O último minuto. O derradeiro instante de um ciclo que se desmancha sem indícios, a primeira respiração de outro que se levanta sem rosto. Ergo os olhos e nada responde. O alto é um mistério sem anúncios, um abismo onde o olhar se perde e não retorna. O precipício não reflete, não se dobra ao humano desejo dos signos. O silêncio mineral escorre da espinha celeste — esse espectro translúcido de estrelas mortas que se impõe acima, sem cissuras. O tempo, se há, não se escreve no céu nem na terra, onde os passos deslizam sem deixar sulcos. Nasce dentro o tempo onde pulsa o não nomeado. Ele não se grava nos astros, que nada sabem de começos. Não se inscreve na matéria, que só repete. Fermenta na carne de quem delira, de quem erige calendários sobre o vácuo e declara ao universo indiferente: agora. Só o homem é capaz de fabricar auroras sem que o sol precise consentir e de arremessá-las contra o nada, esperando resposta.
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Do mar — 32
O Lobo do Mar contempla a distância. É a entrada. Na saída, os excessos, ainda imaginados. Escoam as linhas. Treme. A praia deserta. A voz. Os rubros momentos de suposição. O quebrar das ondas, a fechar antes as espumas. Tranca o canto. Embala longe o tormento. Coléricas, as aparições precipitaram-se. Logo a ânsia alastra-se à noite de fome. Os passos cadentes. Nos jardins, pálidos, intactos apelos. No recôndito fundo do mar, tomado o navio, esconde-te, Igitur. Um silêncio carnoso o cobre e o alastra em ondas.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Do mar — 31
Com quilha, risca o caminho teu salto – paraíso de náufragos. Degustas teu diamante. Está na hora de saber quem puxa as cordas. Cegos gestos mais violentos. Remunerar a cor em piedoso consolo. Ondulas tu. Ondulas por último. Rumorejas. Tua surdez. Fostes à ilha. Havia esperança. Confrangadas comoções cacimbas. Não ajudas a construí-las? Tu, sereno, carrega. O fingimento que lá dentro cabe. Filas sobre nadas. Nada. As dissolvidas trevas tão próximas.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Do mar — 30
Sim, o navio, o velho navio. Velas do passado. Mares e horizontes. A alma abrevia. Nada se sustenta, respira. Tuas coisas não serão suficientes. Pelo mar, eleito ao céu, naufrágio. Os ventos da distância. Treme o volante. A boca anuncia. Manhã das faces salgadas. Urra o vento. O calor brinca nas vagas. Asas. Desta voz nada resta. Água posta. Gáveas e galdropes. Os brinquedos, escotilhas e caldeiras. Desta hora não encerras ido. Turva-se a significação de pedra. Cascos de navios, sob os cabos, ao longe, as paisagens. A distância morta. Galga os nervos. Tordos! Nem a morte a iluminar estes olhos vazios. Desliza a espada. Soçobra na tempestade. O suspiro nu. Rei de braços. Filas de nada ante a alegria. Palpita a frase. Espesso horror. Tu sombreias as verdades. Tu sombreias!
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
Do mar — 29
Ele ainda não se manifestou no ar sacudido; mas é ainda a íntima, recôndita e maldita essência duma essencialidade de mistério, que se faz presente como um bicho representativo de todos os gestos, cindido, na consciência das sensações, o objeto inerte e sentiente da omnívora crueldade. Roçagar pela face a alma, como deveria, esvazia, na vertigem tênue de confusas coisas – como se a transmigração total fosse o único estrondo das portinholas do navio. Sopro fundo e confuso. Tudo está excessivamente chispante. A capa no frio que impôs a urgência de esperar.
Com efeito, nessa sublime e desassossegada tessitura da orquestração da tinta da navegação, quais rotas seguir se não há mais após encenado por nenhuma delas? O horror à extensão das linhas. Na roda do leme? Riscar pela face a alma, o riscar instável e errante do espelho? Enfim, não é o sangue macio.
A linha reta mal traçada, conservando a raiva, a ira e a inveja ao giro vivo do volante. O horizonte marítimo. A vida vai, paradoxalmente, para longe do proibido, transmigrando.
O mar passado, clássico à sua maneira. O gesto oscilante se precipitando em descoberta pesada, densa, à espera da realização messiânica. E ele ali, como que coagido pelo suplício, sutilmente presente. À luz baça do cais deserto. O horizonte desaparece e vai se velar nas velas.
No grande vácuo pequenino que brilha, de existência limitadíssima, há espírito de bruxa dançando invisível em volta dos gestos. Os paquetes que entram de manhã na barra. Quando treme já todo o chão, quantas velharias ressequidas e bizarras põem a descoberto os alicerces? Quantas coisas não foram sepultadas nas fundas galerias – como se estivesse soando noutro lugar e não se pudesse fazer ouvir? A tênue mancha do poema anfibológico.
O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Ocasional cais da dolorosa instabilidade e incompreensibilidade, soluço absurdo que as nossas almas derramam. Sopra o pano das velas no Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente é imitado (o ruído cego de arruaça cessa).
Horizonte marítimo mais vasto – épocas marítimas a chamar. Os navios de vela nos mares! Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Farol próximo na noite ainda escura. Para além das aparências das coisas. Lendas absolutamente cruéis e abomináveis. Albatrozes sombrios, a derramar reminiscências das almas sobre as extensões de mares desiguais.
O pavor pelas espinhas. Num sentido mais belo e mais vasto: está perto? As linhas das vigias. A vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! Ainda está longe? A serpente do mar sob a nuvem negra e ocasional.
De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma (garrafas com rolhas). Resta o apenas resta.
quinta-feira, 28 de novembro de 2024
Do mar — 28
Dores quebradas. Viveste no movimento do mar. No tom dos salmos, ainda a eternidade das tuas pedras. O dedilhar das matas. Com voltas, traçaste, na tua caverna, parasitas imortais. Foste o bosque, a selva, o caule! No mundo derivam pontos e traços. Aqui, onde há um ar voltado para o aposento, brilha o tempo. Rebrilhares completaram o ondear dos terraços. Uma lâmpada deixada cair. Aqui, ante o mosaico, interrogas desde sempre o riso das artes que fizestes do túmulo. Quem te cercou de cais e manhãs? Quem derramou os verões nas barras? Os volantes de névoa encantando o cais com navios da hora. Pudesse o absoluto romper a madrugada. Eterno erro da eterna viagem. Singre liberto do oxigênio da tarde. Ônix, sombras. Sem pensar na sombra da torre, sobre o convés de ferro, na linha do lago das vítimas, eterno redemoinho. Um filho aos pés do silêncio. À luz de um vapor, mares altos, plagas. Os vapores da chaminé ajuntando na roda do leme. Todas as hélices nesse chão de avarezas. O acaso ninou os rios e um apito alou o instante. Das coisas. A forma dos olhos cobria a planura, e as trajetórias encurtavam o horizonte. Os transeuntes eram sombras. Amigos e algumas estrelas. As formas ao lado do sono. Repouso de cristais. O coração de lua. Os navios de uma noite só. Os saltos das águas e a quilha do barco. Uma filomela. Praia elemental. A solidão dos albatrozes. Os tetos de azul. Antes, debaixo da praia. Ouvir o mar chorar. Um marujo, dizia para si. Recita agruras em danças. Lembra-se do pequeno porto. A voz e um momento ao lado. Nos dias, o dia. A paisagem desalinhada nas encostas. A palidez. O soluço. Atraca e larga. Os medos no medo tantas vezes. O barco já não chega. Alongadas muralhas do horizonte. As idas na chapa da câmara. A casa não se mostra longe da raiz. Lá vem a costa. Ínsula. As extensões cochicham. O chão de sombras de hulha. Faísca, o pânico navegante.
domingo, 24 de novembro de 2024
Tudo isso é o rio dos destinos, é a música da vida
Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego, após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado — eis o que era o seu propósito.
