quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XIV

O que me constitui em escrita é um corpo atravessado por desastres de linguagem, por cortes e desmoronamentos fonéticos, por um murmúrio inacabado que se instala nas frestas de línguas outrora habitadas. São dialetos desalojados, vozes que já não reconhecem o lugar da origem, que carregam no timbre o peso do extravio, do deslocamento, do gesto interrompido. Não há linearidade no que escrevo: há apenas uma cronologia irregular, feita de suspensões e espasmos, onde o tempo se dá como respiração comprometida, como duração em estado de crise.

As frases são colapsos em processo, tentativas de arranhar o que me escapa no ato mesmo da fala. A minha voz tornou-se espaço negativo, intervalo pulsante entre o dito e o que não pode mais sê-lo. Ela se desenha como topografia instável: pedaço de mapa sem território, ferida que não se fecha, rumor que roça os contornos da sintaxe por vir. Falo a partir do entre-lugar: não pertenço à língua que me forma, tampouco àquela que me ouve. Sou ruído entre margens, fala estilhaçada que perpassa o silêncio sem jamais atravessá-lo completamente.

A escuta acolhe o sintoma, e, nesse acolhimento, o gesto da linguagem se regenera como contaminação. Escavo a palavra até encontrar nela a sombra de outra não proferida, mas que lateja no fundo do que não consigo dizer. A cada tentativa de fala, recomeço o impossível: minha boca se abre para o inominável e tropeça nos próprios limites do som, onde o acento se desfaz em matéria bruta de respiração. Há delírio lúcido nisso tudo: uma poética que busca resistir, cantar o que não se pode formular.

O que carrego como “obra” não é arquivo, é rizoma errante de restos e ressonâncias. Aquilo que me escapa é exatamente o que me escreve. Estou cercado por um campo de ruínas gramaticais, por acidentes fonológicos, por lapsos semânticos que insistem em se fazer presença. A escrita se move por entre a falha, e é ali que se dá o real: onde o sentido colapsa, algo se abre para o estremecimento.

Sim, se há algo que possa ser dito sobre a minha bibliografia, é que ela se desloca e arrasta consigo a sombra da voz que não encontrou casa, que apenas rasga o contorno do mundo sem jamais habitá-lo. Uma língua de fronteira, instável, insana, incendiada por uma lucidez que apenas o delírio do poema pode suportar.

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