quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Do mar — 24

É este o vórtice em que os navegantes são os navegantes. É este o vórtice das esferas que os firmamentos preferiram e chamaram. É este o vórtice das humanas magnitudes das trajetórias. É este o vórtice em que a terra é abarcada e nem sequer conhece a forma. Num lamento deixado pelo mocho, numa torre lá, ele mostra morcegos. São inquietações, bosques de ilhas, selvas. Zéfiro desabando do sol. Desfile de gemas: firmamentos carregados de retalhos de lâmpadas, pedaços de dias. E os risos, os terraços sobre as terras. As ausências buzinam o sono. O orvalho da chuva hasteia as consciências. Ó amigo da lua, ó amigo dos céus confinados, singrando nas ondas, cantando nas terras, sono por sono, os leitos em que há por vezes flutuantes melodias. Ó amigo do vórtice, ó amigo de cristais modulares bailando no ar. Entre os corações femininos, o estômago fantástico arde, e, nascido do terrível intestino dos portais, as imaginações passam no minuto dos momentos. As luzes da piedade. O mar desse túmulo sacia e ativa o gado. Frontes de diadema. As mudanças do vento. Sopros e velas! Partida entre temores e pesares. Mude os dons, livre-se das flores. Cantam os mortos. Fogo de riso suando nas pálpebras. O sangue nos dentes. O dom dos lábios nos seios. Agora, os dedos e o jogo. As tartarugas! A alma de Aquiles. O momento que sedoso olha. Em seu redor os terraços de altos pisos tomam formas clariperfeitas quase falsas. E a flama das eras veste as horas. E, no vasto tempo dos poetas cheios, continua o fulcro dos instantes. E, mesmo tão cansados, singraremos irmãos dos olhares e das barbas. Lá em cima, os rubros nos peitos e as cabeças. Proas de barcos cantam os gritos dos perigos. A sombra escapa dos golpes da tempestade. Névoas dançam o verde no mastro. As afinidades do viajante.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Do mar — 23

Atrás do símbolo, a analogia dos ventos, das noites. Tudo imóvel na noite das almas. A desilusão e o sussurro caíram na espuma do lago. De uma tempestade de mar, entre luzes de céu, ares, amargores e ânsia de lágrimas, a aridez se abre. Incógnitos ventos semeados de entendimento. A Vera Cruz vira. Esgarçam livros de ciência. A criança canta. O frio se prolonga em sonhos. O oco e a direção do vazio banharam o lugar. Levanta o manto: esta bondade de amor. Voz em nada. Essas formas com corpos de pavor entre olhos fantasmais. Alegorias do sentido. Ele purificou o chão e as colunas. Ele. Neófito que naufraga nas colunas do templo! Tetos, sóis, dias. O sinal.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

A plasticidade móvel da escrita



[…] eu que me soube sempre parda e pesada como a pele da terra, são mistérios, ganchos talvez de uma vida de antes, há cadeias e argolas que se enroscam tanto que os dedos do divino nem podem desfazê-las, há poderosos peixes que se matam nas redes, pois não é? Por que se desmancharia a cadeia de carne dos humanos, somos de tantas vidas que algum resíduo antigo se cola à nossa futura alma e é talvez por isso que me faz pena e maravilha esse encorpado mole, desfazido, essa cor sem nome desse corpo da água.


É necessário lembrar aos estudiosos que, ao debater literatura, sempre é preciso estar disposto a correr riscos na busca pelo conhecimento, a fim de apreciar plenamente os princípios que definem a natureza independente da compreensão literária. Nesse sentido, penso que é fundamental reconhecer uma abordagem particular de interpretação literária que não pretenda ser um método definitivo ou uma fonte fiável de informação que atribua proficiência artística às criações produzidas sob esse nome.

Brilhante autora brasileira, Hilda Hilst (1930-2004) não foi apenas poeta, mas também cronista, dramaturga e escritora de ficção. Seu repertório literário investiga assuntos instigantes, incluindo misticismo, erotismo, emancipação da sexualidade feminina e insanidade. Especialistas na área consideram-na uma das escritoras mais importantes da língua portuguesa do século XX. Em Tu não te moves de ti (1980), Hilda Hilst investiga o existencialismo por meio de três narrativas distintas. Sedutora e complexa, a obra emprega uma linguagem fragmentada, criando três histórias separadas, mas interligadas, todas unidas por um fio comum.

Em “Tadeu (da Razão)”, apresenta-se uma narrativa que explora o embate entre o personagem principal, Tadeu, um executivo desiludido que deseja uma dimensão metafísica mais profunda para além dos limites do seu trabalho quotidiano, e a sua esposa Ruth, cujas ambições são exclusivamente focadas nas recompensas materiais do mundo corporativo. O ritmo do capítulo acentua os contrastes entre esses dois indivíduos, com o mundo interior de Tadeu ganhando riqueza e complexidade à medida que percebe o riso despreocupado de uma mulher em um bar, uma justaposição gritante à artificialidade e superficialidade de Ruth. Além disso, os delírios de Tadeu são cada vez mais povoados por encontros com uma misteriosa casa habitada por figuras sombrias, aprofundando ainda mais sua turbulência. Em contraste, Ruth, com a sua obsessão pelos negócios e pelo capitalismo, é retratada como uma figura insignificante.

Em “Matamoros (da fantasia)”, perde-se o eco de Rute. Aqui, a realidade se confunde com a poesia de eras passadas, desde os épicos bíblicos até as narrativas de amores rústicos que, embora tingidos de classicismo, exalam sensualidade. Maria Matamoros habita esse éden, entregue ao êxtase ao lado de Meu, a personificação da perfeição masculina que surge para tornar-se seu esposo. Mas a harmonia é abalada quando a semente da desconfiança brota em seu coração: seria a sua própria mãe a causadora de sua traição? Desse ponto em diante, um drama afetivo se instaura, tingindo de tragédia o que antes era um refúgio de desejos. Revela-se, então, que a poesia não é o santuário da felicidade, mas o palco do terror e da compaixão, onde se desenrola o drama humano sob o peso da provação judaico-cristã.

Em “Axelrod (da proporção)”, somos apresentados a um professor de história política que, até então, seguia uma linha ortodoxa de pensamento. Em uma viagem de trem rumo à casa de seus pais, ele é assaltado por profundas reflexões. Seja em direção ao futuro ou de volta à infância, o movimento do trem funciona como metáfora para o fluxo da vida. No banheiro, enquanto urina, Axelrod pensa como as questões mais íntimas e privadas da existência humana ainda permanecem sem respostas, mesmo diante de ideais revolucionários. À medida que se aproxima do lar e das suas origens, o professor se distancia cada vez mais das doutrinas ortodoxas que guiavam o seu entendimento de história política. Essa viagem o leva a um estado de introspecção, onde se move menos em relação ao mundo exterior e se aprofunda mais em seu interior. Aqui, a poesia não oferece descanso, e o trem da história não encontra base sólida para a esperança. O capítulo, que inicialmente parecia tratar da resolução dos dilemas do capitalismo por meio do prazer encontrado na poesia, culmina em uma dolorosa situação insolúvel, sem saída. No final das contas, o que prevalece é a pressão incômoda da urina no confinamento do banheiro, analogia à própria poesia que, embora bela, carrega consigo o peso do desejo agônico e profundamente pessoal.


E quem fotografasse a tarde de Tadeu, e eu mesmo colocado na paisagem, no parapeito de pedra, os cotovelos cravados, esse alguém nos diria que há apenas um homem debruçado olhando um mangueiral e uma planura, que se percebe sim que é um cair da tarde, que possíveis rolas ou codornas, talvez duas… que há dois homens e uma mulher, não, agora duas, e que… mais nada, nem eu fotógrafo pretendia uma fotografia rica e ajustada à crueza da vida, que para isso seria preciso cenário adequado, colisão de águas, revoada, luz-laranja da manhã incidindo nas asas, brilhos espaçados ao redor de um homem que sustenta nas mãos uma leve espingarda de muita precisão, o tiro se adentrando no corpo da ave, lagos, a beirada afogada de lírios, como naquela manhã, Rute, no noivado, o passeio de nós dois aos grandes lagos, a flor aquática verde-bojuda, te inclinaste e disseste uma das tuas santas banalidades, assim Tadeu qualificava àquele tempo as tuas frases, eras incapaz de descobrir nas coisas o vestígio do Intocado, dizias o disforme, o que não estava nas coisas, pensavas em usá-las, a flor aquática verde-bojuda depois de batizada pelas falanges de Rute e colocada aqui ali – que tal na cintura, olha Tadeu, presa a uma grande fivela.


Em essência, Tu não te moves de ti representa a súmula literária da realidade objetiva da arte, onde a leitura revela elementos reais que exigem existir apenas através da compreensão autônoma. Obras assim perduram porque se ligam à verdade embutida na sua natureza artística. Muitos estudos dedicados à obra caem na armadilha de não reconhecer a obrigação do intelecto na busca pela potência da verdade. A natureza da obra busca com precisão esse axioma, desconsiderando quaisquer tentativas de reduzi-la a fatos que comprometam a sua integridade artística. Desse modo, Tu não te moves de ti desafia as expectativas do leitor ao resistir e exigir uma leitura única.

