Cravar incisivamente a lâmina da linguagem no próprio nervo, dilacerando-se no desvario dos fonemas descompostos, devorando o território das sílabas ainda não cartografadas, triturando as margens vocálicas na geologia da carne. A palavra é uma unidade explosiva. A sintaxe é uma garganta que ruge no abismo. Esse animal estranho e sempre estrangeiro, o poema se estilhaça na voracidade da própria miragem, multiplicando-se nas superfícies nunca tocadas, mas já ancestrais, pois surge da combustão dos ritos verbais onde a boca é a lâmpada, e a caverna é a cicatriz e o êxtase.
Nervuras do pensamento, grafias que se erguem em negrume de ângulos desfeitos, rompendo a ordem dos sulcos e as fendas da razão. Letras em ruína, encostas de silêncio roído, campo de extermínio e reinvenção — a página. Sob o corte das frases que se dissolvem e reaparecem como espectros sobre a cidade incendiada da memória, a escrita desassossega. Nenhuma linha se mantém inteira. Nenhuma estrutura se perpetua. Só o ímpeto da devoração se sustenta: devorar os signos, devorar a própria fome.
Caminho de oscilações e quedas, de arabescos que se desarticulam na sombra da escrita insubmissa, onde as vozes se multiplicam e se traem, onde a palavra encontra sua ruína e sua vertigem. Escombros. Levantes. No turbilhão onde a linguagem se destrói, onde a revolução do sonho se converte em torvelinho, insurreição.
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