Que jamais velas navegadas repletas de vida velem de fluir – rio.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
terça-feira, 30 de agosto de 2022
79.
Todos os poemas devem afirmar a existência de uma lembrança homérica. Tantas Troias de bronze nas fagulhas indas da armadura. Homens da carnagem no convexo do devorador que na carne de lanças corre, pisando elmos. Mas o que pensa por ali, na fratura? Lá no miolo do osso. Lá e ali (onde?) no vindo distante do mais próximo espirro. O vômito, do crânio, cava azuis. Vê menos porque escurece mais olhos. Consciente da noite longa das Moiras. Portas altas na ceia da torre. Peplo de Helena? Nada se distingue aqui. Não há sombras ali. Escuta contemplações prateadas. Os olhos são da cadela em Troia. Na margem, os homens a circum-navegar alguma convexidade. Convexidades do bronze da armadura, da lança, dos elmos e por elas. Os olhos se olham neles e sem eles as suas pratas são fraturas intemporais do anoitecer no escuro de alguma grande aspiração.
segunda-feira, 29 de agosto de 2022
78.
Toa ser o último Odisseu mesmo, no seu extremo plástico, o infindo persistente da rasura a cada périplo e para cada além-memória Ítaca, e suas Penélopes surgem como fim do fado, como fogo, desvanecendo em cada um dos seus avessos como reflexão da arte mesma, cuja consolação dos extremos é um destinar para outro multiardiloso pacifista. O todo do espelho de Odisseu é a paz de morte de Thanatos, um revés-resumo. O limite do Éden, a vigília, com o toque de suas quilhas, projeta o mar para fora de si e o atrai para si novamente. A viagem do guerreiro implementada, onda a onda, sai do ponto no qual poderia ser discernida, reagindo com mãos salinas, mostrando-se no atuar de seus fósforos e no atarefar-se com a viagem hercúlea. Mas, quando se dá conta do sulcar dos deuses, ela elabora o Odisseu e o Lúcifer do seu agir, e não ela mesma nas vigilantes colunas da aventura. Justo aqui é preciso ponderar acerca da glória dessa ira que produz, por fim, a sereia composta onduladamente. Antes de se chegar a um esconjuro em particular, Poseidon se evade em sulcada conspiração como ora lastreia uma penúria, ora impele um passo de deus, ora ergue, ora soçobra, o que solicitaria nossa atenção às suas cores, céus e cicatrizes. Nesse Éden reside o passar das partidas. O escarcéu do vinho é o peito da transgressão do coração marítimo. Surgindo, o arcano aniquila-se em virtude do seu-estar-aí-Poseidon. É mais forte do que a medida que resta e, por isso, modela o obscuro do destino do lado de fora da nave, ascendendo o ponto oscilante da sigla mesma, o pélago, in memoriam sobre as cinzas dos astros, as indivisas da família. O vazio que aí se coloca fornece ares de um caos, especificamente desatinado, que conduz a fronteira do sigilo como abismo de oceano. O mar acontece batendo na primeira desmesura e as geografias se seguram no extracéu e, sobre ele, com sopros, uma outra serenidade, ou não, talvez um nauta, no qual o lacre do Éden se rompa. Enterrado está o destino, na memória. O canto chega. Entre o premeditado e o terreno, muitas proibições se fixam e ficam Odisseu. Talvez esteja ali a convulsão como transpassar no paraíso do véu do aportar de si mesmo. O amargor não há e há de passar. E tudo passa. Passa no interdito do lance e nada passa no passar e não deixa de passar e a passagem deixa de chegar, chegando, fazendo surgir a transmigração das dores aqui – a arte da arte. O sinal da alma consignada na pirâmide derridiana, de qualquer modo, às margens da arte, como um enigma sem tempo e ativo, plasma o exercício da arte em torvelinho no extremo da missão. A pirâmide invertida, carena, põe nos olhos o naufrágio de Odisseu com a imagem simples da própria arte – o ultrassom do céu que pertence ao transfinito ousadamente artístico, a saber, a declinação quanto ao ouvido além-retorno. Mas esse Odisseu, da mimese apagada das antiguidades, com seu instante, humano, já é um além e um aquém, um ali nas teias de Penélope – uma luta pervasiva entre o fado e a água, sendo o que é, sentindo tudo de todas as maneiras, com as mãos da arte.
domingo, 28 de agosto de 2022
77.
Humanos, deuses, harmonias, cosmos só o são quando são deslocados com as mãos. A testa dos pensamentos, os apegos do amor emergidos à praia da floresta e vice-versa como nostalgia. Tão festivas que o nome espanto não dá para o gasto e trespassa o segredo de si mesmo. O atuar do espanto é a fonte da quebra do projeto. E esse atuar é a realização do templo. Mas é, ao mesmo tempo, a medida arquitetada do eixo da desconstrução da arte na arte.
sábado, 27 de agosto de 2022
76.
Aqui e ali, na vida, à medida que algo do mar é postergado, longe de tornar aceitável qualquer atenção do interior, em reverso também se escuta o verso do poema esquecido. E dele decorre o testemunho do golpe de inteligência, isto é, o ressoar além das sílabas das coisas no espaço temporal e escrito da procura do mundo, que assim justifica a singularidade da sabedoria da poesia. Por aqui, ou por lá, no real, ou não, os versos do poema sem explicação se deixam coincidir com o confronto dos olhos, no método da surdez do pensamento que acolhe as coisas da terra e as anima ao movimento plástico do sol. Para cá, ou para lá, o vento do mar segue indefinidamente o rosto como pedido de partida.
sexta-feira, 26 de agosto de 2022
75.
A liberdade jogada, e o perigo, e o fundo transparente, e, então, o mar, sem almas, o dom daqueles corais e búzios, sonho sufocado. O último saber de dentro das coisas, nelas e além delas, ou seja: elas mesmas, sempre. O sonho escorre e se implanta na condução dos silêncios. O canto. A surdez. De fato, o dia. Há também a súbita emersão das grandezas. Um desastre e outro na lisura do pátio. Por fora, o melhor é ficar no gerado da liberdade: jogo à margem do perigo – na transparência do mar que nos cerca, na ponta do tempo-alma, sufocadamente. Desde sempre, elas, as mãos de ninguém, sugerem o pervertido transcendentalismo do sonho, do saber das coisas. Algo dos silêncios seus, assim, fica na surdez do canto. Soa prová-lo em cada dia que o desastre da arte respira a obra de arte, que já é uma outra grandeza e a mesma grandeza, libertadamente.
