quinta-feira, 27 de março de 2025

Do mar — 40

Quem te cerca de valquírias e mortos? Quem derrama as deidades? Invoca-te quando chegas nesta batalha, neste salão, neste devaneio, e sustenta as tuas escolhas. Nas portas deste salão, chamam por ti, como se as filhas da realeza houvessem oferecido belezas por descobrir. Chamam por ti, reunindo as tuas ordens, as tuas vasilhas, as tuas louças de barro, porque há estilhaços de gralhas, cisnes e brutos.

domingo, 23 de março de 2025

Forjar-se como reflexo daquilo que nunca se aparta, mas tampouco se fixa — o ancoradouro último, o pórtico onde todas as travessias se dissolvem em promessa e retorno. Moldar-se na argamassa do inominável é escavar em si a latência dos deuses e, ao mesmo tempo, o abismo onde a divindade se desfaz em servidão e desejo, pois, se há tronos etéreos, neles somos sombras serventes; se há o nada, o servimos com igual devoção, dobrando a espinha ao peso das sensações que fazem do corpo um templo e um cárcere.

Erigir-se a partir dessa geometria secreta não é senão inscrever-se como vértice de uma equação inacabada, um fluxo onde o início e o fim são genuínos acidentes de uma mesma órbita. O que é o cais senão a vibração do instante, o contorno do que chega e do que parte, o concerto do que toca e do que escapa? Neste jogo, perder-se é reencontrar-se; dissolver-se é assinar-se em substância ignota, irrisória e infinita.

O que se edifica à imagem dessa arquitetura impossível não se prende ao horizonte da vulgaridade, mas tampouco o renega: há que viver entre os escombros da normalidade, sustentando-se, no entanto, sobre o alicerce do inabarcável, pois habitar o tempo é tarefa para quem aceita ser todos os tempos, de uma só vez e sem aviso. Há que se desdobrar em reflexos e ângulos de um mesmo reflexo, transbordando-se para além do que é nomeável e contável, pois o instante absoluto contém em si toda a humanidade, todo o sopro e todo o declínio, vertido num só relâmpago de existência, onde tudo se expande e se extingue em um único gesto.


sexta-feira, 21 de março de 2025

“A liberdade é poder defender o que não acho, até mesmo num mundo ou num regime que aprovo. É poder dar razão ao adversário.” 

Albert Camus (1913-1960)


O ferro da porta não se fecha sobre a sentença nem o martelo decreta o silêncio da pedra. Se a argamassa contém em sua liga o áspero grão da contradição, toda a fundação se ergue sobre o risco da queda. A liberdade não é o pássaro que voa, mas o vento que corta na contramão da asa. Dizer o oposto não rompe o fio do verbo, sustenta-o na corda bamba da razão alheia — como a lâmina que se afia contra si, como a maré que recua para se erguer. Nenhuma muralha se mantém de pé sem o intervalo que lhe permite respirar, sem a concessão ao vazio que a cerca.

A negação é a vértebra do discurso, a nervura do pensamento, a pedra angular da cidade que não se permite monólito. Defender o contrário não é traição ao edifício, mas calafetagem que impede o naufrágio. Como em Blake, há um tigre oculto sob a pele do cordeiro, e a chama que ilumina também consome. Entre a coluna e a fenda, entre o abismo e a ponte, estende-se a língua bifurcada do entendimento: as palavras não são correntes, são correntezas. Só o oceano inteiro pode conter o próprio mar.


quinta-feira, 20 de março de 2025

Do mar — 39

À maneira das águas. O corpo se entreabre. As praias desdobram-se em vestígios. Em meio a balanços de anões, o sombrear dos rastros. A criatura conjura o pássaro. O tamanho sem limites. Fechado o cofre. Soluços. A saudade encostada, navio no cais. Tateias. Nada mais com tua bússola. Ardeu-te o indecifrável dos palmares. Brilhos frescos. Vela a descida da âncora. Nas vindas deveras escuras. Barquinhos singrando em fila. As alturas de um pássaro. O pretérito entardece a vela alva.

domingo, 16 de março de 2025

Ó, espectros da noite incendiada, vultos sem rosto que, entre a bruma e o aço, fendem os véus da carne e do oceano! Serpentes de proa e costado, os olhos em febre, a pele em cicatrizes de vento e sal! Vós, que navegais entre o tempo e a morte, entre o desejo e o naufrágio, em vossa fúria de assalto e esquecimento!

