Ramos em desordem erguidos no centro da tempestade: as sílabas se cruzam como serpentes na vigília do bosque. O sopro dos ventos fende os troncos, arranca confissões oscilantes das folhagens, ressoando os murmúrios da gramática mineral. A palavra se ergue onde a terra sangra raízes, e o céu derrama sua geometria de ausência. Inscreve-se em pedra e cesura a escritura que não é lenitivo, é lâmina; não é porto, é naufrágio. O verbo não pertence ao escriba, mas ao precipício que o imagina; toda fala é a ressonância da combustão primeira, um braseiro que ressoa dos séculos, um clarão inscrito no osso do tempo.
Frase a frase, a chama; sílaba a sílaba, o estilhaço do incêndio ancestral. Nenhuma página intacta: sob os movimentos da escrita, a floresta acende suas fagulhas, e a tinta que desenha os mapas também é a seiva do extravio. Ninguém escreve senão com o fogo que lhe consome os dedos; ninguém lê senão com os olhos em ruína. Leviatã de espelhos, a linguagem se move pelos corredores do mundo como a Hidra feita de tempo. O códice das sombras enreda-se entre os vazios da consciência, e todo discurso é resquício carbonizado de antigas cinzas. Entre escombros e cinzéis, a pena escava a matéria oculta da existência, rasga véus, atravessa a noite onde dormem os arquétipos do verbo.
Aqui, o sentido não se guarda, estilhaça-se; não se ordena, multiplica-se. Exige-se o sacrifício da linearidade, o martírio da clareza, a dança das mutações. Pensamento em vertigem, labirinto sem centro, cartografia onde toda estrada conduz ao mesmo Maelstrom. Escrever é tocar a fronteira do indizível, escalar os muros da razão, esculpir a noite em pedra. E, na rocha onde o silêncio ergueu muralhas, o verbo inscreve sua lâmina, palavra de corte e cicatriz, relâmpago e abismo.
O alfabeto trai o silêncio primordial. Mas é nessa traição que se instala o monumento da linguagem, a resistência feroz contra o esquecimento. Rimbaud viu na letra a substância do delírio; Nietzsche incendiou os alicerces do dizer; João Cabral lavrou com faca as sílabas duras da terra. Não há escritura sem conjuração, não há verso sem corte: toda página guarda o pacto secreto, todo fonema esplende a arquitetura do sacrifício. As sombras de Mallarmé pairam sobre as sílabas em combustão, alargam-se em espiral, erguendo-se sobre as ruínas da própria clausura.
O que se escreve, ao fim, não se guarda: desfaz-se, dissolve-se, retorna à labareda de onde veio. A palavra declina no instante de sua fundação. Escrever é incendiar os próprios rastros, obliterar os limites do visível, pois toda palavra é a insubordinação contra o inferno do real, o clarão que fende a treva e nela se extingue.
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