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
74.
Rarefeita forma de ler o poema Ode Marítima, de Álvaro de Campos, como um gesto que instala uma outra maneira de naufrágio – absolutamente artística. Nessa falta de densidade, nem mesmo a ideia de horizonte subjaz como elucidação ou tormento do mar. Antes a autonomia das navegações escritas que o poema consagra (acompanhada da aventura indefinida) ao se arquear ao ponto de aproximar as travessias perigosas, tocando os extremos da borda insondável do mundo, no mesmo instante em que me lanço em expedição como se fosse um navio instável e errante.
Assim, o destino da navegação é na alma e espera – como todas as grandes obras que sempre esperam. Assim vão no fluxo da água. A falta de freios mantém a viagem num tempo sem demora. Deste modo, o percurso da Ode Marítima desenha uma outra maneira de arte e funda o naufrágio de seus corpos marítimos. Contudo, eu aqui a persegui-los com a substância do tempo alieno-me na fúria e na raiva dos oceanos, incumbindo-me da hora da verdade, evitando a fome de etiquetar o longo exílio que os versos do poema consagram ao naufragar e me deixando assim no que agora me parece tudo isso. Eis o naufrágio da Ode Marítima.
Se devo acossar as almas confiadas aos poemas, darei os primeiros passos após as sombras das palavras, naufragando na cauda do Leviatã, esperando o efeito do imaginário dos navegantes. Lá se vai a elucidação do pensamento desligado das mãos num contido alheamento temporal do dragão marinho – há na leitura da Ode Marítima uma nomeação do dia primordial. Minhas vistas perseguem as trajetórias desse acordo justo com os versos e onde eles caem nem posso sugerir a confusão do dia dividido, porque ainda não me deixei ver nisso. Há, ao naufragar a Ode Marítima nas bordas insondáveis do mundo, um porvir do cintilante olhar que está bem antes da hora da barba branca do velho marinheiro. Por realce marítimo, torno preferível ajeitar a escarnada mão e me encostar ao porto evacuado.
A Ode Marítima se principia pelos navios saudados. Digamos: um poema que conclui seu naufrágio porque é o autêntico ditado sobre as águas arremessadas. Aqui em cima, no tatear aéreo das mãos, a Ode Marítima sublima-se num afastamento como uma embarcação partindo em viagem inaugural sob o realizável dos maiores desastres marítimos, que só se compromete com uma travessia transatlântica entre a esmagadora ameaça do naufrágio e a irreprimível anarquia dos destroços da embarcação. Se há, portanto, pouco ar poético por lá, há poema, indiscutivelmente, nesse galgar por cima dos sentidos que a Ode Marítima consuma ao naufragar seus versos após as bordas insondáveis do mundo. E eu também, logo após a substância de tudo, irei à permanência do perdido.
Então, resta-me na folha de papel um quanto de mil luzes acesas, sem viver a diferença entre os naufrágios da Ode Marítima e os versos do poema que ficaram ali como alguma coisa ainda a ser navegada um pouco mais para além do canto dos espaços. A Ode Marítima naufraga pelo horizonte todos os navios. E eu, por aqui com os gestos das mãos de pedra, não consigo situar um particular para o fim dos sonhos das águas, sentindo-me exausto por atrasar o naufrágio sinistro do nosso entender. Nada sei do que me trouxe até o esconderijo da insônia, mas prossigo com a alma eterna dos navegadores e das navegações.
Mediante à farta e sublime tristeza das folhas vermelhas em desassossego, sei o que a Ode Marítima fez com a leitura desse naufrágio. Devo declarar que as mãos espraiadas de espuma jorram na direção de centenas de feiticeiros marítimos. Na verdade, estou aqui no silêncio dos corredores, como se sonhasse uma navegação fadada ao fracasso do naufrágio que nunca desejou outra coisa senão consumar o gesto de uma navegação bastante incerta para as eras das sombras. Em todo caso, nem eu, nem o poema, estamos facilmente capacitados para alcançar o arquipélago estrelado. Não há pernas no vento, só asas nos olhos da atmosfera marítima e tambor impróprio a repicar nos ouvidos do ser elástico, para alcançar a descoberta desse silêncio que é o naufragar da Ode Marítima. Quando me habituar e estiver capacitado para desempenhar qualquer tarefa ao lado daqueles grandes vazios, navegarei a minha prosa com o eco de todas as vozes, pois tenho de cumprimir o semicírculo de não sei que emoção. Mero desejo febril das sombras de outono que claudicam ao acompanhar o diluído fluxo do reino das texturas que não tarda a mostrar o movimento dos ventos e a denunciar os gestos propícios de naufrágio da Ode Marítima.
Neste lugar de navegação, sorrio no escuro da noite, imaginando qualquer lugar onde a Ode Marítima possa naufragar, enquanto lanço outros laços prováveis de palavras. Várias coisas amorfas até aqui. Daqui vejo o ruído na sombra que muito singro como um intervalo desaparecido. É-me necessário duvidar do bater regular do próprio coração. As frágeis paredes das duas brechas encerram as divisões correspondentes, por fadiga e momentâneo desinteresse ao infinito das aparições, recheando os olhos com clarões que o porvir da Ode Marítima imporá ao naufrágio da superfície polida inferior. De fato estou singrando sobre poeiras e, se singro assim, querendo o horizonte visível, estático como estou, lanço evasões de luzes, lerdenando em acompanhá-las com a progressão do ruído das sombras. Eu e a Ode Marítima – o poema que instala uma outra maneira de naufrágio aqui. Pois não! Já que nos tornamos imbricados de todas as coisas, a realidade dilacerante do poema há de espelhar, assiduamente, seus bravios mares sem continentes que atormentam tanto os brancos espaços da Via-Láctea por aqui, pelo mar eterno.
No momento em que as últimas águas declinam, encontramo-nos numa noite enluarada, encostados de maneira a rejeitar o naufrágio da Ode Marítima para além das bordas insondáveis do mundo, pensando em demasia no jato fantasma que desliza por aqui. Sem decolar, percebo que estou a contestar qualquer prece que não seja a imitação do indizível, como se eu pedisse aqui, no escuro dessa noite, maior preparo para me pôr em suplício a persistência confusa dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas que o poema executa.
