Os silêncios se movem. As flâmulas se movem – apenas de pé. Mas o que apenas recolhe vida pode apenas morrer no mar. Os silêncios, após as portas, alcançam o salão. Apenas pela nau, pelo sorriso, podem os silêncios ou as flâmulas alcançar o paraíso, como um vento na praia que ainda se move perpetuamente na alma. Não a alma das velas, enquanto a viagem perdura, não apenas as escadas, mas o coração, ou seja, que a partida precede a tela, e que a partida e a tela estiveram lá, antes da tela e depois da partida. Os silêncios se distendem, estalando-se, quebrando-se, sob a caverna, sob a brandura, tropeçando, escorregando, perecendo, apodrecendo com as andanças, não querendo se manter nas ânforas, não querendo se quedar só em um canto. Ideias da errância, da maré, da cor ou apenas da ideia, sem cessar as artes. O fumo do silêncio na abertura é perfumado pelo ócio dos cadáveres. A ideia da queda do funéreo sonho. O fingido assombro do céu chuvoso.
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
domingo, 30 de outubro de 2022
140.
A sombra e o outono sepultaram o reino. O movimento das texturas arrebatou a luz. Irá o vento voltar-se em laço? Irá a ilação extraviar-se junto à rapidez dos gestos, inclinando-se sobre as vidas? Irão as coisas amorfas e as vinganças agarrar e apertar os ouvidos? Imitações do indizível irão se crispar sobre as vidas? Depois que a prosa dos extraordinários responder sombra a sombra, sombreando após, a sombra outonal permanece no movimentado vento do laço que gira.
sábado, 29 de outubro de 2022
139.
Aqui é um lugar de opressão. Nuvem muda e nuvem de basalto numa lava movediça: nem eco de escravos que reveste trompas de virtuosos sepulcros transfigurando naufrágios em espumas supremas e cuja destroçada abolição sugere mastros, nem os ossos que purificam as faltas, esvaziando o abismo com perdição, purgando de vogar a abertura. Nem enlear nem fio. Um afogar apenas sobre flancos infantes repuxados por sereias distraídas das sereias pelas sereias cheias de infantes e afogadas e enleios. Branco vogar sem abertura. Abismos e alturas em perdição rodopiadas pela falta furibunda que sopra antes e depois em todos os ossos. Mastros fora e dentro de destroços abolidos. Espuma de naufrágio e espuma de sepulcro. Virtude de ecos escravos. Na lava de basalto, trompas carregadas pela mudez que varre as enevoadas opressões das trompas. Não aqui os destroços, nesta altura de afogamentos. Desce das nuvens, desce apenas à virtuosa abolição dos abismos, mas não aos flancos, à mudez dos sepulcros, ao mastro. Abertura de todos os infantes. Basaltos do naufrágio dos ossos. Vogar das sereias em lavas. Espuma furibunda do branco. Este é o único eco, o outro é o mesmo, não em falta, mas de falta de fios, enquanto o enleio se move em perdição, sobre suas metálicas palavras de nuvem muda e nuvem de basalto numa lava movediça. Aqui é um lugar de opressão.
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
138.
A tentação às dobras da mão em forma de ave. A palidez da índia e da vela. A palidez da novidade da noite e da sombra, ainda que cingida pelas velas da nave. Uma demência em sobra e mergulho. Canção da pedraria. Brinde na caravela, ao mesmo tempo uma monotonia refletida e outro tempo agora na espuma, no timão de seu parcial acaso do horror. Contudo, o cabo da avidez e da jazida, entretecidos no riso das tentações à Índia, preserva a sombra da sobra e do brinde, que nenhuma dobra de vela poderia suportar, agora. O mergulho da nave e o mergulho da espuma não admitem senão o voo de uma ávida ave. Ser consciente é estar dentro da caravela e do outro lado do tempo. Mas é apenas no mergulho que a novidade nas velas, a novidade sob a canção monótona ao timão, a novidade na jazida cruzada pelas mãos ao cair da noite podem ser refletidas, envoltas na nave e na espuma. Somente através do mergulho, o mergulho conquistado do acaso – em riso sobre a palidez.
quinta-feira, 27 de outubro de 2022
137.
A ruína da morte e a ruína da ilusão estão ambas na ruína do sonho e a ruína do sonho contida na ruína da ilusão. Se toda ruína é forçosamente exaltação, toda ruína é ruína das mãos. O que poderia ter sido é uma sombra que permanece, silenciosos ombros, num êxtase apenas de escombro. Tudo converge para um só fim, que é sempre morte. Ecoam noites nas mãos ao longo dos mantos que não percorremos em direção às poeiras que nunca abrimos para os seres. Assim ecoam no firmamento, em teus cabelos. Mas com que fim as mãos perturbam a voz sobre o mar de estrelas? Outras coroas, como pesadelos, aninham-se nas trevas. Entre as folhagens, procurando-as, procurando-as na luz das paisagens. Pelas coisas da mão aberta ao dia da morte, aceitaremos a luz dos olhos. Em nossa voz cega. Lá estavam os gestos imaginados e exaltados, movendo-se solares sob as mãos do mundo, na balança dos ombros, através da palidez da lua, e o marinheiro cantou, na praia, com a obscura mão imersa na piedade. E um perdido caminho triunfante as mãos trespassaram, porque os infinitos, nas coisas das mãos, recordavam dias. Lá estavam elas, como nas mortes, acolhidas e acolhedoras de sensações. Assim caminhamos, possessão a possessão, em impulsionada promessa, aos ombros da espera e da tarde, rumo à ausência do rosto, para mergulhar as mãos nas estátuas dos deuses. Estátuas dos deuses. Invasores das estátuas, cidades em ruínas, e os deuses inundados pelo tempo da morte verdadeira, e as vitórias se erguiam, sombrias, sombrias. As mãos flamejaram nos abrigos do perigo. E todos atrás de todos, nas janelas e nos corredores de palavras. Vai, disse o rosto, porque as mãos estão repletas de jogos, em conversas entardecidas, a reprimir a luz. O rosto dos homens não pode suportar tantos pesadelos. A ruína do sonho e a ruína da ilusão convergem para um só fim, que é sempre a morte.
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
136.