Alemão naturalizado suíço, Hermann Hesse (1877-1962) se tornou uma grande descoberta literária, com obras como Demian (1919) e O lobo da estepe (1927), onde a obstinação e a rebelião se manifestam contundentemente. O vínculo gerado tanto pelo jovem turbulento da primeira obra quanto pelo adulto determinado da segunda era inegável. Nossa própria natureza indomesticável se via refletida nas personagens. Porém, Hesse também contribuiu para a maturidade por meio de obras como O jogo das contas de vidro (1943), que explora a procura pelo saber até a ancianidade de seus personagens, destacando-a como o verdadeiro traço da orientação do homem. Assim, Hermann Hesse ganhou notoriedade entre os adeptos da contracultura, sendo visto como um dos seus mentores. Com uma natureza insubmissa e um forte espírito contestador, o autor mostrava também um profundo interesse por experiências esotéricas, sobretudo após sua jornada à Índia em 1911, que o levou a se aprofundar na mística hindu. Sua influência se estendeu por todo um período, com suas obras sendo frequentemente encontradas nas mochilas de viajantes nos anos 60 e 70.
Sidarta (1922) é uma obra extraordinária que atrai diversos leitores, mas desperta uma curiosidade particular em dois grupos. Primeiro, é claro, entre os fãs de seu criador, Hermann Hesse. Em segundo lugar, aqueles que se interessam pelas ideias do oriente ou pela crescente influência dessas maneiras de vivência no mundo do ocidente contemporâneo. Hesse tem uma sensibilidade poética e é profundamente atravessado pelos temas que aborda. O seu vínculo com a filosofia indiana é repleta de ternura, porém ele não se subordina a seus pensamentos. O seu propósito não é afirmar a superioridade de um pensamento sobre o outro, mas explorar as lições que cada campo do conhecimento consegue oferecer.
Sidarta narra a jornada de um jovem indomesticável que alcança o saber na idade avançada. Quando, entre os pensadores ocidentais, possivelmente apenas Arthur Schopenhauer (1788-1860) atentara à reflexão clássica indiana, a obra descreve a busca da protagonista pela consumação completa na qualidade de indivíduo — aquilo que os hindus conhecem como Irradiação, a experimentação da união do sujeito com o Todo. Essa foi a grande proeza de Siddharta Gautama, o verdadeiro Buda, que renunciou às questões mundanas, atingiu a Luz e ofereceu o restante de sua vida a mostrar o curso da existência àqueles que o seguiram. No entanto, o Sidarta de Hermann Hesse não narra a vida do verdadeiro Buda, que aqui aparece simplesmente como um personagem acessório. Esse herói é um Sidarta diferente, cujo caminho apresenta algumas similaridades com o de Gotama, mas também divergências intensas e importantes.
Ambos os Sidartas descendem de famílias privilegiadas e compartilham idêntico propósito: alcançar a Luz. Entretanto, suas inspirações e caminhos são distintos. Gotama é filho de um monarca que o envolve em júbilos, tentando protegê-lo do tormento inerente à vida humana. No entanto, o jovem acaba encontrando a enfermidade, a passagem do tempo e o perecimento da matéria, decidindo deixar o lar para uma jornada transcendental. Por outro lado, o pai de Sidarta de Hesse, um brâmane, oferece-lhe uma educação religiosa já na infância. Sidarta, porém, percebe que a transcendência não está em acumular saber, mas em vivenciar plenamente a experimentação — assim, também deixa o seu lar em busca de significado. Para Buda, o ponto central é a suplantação da dor; para Sidarta, a problemática está na insuficiência das doutrinas religiosas, incluindo a do próprio Buda.
Como Buda, Sidarta vira um samana, um abdicante que leva uma existência itinerante, dependendo da caridade para se sustentar. Enquanto Buda reconhece a futilidade da ascese clássica, que envolve jejuns e punições corporais, e compreende que a transcendência é alcançada por meio da meditação apropriada, Sidarta chega à conclusão de que as doutrinas são inúteis, incluindo as de Buda. Aqui, fica evidente que o autor não planeja apresentar ou simplificar a filosofia indiana; ao contrário, ele busca um diálogo crítico com essa tradição. Essa ênfase na vivência direta, em contraste com o ensino acadêmico, reflete o espírito do movimento hippie, que, influenciado por essa ideia, originou a contracultura. Esse embate é evidente em uma conversa entre Sidarta e Buda, onde o primeiro atesta as conquistas do segundo, porém contesta a eficácia de seus ensinos, afirmando que ninguém alcança a salvação por meio da doutrina.
Sidarta afirma a Buda que nenhuma pessoa pode expressar em palavra ou doutrina o que acontece consigo durante sua transcendência. Depois, ele questiona, de forma desafiante, que existe uma lacuna neste ensinamento, por mais distinto que ele se apresente. Não podemos compreender o mistério daquela experimentação vivida por Augusto, que foi única entre todos. Se a doutrina não proporciona essa compreensão, o que poderá oferecer? Sidarta intui que essa compreensão é alcançada por meio da experiência real. Seu objetivo é eliminar o ego. Ao longo de sua jornada, ele absorve diversas experiências novas. No entanto, percebe que, quanto mais se esforça para se desvincular do Eu, mais acaba retornando a ele. Surge, então, a dúvida sobre estar realmente avançando ou se apenas se ilude ao buscar o fundamental, a Verdadeira Senda. Assim, conclui que não há aprendizagem, só conhecimento.
Sidarta acabava de abandonar o último mestre que surgira no curso da sua jornada; abandonara também a ele, o mestre supremo, o mais sábio de todos, o Santíssimo, o Buda. Fizera-se necessário distanciar-se dele. Já não fora possível aceitar os preceitos de Gotama.
[…]
“Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo. Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!”
Após seu diálogo com Buda, ele decide deixar a busca pelos samanas e retorna à vida comum, proporcionando a si mesmo uma forma de transcendência inversa, um levantar para o universo palpável, apreciando o encantamento e os prazeres físicos. Seus novos mentores — um negociante chamado Kamasvami e uma cortesã chamada Kamala — o instruem sobre como adquirir riqueza e desfrutá-la em busca do prazer contínuo. Com o passar dos anos, a visão de negócios de Sidarta se torna cada vez mais aguçada. Em pouco tempo, ele acumula uma grande fortuna e se entrega aos prazeres da vida, como jogos, bebidas e festas, tendo ao seu alcance tudo o que o universo corpóreo pode oferecer. Contudo, Sidarta se sente desvinculado dessa realidade, ciente de que tudo não passa de uma ilusão. À medida que ele se aprofunda em bens materiais, a insatisfação cresce, e ele se vê preso em uma roda de descontentamentos, tentando se libertar por meio de jogos de azar, excessos de bebidas e relacionamentos efêmeros.
