Eis-me diante do enigma onde fulge a estrela imutável. Não nomeio, pois nomear é perder o fulgor que a dissolve em palavra. Surge, sem tempo nem começo, no ouro severo de um céu que não sei se é alto ou abismo. E, entre a sombra e o fulgor, entre a cifra e o canto, sustenta-se o olhar que me atravessa — sou eu quem a vejo ou ela quem me sonha? Ergue-se da memória como aurora que não é instante, mas princípio; um fulcro de mundos, de signos, de pensamentos que não ousaram nascer. Ela não caminha, ela é o vento que anima a forma; ela não olha, ela reflete o que antes era névoa; ela não fala, mas toda palavra se origina desse silêncio donde se pronuncia o Verbo.
Que é a ideia senão fogo?
Que é a luz senão consciência?
Que é a forma senão escarpa onde se detém o infinito?
Do infinito, pois, desce a forma; da forma, ascende o sentido; e, no sentido, repousa a matéria da criação. Se é musa, é da linguagem que antecede a carne das sílabas; se é beleza, é da estrutura que ordena e conduz; se é guia, é porque verte na treva a sede de ver. Atravessa o ar em voo sem peso, pois não há gravidade onde há ideia pura. E, por onde passa, os que dormem despertam, os que veem cegam, os que creem se extinguem. Condor das formas, cálculo da harmonia, sopro onde o que é se refaz.
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