O começo paira sobre o recomeço do arremesso. A vida com suas espécies rastreia-lhe a viagem. A importante viagem do começo da escrita. A importante página da escrita em página. A escrita de começo e de escritura, escritura e recomeço. A arremessada escrita da escrita e do futuro. Escrita sobrescrita, páginas escritas. Traz a página da noite, mas não a noite. A página do ensinamento e o começo do fim. Toda a nossa escrita nos aproxima da escrita. Toda a nossa escrita nos avizinha do começo. Mas o descomeço do começo não nos acerca do desconhecimento. Onde o descomeço que perdemos quando tecidos? Onde o livro que perdemos na força? Onde o livro que perdemos no livro? As viagens da viagem em vinte e um séculos afastam-nos do começo e da revolta nos acercamos em volta. Viajei para o recomeço. O livro no conteúdo do livro. Onde a linha flui com páginas palavradas. Temos aqui linhas sem conteúdo. E palavradas linhas de palavras. Deixem partir os livros. Os livros carecem de ensaio. No livro não precisamos de livros. Que eles despertem os ensaios. O livro gira e o livro se transmuda. Mas há um fim que jamais se transfigura. Em todos os fins o começo existe e não muda. O recomeçado refino entre o afinar e o fim. Afunilados, descuidais vossos começos e afunilações. Que vos saciem o começo fuzilado e final. O fim dos fins recomeçados não está decerto recomeçado. O fim não se oferta apenas ao dobrar do refino. O fim se comprime ao lado do fim no fino. O fim medra no começo de vosso regresso. A história é aquela que edifica, ruína, se a história edifica todo este desespero, mostrando os contos que se cantam agora, e alguns descontos que há muito se ergueram. Descanto! E guardai desencantado avesso. A história. A escória. A cárie. A história da independência é a hora da independência, logo após. Também irei. A gloriosa independência ou o somatório do assomo. Sob os assombros calquei só o começo do projeto, e aprendendo, renunciando os ecos que tomam os começos por ecos. Empenho-me nos ecoados começos que ao eco se confinam com socos, aceitando com o mesmo começo os que ecoam no oco. O soco no osso e o aqui no além. Estão todos aquém investindo suas partes. Mas apenas porque esperam partes. No além, ou no aquém, com começados recomeços, edificaremos os começos e as unhas. E uma outra comida para a história da fome. Onde os recomeços se quebraram com começados ossos. Com o começo dos ossos um novo começo para as viagens. E uma viagem a cada maravilha. Cada qual à sua viagem. Que maravilha tendes se não se maravilhas em viagem? Não há fábula que floresça sem fábula. E desconto não há que perdure sem o desconto das fadas. Mesmo o conto que em favas medita o começo da fala. Para quem os começos e os recomeços repetem o arremesso da vida. Espécies em viagem, pela importância do começo da viagem. E agora viveis começado nas escritas que se esgalham sobre páginas. Em escritas, indo ou vindo, todas as páginas despencam a escritura. Íntimos da escrita e sem começo em parte alguma. Tropeça e vai, indo e vindo. Nem a escrita-escritura em recomeço se arremessa. Cada escrita à sua escrita se devota. E os futuros nas escritas da sobrescrita galopam páginas e páginas à noite. Muito a ensinar. Muito a finalizar. Muito a começar, de novo. Que do começo se desgarre o descomeço. Que o desconhecimento talhe o livro. Que o livro não vacile em vossa viagem. Que não se arraste a escrita, que escrita e escrita não mais sejam escritas, sejam plasmadas.
terça-feira, 25 de outubro de 2022
135.
Ficado para trás por esplendores pousados, com as solenidades marítimas por pedras que não se relacionam comigo, duro muito pouco no equilíbrio da balança que brota com os homens de lá. Diante do mundo, deslocam-se as minhas coisas com medidas da cegueira. Na perfeição há olhares de sol. Aquáticos que no verde rezam para fugir da diluição da transparência. É de uma inutilidade mergulhar os toques. Os silêncios ainda rezam e continuo em azul ao escutar a rapidez com que se deslocam os peixes. A beleza singra solene, inúmera, sem ter forma para chegar ao mundo. E o segredo do nascimento já é a criação do segredo criador.
Isso, indo em vermelho. Algumas passagens imaginadas. Outras tantas recortadas, sempre. A luz do promontório chega pelos rochedos. Pisa o sonho externas elipses da lucidez. E um outro sonho vem, em palavras, de um outro mundo ao lado. Grande silêncio feito nas claridades ouvidas que deixo transparecer por aqui. Aquela mudez falada na superfície da cara. E, como a escrita é do mar, vive-se nas águas, com imagens, sempre em travessia, no caminho dos olhos dos pescadores, em gestos paridos na água e abandonados logo após o ressoar, no deslumbramento de qualquer coisa quando o lugar da vaga tem outras tantas expedições nas expedições minhas.
Assim, herdeiro de grutas e rouquidões, acolho marés que encontro redondas no quarto dourado de antigos poetas, escutando sobre a pedra as areias que dizem algum centro em suas manhãs. Achego-me com meu círculo de ar. Escuto entre as colunas os ruídos do penedo que lampejam em outras grutas e com outras rouquidões o repouso das heranças. Não o deslumbramento dos brancos, mas os espantos. Naquela gruta, o mar foi enterrado pela luz visível do grande terror penetrado dos segredos.
Essas habitações belas que fazem da visão algo do sonho. Olhares ousados que nutrem os imaginados interiores de mais um pensamento deslizável. Os pensamentos estão sobre os ombros. A água sairá um dia da cerca e todas as plantas vão desenhar o roxo das travessias na garganta de pedra. Elas me permitem o labirinto que não tenho e a arquitetura que me cabe. Conjugarei o verde na coluna sombria de mais uma luz e, com isso, polirei o céu e a terra.
Rodeado pelas salas, rumo com os dedos d’água e guardo os toques. Friso areias e semeio flores no fundo. Os olhos hão de correr nas aberturas. E o silêncio, líquido. Traço o verde quando me procuram por lá. Não há outra fuga no arco dos peixes que vazo aqui em desenho. Das aberturas dos espaços, manhã alguma brota. O palácio que habito pisa os reis do mar. Escuto o escorrer da luz. Retumbando, avanço com as águas. Nossa arte é desaparecer a cada manhã.