Embora tenha atingido a riqueza e se sinta afortunado, logo cai em prostração. Vagar no Sansara, na quimera do universo sensório, é, no entanto, uma fase basilar para o conhecimento existencial, longe das ilusões das filosofias. Sozinha, a busca mística não é capaz de sobrepujar o domínio dos sentidos. Esse é um mote presente em toda a produção de Hesse. Ele busca a pureza da alma, porém sua lealdade primordial é à progenitora, à corporalidade com a qual a alma mantém um vínculo inviolável. Compreender a uniformidade deste dualismo e dessa contradição intransigente é a maior provocação enfrentada por cada buscador — e a contribuição a esse entendimento é a herança central deixada pelo autor.
Subsiste em nós uma desordem, subsistem os vácuos que, por vezes, nos levam para os perigosos percursos do vazio. A potência do Despertar, entretanto, restitui nossas potências. O verbo do Despertar é mais amplo: é centro de força. O verbo do Despertar é uma tempestade prestes a se formar. Temos, no excerto em alusão, uma ideia de que o pensamento é um procedimento sempre tortuoso e confuso. Hesse, nesse sentido, questiona, ao longo da obra, em que proporção a linguagem e o pensamento estão entretecidos. Subsiste um pensar antes da linguagem? De largada, é praticamente unânime sustentarmos a ideia de que não existiria linguagem sem pensamento (e vice-versa). Mas o que nos declara Hesse? Quais seriam as especulações que poderiam ser empreendidas? Haveria um pensamento antes do pensamento? Qual seria o compasso disso? Todas as reflexões e mais algumas estão em pauta.
Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana.
[…]
Uma ideia. Pois não. Confesso-te meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e ideias.
Hesse não faz concessões quando se trata de raciocínio. Não existem saídas rápidas, como afirmam os respeitáveis filósofos. A urgência consiste na ação do pensamento em si. Quem organiza a desordem? De acordo com Theodor Adorno (1903-1969), se analisarmos a influência crucial do inconsciente na criação — que por muitas vezes é mais eloquente do que o pensar consciente —, podemos arrematar que é o inconsciente que confere coesão ao material ainda não verbalizado. A estrutura física capta sensações dispersas, a inteligência gera cortes de visões tumultuárias, e é o inconsciente que harmoniza cada um desses componentes tangíveis. A linguagem, contudo, estrutura a ação mesma do inconsciente.
Em Sidarta, Hesse explora temas como a busca pela iluminação espiritual e o autoconhecimento. Ele experimenta o ascetismo, o prazer material e até a vida de um homem comum, plasmando a ideia de que o caminho para a sabedoria é individual e ultrapassa doutrinas fixas. A jornada de Sidarta sugere que o entendimento verdadeiro e a paz interior não vêm de seguir regras ou gurus, mas de se abrir à experiência direta da vida e encontrar a harmonia entre o espírito e o mundo material. Para isso, há um só percurso: a sensibilidade conectada, imersa em profundezas de uma memória emocional. É preciso captar e administrar elementos sensíveis, mesmo sem utilizar linguagens, independentemente de quais sejam, pois, no princípio de tudo, há um deserto absoluto, um abismo total. Trata-se do isolamento fundamental da criação, como mencionaria Maurice Blanchot (1907-2003). Um isolamento cardeal para o autor e para o leitor.
Assim, Sidarta se aventura em profundezas insondáveis, nas nuances ciclônicas, nas amplas indagações iniciáticas, nos labirintos da sedução dramática, no venerável criador do cosmos, nas naturezas vitais da ruína, na hélice persistente da recomposição, nas proscrições estelares, nas forças e intensidades materiais, nas manifestações do que é sutil, no diálogo pleno entre o espiritual e o material, nas sequências sensoriais, na voluptuosidade primordial do clamor do livro. Sidarta imerge, galopeia e drapeja em liberdade, criando nas escritas sistemas geográficos, paisagens da natureza, intempéries narrativas, ecos de desordem e giros pluricelulares.
Em nenhum outro momento se lhe haviam comunicado de modo tão claro e lindo a voz e o símbolo do curso das águas. Parecia-lhe que o rio lhe revelava algum segredo especial, alguma coisa ignota, que ainda o aguardasse. Nesse rio, quisera afogar-se. Nesse rio, submergia o velho, o exausto, o desesperado Sidarta. Mas o novo Sidarta, tomado de profundo amor a essas águas que lá corriam, resolvia não se separar delas por muito tempo.
[…]
Não, o verdadeiro buscador, aquele que realmente se empenhasse em achar algo, jamais poderia submeter-se a nenhuma doutrina. Mas, quem tivesse encontrado alguma solução, seria capaz de aprovar toda e qualquer doutrina, todos os caminhos e objetivos, já que nada mais o distanciaria dos milhares de outros homens que viviam na Eternidade e impregnavam-se do Divino.
Para alcançar a finalidade máxima, os mentores se mostram dispensáveis. Sidarta decide não seguir o amigo Govinda e não se torna seguidor do Buda. Contudo, assim como Buda em sua jornada, ele alcança a Iluminação. Sua lealdade inabalável à própria vivência o leva à mesma conquista, sem dogmas, sem guias. O real mentor de Sidarta, além do apoio do navegante Vasudeva, é o próprio rio. Esse é o ponto central que Hesse quer destacar: tudo ao nosso redor pode nos ensinar, desde que saibamos escutar. Sidarta passa anos observando o rio, enquanto Vasudeva o orienta a desvendar os inúmeros mistérios que essa correnteza sussurra. Durante suas reflexões à beira d'água, Sidarta é assaltado por uma visão: da mesma maneira que o fluxo do rio segue seu caminho até o mar e retorna na forma de chuva, cada estrutura de existência está trançada em um curso eterno, sem um início ou um final definidos. O nascimento e a morte são aspectos de uma totalidade que ultrapassa o tempo. Vida e morte, felicidade e amargura, bondade e maldade — todos esses elementos são segmentos de um todo e elementares para a compreensão do verdadeiro sentido da existência. Após Sidarta absorver os ensinamentos do rio, Vasudeva revela que sua missão à beira do rio chegou ao fim. Ele se retira para a mata e deixa Sidarta encarregado de guiar o barco ao longo do rio.
A narrativa se encerra com o encontro de Sidarta e Govinda. Sidarta percebe que a verdadeira sabedoria não pode ser ensinada, uma vez que as palavras têm suas limitações e não conseguem veicular a totalidade da irradiação. A ironia é que Govinda, que se aplica inteiramente a ser aluno do Buda, não chega à mesma conclusão. Ele acaba se limitando a assumir a vida monástica, sem alcançar a santidade. Para Govinda, o mais gratificante é testemunhar a felicidade de Sidarta, ao ver o sorriso do amigo e entender que o sorriso do todo que transcende a superficialidade das ilusões — o sorriso do sincronismo que ultrapassa os ciclos eternos de vida e morte — era o mesmo sorriso sereno, sutil, talvez gentil, talvez sarcástico, que o Buda exibiu e que ele havia observado com grande respeito por diversas vezes. Govinda entendia que era dessa maneira que as criaturas divinas sorririam.
Certamente refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos. Olha, meu querido Govinda, entre as ideias que se me descortinaram encontra-se esta: a sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice.