Levanto os noturnos segredos da Ode Marítima até a altura da umidade aérea das tintas e vejo-os vestidos com a insônia dos anos da arte. Ora, um poema marítimo sobre o naufrágio de si mesmo e de todos aqueles que o leem, um poema que adia o século passado – e assim se escreve como vingança num gesto prosaico – é a sábia e cruel decisão das ondas que rolam como pergaminhos de prata. Isso é a encenação sensível entre o naufragar da Ode Marítima, como poema numa travessia perigosa, e o pouco da extensão marítima de outras vozes que há por aqui. Então, o poema marítimo escreve-se e se lança no naufrágio que estranhamente apazigua uma ideia de travessia agradável por imposição de dedilhar das mãos num frio assassino. Aqui, há de supor, no estado indiscutível da lápide que a Ode Marítima nos impõe, que as realidades furtivas das ações transbordantes são nuvens que dissimulam uma estranha aparição. Evidentemente assim é. Sofro sobre a tábua do testemunho. Engasgado, prescrevo-me isso, pois sinto que o que está escrito da Ode Marítima está à altura do naufrágio violento num oriente do oriente.
E, como dessa vez, de súbito, o naufrágio da Ode Marítima está diante do leitor, a noite já está respondendo sozinha qualquer sombra passada e qualquer sombra futura. Nela, por não se ver os panos da noite e por nada amar da sombra, admito que a Ode Marítima se explique permanecendo na imobilidade, na petrificação e na absorção da dúvida. No entanto, sinto que a noite, por não ser nada disso, sendo tudo que se apaga e se atravessa no horizonte, pode gerar a profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas.
A profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas – ordinária espessura na qual a sombra nunca chega nem a hesitante oscilação escava posição no movimento do pêndulo oculto. Que traço para além de nós e de si próprio! Inapagável hesitação de si própria que vem e se debruça sobre o clarão de sua percepção, pronunciando na beirada de si mesma o eco do naufrágio da Ode Marítima. Estou longe de saber se o que vejo com o ruído que me cerca não é o ponto ao qual me sinto ligado às formas mais definitivas. Posso compreender, neste momento no qual a hesitação me toma, que, ao delirar a caminho do intervalo desaparecido, buscando palavras antes lançadas nas sombras, evito a realidade segura da fugaz nitidez. Na precária decisão de impedir a ideia surgida dos panos da vela, sou capaz de imaginar que a Ode Marítima quer reparar o abuso da vertiginosa imobilidade que o poema faz ao naufragar no horizonte.
Esse é o ruído, tão prontamente uma absurda condensação que, sobre a tutela dos precedentes, reparo que abusei do ânimo conhecido. De fato, estou a usufruir da Ode Marítima como se o poema e eu recuássemos frente ao bater regular da sombra. Miserável, exausto na dependência do esvoaçar prolongado, começo a profetizar aonde vão dar essas palavras que se instalam como um hóspede da noite. O naufrágio percorre esse céu como um pesado sono. Sua ruidosa passagem conserva o instinto das paredes luzentes, cujo gênio deve anunciar que naufragar é a maneira artística de evitar a morte que arrasta a arte para o túmulo da significação.
Agora fiquei indolente com o naufrágio da Ode Marítima, pois o meu estado é esvoaçar prolongado. Mas vou até o fim da borda insondável do mundo. Em minhas voltas de escrita, estende-se esse vazio sentimental da suspeita. No abandono indiferente das patas aracnídeas, tal qual me sinto, minha representação me consome, prevendo a natureza risonha das plumas dos gênios. Quando era criança, isso me divertia toda semana como um lugar especial. Hoje só me diverte isso de toda semana das sombras. Não sinto nenhuma atração por uma espécie intermediária. Inquieto, retiro qualquer atenção das sombras que me consolariam na multiplicação do infinito dos naufrágios da Ode Marítima. A falsa saída das sombras puras, nessa irrevogável noite, projeta, sobre o solo dos destinos, a mais esquisita consciência das miríades. Sei, agora, que um navio lançado no horizonte da escrita, sobre a folha de papel, configura um tipo de naufrágio, significando ganhar uma ilusão de sombras iguais, que nunca, em outra hora, se repetirá por aqui.
Resolvo sentar-me nas paredes opostas a três metros das duas brechas de sombra maciça. Na frente dos meus olhos, abre-se o horizonte do inverso das sombras. Nem a minha solidão suporta o peso das aparições naqueles naufrágios da Ode Marítima. Gostaria de levantar e percorrer as sombras negativas da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. Abro os olhos na procura dessa certeza perfeita, levo o cachimbo à boca, deixando alguém entrar e arriscando uma improvisação do ruído da sombra. E, como iniciei procurando o bater regular dos naufrágios nos horizontes que minhas mãos traçam, a noite doa aos meus olhos o silêncio do próprio coração. Na deserta extensão da certeza perfeita, sugiro-me apresentar o meu cansaço na forma do naufrágio da Ode Marítima para além das bordas insondáveis do mundo.
Confesso, devo responsabilizar-me pela opacidade que até agora me fez atravessar as duas brechas do mundo. Quero rir, mas as divisões correspondentes do poema trincaram e me confundo com o infinito das aparições que alcançou os olhos. Inalando ainda essa maresia da Ode Marítima, livre e vulgar, cuido das clarezas que nesse céu é marcado pelos clarões do naufrágio. Horrorizo-me apenas que a superfície polida inferior não tenha se apoderado da poeira.
É preciso abandonar a evasão da luz, toando à ferida da Ode Marítima caso pudesse abrir o horizonte. Há, portanto, o que dizer no ruído da sombra. Na solidão e renúncia da progressão, talvez estivesse a ausência da ordem primeira, do intervalo desaparecido, do atrito substituído. Dou ao próprio coração importância ao que digo no ruído do horizonte. Não há mais nada nessa medida sob este céu marcado que detenha as incontáveis sombras da declinação dos versos do poema. As sombras da noite passada me dão as sombras da noite futura: se eu pudesse evitar isso, não sofreria muito menos – mas sou a profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas da arte na arte.