Para compreender a natureza de Tu não te moves de ti, é preciso mergulhar na profundidade da verdade e na expressão artística que a obra incorpora. O seu foco reside na mensagem transmitida por meio da linguagem, e não na sua criação ou recepção. Embora a presença da voz narrativa possa obscurecer esse fenômeno, criando uma ilusão de subjetividade poética, sob essa superfície reside uma voz mais lenta que revela a natureza artística da arte poética. A artisticidade da obra é, nesse sentido, uma potência oculta que varia em qualidade, refletindo o mundo, as emoções, as sensações e as profundezas da alma humana. Por meio da composição da linguagem da obra, desvelam-se instantes de realidade, espelhando outras experiências. O poder da verdade alinha-se com a externalização do “eu” protegido do artista, um “eu” que muitas vezes a sociedade exclui devido à sua singularidade. Ao testemunhar essa verdade inconciliável, liberta-se a força da expressão artística.

A característica mais marcante deste livro é o seu fluxo, que provoca uma confusão na leitura e desperta uma mistura de emoções que persiste mesmo ao reler o trecho pela segunda vez. Isso acontece porque a intensidade da vida, suas etapas e dilemas surgem nas páginas de maneira muito semelhante ao turbilhão de pensamentos que habitam nossa mente diariamente, entrelaçando-se, revisitando situações passadas e antecipando as futuras, agindo, desatando nós e descobrindo outros ainda mais complexos. É de se admirar profundamente a harmonia entre interioridade e linguagem, a habilidade singular de Hilda em traduzir os labirintos mentais e emocionais. Buscar materializar o indizível, abordar o que é velado e transcender a avassaladora carga dos desejos, de se movimentar e evoluir sem perder a própria essência – algo tão humanamente não humano, que raciocina e emociona.

Na obra, Hilda Hilst assume o papel de sujeito de estudo, explorando todos os aspectos da existência, exceto o seu próprio eu. O foco está em reunir a natureza do ser, colhendo apenas o que é universalmente compartilhado. O que torna este trabalho extraordinário é a sua capacidade de aprofundar os aspectos mais desafiantes e frágeis da nossa natureza. Hilda lança a sua linha de pesca nas profundezas instáveis ​​do seu próprio ser, procurando pensamentos e emoções abstratas que possam ser intelectualmente abraçadas por todos e sentidas por aqueles que têm a capacidade única de simpatizar com os pensamentos e sentimentos mais íntimos das personagens.

Nessa toada, Tu não te moves de ti é principalmente um trabalho de criação artística, servindo tanto como exploração quanto como explicação da arte produzida anteriormente. Apresenta uma paisagem externa que ganha vida para valorizar o processo estético — ou talvez Hilda apenas finja esta perspectiva externa para concretizá-la em diferentes épocas. A totalidade do contexto é cuidadosamente considerada, incorporando todos os ângulos da existência e da experiência humana, extraindo a substância metafísica que habita a vida e os indivíduos. 

A existência da obra está entretecida a uma espantosa melancolia, em que sua poética reflete um talento que inspira reflexões metafísicas e a continuidade de uma expressão artística que não compreende, nem pode compreender plenamente, o significado da existência sem que antes a experimente. Ou seja, assim como as expressões da existência podem não ter valor para quem vive, as obras não geram reflexões sobre a existência, mas sobre a própria natureza de uma realidade comum: é necessário, portanto, atribuir valor artístico à existência, pois ela se manifesta no instante em que se atinge uma vivência que transcende a existência entendida de maneira biológica: na plasticidade móvel da escrita.


Vê-se mais nos olhos ou na boca mentira e verdade? Também as mãos às vezes têm movimentos tênues de revelação, um fechar-se rápido, delicado, côncavo guardando um minúsculo achado, e há gestos gratuitos quando se quer cobrir um espaço de tempo, passamos uma das mãos na cabeça, contornamos lentamente o desenho da sobrancelha, e há passos igualmente sem destino, um buscar impreciso, e amolecida fala desfazendo a ponte empedrada de muita ansiedade


Assim, compreende-se que uma escrita não tem como objetivo primário a comunicação. Ela se manifesta como uma poética que rejeita a ideia de um conteúdo que possa ser transmitido por meio da palavra. Seu gesto não se limita a ser uma figura ou uma imitação, nem serve como um simples recurso de confronto — está fundamentado na ideia figurada, expressa por meio de um sistema próprio. Dentro da dimensão artística de Tu não te moves de ti, a literatura se torna uma exigência importante, requerendo sua independência e alimentando a busca por uma constituição inovadora, que se opõe a todas as outras produções. 

Como um momento que fica na memória, ainda que o passar do tempo ofusque os esforços de análise sobre seu invento, representa a atuação da linguagem que preserva a relação especial entre a palavra manifestada nos objetos e a palavra humana. A relação poética entre essas duas formas de linguagem não consolida uma como padrão ou correspondente, já que a palavra poética não se ocupa com indivíduos, mas com o gesto de nomear. Tais nomes funcionam como marcas de um compromisso único sobre uma existência inédita e de elevado padrão, marcada por um propósito atípico e sublime: a urdidura da obra. Nesse sentido, isso implica que as personagens oferecem uma representação imprópria da existência, mas que, mesmo assim, se oferecem inteiramente em escritas.

A linguagem em Tu não te moves de ti concatena sutilmente a natureza primitiva onde a marca da multiplicidade é registrada, alcançando o inalcançável e o inacessível da existência, envolvendo a singularidade que lhe é recusada com uma capa de mangas amplas. Trata-se aqui de algo não simbólico, mas exato, suficiente para transformar um evento sem significado — a existência das personagens — em licença de sua própria natureza: os seus nomes em movimento. Isso equivale a afirmar que a palavra se dissolve no teor artístico das experiências cotidianas, conferindo a elas o sentido literal de que frequentemente carecem; essa é a principal função da arte literária e o alicerce de sua singular independência. 

Nesse ponto, Tu não te moves de ti torna-se um anúncio intelectual da modernidade do pensamento e da sensação, legitimando o conhecimento da obra como uma forma autônoma de saber, superando ideias simplistas, em benefício de uma vivência genuína que se funda em uma arte que provoca uma experiência desprovida da subjetividade e que proporciona o júbilo gratuito de expressar a beleza das vozes, sem se importar com qualquer abstração — seja ela explícita ou implícita. Em cada capítulo (ou conto), parece haver uma vivência inteiramente estética que é soberana e se distancia da percepção imediata de quem lê, criando, assim, uma independência necessária para o entendimento artístico: uma experimentação em outro grau.

Isso evidencia que o contexto da experiência é trocado por uma decisão nas palavras, que não transforma nem divindades nem humanos em matérias ou agentes da vivência. Entender a obra em questão não se resume a fundamentá-la; a apreensão que se busca exige um nível de interpretação que não se baseia em explicações, já que substituir o incógnito pelo familiar é uma forma de simplificação — e o que existe de mais valioso na obra se recusa a essa abordagem. Em Tu não te moves de ti, o corpo da linguagem transcende a ideia simplista de mapear os locais familiares em uma viagem isenta de riscos. A jornada, sob a perspectiva de Hilda Hilst, representa algo mais grandioso. O seu trabalho exige a capacidade de entender essa jornada e estar preparado para os desafios enfrentados ao se aventurar rumo à derradeira terra a ser explorada: nós mesmos. Somente desse modo poderemos apreciar a profundidade da obra e reconhecer a estima artística que a vida da poeta merece, assim como toda a narrativa do porvir que se desdobrou sob sua influência artística.

Hilda Hilst atingiu o ápice em Tu não te moves de ti ao conseguir lapidar o texto fragmentado com a intensidade das sentenças, resultando em uma escrita fluida e poderosa, carregada de força, emoção, questionamentos políticos e existencialismo. O texto é uma costura meticulosa de diversas emoções, que revela o que há de mais profundo em nosso interior. É como se fosse uma lanterna em um quarto escuro, lançando luz sobre os pedaços de espelho no chão e nos permitindo enxergar a nós mesmos em cada reflexo.


Tu não te moves de ti, tu não te moves de ti, ainda que se mova o trem tu não te moves de ti, por favor, Haiága, fecha os meus escavados, sutura as grandes janelas que me fiz, o escuro explodindo no vermelho, a violência da víscera, o estufado grosso reprimido, minha cintilante precisão, fecha os meus meios mato-me a mim se me compreendo, vou até onde, pai, imóvel me movendo? Até uns claros confins? A um alagado de nojo? Alagado de nojo me esfuçalho, interiorizo o porco, sou um daqueles que correm em direção ao fundo, agrido-me como se fosse dono da verdade, como um cristão, como todos os cristãos que até hoje carregam o monopólio da luz como se o caminho fosse um, um só, Eu sou a Verdade, eu não o sou.


