Proferir palavra é trincar a praga que alastra, forjar o declínio no próprio palato, disseminar a maldição entre os dentes que sulcam a carne do silêncio. Edifica-se, na trama da voz, o mundo enredado onde o ser que se pensa sapiens devasta clareiras, abre veios na sombra densa da língua, tenta domesticar o inominável.
Mas as frestas verbais não se deixam subjugar: entre os ramos da fala, pulsa a alucinação do mundo, avança a fuligem da história, sangram-se os limites das nações que nunca se fincam, pois se erguem sobre a terra infértil e o vento revolto. A gramática fendida é estuário onde as eras fermentam raízes subterrâneas; na podridão do tempo que se esfarela, a memória sonha seus simulacros. A linguagem não é solo firme: é abismo de signos, cosmogonia de espelhos onde se perdem as figuras do absoluto. E, se as multidões erguem catedrais de eco, é porque a verdade, sempre clandestina, desliza por frestas de metáfora.
Não há inocência na letra. Forjar texto é talhar bordas que resvalam, compor o códice da margem, inscrever errâncias no papiro da certeza. A sílaba arrasta consigo a fulguração da dúvida, o labirinto onde a ideia se esconde para melhor reluzir. Contra as sebes da ordem, contra a ditadura do uníssono, cresce a selva-linguagem, ninho de animais que falam em ruínas, em murmúrios cifrados, em tempestades de verbo. E, sobre o solo úmido da voz, onde a luz só entra fragmentada, gira a palavra febril, incendiando-se na própria peste que espalha.
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