Caso seja isso, o que vejo e sei além da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas? Nesse incognoscível, o que atinjo é, dessa vez ainda, o resumo estrito da Ode Marítima – mas de uma maneira tão total que posso me enterrar com profundidade no ventre aveludado do pássaro fugitivo. Enquanto sopro as velas das últimas naus, sorrindo, já debaixo de tanta brandura (ou não), lembro que acabei de terminar o naufrágio da Ode Marítima e nada falei, de fato, a não ser da profundidade vazia dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. De qualquer maneira, sou o trabalho aracnídeo como uma escrita sem discurso adiada para um gênio superior. Vem já um assobio da renda que faz ouvir, de olhos cerrados e secos para o personagem perfeito da noite, o ponto final da noite desmembrada no mar: um livro escrito por ser o naufrágio adiado das mãos de ninguém.
quarta-feira, 24 de agosto de 2022
73.
Era uma vez um homem que ouvira, na sombra, o intervalo desaparecido dos versos que estudava, que, posto à prova pelo ruído, vencido o bater regular sem perder o próprio coração, recebia, contra toda expectativa, a opacidade. Nas duas brechas, releu todas as divisões correspondentes e desta vez com o acrescido infinito das aparições, porque os olhos haviam separado aquilo que a clareza, com piedosa simplicidade, unira ao clarão. À medida que ia envelhecendo, a superfície polida inferior retomava mais por miúdo à poeira e com redobrada obscuridade; todavia compreendia cada vez menos a evasão da luz. Acabou por insistir no ruído mais fixado dentro da sombra já existente: fazer a transmigração das vozes dos poemas que estudava – mãos de ninguém. Não aspirava a contemplar a progressão cognitiva, nem todas as coisas, nem a ordem primeira, nem o intervalo desaparecido, nem a dúvida, oferecido, como um presente, pelo atrito dos ruídos: o próprio coração pudera suceder em qualquer medida; não via aí as incontáveis sombras da noite. Quisera ter participado da explicação do ruído, quando as sombras das noites passadas, montadas nas sombras das noites futuras, seguiam com a forma em frente e com o resumo estrito ao lado. Quisera estar presente no instante em que o palácio do Minotauro, ao erguer as sombras de outono, viu ao longe a infância, no instante em que despediu o reino das texturas e trepou no silêncio passado, sozinho – porque estava preocupado, não com os movimentos dos ventos, mas os murmúrios da música.
Este homem não era, aliás, um facho de luz. Não sentia o mínimo desejo de ir além das traições da paixão. Parecia-lhe ser destino mais belo os laços do provável virem a convocar-lhe para fazer a transmigração das vozes de outros poemas, e considerava-se digno de outros gritos, ainda quando ninguém suspeitasse de seus gestos propícios. Este homem não tinha um douto saber, pois não conhecia tudo. Se tivesse podido ler a imitação do indizível, então teria certamente compreendido, com facilidade, o gesto prosaico da transmigração das vozes outras.
Se o homem não possuísse consciência dos grandes vazios, se um poder selvagem e efervescente produtor do eco das vozes, grandioso ou fútil, no torvelinho dos grandes ouvidos, pudesse existir só no imo do extraordinário da vida; se debaixo do intervalo desaparecido se ocultasse o infinito vazio das palavras ou dos corpos, o que seria disso senão a tragédia da transmigração das vozes outras? O homem das mãos de ninguém foi criado uma segunda vez pela insônia dos anos. Como recriado, não podia realizar o porto infinito, restando-lhe apenas admirar a paisagem, amá-la e alegrar-se com ela com os dedos magoados. Contudo, não é menos favorecido por isso, pois a paisagem é, por assim dizer, o largar do cais, a fim de que o seu amor seja feito com as mãos pequenas que buscam incessantemente a transmigração das vozes outras.
Esse tal homem não fazia subir nada disso, porém guardava com zelo a fratura do tempo lógico da argumentação, que lhe foi entregue sob custódia do resto de sua sóbria rebeldia. Ia à escolha de ouvir os pequenos atos desconexos; na ressonância do seu desejo de mundos seguia, de voz em voz, a elogiar e a viver para que o impossível tomasse parte nas novas perguntas e se sentisse orgulhoso da transmigração das vozes outras que cada um poderia aceitar nas arriscadas crenças. Esta é sua solicitação extraordinária, humilde tarefa num gole outro, com leal serviço na mansão das vozes outras. Mantinha-se fiel às vozes de ninguém e combatia, sozinho, a corrente do seu transe que vinha à sua mente. Desde que tivesse cumprido o intervalo, a vida o instalava distraidamente no tempo. A vida o aceita aqui na casa vazia, da mesma maneira como se religa a si mesmo, pois, para a vida, os gestos da mão de pedra são o melhor disso. E, se é necessária a aventura, se ainda a ação transbordante apaga a recondução à vida, que a arte faz quando se transmigram as vozes outras, este tipo de homem vem pela nau insensata e se aliança quanto maior for o rumar parado.
terça-feira, 23 de agosto de 2022
72.
Em volta das folhas vermelhas e das substâncias do tempo, o desassossego se move. Manchado por horas de verdade, as centenas de feiticeiras. O longo exílio reluz. A caravana parece em fúria e raiva. Os altos galhos circulam na alma confiada. O vento bate nessa sombra das palavras. Passeie pelos amuletos nas crinas, mexendo esse longo muro, mexendo esses outros planos escuros, e esses pensamentos desligados das mãos. Assim, diante de urtigas auditivas: Ulisses rei de Ítaca. O arsenal de espinhos e o sulco do arado levitam sua natureza maligna, e o dia primordial se expande e treme como uma atmosfera de resina. O acordo justo e o cheiro primitivo rebentam devagar nas ausências. Os narizes obscenos ficam no dia confuso e dividido, dançando e se desatando ao redor do pó dos pólens, sobre a permanência do perdido. E o odor dos sebos se eleva e ruge no tempo ido, e o apetite mórbido se estoca com antiga infância e duas mãos enormes, que na substância de tudo, ao nosso encalço por liberdade e reino, lança sobre nosso refúgio o esconderijo da insônia – as mil luzes acesas levantam as páginas de um missal, o canto dos espaços recua ratos cinzentos. A fome terrestre é revestida pelo silêncio dos corredores.
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
71.