Reconhecendo que todos precisam fundar seu percurso individual rumo à transcendência, Sidarta, depois de atingi-la, não tenta professar aos demais ou auxiliar seus pares a alcançarem a mesma redenção, como realizaram Cristo, Buda etc. Ele simplesmente promove seu modesto trabalho como navegante, levando pessoas de um lado ao outro do rio. A real natureza das criaturas magistrais, conforme sugere Hermann Hesse, é a extrema simplicidade. Os ideais do oriente não se configuram como doutrina, que, na verdade, é uma criação grega, ou seja, do ocidente. Muito desse pensamento não valoriza a razão da mesma maneira e não busca compreender e explicar a realidade como fazem os ocidentais desde os tradicionais helenos. Este modo de pensar — especialmente o Budismo — funciona mais como uma prática psicoterapêutica. Sua abordagem é mais voltada para a experiência do que para a teoria. O intuito é curar ou salvar o sujeito; deseja-se remover do espírito a flecha da escuridão e o tormento que o restringe. De fato, a desconfiança quanto à questionável potência das disciplinas é também um hábito budista, ao menos a partir de quando Nāgārjuna refutou coerentemente a viabilidade de uma abstração lógica, num movimento frequentemente comparado ao realizado por Immanuel Kant (1724-1804) em Crítica da razão pura.
Para realizarmos uma introspecção, é necessário ir além do ego, ultrapassando a individualidade e as predisposições genéticas, mergulhando nas profundezas do mundo arquetípico. Hesse acreditava convictamente que conseguimos transformar o mundo ao mudarmos nossa maneira de percebê-lo. A aflição, a desgraça e a deterioração individual surgem da maneira como vivemos a vida, influenciados por nossas posturas e perspectivas deturpadas do mundo. Semelhante aos existencialistas, Hermann Hesse observava o ser humano como refém de suas próprias criações. No entanto, ao contrário de Albert Camus (1913-1960) e Jean-Paul Sartre (1905-1980), ele propunha que a resolução das dificuldades do ser humano poderia ser alcançada por intermédio de um despertar espiritual, que exige uma busca interior. No caso de Sidarta, ele não visa seguir um ensinamento específico. A verdadeira realidade não pode ser aprisionada em conceitos ou ideias, destacando a distinção entre o puro conhecimento e o anseio de aprender. O caminho para a iluminação, em sua visão, é uma trilha solitária e não acessível a transportes públicos. A jornada precisa ser perpetrada individualmente e sem obstáculos, já que a verdadeira ciência não pode ser transmitida.
Os hippies receberam Hermann Hesse com entusiasmo, com sua metodologia de existência que mesclava a ousadia sexual a prazeres sensoriais, bailantes, melodiosos e o enlevo proporcionado por matérias psicotrópicas — tudo isso amalgamado em uma dimensão de reflexão espiritual. Para o movimento hippie, não existia conflito entre desfrutar o mundo material e desenvolver o mundo espiritual. O acento do autor na importância única da vivência pessoal expõe uma perspectiva centrada no indivíduo. O que realmente importa não é o dito, mas o experienciado; do mesmo modo, a importância não está em uma irmandade religiosa, mas em todo o indivíduo. O sentido da vida é uma demanda que tem importância apenas para cada sujeito, como seres únicos que somos; é, portanto, uma busca pessoal, e nem mesmo a figura de Deus é suficiente para englobar a totalidade. Hermann Hesse se mantém inflexível e destemido nessa postura. A salvação é viável, mas é responsabilidade de cada um descobrir seu próprio curso. E esse curso é exclusivo, não podendo ser compartilhado com nenhuma pessoa.
A valorização da experimentação direta é um dos pilares do Zen. Da mesma forma, os costumes tântricos também reconhecem a importância de diversas vivências, até mesmo as que a religião tradicional poderia rotular como profanas. Portanto, não podemos afirmar que a perspectiva de Hesse seja inteiramente inédita. Na verdade, não é. No entanto, o verdadeiro encantamento de seu Sidarta brilha. Aquilo que nos impressiona é essa natureza sobrenatural, que não existe nas doutrinas e nos tratamentos psicológicos, o encantamento presente nas artes poéticas e literárias. Em última análise, é o encantador entusiasmo de Sidarta que evidencia a real profundidade desta obra brilhante e verdadeiramente extraordinária.
— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres. Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem. Reza ela: “O oposto de cada verdade é igualmente verdade.” Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. Ora de unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade.
quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Do mar — 27
A rajada cruza ao largo. Olhos cultivam prantos. Retorno da primavera. Da filha, a recordação dos ventos. Berços rodeados. A manhã nas fendas. Os frios do lago. As plumas flanqueiam. As luzes da aurora. No rosto da terra, as palavras nos lábios. Sopros do outono. Ruínas aladas, as folhas. Sementes no túmulo do bruxo. O inverno se reparte. O espírito de um mestre anima os discípulos. Joga vestígios no lugar do pasto. Perfume dos rebanhos. Os botões de par em par. O cântico goteja nas fontes. As vagas se iluminam. Madeixas fervilham na superfície. Pelos domos, a noite vai se edificar. Vapor de chuvas e fogos. Granizo enorme. O rumor do Mediterrâneo, correntes clássicas. Sob o espinho da flor, a fuga tem sido. Sua hora está aberta. Voos da forma. Ignorantes sobre terra, esgotados de caminhos. A madrugada sonhada. Clarinada de novos terremotos neste chão de vila, de luz a luz, do escravo ao senhor, de vapor a vapor, luar.
quarta-feira, 13 de novembro de 2024
Do mar — 26
A angústia seguia. A janela das madrugadas. Navio perdido. Erguia-se a essencialidade do sentido como nascido. Revelações morrem na hora. Bulício atento ao erro dos navios. Instabilidade erguida. Um propósito abre projetos no dia, embaralha a tormenta dos marinheiros, dispersa a tábua dos oceanos, eclipsa-se. Num frio de pampeiro, giram barris, óleos, verdes. A embarcação dispersa as coisas do espaço. Os portos com tripulações e construtores. As aventuras de prata espalmam espíritos. Esgarçam luzes de ordem. O imediato do paquete. O estranho canta atrás dos alojamentos. Partidas se prolongam. Os mares e as manhãs a bordo. Nexo das horas. Homens de proa! Dia de partida! Tripulação a bordo! Previsão de tempestade! Que as vergas da embarcação e os molinetes do nada sejam vultos! Os tremores que se escondiam e as eternidades que já olhavam. A paisagem correu as encostas, nas barbas, os olhares, empalidecidas mãos. No mar de rubores, menestréis admiram faróis cintilantes. Uma asa bate, o menestrel gira os mastros, compreendidos os gritos. A vela foi erguida. Marinheiro, role sobre a terra: reminiscências e afinidades. Do vento noroeste ao vento sudoeste, sobre o convés e a direção do vazio que banhou o lugar. Levanta o manto: a previsão de dias. Velas tricotadas de ossos e dentes. As portas! As janelas! Os potes! As panelas! O fogão! As portas! As janelas! Os potes! As panelas! O fogão! As peças! Os beliches! Os jornais! E lá os homens, as embarcações, os mares e os dias flutuando. A lã do suéter e o tecido, uma jaqueta, a ilha da agrura. A voz dispara a sotavento, entre dias e noites. Golfinhos desfalecem ao meio-dia. Marinheiros sufocam momentos na proa dos barcos. Sobe o Cabo Horn. Um torpor de olhares, de lugares noturnos. Em tuas terras, fluirão sacos de café e de chá. Teu biscoito e tuas roupas serão as únicas coisas em tua caixa. Em todo o pélago, nada desses traveses. Brigues que giram nos livros. A quilha já falecida desce a espuma. A alcíone da ilha grita. A calmaria está à venda. Os ministros estão caindo. Só pode ser o rouxinol da ilha avançando. Esta mansão com odor de limão em flores. Pálpebras na chuva. Musgos se enraízam, setas e dardos se reúnem. Que estrelas! Branco salpicado de pés. Os tetos dos pombos. O túmulo dos pinheiros! Os ferros ardem, cinturas se dilatam, escorrem balas e chumbos. A alma se atira das tochas.