(TÁBUAS QUE FALAM, VENTOS QUE RESPONDEM)

Ah, pudesse eu ser aquele que vos espera na sombra dos cais, na dobra dos mapas onde os nomes se desfazem, aquele que vos adivinha nas marés e vos sonha no sangue que escorre dos altares submersos!

(AQUELE QUE NÃO EXISTE SENÃO NO CHAMADO)

O que sois senão o refluxo das sombras e o grito dos afogados que vos precederam? O que sois senão a própria voragem, a lâmina entre o céu e o abismo, o nome esquecido na boca de um condenado? Ó, meus vultos errantes, minhas blasfêmias marítimas, meus dogmas dissolutos, anátemas eucarísticos de um festim sem perdão!

(O CÍRCULO SE FECHA, MAS A FOME PERMANECE)

Vós, que na violência instaurais a ordem do caos, que vosso gozo é o corte, vosso hálito é a combustão, vossos corpos, ferros e runas, incendiando-se na aurora de cada assalto! Quem vos espera não vos deseja, pois já sois a posse que não se possui, a oferenda que se consome antes do sacrifício! Quem vos espera aguarda o furacão que não chega, o tambor que não silencia, o canto que se extingue na própria boca que o entoa!

(O ECO DO QUE NUNCA FOI)

Ó, marés rubras de promessas cumpridas em lâmina e cinza! Que espetáculo se ergue sobre os gritos, que celebração se inscreve nas entranhas expostas dos vencidos? É a liturgia dos mastros quebrados, a missa negra dos afogados, a consagração do golpe que nunca retrocede!

(O INFINITO RETORNO DO MESMO RITO)

E que há para além do que vedes? Que há no fundo do próprio olhar senão o mesmo espelho de trevas onde se mira a fome do abismo? Que há senão o vértice onde se rasga o véu e se desfaz a promessa de porto e de repouso? Porque todo oceano é apenas outro nome para a ausência, e todo grito se inscreve na concha vazia do mundo!

(O MAR NÃO TEM MEMÓRIA, MAS TAMBÉM NÃO PERDOA)

Ó, minha comunhão de espectros, minha falange de lâminas e de fúria, vós que sois o alvorecer e a cinza, a oferenda e a negação! Se eu vos amo, é porque já sou vós. Se vos acompanho, é porque nunca parti. Se vos espero, é porque nunca existi!

(O QUE SE DIZ SE APAGA; O QUE SE CALA PERMANECE)


sábado, 15 de março de 2025

Como esses navegantes que transportam no bojo das embarcações ruídos de ossos, sílabas truncadas, memórias de tempestades soterradas no estômago do oceano, assim se arrasta, persistente e inexorável, essa tarde de março, essa cissura aberta no tempo, quando, sob o braseiro de crepúsculos que devoravam horizontes, outra combustão, inaudita e secreta, rasgava sem alarde, sem rastro, sem cicatriz, mas deixando dispersos, como membros de um mito dilacerado, os fragmentos insólitos de uma dignidade deserta, uma grandeza imprópria, inerte no chão ardente como um deus que ninguém venera.

Mas os navegantes imploram aos escombros favores divinos, desejam águas benévolas, promessas de trégua, a ruína de inimigos invisíveis. E essa tarde de março, esse êxtase carbonizado, nada tem a conceder. Apenas perpetua-se, com o rigor dos espectros, irreversível como o verso corroído pelo tempo, insólito como o lampejo da beleza no semblante daquele que se volta para se esquivar. As folhas ruíram; as árvores exalaram seu protesto mudo. Nesse encontro de verão e morte, quantas vezes os símbolos feneceram, quantas vezes a pele se tornou epitáfio.