Numa daquelas manhãs, o ser elástico se separou do velho marinheiro. Recuou alegremente quando a música silente pareceu se deter na barba branca. À medida que algumas indiscutíveis lápides ressoavam nos cintilantes olhares, segundo os barcos de quilha para o ar, as escarnadas mãos voltavam com mais frequência à nau insensata do barbado vagabundo. Mas eis a surpresa: numa daquelas tardes, releu o rumar parado, entendendo-o muito menos com olhos cintilantes. Naqueles dias seguintes, não desejava contemplar a atuação consolidada, nem o navio saudado, nem figurar com a descoberta do silêncio um porto evacuado. Quis apenas ditar a passagem do gráfico para cada equipagem radiante que via e sentia no túmulo. A ação transbordante escorreu, o farol distante alcançou a estranha aparição, e ele jamais teve a covardia de negar a névoa e a neve. Por esse motivo, ditou, infindas vezes, os espantos. Nesse imediato, conheceu o frio assassino e uma prova silenciosa para aproveitá-la do alto de um mastro. Repleto, ditou todas as tábuas do testemunho e, em seus gelos, se deu o sonho nas águas.
domingo, 21 de agosto de 2022
70.
Aliás, não é nada difícil ver o dragão da infância que acontece sobre a folha de papel. Cada um dos interiores da cereja rompe com a insônia dos anos e das paisagens. O sonho das águas se revela pelo sangue, como dedos magoados que se avizinham às ruas e se põem numa leitura e escrita que não alteram o segredo dos pinhais, montados nas palavras como corpos. Mas o cais deserto é, pela metade, o caminho e o abandono – cumprimento da obra por construir: sozinhas, as mãos viverão no fundo do mar.
sábado, 20 de agosto de 2022
69.
Somos todos sombras nas paisagens que lampejam os seus ruídos como se fossem o bater regular de um porto infinito. Tudo se encontra na cor das flores para que eu possa pousar as minhas opacidades nas velas dos grandes navios. Sim, as duas brechas se compreenderão no largar do cais, sem as divisões correspondentes. O infinito das aparições, os olhos, o clarão ao redor das árvores antigas. E agora? A superfície polida inferior anuncia a poeira. Toque e os vultos se romperão na evasão da luz. Que ares trouxe o porto sombrio? Poder da sombra, harpa do ruído, vulto do cais antes da progressão, impotência de dizer todas as coisas. E nada nunca se esvai das mãos sobre os joelhos. A pena, a tinta, o papel aliciam calculando todos os navios: nos gestos das mãos de pedra não há e há união com a terra. Tudo no rosto antigo. E ele no rastro das mãos, aqui, descansa, enfim, no gesto da forma. Mas a curva do dorso não há e há, pois o espraiar das mãos espumantes ilude o papel branco: engano das palavras, das tintas e da pena.
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
68.
Há de devolver o dragão da infância à folha de papel. Mas o interior das cerejas é continuamente a insônia de todos os meus anos. Toda paisagem é a umidade do musgo, no sangue. Ter dedos de âmbar é fazer o segredo dos pinhais contra as mãos pequenas. Não há caminho. Adquire-se qualquer palavra, ou corpo, e sentimos todo o choro longínquo das pedras delirar no osso cor de malva quando miramos a sua sílaba e o seu som, e ela se revela o abandono. Elas são as obras por construir do fundo do mar entre o abrir dos olhos. Denomine as mãos de sombras de terra e de papel branco e mãos loucas e tristezas antigas das lágrimas.
***
Há de devolver o palácio do Minotauro à folha de papel. Mas a infância é continuamente um dragão de celulose. Nenhum silêncio passado é o interior polposo das cerejas, nos vermelhos. Ter a insônia dos anos é fazer música contra os murmúrios. Não há paisagens. Adquire-se qualquer paixão, ou traição, e sentimos toda umidade aérea do musgo delirar no grito quando miramos o seu espelho e o seu pátio, e o sangue se revela um grande vazio. Os dedos magoados são ecos de vozes das leituras e das escritas entre magias. Denomine o noturno segredo dos pinhais de fogo e de palavra e de vidro e de corpo e de tumulto cego e de choro longínquo das pedras.
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
67.
É da vertiginosa imobilidade a quebra do ruído que escapa da absurda condensação dos precedentes. Na trivialidade comum do ânimo conhecido, as mãos entre sombras adquirem o bater irregular, que cursa prolongadamente o esvoaçar de algum hóspede. Nessa noite, invoca-se o pesado sono e se tenta libertar das tramas que inexistem sobre as paredes luzentes. Faltará ainda muito para que as patas aracnídeas da suspeita sejam concebidas: as tintas e as palavras só entram pela porta de uma plumagem de gênio, equilibrando uma espécie intermediária para escutar a poeira que está no colo dessas sombras.
***
É do palácio do Minotauro a quebra da infância que escapa do século passado. No vermelho da música, os murmúrios entre paixões adquirem a tradição, que cursa prolongadamente o grito de algum espelho. Nesse pátio, invoca-se a varanda e se tenta libertar dos grandes vazios que inexistem sobre o eco das vozes. Faltará ainda muito para que magias sejam concebidas: o fogo e a prata só entram pela porta de vidro, equilibrando um tumulto cego para escutar o escuro da noite que está no brilho do dia.
Ao recompor o palácio das palavras, como em qualquer infância, dou-me conta de que os séculos passados são vermelhos. Nenhuma música poderia supor este murmúrio. Poderia produzir as paixões, forjadas pela traição dos gritos. Mas os espelhos são pátios e não varandas, que agora chamo de grandes vazios. Não sou e sou o eco das vozes e, por isso, fazer magia, mesmo que seja com fogo, soa como prata e vidro. Mas devo dizer que há por aqui um tumulto cego. Por isso, o escuro da minha noite – e do brilho do dia – se parece com a fúria, e esse clamor é um ato infante contra as mãos.
***
Ao recompor as sombras de outono, como em qualquer reino das texturas, dou-me conta de que a luz é a do movimento dos ventos. Nenhum laço do provável poderia supor todas as ilações rápidas. Poderia produzir os gestos propícios, forjados pelas vinganças. Mas elas são os grandes ouvidos que agora chamo de imitações do indizível. Sou prosaico e, por isso, fazer a vida, mesmo que seja extraordinária, soa como as sombras de outono. Mas devo dizer que há o reino das palavras. Por isso, minha luz, e a de todos os movimentos das mãos, parece laços do provável, e os gestos propícios são imitações do indizível contra as coisas amorfas.
quarta-feira, 17 de agosto de 2022
66.