Os princípios do mundo no olhar entre o vidro das coisas e das grutas: cavar interior, cavar sombrio, entre o aquático azul e as paredes. Pousos rosas e marítimos pairam em silêncio. Espantados círculos e a medusa líquida. O sol sangra. O fosforescer lancina. Cobre-me todo o verde. Irrompimento em abismo. Surgimento das portas e mar exterior se entrelaçam e oscilam e emergem e cantam e fremem rodeando luzes a cada balançar acima.
Aqui definha a lucidez. Aqui o mundo, nos extremos, procria para as palavras, entre o grande silêncio e a clara transparência. Muda é a cara para a superfície ou para a água. As imagens se esfacelam na travessia dos olhos, no ressoar das vagas e no ressoar das rouquidões. A maré ondula no caminho de uma guerra redonda, antiga, na areia dourada entre pedra, no círculo da manhã aérea, ao surgimento pousado. O deserto perdura para além dos fios. Praias invisíveis. Deslumbrante é o espanto da visão, após, no segredo habitado. Nenhuma penetração de fios, e todas elas.
Sem equilíbrio quebra-se a cegueira ou perfeição de encontrar o olhar do sol atrás das águas verdes. Reparte a transparência, mas não parte, não soletra diluídos mergulhos. Deixa-os dormindo. Silenciosamente tocados, mas não tão rapidamente. Ergue tua forma, mergulhando e emergindo o mundo. Busca a pena onde o nascimento secreto, a passagem da criação tangencia a imaginação da luz, o recorte dos sonhos.
Em sonho, em sonho, em sonho, escuta a ousadia olhada, a ousadia imaginada, a ousadia interiorizada, a ousadia pensada do deslizamento sobre os ombros. Acompanha as travessias das gargantas entre as pedras, dando uma nova arquitetura ao labirinto que paira, saudando entre as colunas sombrias a palavra do mundo, da criação em ginga entre a passagem dos toques. Segue a vivacidade da dilaceração, do golpe intelectual, perseguindo a asa da transparência azul, do voo, aclamando magnificamente a esperança. Todas as celebrações são audíveis na região do poema. Em espaço, entre espaço, sobre espaço. Mas, ao fim, renunciando o silêncio, deixa o poema à balança do mistério, à forma espantosa, ao círculo do sal.
Aquática linha. Aquática linha. Vítreo flui o azul em recorte. Promontório algum é aureolado como uma linha. Aureolado. A glória se moverá apenas com a solenidade da manhã nua antes vestida. Aureolados choros esperam. Gratidões esperam. Caras de pedra esperam, esperam. Os grandes poemas sempre esperam. Atrasam-se. Riem. Em vida, em vida, sempre aureolados em movimento. Esplendorosos pousos vêm comigo e comigo se vão, solenemente, em aquática linha, linha, linha.
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
134.
Os fantasmas um por um para o azul do mar passam com a designação do barco. Passam como pássaros em frente de adiamentos e horrores, cortando a alvura dos espaços com uma agonia. E todas as regiões são novamente estremecidas para além do frio do inverno.
domingo, 23 de outubro de 2022
133.
Quando abro o exílio do meu desprezo, reconheço que a vestimenta que me cabe é a imobilidade do cinza: a pureza do brilho da designação, cortada e recortada pelos azuis, pelos fantasmas e pelo peso das plumas que acolhem, simplesmente, o horror que sugiro no solo.
sábado, 22 de outubro de 2022
132.
Todos nós deveríamos reparar na Ode Marítima, de Álvaro de Campos, todos os dias, incessantemente. Os marítimos versos navegam o reino do horror que nossas parcas escritas ainda não alcançaram.
sexta-feira, 21 de outubro de 2022
131.
A virgindade das palavras, degraus vivazes de tabaco viridente. As asas da boneca dilacerada a golpes no parapeito. A leveza da túnica-dória sobre o lago. Os dedos de neve, fora, a esticar em voo o fio de transparentes tecidos outros. Todo azul é azul de aflorar futuro, aqui. Aflorar que não haverá, mas permanece, ao gesto magnífico da passagem do cisne.
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
130.
Lança na virgindade a vivacidade verdejante das dilacerações. As asas do sol nem ligam, golpe do pensador. A leveza do lago é o olvido por estar agora sobre a neve. Nem as transparências do azul. Elas bailam, girando, golpe do pensador. Seria um voo quase aflorado. Já de novo o cisne adorna-se magnífico. Como recolher as esperanças? Há mil celebrações em cada bebida e você ainda diz a esterilidade das regiões, do acender de frios infernos. A flora é o estremecimento no colo. Fica por ali, na alvura. A agonia já parte nos espaços. O infligir, golpe do pensador. O pássaro, golpe do pensador. O adiamento devora o horror. Escreve a escrita do solo? Abaixe o peso das plumas. Os fantasmas já sobem no azul. Adoráveis designações que se debruçam sobre a pureza. Um brilho: uma imobilidade, uma cinza, sem nenhum e com todos os desprezos. A vestimenta dos cisnes imita o exílio nos vãos da virgindade.
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
129.
Deitou-se no pensamento com o enterro da vida debaixo do mundo e ficou à espera de ver num sufocamento a existência do horror. Mesmo assim trago o inferno no passado, pensou. Pode ser que tenha a sorte de trazer o frio da alma. Mereço sorte no mundo. Não, você violou a sorte do mundo quando se afastou em expedição.
Mas agora tudo aquilo já estava no olhar e não se via nenhuma folha nem nome, só sentia a beleza e a fluidez inigualável da tinta, e julgou que talvez já estivesse na chuva. Juntou as poças e sentiu as palavras. Estavam em cantos e podia sentir a história das figuras ao abri-las e fechá-las na natureza. Encostou-se para trás de encontro ao sonho e constatou que ainda não estava morto. Os séculos diziam-lhe sobre a folha com a tristeza que irradiava em vultos.
terça-feira, 18 de outubro de 2022
128.
Não há para a manhã outra consumação do amor nem as tardes das folhas sujas. O princípio da própria vida deserto no mundo. Só existe o rosto da lua em desenho de geometria claro que, sem descanso nem palavra, esculpo linha a linha. E a noite sem nome onde sem fim afundo o desabrochar de todas as flores.
***
Cada manhã traçada pela consumação do sol, seja qual for, declina sobre o branco da folha. Os princípios, os princípios dos mundos, traçam o desenho dos nomes.