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Do mar — 25
O navio levará. E há de voltar às cabines. Só então o viajar. No éter germina a faísca. Quando a terra apodrecer, continuará o dia e bailarão os marinheiros diante das espumas. Viajante perdido. O líquido das sílabas vem ao mundo. Os livros, os destinos, as reminiscências passam em redor. Apagai a canção de mar. Todos os oceanos dos livros foram reproduzidos. Uma rua conduz a mesmice logo abaixo da calçada. Para o caminho do mundo, o porto é impossível. Voam nos olhos dos navios. Nos portos, a mão do mar repete. Um farol usurpa faustos. Veio com o rubor do sol. Sacode as brisas que pousam nas velas. Sacode as flâmulas que levam o sorriso. Sacode as escadas mais altas. Fumo nos salões, nas marés das cavernas. Veja as ondas nascerem sem que o mar as levantasse. Veja como os alvedrios se esculpem em adágios. Veja como as vagas se tornam sinais. A brisa irrompe. Veja como pairam os cetros cheios de repouso. E todo o ânimo jaz turbulento, cheio de fruição e orgia. E os dias ficam abertos para as terras por onde os sonos fogem. Algumas palavras dirigem-se ao navio de ar. Alguns cantos de sereia. Então era esse? O pirata volta. Feras se juntam. O Sabbah de sangue e as carnes. A espinha das mães é pisada por crianças. Dar andor, escarcéu de explorador, rastro rude, enervado. Os inimigos gemem no passar da esperança. O horror bate e os seios ardem. E a vida é tomada nas cabeças. E esta ilha que implora sem que a sorte lhe responda? Todos os relatos ainda se movem em lares flutuantes. Incógnitos ventos semeados. Cada névoa, cada pendão, cada império na manhã do cais desaparecia. Nesta barra só há fumo. A hora da náusea. Como é estranho o cais. Ele navegava.
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
Do mar — 24
É este o vórtice em que os navegantes são os navegantes. É este o vórtice das esferas que os firmamentos preferiram e chamaram. É este o vórtice das humanas magnitudes das trajetórias. É este o vórtice em que a terra é abarcada e nem sequer conhece a forma. Num lamento deixado pelo mocho, numa torre lá, ele mostra morcegos. São inquietações, bosques de ilhas, selvas. Zéfiro desabando do sol. Desfile de gemas: firmamentos carregados de retalhos de lâmpadas, pedaços de dias. E os risos, os terraços sobre as terras. As ausências buzinam o sono. O orvalho da chuva hasteia as consciências. Ó amigo da lua, ó amigo dos céus confinados, singrando nas ondas, cantando nas terras, sono por sono, os leitos em que há por vezes flutuantes melodias. Ó amigo do vórtice, ó amigo de cristais modulares bailando no ar. Entre os corações femininos, o estômago fantástico arde, e, nascido do terrível intestino dos portais, as imaginações passam no minuto dos momentos. As luzes da piedade. O mar desse túmulo sacia e ativa o gado. Frontes de diadema. As mudanças do vento. Sopros e velas! Partida entre temores e pesares. Mude os dons, livre-se das flores. Cantam os mortos. Fogo de riso suando nas pálpebras. O sangue nos dentes. O dom dos lábios nos seios. Agora, os dedos e o jogo. As tartarugas! A alma de Aquiles. O momento que sedoso olha. Em seu redor os terraços de altos pisos tomam formas clariperfeitas quase falsas. E a flama das eras veste as horas. E, no vasto tempo dos poetas cheios, continua o fulcro dos instantes. E, mesmo tão cansados, singraremos irmãos dos olhares e das barbas. Lá em cima, os rubros nos peitos e as cabeças. Proas de barcos cantam os gritos dos perigos. A sombra escapa dos golpes da tempestade. Névoas dançam o verde no mastro. As afinidades do viajante.
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
Do mar — 23
Atrás do símbolo, a analogia dos ventos, das noites. Tudo imóvel na noite das almas. A desilusão e o sussurro caíram na espuma do lago. De uma tempestade de mar, entre luzes de céu, ares, amargores e ânsia de lágrimas, a aridez se abre. Incógnitos ventos semeados de entendimento. A Vera Cruz vira. Esgarçam livros de ciência. A criança canta. O frio se prolonga em sonhos. O oco e a direção do vazio banharam o lugar. Levanta o manto: esta bondade de amor. Voz em nada. Essas formas com corpos de pavor entre olhos fantasmais. Alegorias do sentido. Ele purificou o chão e as colunas. Ele. Neófito que naufraga nas colunas do templo! Tetos, sóis, dias. O sinal.
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
A plasticidade móvel da escrita
[…] eu que me soube sempre parda e pesada como a pele da terra, são mistérios, ganchos talvez de uma vida de antes, há cadeias e argolas que se enroscam tanto que os dedos do divino nem podem desfazê-las, há poderosos peixes que se matam nas redes, pois não é? Por que se desmancharia a cadeia de carne dos humanos, somos de tantas vidas que algum resíduo antigo se cola à nossa futura alma e é talvez por isso que me faz pena e maravilha esse encorpado mole, desfazido, essa cor sem nome desse corpo da água.
É necessário lembrar aos estudiosos que, ao debater literatura, sempre é preciso estar disposto a correr riscos na busca pelo conhecimento, a fim de apreciar plenamente os princípios que definem a natureza independente da compreensão literária. Nesse sentido, penso que é fundamental reconhecer uma abordagem particular de interpretação literária que não pretenda ser um método definitivo ou uma fonte fiável de informação que atribua proficiência artística às criações produzidas sob esse nome.
Brilhante autora brasileira, Hilda Hilst (1930-2004) não foi apenas poeta, mas também cronista, dramaturga e escritora de ficção. Seu repertório literário investiga assuntos instigantes, incluindo misticismo, erotismo, emancipação da sexualidade feminina e insanidade. Especialistas na área consideram-na uma das escritoras mais importantes da língua portuguesa do século XX. Em Tu não te moves de ti (1980), Hilda Hilst investiga o existencialismo por meio de três narrativas distintas. Sedutora e complexa, a obra emprega uma linguagem fragmentada, criando três histórias separadas, mas interligadas, todas unidas por um fio comum.
Em “Tadeu (da Razão)”, apresenta-se uma narrativa que explora o embate entre o personagem principal, Tadeu, um executivo desiludido que deseja uma dimensão metafísica mais profunda para além dos limites do seu trabalho quotidiano, e a sua esposa Ruth, cujas ambições são exclusivamente focadas nas recompensas materiais do mundo corporativo. O ritmo do capítulo acentua os contrastes entre esses dois indivíduos, com o mundo interior de Tadeu ganhando riqueza e complexidade à medida que percebe o riso despreocupado de uma mulher em um bar, uma justaposição gritante à artificialidade e superficialidade de Ruth. Além disso, os delírios de Tadeu são cada vez mais povoados por encontros com uma misteriosa casa habitada por figuras sombrias, aprofundando ainda mais sua turbulência. Em contraste, Ruth, com a sua obsessão pelos negócios e pelo capitalismo, é retratada como uma figura insignificante.