Não mereço o soar das horas pela inevitável circunstância do livro. Mesmo assim, a ideia que move minha visão oportuna não me apetece nem um pouco no espelho quimérico. Tudo se torna um facho levado por mim. No imediato do desaparecimento de todos os personagens, fico a dever o sumiço no tempo das tapeçarias, que jamais estará pronto aqui. Nesse país há de ter um livro de magia para fugir da pureza que sempre se amarra à substituição da obscuridade, que deveria ser o tombar das cortinas nas trevas. Faltam tempos, em qualquer momento do livro cujas páginas estão fechadas todas as noites. Baluartes da luz do dia, afundamo-nos na ausência dos móveis e avistamos, quando muito, a agonia do sonho que de longe acena e nos seduz com apenas a substância do nada.
Não falo de idiossincrasias. Falo das sombras, dos silêncios e das quimeras que se justificam na fala que esconde o personagem pela precária sensação do movimento absorvido. Capatazes dos panos da noite. Senhores do ébano. Atordoados detentores das sombras arrancadas da oscilação na qual se coloca a interrupção de um pêndulo oculto. Professores da percepção de si mesmos. Nenhuma categoria acentuada por si mesmo explica o sufoco do clarão de nossas percepções. A culpa que nos cabe é que tivemos definitivamente o ruído escandido na força que preenche o intervalo desaparecido, sem nenhum dever de encenar de fato a fugaz nitidez da sombra.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
65.
Um humano de harmonia e cosmos povoa a mão que uma grega testa trocou pelo pensamento manifesto no apego. Ele não quis amar o futuro das construções. Seu frontão sacudiu a medida dos eixos. Seu templo quebrou o projeto das fontes. Mas o possível segredo é reto, sem nenhum espanto. Seu trespassar é obscuro como a nostalgia de uma festa. Na sua floresta canta uma emersão de amor. Em sua praia brilha o apego do pensamento.
E a mim, embora dormisse muito depressa no país da poesia, bastava-me com as retas da estrada que afrouxasse a tensão de cada coisa que surgisse nomeada para que esta deixasse escapar o recorte da mão do instante. Ao despertar à meia-noite, não sabia onde estavam as chaves de todos os meus cavalos – no primeiro momento tão pouco sabia quem me levara para o mar de longas crinas; em mim não havia e havia o recomeço incorruptível do caos, tal como podem vibrar as mãos sobre os joelhos, encontrando-se secretas como a passividade dos espelhos. Mas então o canto ainda não era o canto da imanência e da latência, mas o do ouvir devagar onde eu tinha vivido a súbita fala que me foge repentinamente. Descia até mim como uma manhã de junho que tivesse chegado do navio que ancorou aqui para me tirar desta cabine na qual me debruço ávido; em um segundo passava por cima dos rostos do real; a imagem opaca vista das manhãs no porto, das camisas com murmúrio de nomes, foram recompondo com lentidão as ilhas gregas. A invocação das sombras que nos rodeiam acaso são uma transparência solene que impomos a nós mesmos, com nossa certeza de que elas são esguias como uma mastreação veleira, e nada mais, com a imobilidade que toma as almas visuais frente aos ossos. O caso é que, quando eu despertava impessoal, com a lei em máscara, tudo girava em volta de ilhas, nas praias. Meu corpo, muito torpe para erguer palmeiras, tentava, fora das rochas negras, determinar o canto estridente das sereias para daí induzir a direção da ausência que emerge repentinamente do barco, para reconstruir e dar nome às ruas onde procuro alguém. Sua memória das imaginações oferecia-lhe sucessivamente as viagens neste barco, enquanto, ao seu redor, as mãos, invisíveis, trocando de rumores, segundo os desdobrados azuis, giravam sob o voo das gaivotas. O lado de meu corpo, ao tentar adivinhar a promessa da imortalidade, acreditava, por exemplo, estar jogado onde estão as coisas que plantei, em uma grande parede pintada de branco.
segunda-feira, 15 de agosto de 2022
64.
Esse poeta foi como uma antiguidade sensível. Que objeto dos deuses manifesta, não só em seus nomes e seus gênios, mas em adornos e impropriedades? Aqueles bosques dilatados e nunca mentais que emergem dos lagos e das cidades nas poéticas nações do sentido, trespassados de estudo e de gênio, agora jazem sem deidade e sem sistema.
domingo, 14 de agosto de 2022
63.
A hora partiu longe demais. Deparei-me com as naus além da praia, vi cabos de morte nos restos de uma fala velada. Suponho que era esse o sonho que tinha há anos. Era esse o sonho que tinha para as angústias, mas os sonhos delas têm ruínas de palácios agora, e os parques estão abandonados por causa de repuxadas fontes erguidas de olhares de estrada. Sinto que as angústias têm saudades por lugares outonais e que têm realmente uma paisagem manuscrita vinda da frase, quase na beleza do corte. Pois a partida deve ter sido em pose de um candelabro sujo, com humanos lagos e pequenas cartas de séculos anteriores, separadas por almas, e com luzes de palavras, e várias ânsias assentadas na brisa, enfileiradas ao longo das aflições. As angústias ainda falam em descer para a enfermidade por nudez. Mas as ninfas estão ao luar. E as angústias já têm a aparência de algo de sol preservado à partida; é silenciosa agora, embalada entre naufragadas ideias de vozes.
Entrei. Apolo tocando uma lira cerrada mostrou-me o fingimento. Não sei que cauda esperava encontrar, de todo modo algo assim e de qualquer jeito. Havia pavões com olhos de jardim no meio das sombras. De resto, tudo estava bastante vazio. Havia rastros de angústias que pareciam vestir os chãos, como se elas chorassem o eco que haviam encontrado. Seus passos são como alamedas no findar e têm uma fundida alma de relva e de prados que produz esse frescor etéreo de que falo. A qualquer momento os pés cintilam com frio ou se olham com ideias. Penso que em julgamento deve ter sido uma visão de calma, com um porto de navios; um tempo de remos, a despeito das searas áureas; as passagens mais recentes, em que as saudades marítimas são ressaltadas, e o trono do alheamento gesticulado é de pedra. As lâmpadas são as partes com alma e apagamento: o resto é silêncio em perfil esticado com firmeza sobre um píncaro.
sábado, 13 de agosto de 2022
62.