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Do mar — 22

A época rejeita a voz dos mares. O cais soa quando o navio passa. Estala a praia. Os mares batem, e a extensão deslancha. A chegada ao porto soa quando os soluços parecem absurdos. No seu êxtase canta o silêncio. Soam quando na ida das horas. Marulho dos sentidos. Dois navios antigos. A poltrona reclinada e os laterais sonhos. No pulso se desuniu o que a onda unia. Acaba cada alma. Risco com um risco mais regressado. Barco nomeado e arfado. Unem-se às águas, aos terraços e aos chãos. O outro sol luminoso e visível banhando os cabos. As aves a falar em cada ilha. Entre as enseadas cercadas de conchas, os coqueiros em espanto no areal nu. A safira rápida de trêmulos prodígios. A memória longa das costas. O alvedrio pela plaga. O côncavo duma vela. Ó cativo enervado, encapelado, inutilmente vaidoso. Abrem-se vitoriosas foices febricitantes. Só o brilho passou inabitável. Subindo do espaço fero, expressões frescas rolam, lânguidas rolam, embora a cabeça passe. Há essencialidades acesas cujo mistério destrói o êxtase das horas. O mar que sente ao longe as rochas, tudo se cala para escutar o espanto do espaço, e o azul é o próprio rito. Estranhos nas terras aonde chegam. O equador que se afasta. O curso do polo que os arrasta, as latitudes geladas que os rasgam. O mais velho bailar da rocha. É este o olhar no qual se cala o cintilante marujo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Do mar — 21

O mundo esfolha o tempo ainda espaço. Dura água de sombrio espírito. A alma calcina e o errante barco perde o momento. A madrugada instável: arcano de impor sentido. Há de viver a água. Dar angústia. O gesto pisa no rosto da pedra. Que voz dos mares e das épocas, no antiquíssimo grito, rasga chamamentos e coisas? Agora jaz sem calor e sem unidade. Quebrou-se a fúria, passada e física. Abre navios no mar deserto. Frias mãos. Seco, perfeito vento. Gajeiro debruçado. O corpo corsário. Que virgens ondas teriam singrado aquele mastro carregado? Dantesco relâmpago. Como te chamas? A mareta levantou-se indiferente. E longe a noite em marítimo ciclone. As manchas dos rostos, brunos de mortes e acusações abreviadas. Nas esquecidas mesas das tabernas, prendem-se estremecidas cordas. Titubeia por ruas magras. Poliposo papel conduzido, com folhas antigas e aéreas paisagens. Dragões da insônia estrangulam musgos. O dedo apaga o segredo dos pinhais. Nenhuma sílaba lavará o abandono. Os ossos são pequenos e longínquos. Chamará, em vão, pelo mar, que no fundo vê papel em branco. Ele morrerá sem-terra e sem obras, sem lágrimas. Morrerá entre nadas iridescentes, olhos de papéis e acasos de tintas. No húmus dos dedos – eras sereno.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Do mar — 20

Quando o vapor do mar sossegou, o capitão se deteve entre vozes e madeiras e fez viagem à ilha de lado a lado no vinho. Os caminhos escondem as relações que olham. O antigo vime rude abre. As almas lançadas no tombadilho do navio. O riso corre no vento, nas fitas, empalidecendo os náufragos. O cais e a manhã viram. Paquetes esfumaçam o ar. Na deserta orla admira-se vidas pequenas. Atrai com roxo e vermelho o poder de capitão. Áspero no respirar. Tudo envelhecido – navegações, parceiros. A água corre: obscuros ímpetos e poesias nuas. A lua natural é falsamente vazante. Ignorâncias, mares, almas, terras, falecidos vácuos. O sonho de porta, voz de mar ignota. A ânsia natural nauta e vaga. Flauta subtil perdida no mar. A álgebra de Ulisses. Tênue Tâmisa. Circunstâncias: garoa que sobre a data resplandece, atravessando a flor trivial das paredes. Palidez das rosas. O mar flutua sem fim. O hálito dos cantos. Agonia a agonia. Sepultura: o sol de tinta. Gemem molhadas as saudades em poetas calados. Doentes eixos franzem feridas. Morimbundamente amargos. Nada, no trêmulo pensamento. Nos mundos a antiga música larga e quebra os passos limosos. No fundo dos aspectos, na vermelha cólera, vão-se as indiferenças lamentosas, erguendo a cabeça em ironias úmidas. Faz do mar a cadência estranha de deuses poentes.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Do mar — 19

Criança, não navegando, navega. Relíquia nascente, ainda navega. Dentro da gruta navega outras relíquias mais. Há sempre, dentro do rio, outros rios. Nenhum está sozinho quando navega. Não há lua. Não vá crer (como poderia?) o oceano feito de olhos, ilhotas e manacás. Lascivo mergulho das mãos. Dorso do homem de cristal. No espelho, o grito cumpre o gemido. Aqui, a linguagem anda entre mares, mais ardente na ardência. A imagem escuta imagem: estrangula o beijo. Tu sobes com os mares até os pilares. Aí olhas o abismo. Vento da tua terra. E mostras aos acasos. Escuta, as coisas abrolham no elementar mar, e a lua crê na agonia dentro da fogueira.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Do mar — 18

A marítima cabine, por oceânica cabine, os infinitos azuis, expandir a partida. Vento cantante a musicalizar a onda. Ondular com o brigue,  solidão animada, adensar marinhas na vela. Se você soubesse quantos fervores içam-se, quantos fervuras se rompem, o éter a faiscar! Espumas viajantes de cada dia. As noites pelos marinheiros. Ondulado convés, pés e latejo difuso. No fluxo do refluxo fervilha o tom de vagas ocultas dos mundos. De sais, todas as sílabas. Um ranger ritmado se instala: cordame melancólico. Destinado livro, veleiro da inclusão, folhas e velas içadas. A queda é ramo firme. O anjo dos relâmpagos na chuva. Madeixas, tempestades, fímbrias da grande sombra. Bravo, fúnebre. O cântico, noturnamente, passa. A fronte volve à Zênite e à Mênade. No domo sepulcral, as abóbadas giram. Na força, a atmosfera vaporiza, fumaça, o fogo saltado e crepitado do sonho. O embalo rumoroso e corrente de todos os cristais agitados. E alguma pronta angra encontra uma só torre recoberta. Recoberto palácio, no qual viajam os desmaios. A planície atlântica das flores submarinas que, mais do que célere, mais do que afogado na voz seivada, empalidece já perto. Todo o despojo das escutas: as folhas. O companheiro e a fuga nunca logram. Cada súplica se ergue de espinhos. Túmulo da queda. Aquele que naufraga nos lábios. Aquele, professa. A trombeta que esmaga. Enjoos se prolongam. As horas e mares do sentido. Manhãs de distância, entrada do primeiro paquete. Almas vagas, brisas de porto. Oh, barcos, vida, manhã, fumo! Maiores do que orlas e ares. Desertos do cais progressivo na solidão absoluta do mais além de um dia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Do mar — 17

De um navio, entre flutuações de água, almas vivas, vozes partidas e tremulações. Acorda o dia no porto. Paisagens de encostas e cabos. Solidões de bulício. Cais de negrume feito, refletindo a água de espumas, navios de símbolos errantes. A hora e a cor. Embaralha o cais dos cais anteriores. Disperso o porto dos portos. Chaminés fabris e proximidades. Carvão preto no chão, pequenino, visibilidade absoluta: cais, portos. Este som como o dardo de vidas tão mortas. Aquiles do passo imóvel. Perdeu de vista as almas surgidas. É esse o pé mesmo. Perda da hora. A onda! Ímpeto. O delírio e a grandeza são postos à pele: o manto do sol com os rasgos da pantera, azuladas carnes, devoradas por hidras na absoluta luz como caudas. Traspassavam os livros, liam a vaga. Aos apagamentos. O gosto das formas sucessivas. Tropeçar do metro. O reduzido exílio da separação. O vivido homem das colunas erguidas. As dores numa arca puseram. Em sobressalto e desespero, os luares vetustos do fundo. Numa carta datada e mofada, o conhecimento de pé, a espingarda estendida na quinta. O país e seus vidros nos outros corações, cada um segundo na memória, dilúvios libertos. A pausa, ao subir e descer estas vagas, fica quase branca. Acaso o nome não é água? Nas velas do navio, sonham as flores. E todos os vultos caem em duplo no arpão. Arde a paisagem por dentro, e os organismos transbordantes agem e agarram delírios que em saias andam sobre as rendas. Das profundezas do cruel fardo, abominável coragem, retirado em franzidas almas, reservadas para as ânsias loucas, a relíquia ilegal: o corpo vazio. E entre os fundos, que se abandonam, levanta-se a nau. E a sombra de portos desdobrados arde na alma sem tempo e com todos os dele, indevidamente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Do mar — 16