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
127.
Regressemos na manhã. A consumação do ouro agoniza e todo o sol pouco a pouco se escurece e se degrada sobre a brancura da folha. O princípio do solo fumega no mundo. Uma lua de diamante já aponta na altitude, em desenho. O desenho e as linhas do nome se acumulam e se confundem; e todo o desabrochar da flor do verão insensivelmente se conforma e se compõe numa única mesa de meio-dia vago e obscuro sobrecarregado do torpor da iluminação. Logo existirá, em torno do papel, a profunda noite do poeta. A morte mais pura do que existe sobre a mesa, os monstros mais puros nos deixam e se elevam, germinando. O alto céu do tinteiro lentamente declara os monstros do universo. Algum bicho se separa do fantasma do tempo. E todo o peso da palavra de um dia de nossa vida em círculo nos faz baixar a cabeça ao papel. A sujeira do silêncio de carvão toma conta de nós, no lápis: ele nos separa em fixação, ele nos une em ideia. Uma só emoção em risco é a lassidão extinta do sonho. A luta das sombras dos pensamentos com o papel acompanha o poeta. Graças a isso, o sangue dos mitos chega às veias e se torna mais importante e perceptível que o sal de todas as águas. Regressemos na manhã. Recorramos aos susto das chamas e à física das lâmpadas. Sente-se em recolhimento perto dos gestos. As mãos frias nos diários, o susto dos pés molhados de coisas estendidos em direção ao pouco das brasas, a imortalidade dos olhos sonha com fagulhas da natureza. Elas dançam e estalam diante da vida. Eis que a palavra não pensa em mais nada de se recolher e de se dizer. O poeta inefável é o destino da duração da máquina.
domingo, 16 de outubro de 2022
126.
A claridade do perpetuamento das ninfas, mas bastante obscuro e que principia por deixar rodopiar nossas emoções durante horas num calçamento irregular; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem estreito ao encontrá-las, pois sem o suspeitar e reduzido a seus próprios olhos, seria nosso devaneio impotente para tornar habitável qualquer obra-prima. Ao passo sacudido de seu passado, cheio de um afresco apagado, saía da sala ao lado que aveludava de um sentimento a encosta de uma cauda de pavão, e avançava, aos encantos do giro, para o hipódromo infeliz de todas as noites. Na vida dos livros que lia lá na noite, era num fluir lá do mar que eu escapava aos poucos da água como quem escapa de um verso. Que mãos tão fundas eram essas liberando as ondas brancas que me chamavam de uma estranha marinha? De que adiantavam aqueles momentos de silêncio, se mensageiros mais amplos, mais circunstanciais, montavam melhor a carência, corrompendo a velha vestimenta gasta até o fio? Meu gesto, quando cantar o mar, será colhido com a sombra pensada com que se colhe um caminho de diversas perspectivas. Amainava a febre dos meus olhos na infusão fervente da evocação, cobria minha lâmpada de muita gente e, deitado sob minhas cobertas, eu dormia na busca do conhecimento de uma coisa estranha. Não eram indignos aqueles momentos todos ao mesmo tempo velando aquele beijo de paz e aqueles ideais interiores. É claro que eu achava um nome todo especial nessas noites sobre o papel que pareciam emanar de um jeito ingênuo e faziam passear ao meu redor os campos da minha sombra. No entanto, não poderia descrever o projeto de aventura que me provocava esses turbilhões confusos de cólera e de paciência no dorso que eu acabara de preencher com o meu embaraço a ponto de não dar mais o passo em direção à porta. A influência anestesiante do meu sonho passara, e eu me punha a pensar e a sentir coisas tão breves e excepcionais. O giro da maçaneta, que para mim era diferente de todos os outros giros de maçanetas, nisto que parecia abrir vagos instantes, sem que tivesse necessidade de girar cada vez mais veloz, de tal modo se me tornara inconsciente, eis que servia agora do corpo astral de folhas para a palavra angular do meu erro. E logo que chamavam da varanda sentia pressa de correr para o ventre humoso onde as palavras são o nome do rigor, sem saber que existe o mar e que conhecia aquela escuridão e o ruído das pequeninas pulgas que se movimentam ao aceno; espalhava a sua impetuosa noite ao cair algumas dessas imagens de bordas rendilhadas, que as desgraças ou as sortes das palavras me tornavam o murmúrio do mar, ao passo que os crimes que as mãos cometiam me faziam examinar minha própria história com maior indulgência.
sábado, 15 de outubro de 2022
125.
No livro, um pensamento. Na alma morro e escrevo o que o coração me deixa. E sei que a noite é um transporte e tem uma vida própria. E todos os contos são romances em direção a uma outra invenção, mas, na felicidade, ainda longe da desgraça, sento-me na imensidade e medito com arrebatamento. Possuo sempre todos os impulsos, e a queda pousa recaída aqui e na alma que sobrevive sempre a todos os projetos. Bebendo, fumando, mantenho-me em Odisseia, na composição, na lógica, sentado junto à estrutura. Ouço a concatenação, ciciando. Amo o organismo, em episódios. Com Homero que me recolhe à perfeição, acabam todos os estudos. Recolhendo palavras, guardando alegorias e dizendo a pobreza com precisão, apago Virgílio, indo dormir forte em Milton, que foge do livro.
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
124.
É mundana a travessia dessa América. O processo das existências é de decaimento e decepção. Mas não se distingue nada de um gênio e se, em seguida, se procede com adversidade, a linguagem novamente se perde na constituição, que cumpre novamente desenredar como escrita. No entanto, isso quer dizer que a América se balança, que a sua hipótese se reflete nas passagens e nos desvios da arte, cujo outramento, mesclado à intenção do outro, luta com a certeza, e o registro rivaliza com o redescobrimento a partir do empréstimo. O flexionamento dessas atitudes recebidas pela escrita dá-lhe a perspectiva de enlaçar a literatura em declinação, contrastando, em meio a elas, com a língua e a precariedade, a origem e o absoluto, o mundo inclinado e o prolongamento posicionado. Declarei que tudo isso é o contemporâneo. Mas nenhuma literatura, a menos que seja em seu presente provisório, uma literatura da possibilidade, conseguiria perceber um só acolhimento desse gesto plástico de ninguém.
quinta-feira, 13 de outubro de 2022
123.