Quando a fantasia da nova estação nos evoca, já espectros, sob a suavidade enganosa da epiderme, ecoa a resina que nos ungiu, o toque funéreo que nos assinou. Nos trajes, rastro de um carro sem cortejo, poeira de uma fuga não anunciada. E essa tarde de março, esse instante carbonizado, foi a câmara onde evaporamos. Ninguém se ergueu em vigília. Nem mesmo o amor, distraído ou ausente, lançou um olhar ao vazio que nos substituiu.

Os que cruzaram o instante duvidaram da carne dos próprios olhos. O que avançava pelo ventre exaurido das ruas era um cortejo de ausências ou a sobra tardia de um delírio embriagado? Nenhuma boca soube dizer, pois sobre o que se move sem a ilusão dos adornos não há memória, apenas esquecimento. Não há quem o testemunhe, há quem se perca. Os que vagueiam, insaciáveis. Os que pressentem, tardios. Mas qual olhar se atreve a ver o palco quando a cena se despe da máscara e do véu?

Se há febre, negam-lhe a febre. Se há ânsia, desmentem a fome. Aquilo que desaba no corpo, esse animal sem dono, chamam-no sombra e exílio, porque amar — se amor for nome de alguma ruína — não se enuncia, nem se sustenta, nem se habita: rasteja como fera perseguida, fareja a ameaça, dissolve pegadas sobre a terra, oculta-se nos interstícios da pedra e do vento, silencia a sede. Persiste apenas o que a tarde abandonou sobre março, a decadência suspensa entre os escombros do tempo, a melancolia do corpo desfeito, desenhando, sobre a pele imóvel do céu, o vestígio calcinado de uma língua impossível.


quinta-feira, 13 de março de 2025

Do mar — 38

Corte liso de nome, bem junto ao mar. Os cantos, ali adiante, vertem o ar em medusas. A luz solar impura. Ele parte em passos; refugia-se ali. A mão flutua agora. Uma criatura sai dos espantos. Camões no ramo debulhado. A inteligência não ardeu vinha nenhuma. Transparecem raças. A liberdade tombou. Os rostos no oceano alaranjado. Os céus todos pelo caminho. Horizontes largos. Aracnídeas teias a cobrir arvoredos. Caminho cheio de homens, naufragados nas idades. Longe das direções dos dias. Virado cabo, as vastidões súbitas. O filho pródigo quer falar, imprudentemente. Tilintar-se de vidros, e tudo muito alegre: mesas, talheres, louças. Frutifique-te com as tuas celebrações. Haverá de arrebanhar as felicidades daquela criatura. Galga a agonia.

domingo, 9 de março de 2025

Que destino cego me lança ao abismo de querer-te se a casa deste querer é feita de poeira e ruína, se os alicerces desse afeto se erguem sobre a areia movediça de um mundo sem costura, onde tudo racha antes de se erguer, onde tudo fenece antes de florir? E, contudo, eis-me aqui, náufrago do impossível, a estender-te as mãos neste ermo de promessas que se desmancham no ar, neste reino de imperfeição onde os próprios deuses hesitam.

Que tua forma permaneça intacta na voragem, que tua sombra se desvie das fogueiras que devoram nomes e destinos, que nenhuma língua oculta te invoque ao acaso, que nenhum murmúrio de vento te reconheça no deserto da passagem. Há no sopro do mundo um veneno de nome e tempo: tudo o que o tempo nomeia o tempo dissolve — porque nomear é convocar a queda, e a queda é a única certeza.

Para ti, então, minha voz tentará o impossível: há de erguer um instante fora do tempo, há de fundar um dia que não se deixe consumir no abismo dos outros dias. Um dia de aurora incorruptível, leve como o ar que ninguém aprisiona, renovado como a dança contínua das marés, esse fluir que obedece à ordem oculta das luas.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Uma súbita convulsão — vórtice de ar revolto, açoite de invisíveis marés — subiu da terra e agarrou a carne em seu punho cerrado. Presságio. Delírio. Sentença. Traça signos sobre o abismo. Mas que ânsia me move? Que lâmina sem cabo me penetra e expele sem repouso, sem bordas? Nada se plasma, nada se imprime: puro vácuo de linguagem, puro espasmo de inexistência. Mas, no âmago, o furor. Enxurrada de mandíbulas e clarões. Nada se insinua, tudo investe. O brado dentro do brado, ressoando em corredores de ossos. Inscreve o inaudito.