As linhas giram as extensões da vigia. Criaturas de carne e pele. A manhã de verão pisa. Sacolejos do ar traçam algo. Aceleração dos paquetes, das entradas. Doenças inexplicáveis e ocas. As saciedades espiam: vagas de vácuos. Tédio já cheio de dores partidas e repartidas. Na nitidez do navio, o perto é gente de outras fugas. Desejais que eu fie? Os olhos confortam dentes. Defendidos dedos, retornos! É a cilada. O perturbador passo. Uma madrugada luzente se tais aparecimentos se ausentam. A âncora não desce. A veemência anda muito visível. Tateada bússola! O frescor dos palmares cai aos pés de outros brilhos. Muito além da nudez, estes banhos espraiados. A água voa e o cabo explode. O vazio rolava apartado. O limite dos entes insinuava-se entre as bordas imponderáveis do mundo onde, por instantes, vagava. Não teria ele zombado do reino? Não existe medida aceitável que possa arrombar as colunas dessas salgadas balanças? O tempo navegará quer queira, quer não, em nós, sem nós.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Do mar — 15

As hélices. As gáveas indeterminadas totalizam algumas linhas de costas. As flâmulas. Os gualdropes se perdem achatadamente no horizonte. As escotilhas rasgadas de cabos e ilhas areentas. É o vapor iluminado. A árvore. O laço. O canto e a veia. Barco de ar. Dos dois remos, quaisquer ânsias, redes distantes. O roçar de cordas, de perto, ao longo das muralhas e ao redor das câmaras. As chapas das salas. A barra negra da passagem, navios vistos dos portos. Ramagem. Engula o ócio do corpo. A fronte, o osso, a terra, a centelha sobre as ausências, a lembrança toca o terreno. Áurea pedra! Sombra da árvore. Preguiças e futuros arranhariam securas. Diadema, perfeição, segredos selvagens. A noite caminha sobre os mármores pesados. O diadema grandioso mostrou defeito. O povo e as errâncias partidas sobre uma raiz de árvore. A rosa simbólica. Há curvas cintilantes e espumas, as democráticas gargantas. Mandava ao longe os luzires dos amontoados corpos. O nome das colinas, o meandro dos espantos. Até parece intriga de máscaras coniventes. Sonolência longínqua, imobilidade de ventos brancos. Os pingos erguidos acima do convés, carminando lentamente o frio Capitão. Os finados jazendo no alto, todo cheio de uma fremente flâmula. Trompas trinadas estalando como se fossem sinos. Estava ali o levante das guirlandas e, em torno delas, os laços mais tensos. As massas de rostos mais clamantes, magnetizando tudo. Roubaram de repente o sonho caído do braço do finado, desfraldando a nuca erguida acima do convés. As praias chamadas derrubam os nomes. Arrojam as ausências. Guardar numa fuga criada o caminho da mão a colher as ervas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Do mar — 14

A modernidade lenta, engenhada no beijo maquinal. Estrangeiro de madeira, sem educação, estende os pés de vida oca nos mares antigos. Um puro peso conduz a liberdade abaixo das lembranças. Sabedoria viajante: alguns pés das ilhas de morte e os afogamentos contornam as andanças e as falas. Para a vastidão da beleza, a perdição é inconcebível. O barco profundo é travessia só de ida. Águas nos pulmões. Não soam mais os acasos. O apito no rio tremido. Alguns psiquismos, vida de brinquedos. Quilhas velhas. Na ânsia de procurar velas nos mastros. As cordagens devem conter as confusões mais febris. O leme. A roda deve ser tão imaginária que desiste. Queimam os sóis, latejam os tempos! Ao segredo? Os véus, as chamas, os sonos! É a boca, a forma extinta! Eram belezas de céus transfigurados, estranho orgulho impuro, o abandono e o espaço, as nuviosas mortes. E é ainda a tocha! Mais tarde, os olhos da criatura serão menos piedosos. Os sóis, os mares aguardam só a subida, mas a estátua vive de gestos. Certa é a cor do barro. Lá se foi a liberdade – o vosso fundo é. Quê? O coral abafado nos búzios. Sob os lisos dias emerge a surdez do desastre. Ao longe, no mar azul, aos brancos das pedras, já se agitam. Soar o começo, salgo. Abandono das sílabas. Os rios da cidade abrem o nome das coisas. Batidas de palmas. Enfunado navio de palavras. A voragem dos sinos. O carpinteiro em forma de morcego flameja na viga, soltando a gaiola. Em frente, segue a badalada, arrojando a edificação recém-exposta no ombro batido.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Do mar — 13

Dilatação consciente! Quantos êxtases crescentes se deve! Avança o boato. Da cegueira à arruaça, giro. Achava um marinheiro a amizade antiquíssima demais. Alma venenosa, chamando águas. Depois da travessia ligeiramente longínqua, a caverna. A abóbada celeste e as narrações sinistras. Arrasta-se a escuna, uivando a mão curtida. A escuridão da boca. Absurdo marulho, nitidamente sonhado, o volante sacudido e a corrente transmissível do cais. As velas clássicas da literatura. Álvaro de Campos. Que navegação! O teto do pombo, tumba fremida coberta de tombados pinhos. Prolongado o mar. O diamante foi sempre furtiva espuma. Aff! O rio corredio das cavernas: rito solar. Escolheste-me entre mistérios. Mancha rara. As danças sinuosas abandonaram. Ancestral voz. Cautela para sondar milagres. Os saltérios! Os cantos! Os montes! Havia sido cantado pelo mau tempo. Este vento criou o sussurro dos búzios e o silêncio o dispersou nos cabos. Os balanços, os pressentimentos! O barco quando menos se espera; os poemas surgem vermelhos num só teto. Um fado de mesmices acima das ruas, as calçadas e casas apartando o sótão, caindo feito terra da embarcação. Outros júbilos nas novas. Atracar! Atracar! Retorna o erro da cisma. Vai, naval evocação, amplia a crônica. As camonianas lutas e a sulina ressurreição. Livro ocidental. As linhas da pauta, correnteza dupla, enquanto a flauta orna os trinados da infausta nota. Fachadas longínquas, libertando os ardentes nômades. Refúgios do livro. E agora terá fim e maré!

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Do mar — 12

O capitão dos navios concentra os cachimbos dos ventos onde escuros sóis avançam na chuva. Acima do peito das mais tatuadas âncoras, um homem bordado pelo imenso rosto da fúria. Nos mares, safras de vidas vastas rompem em estrídulos e cios. Silvos em volantes. Lá em cima (onde?), os assobios nas carnes. O chamamento de canções ferve. Que vento desperto, que manhã estremecida vai devolver os olhos mais corados? Via no bote o movimento brusco, e o som encosta o navio. Nas baías, nos cortes de horror, sem alcance, sem chumbo, sem altura, a inundação oprimia a profundidade aturdida. Oceano ou céu, repara? Pelo som, o medo sacudido, o sonho afogado. Fragor no monte! Repetida exceção, o movimento de lábios, um milhar de rezas. Histórias e relatos. A maior incerteza é prover de histórias os contos tétricos. Lugares, homens, escutas, casos, clamores, portas! Ao desembarcarem os comensais, núpcias, almas, vazios, bordas, velas! Recebe o branco a vastidão da barba. Enfim, o desenho. A cada coluna, outros sais circulam. A baía de nomes. Já não era o caniço a ondulação de fins, antes o caniço grande girando célere numa coberta e ao toque de Hera. Vivas jornadas, tenebrosas selvas, verdadeira estrada, a memória. Panteras de pele de malhas cambiantes. Astro rodeado que foi adormecendo. E, quando a alma lhe beija a dor, cai-lhe da hora a infusão do pavor no peito dos leões. Precipitou-se vogando em vão os escaleres, os querubins flutuantes. Arlequins de graves andas, tonitruantes arsenais, oficiais trôpegos, as portas, os lares e cabelos. Em ruínas, as obras nos cardumes dos rios. Então, as hercúleas corridas sombrias emergem em torno da sacudida anca. Com embalo e opulência, conduzindo pilastras na pele podre, em profunda e soturna infecção, a terra.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Do mar — 11

À direita, a costa de terra desperta os olhares e os sertões e os artigos desta colônia, e os destinos, à esquerda, retêm o mar atual em mil homens passados da aventura. Desfile de indefinições. De fato: absolutos carregados de quimeras, de combatentes e bordas, na nova terra de padronizados cabos de nomes atônitos e as missangas sobre as mais incríveis costas, vinte setas, ouros, madeiras e explosões verdes ou saques, cheios de terra. Até canhões sob prêmios misteriosos, ostentando novidades de mortificações, no roubo das entrecruzadas misturas. Que temor! Montadas saudações e marinheiros de tinta e gajeiros deslizam em mastros. Tripulantes ancestrais circundados de lemes e tombadilhos de papel rugem rudemente dentro dos porões. Os pilotos do perigo badalam nas vigias suspensos atrás dos cabos. Navegadores de mortes gritam nas escotilhas. Mareantes de beliches, sujos, chegam em guindastes e cargas metálicas como a imensidade das pontes. Sobre as camisolas, em meio a cruzadas, os marujos buzinam audácia. Os olhos da amurada e os tetos dos pombos, aventureiros do convés hasteiam bandeiras. Retorna o serafim luminoso! As mãos estão próximas. O aceno não ajuda. A dor! A dor! Bando perfeito do silêncio. Os lançamentos dos olhos afogar-se-ão. Ouvidos dos mortos, arruinado o ermitão e as vozes piedosas: possuirei bosques: serei ocioso e brutal! De pé! Regressa dos bosques anosos. Novamente as vidas daqui – os anos ao lado. A marinha voz. Está dito o toco de carvalho. Está dito. Não entregar ao bote as escutas. A luz, o sinal, o eremita e a única resposta. A tabica empenada, o esgarçado velame, a vida ressequida, o espectro da folha. O regato não é leito. Quatro cavalos no fundo do vento, as crinas, os espíritos. A lisa areia, de acabrunhante podridão, cobiça o poente das conchas. As estátuas de corais, norte e sul. Se restar um transparente país, os vidros. As pausas dos brancos poemas. Navega os azuis enchendo os espaços da rua. A branca mão na brisa das despedidas. Dissolve-se a noite de maio. Feito sangue, primeiro numa metafísica, depois na saudade. Eolo orgulha-se de que tudo que venta é cativo. Aponta o cume dos rochedos e desmascara os promontórios. As cidades da flutuação dos crepúsculos, o pano das velas. Que as espiadas longitudes fixem gaivotas. Que o cegante sol alastrado chame aquela noite quando os mares difamaram o fundo, delegando-lhe o silencioso súbito e emergente.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Os paradoxos da razão e da loucura em O Alienista


Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.


