domingo, 23 de março de 2025

Forjar-se como reflexo daquilo que nunca se aparta, mas tampouco se fixa — o ancoradouro último, o pórtico onde todas as travessias se dissolvem em promessa e retorno. Moldar-se na argamassa do inominável é escavar em si a latência dos deuses e, ao mesmo tempo, o abismo onde a divindade se desfaz em servidão e desejo, pois, se há tronos etéreos, neles somos sombras serventes; se há o nada, o servimos com igual devoção, dobrando a espinha ao peso das sensações que fazem do corpo um templo e um cárcere.

Erigir-se a partir dessa geometria secreta não é senão inscrever-se como vértice de uma equação inacabada, um fluxo onde o início e o fim são genuínos acidentes de uma mesma órbita. O que é o cais senão a vibração do instante, o contorno do que chega e do que parte, o concerto do que toca e do que escapa? Neste jogo, perder-se é reencontrar-se; dissolver-se é assinar-se em substância ignota, irrisória e infinita.

O que se edifica à imagem dessa arquitetura impossível não se prende ao horizonte da vulgaridade, mas tampouco o renega: há que viver entre os escombros da normalidade, sustentando-se, no entanto, sobre o alicerce do inabarcável, pois habitar o tempo é tarefa para quem aceita ser todos os tempos, de uma só vez e sem aviso. Há que se desdobrar em reflexos e ângulos de um mesmo reflexo, transbordando-se para além do que é nomeável e contável, pois o instante absoluto contém em si toda a humanidade, todo o sopro e todo o declínio, vertido num só relâmpago de existência, onde tudo se expande e se extingue em um único gesto.


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