domingo, 8 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — IV

Cunhar a montanha. Rasgar-lhe as vértebras de pedra, fraturar-lhe os veios fósseis, deslizar as falanges pela estrutura milenar e, na torção mineral, fazer do verbo o estilhaço e da boca o canino de basalto. As falésias esmagam-se contra o céu calcinado. O animal que habita o verbo ferra-se ao mundo: escrever é rasgar, articular é incendiar a matemática dos séculos. Pestilência das vozes em convulsão, febre do que nunca se diz, incêndio das sílabas que tentam escalar a pele da montanha sem decifrar sua cifra.

Porque a escrita é a peste propagada pelos interstícios do tempo, como o vento que sibila nos sulcos das civilizações devoradas. A boca que nomeia fabrica distâncias, instala precipícios entre o que se vê e o que se sabe, torna fantasmático o que era carne. Na erosão da palavra, a demência das eras: o cume nunca foi fixo, a pedra nunca foi pedra. Em seu declínio, a matéria ultrapassa os calendários, transfigura-se em gestações de sombra, sobrepõe as camadas do delírio que, ao se decompor, esculpe de novo a falésia.

O pânico se acumula nos desníveis do tempo. Sob a derme dos dias, as fraturas. O mundo mastiga-se em lapsos convulsos, desagregações das vontades primordiais, cataclismos do idioma esfacelado. Realidade é cisma que se dispersa pelos subterrâneos da escritura, intervalo entre o corpo e seu reflexo, engano na qual a carne se engolfa ao tentar vestir-se de certeza. Entre os rochedos, a afasia das origens: o murmúrio das marés sobre a pedra, o fonema ininteligível do alfabeto que se desfaz no próprio eco.

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