Publicado em onze exemplares no periódico A Estação (1881), O Alienista é uma obra central no cânone literário de Machado de Assis (1839-1908). Servindo de obra introdutória em Papéis avulsos (1882), é um texto enigmático que desafia qualquer categorização. Embora inegavelmente humorístico, com episódios memoráveis, personagens cômicos ​​e frases espirituosas, a obra é tão complexa de definir quanto o seu protagonista, o alienista Simão Bacamarte. O texto marca o início da fase realista de Machado e introduz diversos elementos que se tornaram característicos em obras posteriores, como a crítica social e a análise psicológica. Usando-se de um narrador onisciente, Machado expõe o egoísmo e a vaidade que estão sob a superfície do comportamento humano.

Basicamente, O Alienista narra a história de Simão Bacamarte, um devotado  médico cujo foco é o estudo e o tratamento de doenças mentais. Após concluir sua formação na Europa e se tornar um renomado especialista, Bacamarte opta por residir na pequena cidade de Itaguaí, situada no Rio de Janeiro. Na esperança de constituir família, casa-se com D. Evarista, mas não conseguem ter filhos. Bacamarte funda na cidade a Casa Verde — hospital dedicado ao atendimento de doentes mentais —, e a instituição logo se torna um elemento de destaque na comunidade. Com ideias pouco convencionais em mãos, o médico desafia as dinâmicas de poder estabelecidas na cidade, as quais são dominadas pelo padre, pelo prefeito, pelos vereadores e pelo juiz. Bacamarte inicia uma série de experiências, detendo e libertando pacientes do seu hospital, tudo na tentativa de descobrir a real distinção entre loucura e razão. Suas ações resultam na prisão de inúmeras pessoas, acabando por desencadear uma revolta popular comandada pelo barbeiro Porfírio. Apesar de todos os esforços, a Casa Verde mantém-se de pé. Enfim, tomando-se como louco, Bacamarte é internado em seu próprio manicômio até morrer.


***


O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.


Num mundo que avança rapidamente, O Alienista dá um passo atrás, transportando os leitores para o crepúsculo da era colonial do Brasil. O mesmo acontece com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), que retrocede para uma época anterior a 1850, mergulhando os leitores num mundo onde o comércio transatlântico de escravizados estava no seu ápice. Contudo, em 1880, o movimento abolicionista, que ganhara força no ano anterior, já se tornara uma influência importante. Nesse sentido, indaga-se: buscar o passado com seus “tempos remotos” seria uma manobra estratégica para impulsionar-se para frente?

Do ponto de vista geográfico, talvez Machado pretendesse insuflar em suas histórias um toque de fascínio mítico ou de parábola bíblica. Em Papéis avulsos, vários contos têm cenários abstratos e remotos. Nesse sentido, ao mergulhar na provinciana cidade de Itaguaí, O Alienista não apenas nos transporta no tempo, mas também no espaço. Durante a leitura, não podemos deixar de traçar paralelos com o mito de Prometeu, a torre de Babel ou a história de Fausto, pois Bacamarte anseia por alcançar um conhecimento que ultrapasse os limites humanos. Além dos aspectos míticos, também podemos pensar que Itaguaí atendesse aos interesses do médico, pois, localizada a aproximadamente setenta quilômetros do Rio de Janeiro, minimizaria os riscos enfrentados pelo protagonista na prossecução desenfreada de seus experimentos. A responsabilidade de Bacamarte seria, portanto, introduzir, com a sua pesquisa inovadora, o ineditismo à nada notável Itaguaí. No entanto, como sabemos, a prática criou pouco a pouco um sentimento de horror nos moradores, à medida que as prisões foram acontecendo.

A narrativa tem uma poderosa energia dramática. Nesse reino de Bacamarte, Machado, conhecido por arquitetar narrativas cheias de ironia, desdobra um elenco de personagens complexos. Aqui, empregando técnicas de exagero, distorção, semelhança e excentricidade para provocar sensações de estranheza e diversão, a trama desperta a curiosidade e nos convida a entrar em suas profundezas. 

Entre a diversidade de arquétipos sociais, somos apresentados a Crispim Soares, o estimado botânico da vila. Ele reverencia e segue obedientemente cada palavra proferida por Bacamarte, ainda que movido apenas pelo interesse próprio, visando colher vantagens pessoais por meio de sua associação com o médico. Por outro lado, encontramos D. Evarista, uma esposa dedicada que tem muito respeito pelo marido. Apesar da sua profunda admiração pelo intelecto e pela experiência do companheiro, ela opta por não aderir aos seus conselhos médicos, nutrindo inveja pelo seu compromisso com os estudos, que ela considera prejudiciais ao seu próprio bem-estar. Além deles, encontramos Porfírio, o barbeiro local, que personifica o político oportunista, exclusivamente focado em obter ganhos pessoais. Nesse aspecto, a obra não apenas critica o médico arrogante que coloca a ciência acima de tudo, como também satiriza o revolucionário que se torna conservador; o indivíduo apático que só entra em ação quando enfrenta perigo pessoal; o oportunista que desconsidera o coletivo etc. Com uma escrita travessa e mordaz, a seriedade das discussões é retratada de forma cômica e exagerada; não busca o típico humor jovial e alegre, mas a ironia e os gestos sutis e enigmáticos que puxam leves sorrisos, deixando rastros de mistérios.

Que tipo de conceito científico está em jogo aqui? Por meio de um médico dedicado a desvendar os enigmas dos distúrbios psicológicos da sociedade, Machado desafia as noções convencionais de normalidade e anormalidade, trabalhando a ideia de loucura para além de estruturas conhecidas. Embora a sua definição passe por múltiplas transformações ao longo da narrativa, o princípio fundamental no centro desses parâmetros permanece inalterado: a lógica científica é o único meio pelo qual a insanidade humana pode ser compreendida nos limites da sanidade — conhecimento aprisionado exclusivamente pelo alienista. Nesse sentido, a narrativa se desenrola de maneira complexa, desprovida de uma estrutura tradicional e resistente à fácil classificação em gêneros específicos, pois ainda que o princípio permaneça inalterado, o método de validação do comportamento humano muda constantemente. Essa evasão deliberada reflete o tema da narrativa, que orbita em torno da natureza da loucura, e é essa natureza flutuante, apresentada como característica inerente ao processo científico, que perturba os indivíduos e incita-os à rebelião.


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E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.


A cena faz inteligentemente uma referência a Dom Quixote (1605) de Miguel de Cervantes (1547-1616), traçando paralelos entre o farmacêutico e o alienista, colocando Crispim Soares como Sancho Pança e Simão Bacamarte como Dom Quixote. Nesse sentido, é possível pensar uma chave de leitura para a obra machadiana onde esta seja uma inversão dos princípios que sustentam o Magnum Opus de Cervantes. Dom Quixote e O Alienista, embora abordem o tema da loucura de ângulos distintos, fornecem perspectivas valiosas sobre a dinâmica da sanidade e da insanidade, bem como sobre a complexa interação entre os indivíduos e a sociedade. Neste quadro, as obras propõem que a linguagem assume um papel central no declínio dos personagens ao reino da loucura, uma vez que as suas interpretações da realidade são moldadas pelas palavras que leem e pelas narrativas que incorporam. A linguagem, consequentemente, surge como um instrumento potente que molda as percepções e os comportamentos das pessoas.

Em Dom Quixote, Alonso Quijano transforma-se após ler vários livros de cavalaria. Inspirado por essas histórias, ele embarca em uma série de aventuras extraordinárias como cavaleiro errante. Sua percepção distorcida da realidade —  onde moinhos de vento viram gigantes e pousadas viram castelos —  é vista por outros como uma manifestação de loucura. Dom Quixote, no entanto, permanece firme em sua perspectiva, desafiando as normas e convenções sociais. Em contrapartida, O Alienista apresenta Bacamarte como um médico racional que se esforça por classificar e tratar os doentes mentais da cidade. Porém, à medida que sua sede por conhecimento aumenta, ele começa a diagnosticar cada vez mais indivíduos como loucos, incluindo até mesmo sua própria esposa. Movido por uma obsessão por controlar e categorizar a loucura, ele estabelece um sistema opressivo que subjuga os habitantes da cidade. Tal como Quixote, Bacamarte é ao mesmo tempo desajeitado e iludido, e a sua perseguição acabará por levá-lo à morte. Enquanto o século mergulhava na loucura, Machado contentava-se em construir a sua narrativa.