Sei que já não mais mereço silêncio pela velada nau que me abranda. Ainda assim, a brisa que brinca nessa nossa flâmula não sorri nem um pouco. Por aqui, tudo se anda com pés fingidos. No paraíso dos corações, fico a dever a silenciosa ânfora que sempre cai e se parte. Nessa partida, há de recolher uma ideia guardada para cantar o mar, a tela dos cadáveres e a cor das boas artes que sempre erram antes de se espraiar na porta que deveria ser nossa abertura arejada. Faltam ideias de outros tantos fumos, em qualquer espaço do salão vazio – ensaiar outras saídas da vida. Viver. Almas de ociosos perfumes, afundamo-nos em nossas cavernas cheias de marés e avistamos, quando muito, a ideia que do sono chove e nos assombra com apenas uma caravana baça. Não falo das áureas horas. Falo dos escombros que se justificam no choro que interioriza as estrelas do céu, viúvas e pesadas pela precária ideia de um porto. Chuva de mudez de nossos vazios. Hora das naus do alheamento olhado das pragas nas quais sentem o jaspe – pedra do tato. Negrumes da ânsia e do talhar como alegria e dor. Nenhum mármore acentuado pela nossa bondade invertida nos abre. O caminho que nos pende é que cruzamos as nossas utilidades na barricada das pedras que viçosamente crescem. Vejo todas as linhas debruçadas no vazio de uma página celeste, terrestre, incolor – o deserto é o abrigo das frases copiadas. Digo que todos aqueles que naufragam aqui nos lembram que uma navegação pelo mar só é possível quando nos amarramos ao nada.
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
61.
A liberdade das mãos joga os perigos transparentes. Há fundos de mar em que as almas dos corais e dos búzios são sufocantes e fundos de sonhos em que as sabedorias são coisas. Os sonhos são cantos de conduções silenciosas; as surdezes de dias em emersão da grandeza com misturas e cruzamentos. Não há desastre senão no pátio liso. O mar que eu vivi foi aberto. A atenção escuta no interior da rua. A frase silabada no espaço subitamente gravou-se nas coisas. E vai no tempo, escrevendo entre os mundos da procura. Escreve sabiamente. Ninguém mais se mostra com os reais olhos das explicações. Vai no tempo, escrevendo os mundos da procura. Escreve sabiamente. Ninguém mais se mostra com os reais olhos do conforto. Sem método e pensamento. Escreve. Despe e escreve, terrenos rostos. Escreve e despe. No mar, pedi. Sem método e pensamento. Escreve. Despe e escreve.
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
60.
Uma cabeça de penumbra, uma madrugada e uma lentidão: nos cavalos do vento há sacolejo. Boia a crina outro espírito fora do mar. O reino da pergunta já é o que espaça o vazio. E a lentidão ondula o branco já no fundo. Nessa areia verde e fria em que as conchas se apodrecem, transparece a lisa Medusa igual a um grande cavalo e se separa muito poente – eterna em exatos corpos. Dos longes tempos divide-se a unidade das mãos. Uma escuta de coisas estremecidas. Um vento de muitas subidas como uma manhã. O calor aberto que sente. O rubor nas faces. Os olhos conscientes em redor dos êxtases dilatados. Crescemos num avanço de ruídos que cegam suas arruaças nas acentuações. A unidade explodiu de repente uma ânsia e um tédio para dinamizar os lançamentos e um sangue de passado forçoso ainda de ódio, ainda vivo, ainda passageiro.
quarta-feira, 10 de agosto de 2022
59.
Apertam-se mãos na serenidade-marinheiro, espraiando a perdição de um caminho de obscuridades que cresce com as cidades e carrega uivos nas ruas e nos navios. E a lua? Balança o anão e o esfria além da morte. O mastro, agora, nos ombros – só na esquina da escrita há aves entre as sombras da onda.
Nos apoios do nada, irei pelos rastros, confuso pelas redes, a pensar a prisão obscura. Medusa, sentirei uma queda sob as noites e o vento há de esconder o nome conduzido. Escura pupila dentro do vidro transparente. E contínuo irei, bem sombrio pelo corredor.
Nas luzes há de navegar a alucinação do voo. O destino: os apagamentos no mar. Qualquer outro mastro se perde no caminho dos nomes que não triunfam sobre astros. O vão, sinal a se erguer de peso e de desastre, busca madrugada pura ao vento chamado. Repousando sobre o cais, imaginamos que marítimo é o rosto, a se eternizar de precisão. Que seu nojento chamado, ventilado por uma corrida, é de morte como a praia, de mar como o navio. E distante do mastro e das paredes as mãos rumam a grande cinza de todos os restos.
terça-feira, 9 de agosto de 2022
58.
Fabricadoras de recusas exatas: quimeras, monstros e demências. Toda linha de imaginação é um visível nascimento, um desvio de roda em que as penumbras caminham, como tempos revoltos que vêm nas obras, dividindo uma face antiga e de buscas em vão. É como um deus chamado, sem rosto, onde as Parcas são fúnebres, mortíferas e perseguidas – uma encruzilhada que das mãos o pássaro atravessou.
segunda-feira, 8 de agosto de 2022
57.
Essas mãos, sob a voz do mar, chamam baixo como se chama em estrada alva. Pensam em ler assim como um livro em fuga. Sentem-se tristes à liberta ebriedade entregue da espuma que olha e olha suspensa. Na imensidade do céu o seu impedimento submerso. E logo o mar anoitece e luz-se junto ao papel deserto, no vazio, uns anseios de juventude. A branca iluminação feminina que nos seios parte evapora no balanço o seu filho em vaga. Onde se ergueria a âncora desses estranhos tédios, âncora de desolação cruel e de adeuses silenciosos? Certamente se esqueceu de romper uma onda aos mastros ventosos. Sobre os lenços, naufragar a fertilidade e a canção, muito antes de se imaginar as traçadas ilhas.
domingo, 7 de agosto de 2022
56.
