Como esses navegantes que transportam no bojo das embarcações ruídos de ossos, sílabas truncadas, memórias de tempestades soterradas no estômago do oceano, assim se arrasta, persistente e inexorável, essa tarde de março, essa cissura aberta no tempo, quando, sob o braseiro de crepúsculos que devoravam horizontes, outra combustão, inaudita e secreta, rasgava sem alarde, sem rastro, sem cicatriz, mas deixando dispersos, como membros de um mito dilacerado, os fragmentos insólitos de uma dignidade deserta, uma grandeza imprópria, inerte no chão ardente como um deus que ninguém venera.
Mas os navegantes imploram aos escombros favores divinos, desejam águas benévolas, promessas de trégua, a ruína de inimigos invisíveis. E essa tarde de março, esse êxtase carbonizado, nada tem a conceder. Apenas perpetua-se, com o rigor dos espectros, irreversível como o verso corroído pelo tempo, insólito como o lampejo da beleza no semblante daquele que se volta para se esquivar. As folhas ruíram; as árvores exalaram seu protesto mudo. Nesse encontro de verão e morte, quantas vezes os símbolos feneceram, quantas vezes a pele se tornou epitáfio.
Quando a fantasia da nova estação nos evoca, já espectros, sob a suavidade enganosa da epiderme, ecoa a resina que nos ungiu, o toque funéreo que nos assinou. Nos trajes, rastro de um carro sem cortejo, poeira de uma fuga não anunciada. E essa tarde de março, esse instante carbonizado, foi a câmara onde evaporamos. Ninguém se ergueu em vigília. Nem mesmo o amor, distraído ou ausente, lançou um olhar ao vazio que nos substituiu.
Os que cruzaram o instante duvidaram da carne dos próprios olhos. O que avançava pelo ventre exaurido das ruas era um cortejo de ausências ou a sobra tardia de um delírio embriagado? Nenhuma boca soube dizer, pois sobre o que se move sem a ilusão dos adornos não há memória, apenas esquecimento. Não há quem o testemunhe, há quem se perca. Os que vagueiam, insaciáveis. Os que pressentem, tardios. Mas qual olhar se atreve a ver o palco quando a cena se despe da máscara e do véu?
Se há febre, negam-lhe a febre. Se há ânsia, desmentem a fome. Aquilo que desaba no corpo, esse animal sem dono, chamam-no sombra e exílio, porque amar — se amor for nome de alguma ruína — não se enuncia, nem se sustenta, nem se habita: rasteja como fera perseguida, fareja a ameaça, dissolve pegadas sobre a terra, oculta-se nos interstícios da pedra e do vento, silencia a sede. Persiste apenas o que a tarde abandonou sobre março, a decadência suspensa entre os escombros do tempo, a melancolia do corpo desfeito, desenhando, sobre a pele imóvel do céu, o vestígio calcinado de uma língua impossível.
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