Nessa travessia do Atlântico, persigo a América como o mundo à existência. Nesse processo, fujo ou dispenso qualquer decaimento que não seja a palavra da arte; antes, busco reconhecimentos sem razões, grandes noções e conhecimentos, decepções de desvios e de impossibilidade de sucesso; também, sendo assim, exulta uma afirmação romântica; aqui e ali transformada, arranhada, que o gênio ainda faz parte e poder. É uma praticidade do ensaio no mundo: não há e há conversões para ter tentado tudo, adversidade do acolhimento, decaimento no solo, como convém, ainda que de maneira pobre, homenagear o pensamento da arte na prefiguração do punho. Linguagens, filosóficas, embora, para desenvolvimento, leiam-se as ideias de lacunas em lacunas: a constituição da possibilidade do caminho é para facilitar, ou não, a distância dessas leituras; mas todas as relações da escrita são literatura: América num, Velho Mundo noutro – travessia em todos. Mantive a palavra onde supus que a aventura estivesse, outras são panorâmicas, da cultura, talvez tenha esclarecido (acredito que não) essa ideia provisória de América: a projeção do ponto se faz como complementação. Por lançamento de hipótese, inovo e elimino no horror branco da página todos os estudos. O presente conta, porque aqui começa também o pensamento da escrita na passagem de ninguém. Para ler, a literatura ao menos, com relevo, como herança e cultura: devagar, este devagar, com expressão, alguma arte, muita contemporaneidade. É um acolhimento de ideias e de heranças e de desvios e de outras posições: aqui, tudo se resolve na transferência. São posturas e é o juízo; uma determinação do prolongamento do outro, duas posturas: são motes, são movimentos, são efetivações da intenção da pronúncia, são inclinações, são gestos. Mãos de ninguém, dos outros, quadro sem inteligibilidade, mundo sem certezas que nos aparece nos descobrimentos – América. Dos estudos, com escolhas registradas e absolutas; o que o enraizamento viu, ou não viu, nas formas, fora um e outro ser em travessia, a origem esboçada com empréstimo e a ideia do declínio da América e do redescobrimento, fundamento de precariedade, foram situações e flexionamentos da língua, em oração, nas regiões – as declinações do mundo. E já é inabordável. Iria além em atitude de investigação e interesse pela remissão do pensamento. A escrita da literatura, leitor, é trabalho, palavra, presságio, herança, em perspectiva.
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
122.
Os gestos do rosto do navio desaparecem: as mãos avermelhadas de pedra vão quase vencidas pelo grande quebrar da onda, que se levanta ao lado do pulso. Nessa união tenebrosa da terra, o vento do mar nas vagas surge às vidas, semelhante ao paladar da espuma da viagem nas águas da carne. E esse vento é de aventura e sorri. Orna com frio a existência dos ossos. Sobe a essencialidade e o êxtase do mistério. As horas e as cores do silêncio, flutuando em volta das angústias, escondem o cais e a ponte, fazendo-os, porventura, suspeitar menos delirantes. É assim que eu vejo as coisas na atmosfera atroz do cais: mas, ao marulho ou desdenhado no sentido do sonho, elas são para mim mais do que as almas da água: uma aceleração de volante e ao mesmo tempo todos os mares. Não eram elas as vozes das épocas do passado? Por que não ousaram, pois, volver os gritos para o calor do chamamento em fúria? Veriam que essa fúria da unidade é maior que o de qualquer ânsia ou tédio, porque ela é imensa, como o sangue, como a força, que nunca, jamais perece.
Agora, o mar e as pedras, o rito do espaço que com o seu espanto abre todos os começos com o sal apenas para voltar a fechá-los novamente, a espuma nas conchas que se sobrepõem umas às outras, e a praia formada pela vida, o verão em torno da poltrona, tudo isto aponta para um torpor da hora e do sonho, o qual torna a ser uma interrupção da consciência. Percepciono isto da janela, e esta noite tentarei fixar as sensações em palavras, forjando uma nova personalidade da alma e do corpo, muito embora qualquer nexo a destrua quando avança em viagem, seguindo com sua nau de ritmos e canções. Contudo, é da viagem que preciso, agora, aqui, pois é ela quem inspira a rota da poesia.
Lá, no tumulto das vagas, onde as frases são livros ou negrumes de consciência, elas terão achado quem as chame de horror, quem as aperte entre os mistérios, quem tivesse para dar a tua alma o espírito do livro e te comprasse a ciência das coisas para o mundo essencial. A noite estará fria, porque trocou o livro pelo nada. A isto se chama impaciência o engenho do sonho e do nexo; a isto, que não é mais do que um propósito da ilusão pensante perante a hora das almas. Quantas vezes os seres desse abismo me têm feito vaguear pelo tempo, uivando com um cortejo de amor falido e tentando despedaçar os orgulhos e as crenças com elas, donde me gotejam os sonhos! Talvez elas nunca saibam o quão intenso e atroz é a minha insistência, que devo velar diante dos amantes debaixo da beleza dos reis, como se, em vez de povo, ela fosse uma fila de braços.
Eram as horas dos pombos nos tetos. Sem saber como, achava-me no túmulo entre pinheiros ao meio-dia. Transpassava-me a recompensa do mar o pensamento inquieto dos deuses, e parecia-me que o lavor dos brilhos se me haviam pregado num diamante de espuma. Olhava o abismo, e o sol rompia a causa das obras, como se o tempo do sonho a iluminasse. A sabedoria maravilhosa que se passava com esses tesouros insondáveis fazia-me eriçar os templos, que Minerva me açoitava com suas massas geladas. Eis que eu vi nos olhos da água, depois de longo períodos de sono. O véu cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao cume da chama destinada para o silêncio dos edifícios colossais que resfriam subitamente na vasta alma. Era horrível ver convertido nas telhas do teto do templo, de todo imóvel e mudo, o suspiro; aquele suspiro que sempre revolveu-se e bramiu em torno dos olhares, como um ponto ao redor do resplendor dos deuses que jazem mortos. A altitude do desprezo também cessou completamente. Parado sobre o prazer do fruto, a ausência era semelhante à forma da boca a quem recalcaram o futuro que o céu, de alma, de mudança, de margens, sem ranger, sem rumor, cosido sobre o orgulho, onde acabou o bater da ociosidade e o poder compassado dos espaços. Então, muito longe, nas tumbas, uma metade de sombra foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo peito e repintando a fonte vazia dos poemas. Depois, um eco de cisterna reverberou na alma: o som das folhagens, dos golfos, dos gradis, dos segredos dos olhos e dos corpos tinham-se abatido e nivelado, como as frontes informes de lampejos ausentes, que, derretidas no fogo da terra, vão, despenhando-se, formar um rincão de matéria e luz no sítio mais fundo com tochas de ouro.
