Ó, espectros da noite incendiada, vultos sem rosto que, entre a bruma e o aço, fendem os véus da carne e do oceano! Serpentes de proa e costado, os olhos em febre, a pele em cicatrizes de vento e sal! Vós, que navegais entre o tempo e a morte, entre o desejo e o naufrágio, em vossa fúria de assalto e esquecimento!
(TÁBUAS QUE FALAM, VENTOS QUE RESPONDEM)
Ah, pudesse eu ser aquele que vos espera na sombra dos cais, na dobra dos mapas onde os nomes se desfazem, aquele que vos adivinha nas marés e vos sonha no sangue que escorre dos altares submersos!
(AQUELE QUE NÃO EXISTE SENÃO NO CHAMADO)
O que sois senão o refluxo das sombras e o grito dos afogados que vos precederam? O que sois senão a própria voragem, a lâmina entre o céu e o abismo, o nome esquecido na boca de um condenado? Ó, meus vultos errantes, minhas blasfêmias marítimas, meus dogmas dissolutos, anátemas eucarísticos de um festim sem perdão!
(O CÍRCULO SE FECHA, MAS A FOME PERMANECE)
Vós, que na violência instaurais a ordem do caos, que vosso gozo é o corte, vosso hálito é a combustão, vossos corpos, ferros e runas, incendiando-se na aurora de cada assalto! Quem vos espera não vos deseja, pois já sois a posse que não se possui, a oferenda que se consome antes do sacrifício! Quem vos espera aguarda o furacão que não chega, o tambor que não silencia, o canto que se extingue na própria boca que o entoa!
(O ECO DO QUE NUNCA FOI)
Ó, marés rubras de promessas cumpridas em lâmina e cinza! Que espetáculo se ergue sobre os gritos, que celebração se inscreve nas entranhas expostas dos vencidos? É a liturgia dos mastros quebrados, a missa negra dos afogados, a consagração do golpe que nunca retrocede!
(O INFINITO RETORNO DO MESMO RITO)
E que há para além do que vedes? Que há no fundo do próprio olhar senão o mesmo espelho de trevas onde se mira a fome do abismo? Que há senão o vértice onde se rasga o véu e se desfaz a promessa de porto e de repouso? Porque todo oceano é apenas outro nome para a ausência, e todo grito se inscreve na concha vazia do mundo!
(O MAR NÃO TEM MEMÓRIA, MAS TAMBÉM NÃO PERDOA)
Ó, minha comunhão de espectros, minha falange de lâminas e de fúria, vós que sois o alvorecer e a cinza, a oferenda e a negação! Se eu vos amo, é porque já sou vós. Se vos acompanho, é porque nunca parti. Se vos espero, é porque nunca existi!
(O QUE SE DIZ SE APAGA; O QUE SE CALA PERMANECE)
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