sexta-feira, 21 de março de 2025

“A liberdade é poder defender o que não acho, até mesmo num mundo ou num regime que aprovo. É poder dar razão ao adversário.” 

Albert Camus (1913-1960)


O ferro da porta não se fecha sobre a sentença nem o martelo decreta o silêncio da pedra. Se a argamassa contém em sua liga o áspero grão da contradição, toda a fundação se ergue sobre o risco da queda. A liberdade não é o pássaro que voa, mas o vento que corta na contramão da asa. Dizer o oposto não rompe o fio do verbo, sustenta-o na corda bamba da razão alheia — como a lâmina que se afia contra si, como a maré que recua para se erguer. Nenhuma muralha se mantém de pé sem o intervalo que lhe permite respirar, sem a concessão ao vazio que a cerca.

A negação é a vértebra do discurso, a nervura do pensamento, a pedra angular da cidade que não se permite monólito. Defender o contrário não é traição ao edifício, mas calafetagem que impede o naufrágio. Como em Blake, há um tigre oculto sob a pele do cordeiro, e a chama que ilumina também consome. Entre a coluna e a fenda, entre o abismo e a ponte, estende-se a língua bifurcada do entendimento: as palavras não são correntes, são correntezas. Só o oceano inteiro pode conter o próprio mar.


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