Vô, à medida que a tarde vai passando, envolvendo a nossa casa e a terra, o sopro sereno do céu toca os nossos rostos. Lentamente, a noite desce. A lua surge, lançando um brilho suave e translúcido que embala seus olhos em sono tranquilo. Vô, o senhor mergulhou totalmente em tudo ao seu redor e, sempre que a vida foi dura e violenta, você vibrou e foi fibra, respondeu com amor — nasceu vaticinado a ser Anjo mesmo. Em meio à apatia e à continuidade fingida deste mundo, seus movimentos, como eclipses, brilharam. Você se tornou o rio, as margens e a fonte; você é a natureza do dia, a tarde dentro do dia e o sol dentro da tarde.
Vô, o senhor, que jamais envelheceu, combateu o bom combate, sempre com decência, e circunscreveu o mundo inteiro porque ele se tornou a sua própria natureza. Daqui, eu me oriento e permaneço firme: existo porque você existe — e dia a dia vou aprendendo a enxergar um pouco mais com as mãos, como o senhor me ensinou. Sou atravessado por sua voz; sua voz, agora silenciada. Suas palavras farão muita falta, mas essas memórias de vida serão suficientes para mantê-lo por perto, pois sei que o seu carinho, a sua bondade e o seu altruísmo tocaram a vida de muitos. Ainda que as consequências da sua partida me assaltem, sei que teria um desgosto profundo se faltasse o senhor no mundo, na nossa maloca, na minha vida.
Hoje, a noite cobre a terra que te abraçou e protegeu com ondas de luz. E, como alma adormecida, sinto suas pálpebras descendo suavemente sobre os olhos; seus olhos físicos, para sempre selados. Nunca deixarei as memórias desaparecerem. Nunca deixarei Carolina esquecer o seu nome. São essas as nossas verdadeiras heranças. Vô, agora nenhuma matéria pode limitar a visão. Abra os olhos do espírito e veja: papai está aí para abraçá-lo. O grande dia chegou. Obrigado por cuidar de nós.
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