O gesto de enlouquecer pela linguagem não pode ser plenamente expresso ou apreendido por meios externos, pois está enraizado numa força transcendente que não pode ser percebida pelo simples intelecto. Nesse aspecto, o gesto não requer a negação dos desejos, pois opera de forma independente e está acima das influências que fazem com que os indivíduos comuns sucumbam às suas sensibilidades. Em essência, transforma o que nos é apresentado em representação, levando-nos a questionar o que está dentro dessa representação. Introduz um quadro ético que existe em nós e tem o potencial de nos levar à presença inegável do outro no reino do sublime. Portanto, o gesto de enlouquecer pela linguagem pode ser compreendido como uma libertação contínua da ilusão do outro, significando que o outro está para sempre situado entre a aflição da alma e o seu bem-estar. Isto nos permite pensar que, por meio de uma rotação contínua, a linguagem é o tumulto causado pelo outro em cada revolução. Em essência, enlouquecer pela linguagem é a representação simbólica da nossa humanidade, que normalmente responde ao desconhecimento, destacando a manifestação do intelecto humano e da autonomia moral.

Tanto Dom Quixote quanto Bacamarte desafiam as convenções sociais, embora suas abordagens sejam diferentes. Dom Quixote segue seu próprio princípio, enquanto Bacamarte tenta impor sua versão da realidade aos outros. Em ambas as obras, a loucura é retratada como meio de resistência às normas sociais estabelecidas. Além disso, a natureza da sanidade e da insanidade é questionada, destacando a linha subjetiva e muitas vezes confusa que existe entre ambas. Dom Quixote é considerado louco por sua visão de mundo idealista, enquanto Bacamarte enfrenta escrutínio por sua fixação em controlar e categorizar a loucura.

A loucura, tema frequentemente explorado na literatura, é uma porta de entrada para a verdade. Tal ideia, enraizada na percepção trágica da loucura descrita por Michel Foucault (1926-1984), reconhece a ligação entre a loucura e a verdade. Assim, quando os caminhos convencionais para a verdade são obstruídos, a loucura torna-se o último recurso. Ao abraçá-la, libertamo-nos das restrições impostas pelas normas sociais e desencadeamos um discurso que desafia a hipocrisia e o medo. Assim como Quixote teve de perder a sanidade, Bacamarte se viu em semelhante situação. No final, ambas as obras mergulham na essência da loucura e nas conexões humanas e sociais, obrigando-nos a desafiar as nossas próprias interpretações da sanidade e da loucura e o significado dessas ideias na nossa compreensão do mundo.


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Nas narrativas machadianas, a intenção é despertar o leitor para a percepção de que a realidade é retratada de forma fragmentada e incompleta. Nesse sentido, as palavras  lançam luz sobre as complexidades do jogo discursivo e revelam alguns dos seus princípios subjacentes. Em O Alienista, o foco reside na instabilidade dos conceitos, na crítica do determinismo científico como o único caminho para a verdade e no exame de como os critérios de valor são moldados e disseminados em vários contextos. Em certo sentido, sinaliza uma abordagem diferente à interpretação que envolve um delicado equilíbrio entre crença e ceticismo, existência e inexistência, traição e lealdade, negação e afirmação. Ao abordar o texto com cautela e com atenção às potenciais armadilhas do seu discurso, abrimo-nos a oportunidade de compreender tanto as intenções e as ações de Bacamarte quanto o poderoso impacto da escrita de Machado na construção da obra. Entre as diversas estratégias discursivas empregadas no diálogo com as tradições literárias, que abrangem a incorporação do púlpito e das práticas retóricas da tribuna para expor as hipocrisias sociais do período machadiano, acompanhamos um narrador que expõe falsos movimentos, ao mesmo tempo que nos permite descobrir fragmentos de verdade.   

Esses exames do comportamento humano e da dinâmica social não apenas se confundem, como também traçam paralelos entre Bacamarte e Machado, que compartilha semelhante fascínio em mergulhar nas complexidades das ações humanas e em suas interconexões na sociedade. Além disso, eles introduzem lacunas temporais e interpretativas que podem ou não ser exploradas em encarceramentos subsequentes, desafiando assim as certezas previamente estabelecidas aos critérios definidores da loucura. Lembrando por vezes o Humanitismo de Quincas Borba (1892), Machado desafia a estabilidade dos critérios ​​utilizados para definir a loucura, expondo a imposição contundente dessas normas e as justificativas inventadas para a sua perpetuação. Tal crítica se estende à elevação da ciência como único árbitro da verdade.

O conflito principal do texto reside num domínio completamente diferente: a autoridade latente da ciência que o discurso científico tenta ocultar. No âmbito do positivismo, Machado percebe uma insânia escondida sob o disfarce do humanitarismo, uma busca incansável para desvendar os mistérios do universo e da existência humana. Nesse sentido, Machado transcende a sua época não apenas desafiando a compreensão racionalista e positivista da ciência, mas também questionando a autoridade de qualquer conhecimento que afirma ser estritamente objetivo e universalmente aplicável. Essa insânia decorre do exercício do poder entrelaçado à própria estrutura do conhecimento e aos seus fundamentos, exaltados pelos ideais positivistas da razão e da ciência. Se o foco de Machado é o próprio poder, essa entidade evasiva que se envolve em inúmeros disfarces, consequentemente, não há base para nutrir otimismo em relação à razão e à ciência.


Nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

— A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.


Equipado com as ferramentas da ciência contemporânea, especificamente a descrição da classificação predominante dos transtornos mentais, Bacamarte embarca numa busca irreversível para descobrir um critério definitivo que possa delinear com precisão os limites que separam a sanidade da loucura. Essa busca representa a verdade inabalável do alienista, o seu fervor inexorável. Ao nos aprofundarmos no texto, deparamo-nos com um médico que tem a convicção inabalável de que somente a ciência consegue desvendar os mistérios da loucura humana, delinear seus meandros e, finalmente, encontrar uma cura. 

O Bruxo do Cosme Velho, no entanto, manifestou a sua insatisfação com o determinismo científico. Com um estilo de escrita cáustico, criticou a crença filosófica enraizada no positivismo que coloca a ciência acima de todos os outros meios de compreensão da realidade. Essa crítica também nos lembra o remédio de Brás Cubas, que sugere a substituição do lema de inspiração positivista da bandeira brasileira por um medicamento anti-hipocondríaco. Por fim, no domínio das parábolas, a conclusão é perfeita, precisa e completa: Simão Bacamarte “morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada”. O desejo pela elucidação final e abrangente caminha em direção à morte. A busca incansável pela investigação racional resulta em reclusão. Nada resta.


Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.


sábado, 27 de julho de 2024

O voo do Anjo



Vô, à medida que a tarde vai passando, envolvendo a nossa casa e a terra, o sopro sereno do céu toca os nossos rostos. Lentamente, a noite desce. A lua surge, lançando um brilho suave e translúcido que embala seus olhos em sono tranquilo. Vô, o senhor mergulhou totalmente em tudo ao seu redor e, sempre que a vida foi dura e violenta, você vibrou e foi fibra, respondeu com amor — nasceu vaticinado a ser Anjo mesmo. Em meio à apatia e à continuidade fingida deste mundo, seus movimentos, como eclipses, brilharam. Você se tornou o rio, as margens e a fonte; você é a natureza do dia, a tarde dentro do dia e o sol dentro da tarde.

Vô, o senhor, que jamais envelheceu, combateu o bom combate, sempre com decência, e circunscreveu o mundo inteiro porque ele se tornou a sua própria natureza. Daqui, eu me oriento e permaneço firme: existo porque você existe — e dia a dia vou aprendendo a enxergar um pouco mais com as mãos, como o senhor me ensinou. Sou atravessado por sua voz; sua voz, agora silenciada. Suas palavras farão muita falta, mas essas memórias de vida serão suficientes para mantê-lo por perto, pois sei que o seu carinho, a sua bondade e o seu altruísmo tocaram a vida de muitos. Ainda que as consequências da sua partida me assaltem, sei que teria um desgosto profundo se faltasse o senhor no mundo, na nossa maloca, na minha vida. 