Em “Matamoros (da fantasia)”, perde-se o eco de Rute. Aqui, a realidade se confunde com a poesia de eras passadas, desde os épicos bíblicos até as narrativas de amores rústicos que, embora tingidos de classicismo, exalam sensualidade. Maria Matamoros habita esse éden, entregue ao êxtase ao lado de Meu, a personificação da perfeição masculina que surge para tornar-se seu esposo. Mas a harmonia é abalada quando a semente da desconfiança brota em seu coração: seria a sua própria mãe a causadora de sua traição? Desse ponto em diante, um drama afetivo se instaura, tingindo de tragédia o que antes era um refúgio de desejos. Revela-se, então, que a poesia não é o santuário da felicidade, mas o palco do terror e da compaixão, onde se desenrola o drama humano sob o peso da provação judaico-cristã.
Em “Axelrod (da proporção)”, somos apresentados a um professor de história política que, até então, seguia uma linha ortodoxa de pensamento. Em uma viagem de trem rumo à casa de seus pais, ele é assaltado por profundas reflexões. Seja em direção ao futuro ou de volta à infância, o movimento do trem funciona como metáfora para o fluxo da vida. No banheiro, enquanto urina, Axelrod pensa como as questões mais íntimas e privadas da existência humana ainda permanecem sem respostas, mesmo diante de ideais revolucionários. À medida que se aproxima do lar e das suas origens, o professor se distancia cada vez mais das doutrinas ortodoxas que guiavam o seu entendimento de história política. Essa viagem o leva a um estado de introspecção, onde se move menos em relação ao mundo exterior e se aprofunda mais em seu interior. Aqui, a poesia não oferece descanso, e o trem da história não encontra base sólida para a esperança. O capítulo, que inicialmente parecia tratar da resolução dos dilemas do capitalismo por meio do prazer encontrado na poesia, culmina em uma dolorosa situação insolúvel, sem saída. No final das contas, o que prevalece é a pressão incômoda da urina no confinamento do banheiro, analogia à própria poesia que, embora bela, carrega consigo o peso do desejo agônico e profundamente pessoal.
E quem fotografasse a tarde de Tadeu, e eu mesmo colocado na paisagem, no parapeito de pedra, os cotovelos cravados, esse alguém nos diria que há apenas um homem debruçado olhando um mangueiral e uma planura, que se percebe sim que é um cair da tarde, que possíveis rolas ou codornas, talvez duas… que há dois homens e uma mulher, não, agora duas, e que… mais nada, nem eu fotógrafo pretendia uma fotografia rica e ajustada à crueza da vida, que para isso seria preciso cenário adequado, colisão de águas, revoada, luz-laranja da manhã incidindo nas asas, brilhos espaçados ao redor de um homem que sustenta nas mãos uma leve espingarda de muita precisão, o tiro se adentrando no corpo da ave, lagos, a beirada afogada de lírios, como naquela manhã, Rute, no noivado, o passeio de nós dois aos grandes lagos, a flor aquática verde-bojuda, te inclinaste e disseste uma das tuas santas banalidades, assim Tadeu qualificava àquele tempo as tuas frases, eras incapaz de descobrir nas coisas o vestígio do Intocado, dizias o disforme, o que não estava nas coisas, pensavas em usá-las, a flor aquática verde-bojuda depois de batizada pelas falanges de Rute e colocada aqui ali – que tal na cintura, olha Tadeu, presa a uma grande fivela.
Em essência, Tu não te moves de ti representa a súmula literária da realidade objetiva da arte, onde a leitura revela elementos reais que exigem existir apenas através da compreensão autônoma. Obras assim perduram porque se ligam à verdade embutida na sua natureza artística. Muitos estudos dedicados à obra caem na armadilha de não reconhecer a obrigação do intelecto na busca pela potência da verdade. A natureza da obra busca com precisão esse axioma, desconsiderando quaisquer tentativas de reduzi-la a fatos que comprometam a sua integridade artística. Desse modo, Tu não te moves de ti desafia as expectativas do leitor ao resistir e exigir uma leitura única.
Para compreender a natureza de Tu não te moves de ti, é preciso mergulhar na profundidade da verdade e na expressão artística que a obra incorpora. O seu foco reside na mensagem transmitida por meio da linguagem, e não na sua criação ou recepção. Embora a presença da voz narrativa possa obscurecer esse fenômeno, criando uma ilusão de subjetividade poética, sob essa superfície reside uma voz mais lenta que revela a natureza artística da arte poética. A artisticidade da obra é, nesse sentido, uma potência oculta que varia em qualidade, refletindo o mundo, as emoções, as sensações e as profundezas da alma humana. Por meio da composição da linguagem da obra, desvelam-se instantes de realidade, espelhando outras experiências. O poder da verdade alinha-se com a externalização do “eu” protegido do artista, um “eu” que muitas vezes a sociedade exclui devido à sua singularidade. Ao testemunhar essa verdade inconciliável, liberta-se a força da expressão artística.
A característica mais marcante deste livro é o seu fluxo, que provoca uma confusão na leitura e desperta uma mistura de emoções que persiste mesmo ao reler o trecho pela segunda vez. Isso acontece porque a intensidade da vida, suas etapas e dilemas surgem nas páginas de maneira muito semelhante ao turbilhão de pensamentos que habitam nossa mente diariamente, entrelaçando-se, revisitando situações passadas e antecipando as futuras, agindo, desatando nós e descobrindo outros ainda mais complexos. É de se admirar profundamente a harmonia entre interioridade e linguagem, a habilidade singular de Hilda em traduzir os labirintos mentais e emocionais. Buscar materializar o indizível, abordar o que é velado e transcender a avassaladora carga dos desejos, de se movimentar e evoluir sem perder a própria essência – algo tão humanamente não humano, que raciocina e emociona.
Na obra, Hilda Hilst assume o papel de sujeito de estudo, explorando todos os aspectos da existência, exceto o seu próprio eu. O foco está em reunir a natureza do ser, colhendo apenas o que é universalmente compartilhado. O que torna este trabalho extraordinário é a sua capacidade de aprofundar os aspectos mais desafiantes e frágeis da nossa natureza. Hilda lança a sua linha de pesca nas profundezas instáveis do seu próprio ser, procurando pensamentos e emoções abstratas que possam ser intelectualmente abraçadas por todos e sentidas por aqueles que têm a capacidade única de simpatizar com os pensamentos e sentimentos mais íntimos das personagens.
Nessa toada, Tu não te moves de ti é principalmente um trabalho de criação artística, servindo tanto como exploração quanto como explicação da arte produzida anteriormente. Apresenta uma paisagem externa que ganha vida para valorizar o processo estético — ou talvez Hilda apenas finja esta perspectiva externa para concretizá-la em diferentes épocas. A totalidade do contexto é cuidadosamente considerada, incorporando todos os ângulos da existência e da experiência humana, extraindo a substância metafísica que habita a vida e os indivíduos.
A existência da obra está entretecida a uma espantosa melancolia, em que sua poética reflete um talento que inspira reflexões metafísicas e a continuidade de uma expressão artística que não compreende, nem pode compreender plenamente, o significado da existência sem que antes a experimente. Ou seja, assim como as expressões da existência podem não ter valor para quem vive, as obras não geram reflexões sobre a existência, mas sobre a própria natureza de uma realidade comum: é necessário, portanto, atribuir valor artístico à existência, pois ela se manifesta no instante em que se atinge uma vivência que transcende a existência entendida de maneira biológica: na plasticidade móvel da escrita.
