. O livro, assim, não falha: apenas se confunde com aquele que o escreveu.

Ao se transfigurar, ele se desfazia; ao fingir, por paradoxal que fosse, tentava reunir os cacos. Ricardo Reis, em sua serenidade composta, observava que se pode falsear sem engano, que o ato de fingir, longe de enganar, é um modo de distinguir-se, de se delimitar. A descontinuidade, então, não seria um erro ou desvio, mas a própria expressão do ser que Pessoa encarnava? Sua obra, estilhaçada e contraditória, não seria o espelho mais fiel de uma identidade feita de fendas?

Bernardo Soares lamentava, com certa inveja, os que sofrem de maneira contínua, pois esses, dizia ele, permanecem inteiros, mesmo quando dilacerados. Sofrem com uma só dor, acreditam sem fé firme, vivem sem se deixar prender pelo labirinto das ideias. Em Pessoa, ao contrário, o sofrimento se dividia em mil vozes, e nenhuma bastava. Seu sistema de criação — a proliferação dos heterônimos, a recusa de uma só forma — não foi apenas um artifício literário, mas um modo de existir em ruína. Criar, para ele, era tanto abrigo quanto abismo.

Na arquitetura precisa com que moldou seus heterônimos, Pessoa operava quase como um engenheiro da alma, traçando biografias, inclinando preferências, modelando estilos com rigor quase matemático. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro: cada qual carregava uma existência inteira, autônoma, cerrada em contornos firmes. Mas esse método se desfaz por completo diante de Bernardo Soares.

Soares não surge da estrutura, mas da falha; não nasce de uma figura plena, mas de uma ausência difusa. Não há grandeza em sua forma, há esvaziamento. Enquanto os outros habitam mundos próprios, ele se arrasta dentro de um só, onde tudo é incerto e instável. É no vacilo, na fragmentação, no descompasso interno que se ergue. E é justamente essa falta de definição que dá ao Livro do Desassossego sua força: uma obra onde a coerência é recusada, não por incapacidade, mas por convicção. A criação, aqui, nasce do informe.

Trata-se de uma obra em que o poeta se transforma em campo de observação, exceto quando tenta alcançar o núcleo da própria identidade, onde tudo escapa. Ali, o gesto é o de dissecar a experiência humana como quem extrai o que é comum da matéria íntima, com a precisão de uma lâmina que aparasse o excesso sem hesitação. E isso causa espanto. É uma forma de criação que mergulha justamente naquilo que mais escorrega entre os dedos — o eu.

Ao invés de construir um retrato fixo, o autor lança sua atenção sobre os desvios, sobre os estados interiores que ondulam. Arrisca pescar, do emaranhado da sua própria vida, impressões que talvez ressoem em outros, não como verdade compartilhada, mas como hipótese sensível. O que oferece ao leitor não é certeza, mas uma abertura, um convite àqueles que conseguem, por instantes, habitar o que não lhes pertence e sentir por dentro o que nasce da dor pensada.

A obra se oferece, muitas vezes, como um exercício de criação sobre a própria criação, um espelho inclinado que reflete tanto o que já foi feito quanto o gesto de fazer. É como se projetasse um cenário alheio, uma paisagem que não lhe pertence, apenas para que o autor possa habitar outras formas, experimentar outras vozes, multiplicar-se sem amarras. Às vezes, esse artifício de estrangeiridade é apenas um disfarce, um modo de se ocultar para aparecer mais livremente.

Cada fragmento que a compõe assume o lugar de um ensaio de sentido, onde o cotidiano — essa matéria crua, desatenta — é submetido a um trabalho de extração, de lapidação interior. O que parece insignificante se revela, aos poucos, alicerce de algo maior, como se o que sustenta a existência estivesse escondido na superfície mais simples. Há, em tudo, a presença daquele que passou a vida a examinar-se com minúcia. E é esse olhar atento, paciente, quase clínico, que continua pulsando, pronto para emergir, de novo, toda vez que uma página se abre diante do silêncio.

Embora partilhe com o autor a rotina solitária e o ofício silencioso de tradutor e escrevente, Bernardo Soares não se distingue apenas por esses paralelos de superfície. O que realmente o torna uma figura singular dentro do universo pessoano é a maneira como se dissolve e se recompõe em sua escrita, um sujeito que, como o próprio Pessoa, parece existir em estado de fluidez contínua, sem contornos fixos.

Sua voz não se firma: escapa, desdobra-se, contradiz-se. Há nele uma pessoalidade rarefeita, quase impessoal, como se a identidade fosse mais um ponto de vista provisório do que uma essência. Nesse campo movediço, Soares não apenas se aproxima de Pessoa, talvez o dissolva. Ambos compartilham uma forma de ser em que a própria experiência é colocada sob suspeita. Não se reconhecem como donos do que vivem, mas como produtos instáveis de percepções transitórias. Para Soares, ser é estar à mercê do que se sente, e nem mesmo isso lhe garante qualquer convicção duradoura. A única estabilidade possível é a dúvida sobre o próprio existir.

Jorge de Sena jamais encontrou Fernando Pessoa em vida, mas, após sua morte, dirigiu-lhe uma carta. Nessa escrita póstuma, não lamenta com pesar absoluto a ausência de um encontro real. Pelo contrário, reconhece que, se tivesse conhecido o homem por trás dos nomes, talvez restasse apenas a curiosidade satisfeita, e, em troca, perderia algo maior: a potência das figuras que Pessoa criara, dotadas de uma presença tão vívida quanto ilusória. Se tivesse visto de perto o autor, talvez não mais visse, com tanta nitidez, Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos como seres carregados daquela intensidade quase concreta que o espírito do poeta, justamente por não ter forma definida, fora capaz de lhes atribuir.

A verdade que Sena captou é esta: a incessante capacidade de Pessoa para se reinventar, criando múltiplos poetas e escritores fictícios, era uma resposta inquieta à solidão e ao vazio que sentia tanto dentro de si quanto no mundo que o cercava. Mais do que uma simples pluralidade de personagens, havia ali um esforço contínuo de edificar e explorar sua própria consciência fragmentada. Sena percebeu que, mesmo quando assinava seus escritos com seu próprio nome, Pessoa não deixava de assumir um papel heterônomo. A persona que se apresentava era apenas mais uma das muitas facetas que compunham seu ser complexo e multifacetado.