quinta-feira, 25 de agosto de 2022

74.

Rarefeita forma de ler o poema Ode Marítima, de Álvaro de Campos, como um gesto que instala uma outra maneira de naufrágio – absolutamente artística. Nessa falta de densidade, nem mesmo a ideia de horizonte subjaz como elucidação ou tormento do mar. Antes a autonomia das navegações escritas que o poema consagra (acompanhada da aventura indefinida) ao se arquear ao ponto de aproximar as travessias perigosas, tocando os extremos da borda insondável do mundo, no mesmo instante em que me lanço em expedição como se fosse um navio instável e errante.

Assim, o destino da navegação é na alma e espera – como todas as grandes obras que sempre esperam. Assim vão no fluxo da água. A falta de freios mantém a viagem num tempo sem demora. Deste modo, o percurso da Ode Marítima desenha uma outra maneira de arte e funda o naufrágio de seus corpos marítimos. Contudo, eu aqui a persegui-los com a substância do tempo alieno-me na fúria e na raiva dos oceanos, incumbindo-me da hora da verdade, evitando a fome de etiquetar o longo exílio que os versos do poema consagram ao naufragar e me deixando assim no que agora me parece tudo isso. Eis o naufrágio da Ode Marítima.

Se devo acossar as almas confiadas aos poemas, darei os primeiros passos após as sombras das palavras, naufragando na cauda do Leviatã, esperando o efeito do imaginário dos navegantes. Lá se vai a elucidação do pensamento desligado das mãos num contido alheamento temporal do dragão marinho – há na leitura da Ode Marítima uma nomeação do dia primordial. Minhas vistas perseguem as trajetórias desse acordo justo com os versos e onde eles caem nem posso sugerir a confusão do dia dividido, porque ainda não me deixei ver nisso. Há, ao naufragar a Ode Marítima nas bordas insondáveis do mundo, um porvir do cintilante olhar que está bem antes da hora da barba branca do velho marinheiro. Por realce marítimo, torno preferível ajeitar a escarnada mão e me encostar ao porto evacuado.

A Ode Marítima se principia pelos navios saudados. Digamos: um poema que conclui seu naufrágio porque é o autêntico ditado sobre as águas arremessadas. Aqui em cima, no tatear aéreo das mãos, a Ode Marítima sublima-se num afastamento como uma embarcação partindo em viagem inaugural sob o realizável dos maiores desastres marítimos, que só se compromete com uma travessia transatlântica entre a esmagadora ameaça do naufrágio e a irreprimível anarquia dos destroços da embarcação. Se há, portanto, pouco ar poético por lá, há poema, indiscutivelmente, nesse galgar por cima dos sentidos que a Ode Marítima consuma ao naufragar seus versos após as bordas insondáveis do mundo. E eu também, logo após a substância de tudo, irei à permanência do perdido.

Então, resta-me na folha de papel um quanto de mil luzes acesas, sem viver a diferença entre os naufrágios da Ode Marítima e os versos do poema que ficaram ali como alguma coisa ainda a ser navegada um pouco mais para além do canto dos espaços. A Ode Marítima naufraga pelo horizonte todos os navios. E eu, por aqui com os gestos das mãos de pedra, não consigo situar um particular para o fim dos sonhos das águas, sentindo-me exausto por atrasar o naufrágio sinistro do nosso entender. Nada sei do que me trouxe até o esconderijo da insônia, mas prossigo com a alma eterna dos navegadores e das navegações.

Mediante à farta e sublime tristeza das folhas vermelhas em desassossego, sei o que a Ode Marítima fez com a leitura desse naufrágio. Devo declarar que as mãos espraiadas de espuma jorram na direção de centenas de feiticeiros marítimos. Na verdade, estou aqui no silêncio dos corredores, como se sonhasse uma navegação fadada ao fracasso do naufrágio que nunca desejou outra coisa senão consumar o gesto de uma navegação bastante incerta para as eras das sombras. Em todo caso, nem eu, nem o poema, estamos facilmente capacitados para alcançar o arquipélago estrelado. Não há pernas no vento, só asas nos olhos da atmosfera marítima e tambor impróprio a repicar nos ouvidos do ser elástico, para alcançar a descoberta desse silêncio que é o naufragar da Ode Marítima. Quando me habituar e estiver capacitado para desempenhar qualquer tarefa ao lado daqueles grandes vazios, navegarei a minha prosa com o eco de todas as vozes, pois tenho de cumprimir o semicírculo de não sei que emoção. Mero desejo febril das sombras de outono que claudicam ao acompanhar o diluído fluxo do reino das texturas que não tarda a mostrar o movimento dos ventos e a denunciar os gestos propícios de naufrágio da Ode Marítima.

