Ser de pedra e vértice, de queda e vértigo: ergue-se contra o abismo que o devora. Fere a montanha ao golpeá-la, mas é por ela tragado. Plasma-se em ruína enquanto ascende, cava-se em vazio enquanto desce. Força a matéria ao delírio do sentido, arrasta-se por entre falésias de um logos trincado, em que a sintaxe é naufrágio e o pensamento é osso dissolvido no sal do tempo. A ofensa ao mundo é sua natureza: rasga os tecidos do real, profana o silêncio com fonemas estilhaçados, destila sintaxe espectral, verbo que morde a própria sombra.
Ser de labirinto, engenheiro da tontura: constrói corredores de aflição, força o nada à arquitetura, equilibra-se na equação do pavor. Rói o nervo da dúvida, perfura o subterrâneo do símbolo, raspa a crosta das certezas até que o mundo se torne só carne de enigma. Decifra-se para não ser tragado, interpreta-se para não ser poeira. Mas o sentido é ferida, o verbo é faca, a resposta é outra descida ao escuro.
Escrever: engendrar o impossível, esculpir silêncio até que ele fale. Rasgar o verbo para que o silêncio possa respirar.
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