Imagino todas essas pedras e ciprestes espreitando-me por detrás dos mármores. Elevo-me nas sombras para aumentar o mar. Dos túmulos, como pastor, faço o rebanho pasmar completamente. Frequentemente morro cravejado de carneiros apenas para chorar sobre túmulos. Se dizem ou se veem através de um sonho de pomba o anjo do futuro, os insetos tornam-se indolentes. É por isso que odeio a sequidão que mostra a essência do ar. Quando estou só, frequentemente me deixo cair na amargura. Tenho de ter espírito e ver onde ponho os outros espíritos – não vá tropeçar na terra dos mortos e cair no mistério. E eu sempre caio. Tenho de me bater ao meio-dia para poder voltar à fronte da mudança. Tudo em si mesmo era um diadema de mudança, de sopro, de vento, como os temores que pesavam em cima das limitações, e, além, jazia o pesar das dúvidas. Eu, o erro e a sombra estávamos ali, sob a completa orquestração dela. De súbito, naquela noite de falha, até então de diamante no seu mármore horrendo, dois partidos de ausência cerrados e de barro começaram a se levantar, um do lado esquerdo, outro do lado direito.
O dom das flores corria, multiplicando-se, movimentando novas frases de mortos, que se difundiam e flutuavam como almas da arte. E aquelas lágrimas de larvas e de olhos rasgaram-se de alto a baixo em risos semelhantes a dentes e pálpebras, e os seus seios de fogo e de sangue vacilavam trêmulos no dom dos lábios para os dedos do jogo de frases que nunca escreverei. Como duas almas encontradas, no sonho das cores dos olhos, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em ondas que jorram uma prosa de ouro com presença e impaciência, antes que a imortalidade se incorpore no horror, assim aqueles seios de morte se despedaçavam, derramando-se com astúcia pelo riso do crânio. Tudo isto era lido para o esquecimento. Havia cabeças na terra. Atravessei um espaço de terra com passos de verme. Tinham me falado de vida. O que vi no ódio e no amor foi um acaso de nome. Distingui no dente a carne. O som, que me acompanhava, disse-me que aquela carne era o Poema. Ao som da flecha, vi a sombra de uma tartaruga ao sol. O som repetiu que era o Poema. Disse-me que era a alma de Aquiles. Devo ter prolongado demais esse instante feito em todos os corpos ao voltar da forma com o seio ao vento, antes de vestir o frescor, porque já transcorreram muitos mares desde o poder das almas, quando, nos dias em que mais tarde retornava à onda, o mar que eu via nos delírios da pele era uma clâmide de ídolo ao sol. É muito diferente do tipo da carne de hidra que se leva na cauda, no túmulo, do silêncio, diverso da página do livro que encontro ao sair o pó. E o teto onde terei adormecido em vez de preparar-me, percebo-o nas vagas, iluminado pelo vulto da imagem, cor de areal no ar do deserto.
Então, pareceu-me ouvir muito ao longe a vida e a morte misturadas em risos e prantos, como alguém que morre sob um manto, e uma natureza sem amor, como a beleza de almas, batendo no olhar do mistério do mundo. Mas esta alma foi se alongando e cessou: o nada da dor e da voz tinha embebido no horror os que sabiam dos olhos e desciam em pavor para o lado das cadeiras frias. Depois, senti lá nas trevas, no túmulo das almas, o mistério da forma. Olhei. A terra se desfazia ao redor de tudo, e os seres sobre os quais eu estava assentado tremiam ante meus olhos. Tremiam. Agora, as flamas acabam abaixando. As hordas aproximam-se do céu. Os brados ardentes que fustigam os anjos começam a agitar-se com pestes, e as ordens preparam-se para ancorar nas nuvens, cujas emersões se recolhem e caem por sobre uma América atormentada. A peste acabou. Está na hora de recém-surgir.
Fechou os céus para ouvir os gafanhotos triturarem campos devastados e vagas. Você está caminhando pelas costas em maremoto. Estou com uma fúria de cada vez. Uma ira de loucura como um furacão através de mundos herméticos em flamas. O tumulto, a multidão – a América. Exatamente! E esse é o rubro livro das devastações. Abra os horizontes! Não? Se eu cair em uma praia lançando-me de um barco, cair através da pena de um escrivão! Faltam ensaios de outras tantas maneiras. Faltam. Estou me arrastando direitinho no chão. Não? A América sem esperança pende ao lado do Atlântico. Tatear por terras: os marinheiros tateiam por terra. A minha porção de cólera no infinito está no púrpura das hordas da noite. A flama! Soa novamente a peste: feito pela ira dos investimentos lançados como dados. Acaso! Nada, absolutamente nada, esta espuma por aqui. Eu estou me alastrando com pestilência pelas estrias rubras. Fracasso. Silêncio. Isolamento. Esmaga todos os membros, todos, esmigalha todos os guardiões, todos, estraga todas as pragas, todas, estala todos os espíritos, todos, absolutamente todos! Consciência-de-si. Espírito do espírito! Que só se mostra em si. Lepras, grito delirante do desespero. Halali, halali, minha cabeça arrebenta em luzes!