Neste lugar de navegação, sorrio no escuro da noite, imaginando qualquer lugar onde a Ode Marítima possa naufragar, enquanto lanço outros laços prováveis de palavras. Várias coisas amorfas até aqui. Daqui vejo o ruído na sombra que muito singro como um intervalo desaparecido. É-me necessário duvidar do bater regular do próprio coração. As frágeis paredes das duas brechas encerram as divisões correspondentes, por fadiga e momentâneo desinteresse ao infinito das aparições, recheando os olhos com clarões que o porvir da Ode Marítima imporá ao naufrágio da superfície polida inferior. De fato estou singrando sobre poeiras e, se singro assim, querendo o horizonte visível, estático como estou, lanço evasões de luzes, lerdenando em acompanhá-las com a progressão do ruído das sombras. Eu e a Ode Marítima – o poema que instala uma outra maneira de naufrágio aqui. Pois não! Já que nos tornamos imbricados de todas as coisas, a realidade dilacerante do poema há de espelhar, assiduamente, seus bravios mares sem continentes que atormentam tanto os brancos espaços da Via-Láctea por aqui, pelo mar eterno.

No momento em que as últimas águas declinam, encontramo-nos numa noite enluarada, encostados de maneira a rejeitar o naufrágio da Ode Marítima para além das bordas insondáveis do mundo, pensando em demasia no jato fantasma que desliza por aqui. Sem decolar, percebo que estou a contestar qualquer prece que não seja a imitação do indizível, como se eu pedisse aqui, no escuro dessa noite, maior preparo para me pôr em suplício a persistência confusa dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas que o poema executa.

Levanto os noturnos segredos da Ode Marítima até a altura da umidade aérea das tintas e vejo-os vestidos com a insônia dos anos da arte. Ora, um poema marítimo sobre o naufrágio de si mesmo e de todos aqueles que o leem, um poema que adia o século passado – e assim se escreve como vingança num gesto prosaico – é a sábia e cruel decisão das ondas que rolam como pergaminhos de prata. Isso é a encenação sensível entre o naufragar da Ode Marítima, como poema numa travessia perigosa, e o pouco da extensão marítima de outras vozes que há por aqui. Então, o poema marítimo escreve-se e se lança no naufrágio que estranhamente apazigua uma ideia de travessia agradável por imposição de dedilhar das mãos num frio assassino. Aqui, há de supor, no estado indiscutível da lápide que a Ode Marítima nos impõe, que as realidades furtivas das ações transbordantes são nuvens que dissimulam uma estranha aparição. Evidentemente assim é. Sofro sobre a tábua do testemunho. Engasgado, prescrevo-me isso, pois sinto que o que está escrito da Ode Marítima está à altura do naufrágio violento num oriente do oriente.

E, como dessa vez, de súbito, o naufrágio da Ode Marítima está diante do leitor, a noite já está respondendo sozinha qualquer sombra passada e qualquer sombra futura. Nela, por não se ver os panos da noite e por nada amar da sombra, admito que a Ode Marítima se explique permanecendo na imobilidade, na petrificação e na absorção da dúvida. No entanto, sinto que a noite, por não ser nada disso, sendo tudo que se apaga e se atravessa no horizonte, pode gerar a profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas.

A profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas – ordinária espessura na qual a sombra nunca chega nem a hesitante oscilação escava posição no movimento do pêndulo oculto. Que traço para além de nós e de si próprio! Inapagável hesitação de si própria que vem e se debruça sobre o clarão de sua percepção, pronunciando na beirada de si mesma o eco do naufrágio da Ode Marítima. Estou longe de saber se o que vejo com o ruído que me cerca não é o ponto ao qual me sinto ligado às formas mais definitivas. Posso compreender, neste momento no qual a hesitação me toma, que, ao delirar a caminho do intervalo desaparecido, buscando palavras antes lançadas nas sombras, evito a realidade segura da fugaz nitidez. Na precária decisão de impedir a ideia surgida dos panos da vela, sou capaz de imaginar que a Ode Marítima quer reparar o abuso da vertiginosa imobilidade que o poema faz ao naufragar no horizonte.

