sexta-feira, 19 de agosto de 2022

68.

Há de devolver o dragão da infância à folha de papel. Mas o interior das cerejas é continuamente a insônia de todos os meus anos. Toda paisagem é a umidade do musgo, no sangue. Ter dedos de âmbar é fazer o segredo dos pinhais contra as mãos pequenas. Não há caminho. Adquire-se qualquer palavra, ou corpo, e sentimos todo o choro longínquo das pedras delirar no osso cor de malva quando miramos a sua sílaba e o seu som, e ela se revela o abandono. Elas são as obras por construir do fundo do mar entre o abrir dos olhos. Denomine as mãos de sombras de terra e de papel branco e mãos loucas e tristezas antigas das lágrimas.


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Há de devolver o palácio do Minotauro à folha de papel. Mas a infância é continuamente um dragão de celulose. Nenhum silêncio passado é o interior polposo das cerejas, nos vermelhos. Ter a insônia dos anos é fazer música contra os murmúrios. Não há paisagens. Adquire-se qualquer paixão, ou traição, e sentimos toda umidade aérea do musgo delirar no grito quando miramos o seu espelho e o seu pátio, e o sangue se revela um grande vazio. Os dedos magoados são ecos de vozes das leituras e das escritas entre magias. Denomine o noturno segredo dos pinhais de fogo e de palavra e de vidro e de corpo e de tumulto cego e de choro longínquo das pedras.

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