terça-feira, 2 de agosto de 2022

51.

Eis aqui uma ruína, uma morte, uma ilusão, uma força; um sonho; algo a traduzir a exaltação; uma mão em sombra de silêncio, um ombro, um escombro e um êxtase. As mãos profundas da noite estão tão calmas neste manto. A poeira dos seres tão transparente quanto o coração; o firmamento turvo. Há na mais radical voz a cobiça máxima pelo mar. Há em cada imensa estrela a coroa íntima de seu absurdo pesadelo. Há nas trevas mais nobres a luz de sua mão. Paisagem das coisas somos, nas mãos.

No mundo outra vez. Som sem nitidez. Não há densidade. Esse fundo dos mares. Ninguém há de suspender os esqueletos brancos do capitão. Nas conchas da areia, as veias se inclinam e não rompem. Mãos vaporosas. Abrem-se as algas. O coração da medusa se exaure nas grutas-cores daquelas formas incertas de ausência. Coloridas flores das águas que nos animais emudecem e de lá são e não são. Desmesurada transparência. O corpo na areia e a areia já no tremor deixa de estar. Que a passagem possa balançar a vertiginosa ausência que toda sereia apaga nos olhos.

No mundo os silêncios trituram as conchas. Nem as cores se botam nos animais. Os silêncios da passagem. Som suspenso da mão formada. A mudez desenha suas sereias: nitidez, esqueleto e algas. Imergem numa incerteza transparente para que se tenha a leveza da densidade. Os silêncios da brancura! As veias são aviso. As ausências escorrem pelos corpos. O capitão marítimo não suspende a medusa. Os silêncios da cor! As areias verdes. O fundo é o da gruta. Treme. Olha. As mãos abstratas de ninguém não alisam rostos, águas e flores.

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