Que ordem despenca dos astros e fende o pensamento? Como Moisés de olhos vazados na montanha, como o louco de Nietzsche engolido pela luz, um ímpeto me joga ao chão e me arrasta. Nave sem quilha, âncora sem cais. Escrevo ou sou escrito? Quem me dita, quem me impele, quem me obriga ao mergulho no sal e na bruma? A sentença paira e golpeia. Não há recusa. Nenhuma profecia me reclama, nenhuma auréola pesa sobre a fronte. Mas algo me fere com fúria de meteoro, algo trespassa os poros e os eclipsa. O tempo se despedaça. O ritmo se desfigura. A respiração arde em cratera. A febre implode.

Uma força imperativa se insurge contra o silêncio. Mandíbula de ferro, sopro de combustão. Rompe! Mas quem proclama? Quem ergue este martelo e dilacera o ar? Que Vontade se dobra sobre o corpo e o vira do avesso? A fúria sem nome golpeia o tempo e o faz estilhaço. Quem espreita por trás do tempo? Quem me ceifa e quem me lança? Quem comanda este incêndio?

quinta-feira, 6 de março de 2025

Do mar — 37

A fúria com o mundo inteiro. Rugidos vermelhos. O rasgo é garantia. A alacridade dos ventres, após a mão trazida. Tremores para dorsos. O dia da mania. A vítima aninhada, na crina negra, a voz por desejar. Invocação da ave. A clave do irmão sinistro. Parcela de passos. Coberta nas falas e nos ruídos ouvidos. Orquestradas as sensações incompatíveis. Crimes análogos, espalmados e nada disse. As vivas solidões. A passagem do ninguém. Escutas, rumores, mares. Qual escrita é necessário desertar? Na onda maior de roer as vergas. Novamente o dia da partida. O homem do mar deixado nos previstos barcos. Nenhum norte de tempo. Velada a proa que por ali se vela. O Noroeste é antes de algum osso. Grave regata! Peças em topos amurados. Na última amarração, os beliches no mar. Coisas saltadas dos dentes. Na distensão, na corda, nas mãos, a audição vaga. Lestes as pedras? Pântanos profundos. Soube dos fundos? Sem dó.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Eis-me diante do enigma onde fulge a estrela imutável. Não nomeio, pois nomear é perder o fulgor que a dissolve em palavra. Surge, sem tempo nem começo, no ouro severo de um céu que não sei se é alto ou abismo. E, entre a sombra e o fulgor, entre a cifra e o canto, sustenta-se o olhar que me atravessa — sou eu quem a vejo ou ela quem me sonha? Ergue-se da memória como aurora que não é instante, mas princípio; um fulcro de mundos, de signos, de pensamentos que não ousaram nascer. Ela não caminha, ela é o vento que anima a forma; ela não olha, ela reflete o que antes era névoa; ela não fala, mas toda palavra se origina desse silêncio donde se pronuncia o Verbo. 

Que é a ideia senão fogo? 

Que é a luz senão consciência? 

Que é a forma senão escarpa onde se detém o infinito?

Do infinito, pois, desce a forma; da forma, ascende o sentido; e, no sentido, repousa a matéria da criação. Se é musa, é da linguagem que antecede a carne das sílabas; se é beleza, é da estrutura que ordena e conduz; se é guia, é porque verte na treva a sede de ver. Atravessa o ar em voo sem peso, pois não há gravidade onde há ideia pura. E, por onde passa, os que dormem despertam, os que veem cegam, os que creem se extinguem. Condor das formas, cálculo da harmonia, sopro onde o que é se refaz.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Do mar — 36

Debaixo do chicote a fustigar a aventura. Coberto por peles, estraçalhado por pregos. Em frente às flâmulas, os ossos, mastro fustigado, pela latitude dos arremessos, pelo sangue ao redor das águas. De lado a lado. Afirmas todos os nomes. Distinto exílio. Na proa. Na ilha. No caudal longínquo da praia. Deserta é a travessia. Quem pode ter como flor o limão? O ninguém a falar o enevoado odor. Setas pairando no ar. Luares dobrados. E assim caminha para a porta noturna, arfante e choras. Horas em casa pisada. O sal da forma. A chama não possuías. Vibração de canto. A linguagem, o abano, mensagem na asa do leque. Novembro era o começo. A tempestade moída. Os molinetes! As luzes! Desastre. Os portos estranham os ventos.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Do mar — 35