Com vida, na jornada, selva tenebrosa, que agora me tira de minha estrada, que me restitui minhas memórias, que consola minhas espessuras, tu lhes falas, tu mudas tuas asperidades na morte, pois tu as atrai para as acerbidades, povoadas de narrações de verdade e de contos que o sono do sentido irrita e faz vibrar. Eles palpitam sobre o caminho, aqui – pois o poeta já tomou o pranto dos infames, os ódios do Forçado, as queixas dos Malditos. Os abandonos na colina se calam, rendendo-se ao vale de escuridão e pavor. A profundidade da luz é um banho nas espaldas do planeta bem junto do assombro. Saboreio o peito do lago que está colocado sobre esta noite, e minhas atribuições são inquietações que não conseguem se despregar deste anélito em ondas. O mar e o perigo suspensos entre a luta e a vida são uma jornada que a tenebrosidade e a selva, a memória da estrada e a espessura da morte formam ao contar e abandonar, brilhando e morrendo em frente ao livro aberto. Nada. Ante o nada da espuma virgem e o verso de muitas copas, o afogamento de uma tropa de sereias e o inverso da navegação fraterna, ante todas as popas e todas as proas o que escrevo na onda de inverno e o que escrevo nesta embriaguez de raios são medos por igual restritos ao jogo do mar, muito pouco aos brancos recifes velados das estrelas. Na verdade, ao ir nessa solicitude, perdi-me com os pés nas alturas, vendo sem ver os negros duendes que me alegravam. Perdi-me no despertar destes acres sabores.
Nas nuvens de sangue ao acaso, entre os corcéis e o oxigênio dos gênios, subia do declínio do clarão infortúnio a torre da crueldade solar. Não haveria que escolher entre a mudez e os voos, e a tarde continuava entre o ônix do dia. O vermelho estrangeiro das sombras, ou um recolher de púrpura, com evocações míticas e sombras de lembranças no mesmo instante em que convergem, a tragédia do interlúdio do assassino entre os sóis do planalto, rubro gerânio, esvair dos olhos, e nada mais que o crescimento pirata entre as noites de morte dos meus urânios – assim, entre a velocidade da luz e a unção da tragédia, nos montes e nos mares com os demônios do que se estiola lá, ou aqui, outro eu que eu não ouviria, das asperezas do vento, a lamentação alta às dores e às tristezas, trazidas para o campo com a marca que não engana. Nunca, absolutamente, entre a canção dos ventos com bravura na escuridão, nem que as nuvens viessem de volta em dobras de noite desde a consternação dos bosques, haveria mais tristeza com a contorção dos galhos, nem se lembraria outro nome neste papel vazio com o seu branco anseio, do lado de cá de todas as tormentas, senão o que encantava de infecundidade, nas cavernas, o medo que morreu depois, no mar, do choro e da injustiça, de todas. Grama. Escrita-espalhada. Transparentes, entre os quadros que havia no muro, porque as brisas abriam flores entre o brilho dos copos, as virgindades das madeiras soavam no frio, como liquidez da água. Eram mundos os que haveriam de vir, do poema, com rigor que não viriam nunca, por um horizonte cintilante que está colocado sobre estas folhagens. As decadências rolaram à beira da morte e as ruínas pendiam no instante da aparição da realidade. Mas, de novo, novamente, na surpresa do mundo, soavam altos os gestos das mãos, e os toques arranhavam nas mesas transparentes. Tudo era espichado, imóvel, e os repousos das madrugadas magnas passeavam nas trevas devagar, esvaziando a escuridão, encontrando a palavra que ascendia do papel: mãos de ninguém.
terça-feira, 11 de outubro de 2022
121.
Ser-me-á útil no silêncio. Mas caramba! Distraio-me com todas as velas, por causa do mar, pelo livro dos nomes, revestido como um velho pescador. Ele pode contemplar as linhas durante horas, sem pestanejar de seu barco. Contudo, só sou capaz de fazer isso se falarem comigo aqui. O horizonte vazio, onde não há vestígio de nenhum adversário, é tão liso como uma folha em branco, e não demoro muito a me afundar nesse extremo. Ser-me-á bastante útil no silêncio.
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
120.
E lá vamos nós a sair da flor de seda, de volta à exaltação do paladar de diamante. E, dado estarmos no bálsamo de vento entre as ruas, iremos nos sentar com a glória da mordedura da voz enquanto eles jogam o tempo embarcado no espelho à frente. Se quisesse, poderia ser um deles; poria a cabeleira de um amante e correria pelo enterro dos pendões principais, na direção da extenuação daquele vale. Reparem só como todos vão atrás da espira de fumo. É grande. Desce o campo desajeitadamente, atravessa os olhos das nuvens e dirige-se para junto do dilacerar de um golpe de mão leve. A sua magnificência assemelha-se ao transparente mundo que nenhuma escrita aflora. Um rasto de luz parece segui-lo pela cidade. Reparem no modo como o seguimos, nós, flutuantes, apenas para sermos abatidos como o crepúsculo, pois por certo que ele nos arrastará para outra vida, durante a qual acabaremos por perder pensamentos. O meu coração endurece sob a alva agonia; transforma-se à beira-mar: de um lado, a adoração que tenho pelos panos da vela; do outro, o desprezo que nutro pela luz e pelo espaço infligido. Eu, que lhe sou superior no mar, eu o invejo.
domingo, 9 de outubro de 2022
119.
A flutuação termina. Ele falou na cidade a respeito do crepúsculo das vidas. O seu pensamento infeliz e debruçado é como uma luz à beira-mar. Volta agora aos panos para a vela. Parece um mar caiado. Trata-se de uma longitude que todas as outras gaivotas tentarão imitar. Mas, e dado serem pouso, dado serem água e usarem o sol embarcado, nunca conseguirão ser remendadas. As suas cegueiras são dardos de sangue. Trata-se de mais um entre os muitos fatos que registrarei no meu livro de noite. Quando for dia, andarei sempre com um ninguém, um ninguém bastante alastrado e com muitos nomes, todos organizados à porta do oceano. Tomarei nota de todas as escritas. No risco da carta colocarei o fundo do mar. Se, na rua, descrever a solidão do homem nas pérolas dos anos, procurarei no coração do dia da cidade. Ser-me-á como lentíssimos barcos. As escalas às portas da inclinação projetam os seus séculos crepusculares na dúvida.
sábado, 8 de outubro de 2022
118.
O bálsamo da seda dos tempos e das quimeras, em extenuação e vale. Nada de nuvens, ou flor, apenas rasgos de espelhos e de pendões. Pensamentos. E a exaltação, na rua, cumpre a nudez, abandonando a cabeleira em enterros. Apanhe olhos quando a boca cair. O paladar é mordedura. O amante se comprime e o princípio se amontoa. O tufo no expirar do diamante, urdido nas vozes, as glórias. Mão de ninguém, amordaça de alguém.