Vê-se mais nos olhos ou na boca mentira e verdade? Também as mãos às vezes têm movimentos tênues de revelação, um fechar-se rápido, delicado, côncavo guardando um minúsculo achado, e há gestos gratuitos quando se quer cobrir um espaço de tempo, passamos uma das mãos na cabeça, contornamos lentamente o desenho da sobrancelha, e há passos igualmente sem destino, um buscar impreciso, e amolecida fala desfazendo a ponte empedrada de muita ansiedade
Assim, compreende-se que uma escrita não tem como objetivo primário a comunicação. Ela se manifesta como uma poética que rejeita a ideia de um conteúdo que possa ser transmitido por meio da palavra. Seu gesto não se limita a ser uma figura ou uma imitação, nem serve como um simples recurso de confronto — está fundamentado na ideia figurada, expressa por meio de um sistema próprio. Dentro da dimensão artística de Tu não te moves de ti, a literatura se torna uma exigência importante, requerendo sua independência e alimentando a busca por uma constituição inovadora, que se opõe a todas as outras produções.
Como um momento que fica na memória, ainda que o passar do tempo ofusque os esforços de análise sobre seu invento, representa a atuação da linguagem que preserva a relação especial entre a palavra manifestada nos objetos e a palavra humana. A relação poética entre essas duas formas de linguagem não consolida uma como padrão ou correspondente, já que a palavra poética não se ocupa com indivíduos, mas com o gesto de nomear. Tais nomes funcionam como marcas de um compromisso único sobre uma existência inédita e de elevado padrão, marcada por um propósito atípico e sublime: a urdidura da obra. Nesse sentido, isso implica que as personagens oferecem uma representação imprópria da existência, mas que, mesmo assim, se oferecem inteiramente em escritas.
A linguagem em Tu não te moves de ti concatena sutilmente a natureza primitiva onde a marca da multiplicidade é registrada, alcançando o inalcançável e o inacessível da existência, envolvendo a singularidade que lhe é recusada com uma capa de mangas amplas. Trata-se aqui de algo não simbólico, mas exato, suficiente para transformar um evento sem significado — a existência das personagens — em licença de sua própria natureza: os seus nomes em movimento. Isso equivale a afirmar que a palavra se dissolve no teor artístico das experiências cotidianas, conferindo a elas o sentido literal de que frequentemente carecem; essa é a principal função da arte literária e o alicerce de sua singular independência.
Nesse ponto, Tu não te moves de ti torna-se um anúncio intelectual da modernidade do pensamento e da sensação, legitimando o conhecimento da obra como uma forma autônoma de saber, superando ideias simplistas, em benefício de uma vivência genuína que se funda em uma arte que provoca uma experiência desprovida da subjetividade e que proporciona o júbilo gratuito de expressar a beleza das vozes, sem se importar com qualquer abstração — seja ela explícita ou implícita. Em cada capítulo (ou conto), parece haver uma vivência inteiramente estética que é soberana e se distancia da percepção imediata de quem lê, criando, assim, uma independência necessária para o entendimento artístico: uma experimentação em outro grau.
Isso evidencia que o contexto da experiência é trocado por uma decisão nas palavras, que não transforma nem divindades nem humanos em matérias ou agentes da vivência. Entender a obra em questão não se resume a fundamentá-la; a apreensão que se busca exige um nível de interpretação que não se baseia em explicações, já que substituir o incógnito pelo familiar é uma forma de simplificação — e o que existe de mais valioso na obra se recusa a essa abordagem. Em Tu não te moves de ti, o corpo da linguagem transcende a ideia simplista de mapear os locais familiares em uma viagem isenta de riscos. A jornada, sob a perspectiva de Hilda Hilst, representa algo mais grandioso. O seu trabalho exige a capacidade de entender essa jornada e estar preparado para os desafios enfrentados ao se aventurar rumo à derradeira terra a ser explorada: nós mesmos. Somente desse modo poderemos apreciar a profundidade da obra e reconhecer a estima artística que a vida da poeta merece, assim como toda a narrativa do porvir que se desdobrou sob sua influência artística.
Hilda Hilst atingiu o ápice em Tu não te moves de ti ao conseguir lapidar o texto fragmentado com a intensidade das sentenças, resultando em uma escrita fluida e poderosa, carregada de força, emoção, questionamentos políticos e existencialismo. O texto é uma costura meticulosa de diversas emoções, que revela o que há de mais profundo em nosso interior. É como se fosse uma lanterna em um quarto escuro, lançando luz sobre os pedaços de espelho no chão e nos permitindo enxergar a nós mesmos em cada reflexo.
Tu não te moves de ti, tu não te moves de ti, ainda que se mova o trem tu não te moves de ti, por favor, Haiága, fecha os meus escavados, sutura as grandes janelas que me fiz, o escuro explodindo no vermelho, a violência da víscera, o estufado grosso reprimido, minha cintilante precisão, fecha os meus meios mato-me a mim se me compreendo, vou até onde, pai, imóvel me movendo? Até uns claros confins? A um alagado de nojo? Alagado de nojo me esfuçalho, interiorizo o porco, sou um daqueles que correm em direção ao fundo, agrido-me como se fosse dono da verdade, como um cristão, como todos os cristãos que até hoje carregam o monopólio da luz como se o caminho fosse um, um só, Eu sou a Verdade, eu não o sou.
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
Do mar — 22
A época rejeita a voz dos mares. O cais soa quando o navio passa. Estala a praia. Os mares batem, e a extensão deslancha. A chegada ao porto soa quando os soluços parecem absurdos. No seu êxtase canta o silêncio. Soam quando na ida das horas. Marulho dos sentidos. Dois navios antigos. A poltrona reclinada e os laterais sonhos. No pulso se desuniu o que a onda unia. Acaba cada alma. Risco com um risco mais regressado. Barco nomeado e arfado. Unem-se às águas, aos terraços e aos chãos. O outro sol luminoso e visível banhando os cabos. As aves a falar em cada ilha. Entre as enseadas cercadas de conchas, os coqueiros em espanto no areal nu. A safira rápida de trêmulos prodígios. A memória longa das costas. O alvedrio pela plaga. O côncavo duma vela. Ó cativo enervado, encapelado, inutilmente vaidoso. Abrem-se vitoriosas foices febricitantes. Só o brilho passou inabitável. Subindo do espaço fero, expressões frescas rolam, lânguidas rolam, embora a cabeça passe. Há essencialidades acesas cujo mistério destrói o êxtase das horas. O mar que sente ao longe as rochas, tudo se cala para escutar o espanto do espaço, e o azul é o próprio rito. Estranhos nas terras aonde chegam. O equador que se afasta. O curso do polo que os arrasta, as latitudes geladas que os rasgam. O mais velho bailar da rocha. É este o olhar no qual se cala o cintilante marujo.
quarta-feira, 9 de outubro de 2024
Do mar — 21
O mundo esfolha o tempo ainda espaço. Dura água de sombrio espírito. A alma calcina e o errante barco perde o momento. A madrugada instável: arcano de impor sentido. Há de viver a água. Dar angústia. O gesto pisa no rosto da pedra. Que voz dos mares e das épocas, no antiquíssimo grito, rasga chamamentos e coisas? Agora jaz sem calor e sem unidade. Quebrou-se a fúria, passada e física. Abre navios no mar deserto. Frias mãos. Seco, perfeito vento. Gajeiro debruçado. O corpo corsário. Que virgens ondas teriam singrado aquele mastro carregado? Dantesco relâmpago. Como te chamas? A mareta levantou-se indiferente. E longe a noite em marítimo ciclone. As manchas dos rostos, brunos de mortes e acusações abreviadas. Nas esquecidas mesas das tabernas, prendem-se estremecidas cordas. Titubeia por ruas magras. Poliposo papel conduzido, com folhas antigas e aéreas paisagens. Dragões da insônia estrangulam musgos. O dedo apaga o segredo dos pinhais. Nenhuma sílaba lavará o abandono. Os ossos são pequenos e longínquos. Chamará, em vão, pelo mar, que no fundo vê papel em branco. Ele morrerá sem-terra e sem obras, sem lágrimas. Morrerá entre nadas iridescentes, olhos de papéis e acasos de tintas. No húmus dos dedos – eras sereno.
