Uma súbita convulsão — vórtice de ar revolto, açoite de invisíveis marés — subiu da terra e agarrou a carne em seu punho cerrado. Presságio. Delírio. Sentença. Traça signos sobre o abismo. Mas que ânsia me move? Que lâmina sem cabo me penetra e expele sem repouso, sem bordas? Nada se plasma, nada se imprime: puro vácuo de linguagem, puro espasmo de inexistência. Mas, no âmago, o furor. Enxurrada de mandíbulas e clarões. Nada se insinua, tudo investe. O brado dentro do brado, ressoando em corredores de ossos. Inscreve o inaudito.
Que ordem despenca dos astros e fende o pensamento? Como Moisés de olhos vazados na montanha, como o louco de Nietzsche engolido pela luz, um ímpeto me joga ao chão e me arrasta. Nave sem quilha, âncora sem cais. Escrevo ou sou escrito? Quem me dita, quem me impele, quem me obriga ao mergulho no sal e na bruma? A sentença paira e golpeia. Não há recusa. Nenhuma profecia me reclama, nenhuma auréola pesa sobre a fronte. Mas algo me fere com fúria de meteoro, algo trespassa os poros e os eclipsa. O tempo se despedaça. O ritmo se desfigura. A respiração arde em cratera. A febre implode.
Uma força imperativa se insurge contra o silêncio. Mandíbula de ferro, sopro de combustão. Rompe! Mas quem proclama? Quem ergue este martelo e dilacera o ar? Que Vontade se dobra sobre o corpo e o vira do avesso? A fúria sem nome golpeia o tempo e o faz estilhaço. Quem espreita por trás do tempo? Quem me ceifa e quem me lança? Quem comanda este incêndio?
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