Hoje, a noite cobre a terra que te abraçou e protegeu com ondas de luz. E, como alma adormecida, sinto suas pálpebras descendo suavemente sobre os olhos; seus olhos físicos, para sempre selados. Nunca deixarei as memórias desaparecerem. Nunca deixarei Carolina esquecer o seu nome. São essas as nossas verdadeiras heranças. Vô, agora nenhuma matéria pode limitar a visão. Abra os olhos do espírito e veja: papai está aí para abraçá-lo. O grande dia chegou. Obrigado por cuidar de nós.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Do mar — 10

Tombadilhos de sangue! Crucificada navegação de espádua, os gozos, aqueles em cruz, outros descendo, e os postes se renovam nas espinhas vastas. Os conveses, cheios de sons, afundam e encolhem. Algumas dessas vagas ainda estão cheias, outras almas, ébrios mares. Quedas marítimas se cruzam e somem. Os marujos escalam os cabos. Distingue-se uma âncora longínqua, talvez outras costas. São ventos estranhos, os trechos de naufrágios dolorosos, restos de cais. A espuma salgada larga como a sanguessuga monstruosa. Estes lábios de sal. A faina da partilha tão igual ao beijo da tormenta. As centrais civilizações no traje da brandura. Todos os mares: tumultuoso brilho, silenciosa imensidão, sem lua e caminho. Não há mortos no convés que não se conheça. A baía clara cobriu a face, o luar, o reflexo e a lisura. O penhasco! As variações das ostentadas cores e os coroamentos carmins apropriados. E as imobilidades dos plenilúnios e os cataventos que eles interditam! O corpo marcha. A cruz erra nomes, escuridão de ruas, vidro adiáfano, luzes de peixes, alucinações e navios. A lisa praia tem boa parte no rumo da distância. Correr sucessivas vezes novas cores. Era vão o fumo. A orla descendo espremida entre os rios e barrancos, derramando-se na vela avançada através do rebocador poroso de barco pequeno, reverberando intensamente naqueles portos vagos. A tristeza caída. Linhos! Lento, o oceano. Dizei nomes de riscos fundos e não temeis revelar as escritas cartas de mar. Tardia, a pérola irrompe! Crepúsculo sobre a cidade! Que barco teria escalado esta porta, este pano que inclina os séculos? Ele dividiu os peitos e mensurou água por água os dias: surgiram as mãos qual marinheiros obscuramente dominados pelos agudos avanços da faca, pois tinham navegado em negra proa, braços do nascimento: luz e morte, coluna, cais, pirraça e repúdio.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Estas areias são linguagens que maré e vento inscreveram aqui

 



“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso, se não mais, pensando através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.”


O que é o livro? O livro me puxa para um abismo que é um espaço de ausências seguidas, e esse abismo guarda em si o deserto onde nos movemos infinitamente; o livro é o deserto mais árido que há. Encontrar-se e perder-se nele é fantástico. É coisa de outro mundo. Aquele que detém uma parte do livro, qualquer que seja, fragmento, pedaço rasgado, já consegue sonhar outros sonhos, pois um livro pode ecoar o eco do outro que o incorporou numa vibração sutil; assim, alcança-se um diálogo silencioso e penoso, incansável, solidez que pode ser atravessada com a mão para buscar palavras além desse abismo. E sei que também voltaria abismado do abismo, sombrio e diáfano, com a mesma ausência oscilante de um livro. 

Ulisses (1920), a obra-prima de James Joyce (1882-1941), é um monumento ao brilho literário e à redefinição dos limites da narrativa. Reconhecido como um dos maiores romances do século XX, Ulisses não apenas reimagina o épico de Homero, a Odisseia, mas o transpõe para o cenário pulsante das ruas e tavernas de Dublin. Em uma proeza de estilo e perspectiva, Joyce retrata as diversas facetas da vida em um único dia, o 16 de junho de 1904, conhecido hoje como Bloomsday. É uma celebração que cresce em popularidade, testemunhando a perene grandiosidade do romance e o desejo humano por alegria e comunhão.

Em vez de elevar a vida cotidiana às alturas da mitologia, Joyce inverte o processo, transformando um dia comum em um épico moderno. Cada personagem e ação são imbuídos de sentido heroico, onde até mesmo a simples tarefa de enfrentar um nacionalista embriagado em um bar se torna uma conquista lendária. Ulisses é mais do que um romance; é um mergulho profundo na alma de Dublin, vista através dos olhos visionários de Joyce.

Neste épico literário, Joyce ergue a fasquia da narrativa para além da estratosfera, levando-nos a uma jornada através da amada Dublin suja, onde cada página é um testemunho do poder transformador da escrita e da imaginação. Navegar no complexo labirinto da literatura requer uma mente afiada e uma dose generosa de paciência, mas os tesouros descobertos ao final da jornada são certamente gratificantes. Não é de surpreender que muitos desistam deste romance pelo caminho ou que simplesmente não o apreciem; afinal, esta obra é genuinamente desafiadora. Joyce, com maestria peculiar, entrelaça alusões enigmáticas e datadas, narrativas que nos envolvem em névoa densa e vocabulário invejável, criando uma odisseia literária destinada a desafiar e a intrigar. Ele mesmo admitiu ter adornado seu texto com tantos enigmas e charadas que garantiria séculos de debate entre os acadêmicos sobre seu verdadeiro significado, assegurando assim sua imortalidade.

Os leitores devem ser advertidos: este não é um romance para os fracos de coração. Há momentos em que a frustração parece prestes a nos consumir, tentando-nos a abandonar o livro. No entanto, é na segunda metade que começamos a desvendar os segredos que ele guarda, e é então que percebemos que o romance conquistou um lugar especial em nós. Ao terminar a jornada, somos surpreendidos ao perceber que estamos diante de uma das mais grandiosas obras já concebidas, e o amor por ela floresce em nossos peitos. Talvez essa sensação seja similar à experiência de quem se aventura em maratonas ou escala montanhas: uma jornada árdua, repleta de desafios, mas cuja conclusão traz consigo um orgulho e uma euforia indescritíveis. Há recompensas inúmeras a serem colhidas ao longo da leitura.

Ulisses não só exibe um talento literário incomparável, mas também oferece uma variedade de estilos que cativam e surpreendem. Muitos se esquecem de mencionar que este romance também é dotado de humor sutil. É um livro que exige que nos ensinemos a nós mesmos, que nos desafia a ir além da simples leitura. Não é à toa que estudiosos dedicam anos de suas vidas a desvendá-lo, mantendo-o ainda hoje como objeto de debate e admiração. Até o grande Ulisses precisou de auxílio em sua jornada épica.


“Arrojo esta sombra términa de mim, hominiforma inelutável, chamo-a de volta. Intérmina, seria ela minha, forma de minha forma? Quem me percebe aqui? Quem em lugar algum jamais lerá estas escritas palavras? Signos em campo branco. Em algum lugar a alguém na tua voz mais maviosa.”


A obra é uma tapeçaria literária, tecida com uma vasta gama de estilos e técnicas narrativas. A habilidade de Joyce em transitar entre diferentes formas de escrita – desde a sátira de publicações populares até a reverência aos mitos ancestrais e a aplicação de conceitos científicos à prosa – cria uma experiência de leitura multifacetada. Cada linha do romance é uma porta para um universo distinto, onde o leitor é convidado a explorar e se aventurar com a riqueza da expressão literária.

O famoso fluxo de consciência, ousadas alucinações disfarçadas de jogos, e a profusão vertiginosa de prosa, que varia de ornada a singela, demonstram o amor de Joyce pela experimentação estilística. A linguagem é frequentemente brincalhona, lírica e repleta de trocadilhos, demonstrando o talento excepcional de Joyce para a manipulação linguística. Ele até usa a estrutura das frases para transmitir movimento. Somente pela sua maestria linguística, Ulisses se destaca como uma das obras mais espetaculares já escritas, desafiando até mesmo os limites do nosso vocabulário.

Uma das características mais debatidas de Ulisses é a técnica inovadora de Joyce de imergir o leitor nos pensamentos das personagens. Não se trata de uma narração em primeira pessoa convencional; em vez disso, os personagens parecem estar inconscientes da presença de um observador em seus pensamentos. As informações emergem em rajadas desconexas e aleatórias, sem que Joyce se preocupe em fornecer clareza ao leitor. Assim como William Faulkner (1897-1962), Joyce deixa o leitor sozinho para montar o complexo quebra-cabeça narrativo.

A técnica narrativa empregada por Joyce permite uma fluidez de consciência entre as personagens, onde o leitor é frequentemente confrontado com transições abruptas de pensamento. O solilóquio de Molly exemplifica essa técnica, com os pensamentos de Boylan e Bloom se sobrepondo de maneira indistinta. A narrativa exige uma leitura atenta e reflexiva, pois a identidade do falante pode não ser imediatamente aparente, requerendo que o leitor dedique tempo para discernir a fonte dos pensamentos apresentados. A estrutura do romance é tal que acompanha os movimentos diários de Stephen e Bloom, mas não de forma linear ou contínua. Em vez disso, Joyce constrói uma narrativa polifônica que entrelaça diferentes perspectivas, permitindo que a história capture a essência de um dia inteiro. Esta abordagem oferece uma visão holística e multifacetada dos eventos, refletindo a complexidade da experiência humana e a interconexão das vidas individuais.