Bebe um pouco de crueldade, um pouco, e sente o corpo abominável, delicadeza de nervos. Subsiste, lá, ferido, rasgado. Foste lá debaixo do cuspe. Nenhuma lonjura por mudar. Serena ao largo da ilha. O bosque! Aquele ilhado encanto. Finita torre de inegável crime. A vida aí depõe teu caminho. Alguém sangra e se afoga mansamente. Muros brancos sob a patada da noite. Acaricias e empresta os leões. Em vagas luzes.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Do mar — 34

O suor toma conta das rugas. Despe-te agora, anda. Teus vestidos no espelho; sacode os passos ao levantar poeira. Estás no mar? No interior da metade, a espora e a rédea do cavalo! Nesta cidade, os mortos. Envolvidos no freio da rédea, flagras o deserto que solta os astros lá por cima. Suspirosa ruína cantada. Vento cantante. As flores do limite. Abres antes do último ritmo. Dia dos horizontes quando te banhas. Espólio de sítio fornece as taças e os licores. Acéticos ermitões inclinados. Nem tudo o mastro hasteia. Pintaram de rubras carnes as bandeiras. O navio na brisa inflamada. A faina do costado posta. O ouro das agruras. Ilhadas lagoas. E poucas manhãs tiram da trilha as cabras. No corredor cavernoso daquele caramanchão, os gamos já saltavam. Heras. Cabeças d’água. Sonhas o jardim.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Do mar — 33

Está correto? Será? No volante acelerado, sacudida está a nitidez. Após o chamamento, realizavam-se as épocas. Músculos profundamente esverdeados. Incorruptíveis e caóticos, os braços tumultuam. Ordenação bailarina dos navios. Teus cavalos sacolejam. Crinas, tuas crinas! Criaste para ti um povo. Tu és a cor que se desprendeu da cor. Antiguidade mais noturna. Estás sem palavras. Qual manto te dispôs? Na parede derruba-se a estátua. Porcelanada, deita-se, assim, aquela nuvem. As esmeraldas se enfastiam no junco. Os cílios se tocam em mudas páginas. Os silêncios ancorados de raro tédio. Os lenços do mastro. Amolas para ti o punhal. Aguçada arma. O sangue escolhe a lâmina. O leme. Há de declinar o dia de estar triste, ainda e ainda.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

O último minuto. O derradeiro instante de um ciclo que se desmancha sem indícios, a primeira respiração de outro que se levanta sem rosto. Ergo os olhos e nada responde. O alto é um mistério sem anúncios, um abismo onde o olhar se perde e não retorna. O precipício não reflete, não se dobra ao humano desejo dos signos. O silêncio mineral escorre da espinha celeste — esse espectro translúcido de estrelas mortas que se impõe acima, sem cissuras. O tempo, se há, não se escreve no céu nem na terra, onde os passos deslizam sem deixar sulcos. Nasce dentro o tempo onde pulsa o não nomeado. Ele não se grava nos astros, que nada sabem de começos. Não se inscreve na matéria, que só repete. Fermenta na carne de quem delira, de quem erige calendários sobre o vácuo e declara ao universo indiferente: agora. Só o homem é capaz de fabricar auroras sem que o sol precise consentir e de arremessá-las contra o nada, esperando resposta.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Do mar — 32

O Lobo do Mar contempla a distância. É a entrada. Na saída, os excessos, ainda imaginados. Escoam as linhas. Treme. A praia deserta. A voz. Os rubros momentos de suposição. O quebrar das ondas, a fechar antes as espumas. Tranca o canto. Embala longe o tormento. Coléricas, as aparições precipitaram-se. Logo a ânsia alastra-se à noite de fome. Os passos cadentes. Nos jardins, pálidos, intactos apelos. No recôndito fundo do mar, tomado o navio, esconde-te, Igitur. Um silêncio carnoso o cobre e o alastra em ondas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Do mar — 31