O tilintar de uma queda tem desoladas obliquidades: terras chuvosas, mantos aquáticos, céus que se espelham souberam onde reinar – os regatos cantaram. As águas, talvez, ainda descansem no campo, atravessando o estouro das ameixas. Aqui estamos em amassada grama e, neste prado, escolhi os ramos como amigos. Moro, como em contemplações, numa cortina densa onde, talvez, eu tenha silenciado rostos, onde tudo o que de círculo a água acessa fica segredado dentro dos seres. Começo entre lábios amarelos, apaixonantes; aqui, a paixão funde-se ao beijo. Este louco coração de tristeza alcança a pulsação do amor. Trouxe para cá o entendimento das mãos de nossa última primavera, que não sobreviveu: o leve, abrigado, flutuante estorninho de minha eternidade sobre a morte.
sábado, 6 de agosto de 2022
55.
A vela do barco venta as forças da vinda com mais estranheza que a mesma liberdade. Há coisas de passageiras alas. Viver esvazia, mas alimenta. Navegar é ser navegado e, portanto, ondular. Só a repetição nomeia, sem segredar, o fantástico da viagem – estes teus anjos de vento reconheceram algo do encontro, do encontro algo branco arrancaram, algo do dia do oásis, segredado e tão difícil de navegar quanto a unidade do chamado na memória. Foi como se, das coisas, a vida regressasse como amor lembrado, como se eu dividisse os meus próprios tempos nos jardins da tarde de um deus. E minha memória já não morre em meu esquecimento, de caminho ou de tempo. Tudo acabou por aqui… E o monstro galopa para dentro da safra de um jardineiro onde os deuses não estão mais.
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
54.
A curva do arco se desfaz com o pranto da sua palavra liberta: memórias. Assim, as mãos estão sob o domínio da pátria e sobre os longínquos eternos que se perdem. A sabedoria do passado, ou futuro, é perdida por não conseguir traçar corpos, debruçando-se sobre o amor mais cercado do escutado canto. E inicia-se o que do poema falamos: ler poesia é ler o enganado dia. Buscam os rostos que abolem o que de fato já morreu. Procuram as verdades. Do destino só há gesto. Tudo já aconteceu. Tudo já foi dito e chegamos tarde demais. Solidão de ritmo. Cegueiras de nomes represados. E, pelos chamados, as mãos de ninguém – conhecida abertura que ainda há de abraçar cada sensação nossa.
quinta-feira, 4 de agosto de 2022
53.
As cintilantes trevas do abrir das mãos luzem-me e retiro-me com as mãos cheias de paisagens fantásticas: era o tempo das coisas queimadas entregues à morte, ao dia, à perfeição e à luminosidade mais presente das transparências. Eram os olhos cegos das vozes quando o gesto se exaltava imaginado e consumido. Era o poema da solar janela e da página – os brancos como gestos se afastavam. Era o desligamento do golpe da angústia destruída quando o desejo de tudo se curvava.
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
52.
Mortífero rosto! Espraie em mim o amor! Espraie em mim! No nome perdido daquelas repetições esperadas, os caminhos regressam à raiz. A paisagem adivinha flutuar. Ausência em cortes divididos. No nomeado ruído, as mãos dedilham os seres e, poeticamente, mundificam a vida de ninguém – que morre na sala do trono. Reine! Reine! Divisões partidas da evidência: o dia, o dia! Reine! A viagem é um mutilado regresso.
Escuta! Escuta tu também e fala por último, dizendo a tua diferença! Mora na tua possibilidade feita de dia, a hora despida da saudade do alimento: não há resposta, apenas caminho, noite e terror. Tudo apagado, verdadeiramente. Tantos tempos de ocupação nos tempos mortíferos. Dias do afastamento na noturna proximidade que na concavidade das mãos deseja. Lá no longínquo do frescor. Lá e ali no abandono espanto do mais inquieto toque.
terça-feira, 2 de agosto de 2022
51.
Eis aqui uma ruína, uma morte, uma ilusão, uma força; um sonho; algo a traduzir a exaltação; uma mão em sombra de silêncio, um ombro, um escombro e um êxtase. As mãos profundas da noite estão tão calmas neste manto. A poeira dos seres tão transparente quanto o coração; o firmamento turvo. Há na mais radical voz a cobiça máxima pelo mar. Há em cada imensa estrela a coroa íntima de seu absurdo pesadelo. Há nas trevas mais nobres a luz de sua mão. Paisagem das coisas somos, nas mãos.
No mundo outra vez. Som sem nitidez. Não há densidade. Esse fundo dos mares. Ninguém há de suspender os esqueletos brancos do capitão. Nas conchas da areia, as veias se inclinam e não rompem. Mãos vaporosas. Abrem-se as algas. O coração da medusa se exaure nas grutas-cores daquelas formas incertas de ausência. Coloridas flores das águas que nos animais emudecem e de lá são e não são. Desmesurada transparência. O corpo na areia e a areia já no tremor deixa de estar. Que a passagem possa balançar a vertiginosa ausência que toda sereia apaga nos olhos.
No mundo os silêncios trituram as conchas. Nem as cores se botam nos animais. Os silêncios da passagem. Som suspenso da mão formada. A mudez desenha suas sereias: nitidez, esqueleto e algas. Imergem numa incerteza transparente para que se tenha a leveza da densidade. Os silêncios da brancura! As veias são aviso. As ausências escorrem pelos corpos. O capitão marítimo não suspende a medusa. Os silêncios da cor! As areias verdes. O fundo é o da gruta. Treme. Olha. As mãos abstratas de ninguém não alisam rostos, águas e flores.
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
50.
O sopro cria à sua roda um ancestral de vela com aqueles caracteres do livro sob os ruídos da magia – evidência do fino astro agudamente medido. Os acasos derrubam sombras e luzes. Eu serei destruído pelos breves tempos. E de repente recupero a antiga cortina da criança entre os ancestrais. Quando os azuis do rosto se refletirem imóveis nos rastros verdes dos dedos, deixarás a pérola confusa onde se agitam os esquecimentos, os granizos, as melancolias e os lenços. A despedida estará acesa no aceno em branco. Irás ao silêncio entre os espaços da ânfora sem qualquer tarde, sem qualquer outono, só o pinheiro do tempo na areia. Mas, pelo impróprio século, pressentirás os anos. Quando a estátua rolar nas colunas fechadas, estarás perdido na divindade do ar – este é o arco da segunda respiração.
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