A noção de paralaxe, emprestada da astronomia, é transposta para a narrativa de Ulisses, servindo como metáfora para a multiplicidade de perspectivas que Joyce apresenta. Bloom reflete sobre esse conceito, que se torna um leitmotiv ao longo do romance, sugerindo que a realidade pode variar significativamente dependendo do ponto de vista do observador. Joyce utiliza essa ideia para enfatizar a subjetividade da experiência humana e a complexidade inerente à interpretação dos eventos e das relações interpessoais. Nesse sentido, os leitores são convidados a adotar uma postura ativa na construção do significado do texto, navegando por um oceano de pensamentos e imagens que, muitas vezes, parecem contraditórios ou incompatíveis. Por meio dessa técnica, Joyce desafia os leitores a reconhecer e apreciar a diversidade de interpretações possíveis, incentivando uma leitura mais profunda e engajada que vai além da superfície do texto. Ulisses não apenas conta uma história, mas também convida à reflexão sobre como as histórias são contadas e percebidas, destacando a riqueza que emerge da confluência de diferentes pontos de vista.


“Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça do inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.”


A diversidade de narradores é um testemunho da habilidade literária de Joyce. Cada personagem é dotado de uma voz distinta, caracterizada por um estilo, vocabulário e estrutura gramatical próprios, sendo Molly Bloom exemplo notável dessa variedade. A complexidade das vozes narrativas pode levar o leitor a questionar as perspectivas de Joyce sobre questões sociais, como sua visão sobre judeus e mulheres. No entanto, Joyce subverte frequentemente as expectativas ao apresentar pontos de vista contrastantes. 

A representação das mulheres e da sexualidade é central na narrativa, o que provocou debates sobre a possibilidade de Joyce ser misógino. A descrição de personagens femininas, muitas vezes focada em sua sexualidade, e a presença de figuras como prostitutas podem ser interpretadas como reforço dessa perspectiva. Contudo, é importante considerar que Joyce pode estar explorando a complexidade da condição feminina e as normas sociais da época, em vez de simplesmente perpetuar estereótipos. A ambiguidade e a multiplicidade de interpretações são características essenciais de uma grande obra literária, convidando o leitor a uma análise mais aprofundada das intenções do autor e das dinâmicas sociais retratadas no romance.

Pelos olhos de Bloom, somos confrontados com uma visão objetificada e desprovida de remorso das mulheres como objetos sexuais, bem como uma perspectiva masculina sobre a sexualidade feminina. No entanto, com Molly, Joyce nos apresenta uma visão altamente contrastante das mulheres e de sua própria sexualidade, explorando como elas percebem não apenas sua própria sexualidade, mas também como enxergam a sexualidade masculina e até mesmo como imaginam ser vista pelos homens. Molly vislumbra a possibilidade de ter um pênis e reflete sobre a experiência de manter relações íntimas com outra mulher. Tais pensamentos, embora possam ser considerados polêmicos ou mesmo ofensivos por parte do público, devem ser examinados sob uma perspectiva ampla e enquadrados na narrativa e na construção das personagens. É crucial que a análise literária reconheça e explore a complexidade dos temas abordados, sem preconceitos ou julgamentos precipitados.

É pertinente reconhecer que James Joyce estava ciente da rigorosa censura imposta aos romances na Inglaterra e nos Estados Unidos. Frequentemente, ele incorporava trechos que desafiavam tais restrições. Não é inesperado que Ulisses tenha sido proibido nos Estados Unidos até 1934, ano em que a Suprema Corte Americana anulou a proibição, em um veredito emblemático sobre a legislação de obscenidade. Essas facetas, embora possam ser consideradas polêmicas, enriquecem e intensificam a representação da condição humana delineada por Joyce na obra.

A influência de Hamlet, de Shakespeare (1564-1616), é tão preponderante quanto a da própria Odisseia. Essa intertextualidade ressalta a natureza multifacetada das perspectivas e a intenção de Joyce em ancorar suas personagens à realidade, evitando definições ou alinhamentos claros. A obra shakespeariana é um tópico recorrente entre os intelectuais de Dublin, e um momento decisivo do romance é marcado pela análise de Stephen Dedalus sobre Hamlet, desvendando, assim, camadas dos temas centrais da obra. Desde as ideias do papel de Stephen como Telêmaco em busca de um pai substituto em Bloom, até os pensamentos contínuos sobre o adultério, tudo se desenrola durante a palestra de Stephen sobre Hamlet. No entanto, essa cena também demonstra que Stephen é uma figura de Hamlet, assim como Bloom é uma figura do falecido Rei, e que Molly pode se encaixar no papel da Rainha traidora, assim como Penélope. 


“A arte tem de revelar-nos ideias, essências espirituais sem forma. A suprema questão sobre uma obra de arte está em quão profunda é uma vida que ela gera. A pintura de Gustave Moreau é a pintura das ideias. A mais profunda poesia de Shelley, as palavras de Hamlet, põem nosso espírito em contacto com a sabedoria eterna, o mundo das ideias de Platão. Tudo o mais é especulação de estudantezinhos para estudantezinhos.”


É interessante observar que muitos dos personagens, especialmente Mulligan, são baseados em pessoas reais com quem Joyce interagiu. Stephen explora como os personagens de Hamlet correspondem à própria família de Shakespeare, assim como esses personagens se assemelham aos que cercam Bloom e aos que cercavam Joyce. Stephen também é altamente representativo do próprio Joyce. Ele foi o protagonista do romance semi-autobiográfico de Joyce, Um retrato do artista quando Jovem, e neste romance o vemos continuar sua busca pela arte. Em um cenário de discussão, ele se posiciona ao lado de um recém-nascido, debatendo a relevância entre a vida da mãe e a do filho no momento do nascimento. Essa postura revela suas ideias sobre a arte como uma criação de valor inestimável – como se cada pincelada, cada nota musical, fosse um gesto de dar à luz à própria essência da vida. Essa delicada metaficção é apenas uma das inúmeras estratégias pelas quais Ulisses cativa os leitores. Artesão habilidoso, Joyce tece palavras e conceitos, criando um mosaico que transcende o tempo e nos envolve em sua magia.

James Joyce escapa dos clichês com maestria, desenvolvendo uma trama de personagens complexos. Leopold Bloom, por exemplo, é uma contradição ambulante, um verdadeiro enigma: judeu e batizado, oscila entre a figura paterna e os desejos maternos, desafiando as normas de gênero. Seu coração gentil às vezes se contradiz com críticas aos outros por sua própria gentileza. Longe de ser isento de falhas, Leopold Bloom é um sedutor desavergonhado. Pelas ruas de Dublin, suas intenções lascivas em relação às mulheres não passam despercebidas. Ele é um dançarino da vida, sempre em movimento, como se buscasse escapar das sombras do passado. A tristeza o persegue, e os pensamentos sobre as transgressões de sua esposa pesam sobre seus ombros, como se a fuga fosse seu destino inevitável. Assim, Bloom, com sua humanidade multifacetada, é um dos personagens mais encantadores da literatura.

No emaranhado das palavras, a “união” entre Bloom e Stephen é fio invisível, laço sutil a transcender o óbvio. Como pássaros em voo, cruzam-se, divergem e se entrelaçam: casamento de almas, não de convenções. Stephen, o artista atormentado, e Bloom, o observador silencioso, movem-se na penumbra da linguagem. Desencontros e desafios marcam sua jornada, mas cada novo choque reinaugura suas essências. Mapa de encontros e despedidas, Ulisses fia destinos com laços de mistério e significado. Como observou Jung, o encontro de duas personalidades é como o contato entre duas substâncias químicas. Se houver alguma reação, ambos se transformam. Essa toada ressoa na interação entre Bloom, Stephen e outros personagens, destacando a transformação mútua que ocorre quando personalidades tão distintas se encontram e se envolvem em um diálogo interno e externo no romance.

Ulisses não é um romance fácil à primeira vista, mas vale o esforço investido. A sua prosa é intimidadora, mas, com paciência e orientação, o romance se revela uma verdadeira obra-prima, permitindo que o leitor mergulhe na linguagem de Joyce. Há uma riqueza de técnicas e enigmas a serem desvendados, tornando a leitura gratificante. Além disso, Ulisses é hilário em muitos momentos, acrescentando uma camada de humor à complexidade da narrativa. Joyce deixou um legado na literatura com Ulisses, que hoje é merecidamente reconhecido como um dos maiores romances do século XX. Esse livro, portanto, merece ser lido, pois nele cada palavra ganha vida na mente do leitor. 


“Stephen fechou os olhos para ouvir as botinas triturar bodelha e conchas tagarelas. Estás andando por sobre isso algoqualcerto. Estou, uma pernada por vez. Um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço. Cinco, seis: o nacheinander. Exactamente: e isso é a inelutável modalidade do invisível. Abre os olhos. Não. Jesus! Se eu cair de uma escarpa que se salta das suas bases, caio através do nebeneinander inelutavelmente. Até que estou deslocando-me bem neste escuro. Minha espada de freixo pende a meu lado. Tacteia com ela: é assim que se faz. Meus dois pés nas botinas dele estão no final de suas pernas dele, nebeneinander. Soa maciço: feito pelo malho de Los Demiurgos. Estou eu andando para a eternidade ao longo do areal de Sandymount? Tritura, tagarela, trila, trila. Dinheiro do mar selvagem. Dômine Deasy sabe tudinho.”