Esse é o ruído, tão prontamente uma absurda condensação que, sobre a tutela dos precedentes, reparo que abusei do ânimo conhecido. De fato, estou a usufruir da Ode Marítima como se o poema e eu recuássemos frente ao bater regular da sombra. Miserável, exausto na dependência do esvoaçar prolongado, começo a profetizar aonde vão dar essas palavras que se instalam como um hóspede da noite. O naufrágio percorre esse céu como um pesado sono. Sua ruidosa passagem conserva o instinto das paredes luzentes, cujo gênio deve anunciar que naufragar é a maneira artística de evitar a morte que arrasta a arte para o túmulo da significação.

Agora fiquei indolente com o naufrágio da Ode Marítima, pois o meu estado é esvoaçar prolongado. Mas vou até o fim da borda insondável do mundo. Em minhas voltas de escrita, estende-se esse vazio sentimental da suspeita. No abandono indiferente das patas aracnídeas, tal qual me sinto, minha representação me consome, prevendo a natureza risonha das plumas dos gênios. Quando era criança, isso me divertia toda semana como um lugar especial. Hoje só me diverte isso de toda semana das sombras. Não sinto nenhuma atração por uma espécie intermediária. Inquieto, retiro qualquer atenção das sombras que me consolariam na multiplicação do infinito dos naufrágios da Ode Marítima. A falsa saída das sombras puras, nessa irrevogável noite, projeta, sobre o solo dos destinos, a mais esquisita consciência das miríades. Sei, agora, que um navio lançado no horizonte da escrita, sobre a folha de papel, configura um tipo de naufrágio, significando ganhar uma ilusão de sombras iguais, que nunca, em outra hora, se repetirá por aqui.

Resolvo sentar-me nas paredes opostas a três metros das duas brechas de sombra maciça. Na frente dos meus olhos, abre-se o horizonte do inverso das sombras. Nem a minha solidão suporta o peso das aparições naqueles naufrágios da Ode Marítima. Gostaria de levantar e percorrer as sombras negativas da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. Abro os olhos na procura dessa certeza perfeita, levo o cachimbo à boca, deixando alguém entrar e arriscando uma improvisação do ruído da sombra. E, como iniciei procurando o bater regular dos naufrágios nos horizontes que minhas mãos traçam, a noite doa aos meus olhos o silêncio do próprio coração. Na deserta extensão da certeza perfeita, sugiro-me apresentar o meu cansaço na forma do naufrágio da Ode Marítima para além das bordas insondáveis do mundo.

Confesso, devo responsabilizar-me pela opacidade que até agora me fez atravessar as duas brechas do mundo. Quero rir, mas as divisões correspondentes do poema trincaram e me confundo com o infinito das aparições que alcançou os olhos. Inalando ainda essa maresia da Ode Marítima, livre e vulgar, cuido das clarezas que nesse céu é marcado pelos clarões do naufrágio. Horrorizo-me apenas que a superfície polida inferior não tenha se apoderado da poeira.

É preciso abandonar a evasão da luz, toando à ferida da Ode Marítima caso pudesse abrir o horizonte. Há, portanto, o que dizer no ruído da sombra. Na solidão e renúncia da progressão, talvez estivesse a ausência da ordem primeira, do intervalo desaparecido, do atrito substituído. Dou ao próprio coração importância ao que digo no ruído do horizonte. Não há mais nada nessa medida sob este céu marcado que detenha as incontáveis sombras da declinação dos versos do poema. As sombras da noite passada me dão as sombras da noite futura: se eu pudesse evitar isso, não sofreria muito menos – mas sou a profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas da arte na arte.

Caso seja isso, o que vejo e sei além da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas? Nesse incognoscível, o que atinjo é, dessa vez ainda, o resumo estrito da Ode Marítima – mas de uma maneira tão total que posso me enterrar com profundidade no ventre aveludado do pássaro fugitivo. Enquanto sopro as velas das últimas naus, sorrindo, já debaixo de tanta brandura (ou não), lembro que acabei de terminar o naufrágio da Ode Marítima e nada falei, de fato, a não ser da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. De qualquer maneira, sou o trabalho aracnídeo como uma escrita sem discurso adiada para um gênio superior. Vem já um assobio da renda que faz ouvir, de olhos cerrados e secos para o personagem perfeito da noite, o ponto final da noite desmembrada no mar: um livro escrito por ser o naufrágio adiado das mãos de ninguém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário