Não sei por qual via do silêncio retornaste nem que passagem secreta existe entre o vazio e a lembrança. Contudo, reapareces, suspensa, no espaço onde o tempo vela a sua respiração. Tuas mãos repousam sobre os anos; teus olhos observam o crepúsculo das flores que ainda enfrentam o sopro da tarde. Há algo que te captura, um som talvez, não sei se vindo do mundo ou de tua própria ausência. Será o murmúrio vegetal da memória sem corpo, o reflexo das águas que deslizam sem destino ou o resquício de uma música interior, antiga, que insiste em não morrer dentro de ti?
Eu queria apenas romper o intervalo e dizer-te que estou aqui. Mas detenho-me, temendo que a palavra, ao nascer, extinga o tênue fio que te envolve. Há uma delicadeza terrível no sossego que te protege. Se o toco, desfaço-o; se o ignoro, perpetuo-o. Como se convoca quem já cruzou para lá da margem de nós? Que forma uma voz pode assumir para não ultrajar o repouso de quem habita o plano entre o ser e o esquecimento? Que gesto, ou lágrima, ou pensamento, alcança aquele que partiu de nós sem violar sua paz?
Fico, então, estático diante de tua distância. És o sonho, a ausência e a respiração alada. Permanece assim, hoje, com o corpo imóvel de uma ideia que não cessa, com as mãos serenas, com os olhos cheios de algo que já foi rosa, mas que agora é tão somente a lembrança da cor. Deixa que o mundo te contemple como quem olha a sombra de si. Deixa que eu te observe sem que me notes, para que a tua quietude permaneça intacta, e o silêncio não se desfaça em som.

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