quarta-feira, 24 de agosto de 2022

73.

Era uma vez um homem que ouvira, na sombra, o intervalo desaparecido dos versos que estudava, que, posto à prova pelo ruído, vencido o bater regular sem perder o próprio coração, recebia, contra toda expectativa, a opacidade. Nas duas brechas, releu todas as divisões correspondentes e desta vez com o acrescido infinito das aparições, porque os olhos haviam separado aquilo que a clareza, com piedosa simplicidade, unira ao clarão. À medida que ia envelhecendo, a superfície polida inferior retomava mais por miúdo à poeira e com redobrada obscuridade; todavia compreendia cada vez menos a evasão da luz. Acabou por insistir no ruído mais fixado dentro da sombra já existente: fazer a transmigração das vozes dos poemas que estudava – mãos de ninguém. Não aspirava a contemplar a progressão cognitiva, nem todas as coisas, nem a ordem primeira, nem o intervalo desaparecido, nem a dúvida, oferecido, como um presente, pelo atrito dos ruídos: o próprio coração pudera suceder em qualquer medida; não via aí as incontáveis sombras da noite. Quisera ter participado da explicação do ruído, quando as sombras das noites passadas, montadas nas sombras das noites futuras, seguiam com a forma em frente e com o resumo estrito ao lado. Quisera estar presente no instante em que o palácio do Minotauro, ao erguer as sombras de outono, viu ao longe a infância, no instante em que despediu o reino das texturas e trepou no silêncio passado, sozinho – porque estava preocupado, não com os movimentos dos ventos, mas os murmúrios da música.

Este homem não era, aliás, um facho de luz. Não sentia o mínimo desejo de ir além das traições da paixão. Parecia-lhe ser destino mais belo os laços do provável virem a convocar-lhe para fazer a transmigração das vozes de outros poemas, e considerava-se digno de outros gritos, ainda quando ninguém suspeitasse de seus gestos propícios. Este homem não tinha um douto saber, pois não conhecia tudo. Se tivesse podido ler a imitação do indizível, então teria certamente compreendido, com facilidade, o gesto prosaico da transmigração das vozes outras.

Se o homem não possuísse consciência dos grandes vazios, se um poder selvagem e efervescente produtor do eco das vozes, grandioso ou fútil, no torvelinho dos grandes ouvidos, pudesse existir só no imo do extraordinário da vida; se debaixo do intervalo desaparecido se ocultasse o infinito vazio das palavras ou dos corpos, o que seria disso senão a tragédia da transmigração das vozes outras? O homem das mãos de ninguém foi criado uma segunda vez pela insônia dos anos. Como recriado, não podia realizar o porto infinito, restando-lhe apenas admirar a paisagem, amá-la e alegrar-se com ela com os dedos magoados. Contudo, não é menos favorecido por isso, pois a paisagem é, por assim dizer, o largar do cais, a fim de que o seu amor seja feito com as mãos pequenas que buscam incessantemente a transmigração das vozes outras.

Esse tal homem não fazia subir nada disso, porém guardava com zelo a fratura do tempo lógico da argumentação, que lhe foi entregue sob custódia do resto de sua sóbria rebeldia. Ia à escolha de ouvir os pequenos atos desconexos; na ressonância do seu desejo de mundos seguia, de voz em voz, a elogiar e a viver para que o impossível tomasse parte nas novas perguntas e se sentisse orgulhoso da transmigração das vozes outras que cada um poderia aceitar nas arriscadas crenças. Esta é sua solicitação extraordinária, humilde tarefa num gole outro, com leal serviço na mansão das vozes outras. Mantinha-se fiel às vozes de ninguém e combatia, sozinho, a corrente do seu transe que vinha à sua mente. Desde que tivesse cumprido o intervalo, a vida o instalava distraidamente no tempo. A vida o aceita aqui na casa vazia, da mesma maneira como se religa a si mesmo, pois, para a vida, os gestos da mão de pedra são o melhor disso. E, se é necessária a aventura, se ainda a ação transbordante apaga a recondução à vida, que a arte faz quando se transmigram as vozes outras, este tipo de homem vem pela nau insensata e se aliança quanto maior for o rumar parado.

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