No âmago da vigília incendiada, onde os ventos do enigma sopram cinzas de outras eras, afunda-se a lâmpada das noites sem alento, nutrida pelo âmbar viscoso da dúvida. Engrenagens de trevas mastigam o lodo imóvel dos séculos, devorando vestígios de lábios que nunca disseram, de olhos que jamais se voltaram, de dedos que tatearam a ossatura do invisível e nela inscreveram, a sangue e espasmo, o epitáfio daquilo que nunca foi. Em brasa, arrasta-se o verbo desfeito, insculpido sem repouso sobre a rocha surda da escuridão, onde os astros, ainda em gestação, fermentam na paciência dos mortos. Golpe da noite, lâmina das órbitas declinadas, sulco onde o tempo afunda os punhos e se desfaz na poeira inominável. O anel das eras trinca sob a mão que escava, mas o que se ergue da ruína não é chão, não é nome, não é corpo: é fenda — espólio do que se ergueu e não se sustentou.
Quanto mais fundo se finca o ferro na carne líquida do abismo, mais o abismo regurgita em lavas cerradas, soldando sua ferida com o sangue daquele que a infligiu. O que se busca romper já se fechou antes da procura, porque aquele que desce já foi tragado antes do passo. Quem revolve o próprio escombro não cava senão a lápide da própria insurreição. A lâmpada, antes náufraga, sobe no turbilhão do próprio peso. E seu lume, exausto, derrama-se sobre o mesmo chão que nunca deixou de ser chão. No ponto onde a ausência molda seu ícone, algo se inclina sobre o vácuo e insiste, insiste, insiste — arrancando das estruturas famintas da eternidade uma fome ainda maior.
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