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
117.
Sempre a alma resumida, só na espira do fumo, vaporiza minhas lentidões e fico em abolição ao imaginar cigarros que não existem e, por isso mesmo, já são cinzas. Eis a claridade do beijo no realçar do fogo em coro em qualquer voo servil dos lábios. A busca: rasura vaga da literatura.
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
116.
Sob a atenção às dobras das aves, com a palidez das manhãs que vão às Índias, naquela sombra da nave, à novidade na vela à noite, com uma demência em canção, a monotonia da reflexão inicia o mergulho na vela com a avidez da espuma sobre a caravela, e o brinde ao tempo, impaciente, reclama a sobra de cabos ao acaso do timão.
quarta-feira, 5 de outubro de 2022
115.
A eternidade de si-mesmo e a do poeta se acomodam e se acalmam ao corte do gládio. Tudo é voz estranha no século em que o espanto, sabido, é tão vil quanto o sobressalto. A hidra aí depõe-se como anjo, aí escorrega todo o sentido em que se transformou sua palavra. Estira-se até encontrar o proclamar de sua tribo. Sente-se igual a altura de seu sortilégio em atribuição. Com as ondas, ultrapassa suas honras negras. Uma orgia sustenta-o e ergue-o; e os solos e os céus, meio hostis na dor descrita da ideia, sonham com solidões e baixo-relevo. O túmulo do poeta luminoso, indicado, é quase calmo. Como o bloco de sua queda é um desastre de granito obscuro! Eterno, o dique eclode sob todo os voos. O futuro esparso mal se distingue do futuro de si-mesmo, cuja eternidade o substitui a cada guiar. Um poeta mistura-se ao gládio indefinido que o rodeia erguido. O século sente-se e dissolve-se espantadamente. Todo o futuro não é agora mais que uma sabedoria estranha cuja voz sonha na morte. O sobressalto insurgido se contempla e, vil, vê anjos e hidras sob o sentido urgido. A palavra que olha e que fala com a tribo maravilha-se com a proclamação do sortilégio e com a atribuição da altura que ela domina. E a honra em orgia no solo. A palavra observa o céu que se aflora e se curva. Uma hostilidade a emergir e a submergir na dor, como uma descrição da ideia que um esculpir do relevo do túmulo faz soerguer e depois volta, afundando.
terça-feira, 4 de outubro de 2022
114.
Agora, vou me inclinar para a atenção das Índias sombrias como se fosse beber a sobra dos brindes. É a única maneira que tenho de ver o tempo do cabo e das dobras. Lá está ele, sentado sobre a vela da nave. Respira com alguma dificuldade através do mergulho da caravela. Os olhos azuis, estranhamente inexpressivos, fixam-se na avidez da espuma. Dará uma ave em canção sobre a vela. Dar-lhe-ão a monotonia ao timão para que possa bater suas jazidas mãos da noite com demência. É uma das novidades da pedraria escritas no acaso da reflexão do riso. Acaba de levar a mão à palidez da atenção.
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
113.
A consumação da manhã lhe dera o sol da imobilidade da folha branca, os quais estavam presos aos princípios do mundo da lua; nos outros, tinham novos desenhos e nomes com linhas que tinham sido usados antes, mas que ainda estavam desabrochando como flores, além do verão sobre a mesa para dar a iluminação ao meio-dia do papel. Cada um dos mundos, sobre a noite do poeta, estava atado à mesa da salvação e da morte de forma que a germinação dos monstros ou o bicho do tinteiro fariam as palavras curvarem-se. Cada um dos fantasmas do círculo tinha, no papel, a ideia da sujeira do lápis de carvão que podia ser rapidamente ligada às fixas emoções, de maneira que, se necessário, a extinção pudesse dispor da consumação dos sonhos de luta para correr sobre o papel.
domingo, 2 de outubro de 2022
112.
Você insiste tanto para que eu cuide dos desenhos da manhã geminados sobre o papel que bem desejava não tocar nessa luta dos gestos e das densidades para evitar dizer-lhe que trabalhei com linhas consumidas e recolhidas nos últimos dias. Jamais fui tão feliz com o tinteiro e com o carvão. Nunca o susto de um poeta no ar, estendendo-se como um sol sem nome ao mundo dos monstros, foi em mim completo e profundo. No entanto, com o lápis do poeta, não sei dizer a máquina de coisas imóveis. Minha faculdade de expressão é uma flor na noite. As ideias dos bichos no pouso do sangue flutuam e vacilam de tal modo diante do desabrochar da folha útil que não posso fixar os fantasmas dos poemas. Creio que, se trabalhasse a palavra sobre a mesa sem emoção, ou o funcionamento da natureza salgada, talvez conseguisse transmitir o princípio da morte ao meio-dia. Se isto continua, tomarei da palavra sobre a mesa sem emoção e a amassarei até fazer o círculo extinto da física. Por três vezes comecei a evaporação viva do mundo. Três vezes fiquei com a urina iluminada dos monstros. Desenhei, afinal, o susto e o sonho das palavras, e é preciso que o novo ar da lua me baste.
sábado, 1 de outubro de 2022
111.
As manhãs consumidas são corrompidas pelo sol que as pronunciam. Zombo e troço desta imóvel folha, deste princípio de branco e de mundo pelo desenho, de lua nova, que vai descendo um nome com linha, ladeado pelas flores, e onde um desabrochar de verão se rebola na mesa ao meio-dia iluminado – e os mundos de papel comprado onde se guarda a noite estão mortos à mesa do poeta. Estive com monstros, com o meu tinteiro durante a germinação, e vi fantasmas de bichos e círculos de palavras serem transportados aos solavancos pelo papel, o mesmo se passando com uma sujeira de carvão dentro da ideia do lápis. Agora, vou-me inclinar para a fixa emoção como se fosse coçar extintos sonhos. É a luta em branco que tenho de travar para ver o poeta. E lá está ele, sentado no meio dos sangues. Respira com as veias através da água salgada. A física do susto, estranhamente com algum gesto, fixa-se com um pouso imóvel nas coisas do diário. Dará a natureza viva das palavras recolhidas. É uma das máquinas úteis do poeta escritas na evaporação de palavras. Nada se vê. Nada se ouve. Mas olhem: alguém acaba de levar a densidade ao ar.
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