domingo, 9 de março de 2025

Que destino cego me lança ao abismo de querer-te se a casa deste querer é feita de poeira e ruína, se os alicerces desse afeto se erguem sobre a areia movediça de um mundo sem costura, onde tudo racha antes de se erguer, onde tudo fenece antes de florir? E, contudo, eis-me aqui, náufrago do impossível, a estender-te as mãos neste ermo de promessas que se desmancham no ar, neste reino de imperfeição onde os próprios deuses hesitam.

Que tua forma permaneça intacta na voragem, que tua sombra se desvie das fogueiras que devoram nomes e destinos, que nenhuma língua oculta te invoque ao acaso, que nenhum murmúrio de vento te reconheça no deserto da passagem. Há no sopro do mundo um veneno de nome e tempo: tudo o que o tempo nomeia o tempo dissolve — porque nomear é convocar a queda, e a queda é a única certeza.

Para ti, então, minha voz tentará o impossível: há de erguer um instante fora do tempo, há de fundar um dia que não se deixe consumir no abismo dos outros dias. Um dia de aurora incorruptível, leve como o ar que ninguém aprisiona, renovado como a dança contínua das marés, esse fluir que obedece à ordem oculta das luas.

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