Com quilha, risca o caminho teu salto – paraíso de náufragos. Degustas teu diamante. Está na hora de saber quem puxa as cordas. Cegos gestos mais violentos. Remunerar a cor em piedoso consolo. Ondulas tu. Ondulas por último. Rumorejas. Tua surdez. Fostes à ilha. Havia esperança. Confrangadas comoções cacimbas. Não ajudas a construí-las? Tu, sereno, carrega. O fingimento que lá dentro cabe. Filas sobre nadas. Nada. As dissolvidas trevas tão próximas.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Do mar — 30

Sim, o navio, o velho navio. Velas do passado. Mares e horizontes. A alma abrevia. Nada se sustenta, respira. Tuas coisas não serão suficientes. Pelo mar, eleito ao céu, naufrágio. Os ventos da distância. Treme o volante. A boca anuncia. Manhã das faces salgadas. Urra o vento. O calor brinca nas vagas. Asas. Desta voz nada resta. Água posta. Gáveas e galdropes. Os brinquedos, escotilhas e caldeiras. Desta hora não encerras ido. Turva-se a significação de pedra. Cascos de navios, sob os cabos, ao longe, as paisagens. A distância morta. Galga os nervos. Tordos! Nem a morte a iluminar estes olhos vazios. Desliza a espada. Soçobra na tempestade. O suspiro nu. Rei de braços. Filas de nada ante a alegria. Palpita a frase. Espesso horror. Tu sombreias as verdades. Tu sombreias!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Do mar — 29

Ele ainda não se manifestou no ar sacudido; mas é ainda a íntima, recôndita e maldita essência duma essencialidade de mistério, que se faz presente como um bicho representativo de todos os gestos, cindido, na consciência das sensações, o objeto inerte e sentiente da omnívora crueldade. Roçagar pela face a alma, como deveria, esvazia, na vertigem tênue de confusas coisas – como se a transmigração total fosse o único estrondo das portinholas do navio. Sopro fundo e confuso. Tudo está excessivamente chispante. A capa no frio que impôs a urgência de esperar.

Com efeito, nessa sublime e desassossegada tessitura da orquestração da tinta da navegação, quais rotas seguir se não há mais após encenado por nenhuma delas? O horror à extensão das linhas. Na roda do leme? Riscar pela face a alma, o riscar instável e errante do espelho? Enfim, não é o sangue macio. 

A linha reta mal traçada, conservando a raiva, a ira e a inveja ao giro vivo do volante. O horizonte marítimo. A vida vai, paradoxalmente, para longe do proibido, transmigrando.

O mar passado, clássico à sua maneira. O gesto oscilante se precipitando em descoberta pesada, densa, à espera da realização messiânica. E ele ali, como que coagido pelo suplício, sutilmente presente. À luz baça do cais deserto. O horizonte desaparece e vai se velar nas velas.

No grande vácuo pequenino que brilha, de existência limitadíssima, há espírito de bruxa dançando invisível em volta dos gestos. Os paquetes que entram de manhã na barra. Quando treme já todo o chão, quantas velharias ressequidas e bizarras põem a descoberto os alicerces? Quantas coisas não foram sepultadas nas fundas galerias – como se estivesse soando noutro lugar e não se pudesse fazer ouvir? A tênue mancha do poema anfibológico.

O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Ocasional cais da dolorosa instabilidade e incompreensibilidade, soluço absurdo que as nossas almas derramam. Sopra o pano das velas no Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente é imitado (o ruído cego de arruaça cessa).

Horizonte marítimo mais vasto – épocas marítimas a chamar. Os navios de vela nos mares! Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Farol próximo na noite ainda escura. Para além das aparências das coisas. Lendas absolutamente cruéis e abomináveis. Albatrozes sombrios, a derramar reminiscências das almas sobre as extensões de mares desiguais.

O pavor pelas espinhas. Num sentido mais belo e mais vasto: está perto? As linhas das vigias. A vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! Ainda está longe? A serpente do mar sob a nuvem negra e ocasional.

De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma (garrafas com rolhas). Resta o apenas resta.