quarta-feira, 2 de outubro de 2024
Do mar — 20
Quando o vapor do mar sossegou, o capitão se deteve entre vozes e madeiras e fez viagem à ilha de lado a lado no vinho. Os caminhos escondem as relações que olham. O antigo vime rude abre. As almas lançadas no tombadilho do navio. O riso corre no vento, nas fitas, empalidecendo os náufragos. O cais e a manhã viram. Paquetes esfumaçam o ar. Na deserta orla admira-se vidas pequenas. Atrai com roxo e vermelho o poder de capitão. Áspero no respirar. Tudo envelhecido – navegações, parceiros. A água corre: obscuros ímpetos e poesias nuas. A lua natural é falsamente vazante. Ignorâncias, mares, almas, terras, falecidos vácuos. O sonho de porta, voz de mar ignota. A ânsia natural nauta e vaga. Flauta subtil perdida no mar. A álgebra de Ulisses. Tênue Tâmisa. Circunstâncias: garoa que sobre a data resplandece, atravessando a flor trivial das paredes. Palidez das rosas. O mar flutua sem fim. O hálito dos cantos. Agonia a agonia. Sepultura: o sol de tinta. Gemem molhadas as saudades em poetas calados. Doentes eixos franzem feridas. Morimbundamente amargos. Nada, no trêmulo pensamento. Nos mundos a antiga música larga e quebra os passos limosos. No fundo dos aspectos, na vermelha cólera, vão-se as indiferenças lamentosas, erguendo a cabeça em ironias úmidas. Faz do mar a cadência estranha de deuses poentes.
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
Do mar — 19
Criança, não navegando, navega. Relíquia nascente, ainda navega. Dentro da gruta navega outras relíquias mais. Há sempre, dentro do rio, outros rios. Nenhum está sozinho quando navega. Não há lua. Não vá crer (como poderia?) o oceano feito de olhos, ilhotas e manacás. Lascivo mergulho das mãos. Dorso do homem de cristal. No espelho, o grito cumpre o gemido. Aqui, a linguagem anda entre mares, mais ardente na ardência. A imagem escuta imagem: estrangula o beijo. Tu sobes com os mares até os pilares. Aí olhas o abismo. Vento da tua terra. E mostras aos acasos. Escuta, as coisas abrolham no elementar mar, e a lua crê na agonia dentro da fogueira.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
Do mar — 18
A marítima cabine, por oceânica cabine, os infinitos azuis, expandir a partida. Vento cantante a musicalizar a onda. Ondular com o brigue, solidão animada, adensar marinhas na vela. Se você soubesse quantos fervores içam-se, quantos fervuras se rompem, o éter a faiscar! Espumas viajantes de cada dia. As noites pelos marinheiros. Ondulado convés, pés e latejo difuso. No fluxo do refluxo fervilha o tom de vagas ocultas dos mundos. De sais, todas as sílabas. Um ranger ritmado se instala: cordame melancólico. Destinado livro, veleiro da inclusão, folhas e velas içadas. A queda é ramo firme. O anjo dos relâmpagos na chuva. Madeixas, tempestades, fímbrias da grande sombra. Bravo, fúnebre. O cântico, noturnamente, passa. A fronte volve à Zênite e à Mênade. No domo sepulcral, as abóbadas giram. Na força, a atmosfera vaporiza, fumaça, o fogo saltado e crepitado do sonho. O embalo rumoroso e corrente de todos os cristais agitados. E alguma pronta angra encontra uma só torre recoberta. Recoberto palácio, no qual viajam os desmaios. A planície atlântica das flores submarinas que, mais do que célere, mais do que afogado na voz seivada, empalidece já perto. Todo o despojo das escutas: as folhas. O companheiro e a fuga nunca logram. Cada súplica se ergue de espinhos. Túmulo da queda. Aquele que naufraga nos lábios. Aquele, professa. A trombeta que esmaga. Enjoos se prolongam. As horas e mares do sentido. Manhãs de distância, entrada do primeiro paquete. Almas vagas, brisas de porto. Oh, barcos, vida, manhã, fumo! Maiores do que orlas e ares. Desertos do cais progressivo na solidão absoluta do mais além de um dia.
quarta-feira, 11 de setembro de 2024
Do mar — 17
De um navio, entre flutuações de água, almas vivas, vozes partidas e tremulações. Acorda o dia no porto. Paisagens de encostas e cabos. Solidões de bulício. Cais de negrume feito, refletindo a água de espumas, navios de símbolos errantes. A hora e a cor. Embaralha o cais dos cais anteriores. Disperso o porto dos portos. Chaminés fabris e proximidades. Carvão preto no chão, pequenino, visibilidade absoluta: cais, portos. Este som como o dardo de vidas tão mortas. Aquiles do passo imóvel. Perdeu de vista as almas surgidas. É esse o pé mesmo. Perda da hora. A onda! Ímpeto. O delírio e a grandeza são postos à pele: o manto do sol com os rasgos da pantera, azuladas carnes, devoradas por hidras na absoluta luz como caudas. Traspassavam os livros, liam a vaga. Aos apagamentos. O gosto das formas sucessivas. Tropeçar do metro. O reduzido exílio da separação. O vivido homem das colunas erguidas. As dores numa arca puseram. Em sobressalto e desespero, os luares vetustos do fundo. Numa carta datada e mofada, o conhecimento de pé, a espingarda estendida na quinta. O país e seus vidros nos outros corações, cada um segundo na memória, dilúvios libertos. A pausa, ao subir e descer estas vagas, fica quase branca. Acaso o nome não é água? Nas velas do navio, sonham as flores. E todos os vultos caem em duplo no arpão. Arde a paisagem por dentro, e os organismos transbordantes agem e agarram delírios que em saias andam sobre as rendas. Das profundezas do cruel fardo, abominável coragem, retirado em franzidas almas, reservadas para as ânsias loucas, a relíquia ilegal: o corpo vazio. E entre os fundos, que se abandonam, levanta-se a nau. E a sombra de portos desdobrados arde na alma sem tempo e com todos os dele, indevidamente.
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
Do mar — 16
As linhas giram as extensões da vigia. Criaturas de carne e pele. A manhã de verão pisa. Sacolejos do ar traçam algo. Aceleração dos paquetes, das entradas. Doenças inexplicáveis e ocas. As saciedades espiam: vagas de vácuos. Tédio já cheio de dores partidas e repartidas. Na nitidez do navio, o perto é gente de outras fugas. Desejais que eu fie? Os olhos confortam dentes. Defendidos dedos, retornos! É a cilada. O perturbador passo. Uma madrugada luzente se tais aparecimentos se ausentam. A âncora não desce. A veemência anda muito visível. Tateada bússola! O frescor dos palmares cai aos pés de outros brilhos. Muito além da nudez, estes banhos espraiados. A água voa e o cabo explode. O vazio rolava apartado. O limite dos entes insinuava-se entre as bordas imponderáveis do mundo onde, por instantes, vagava. Não teria ele zombado do reino? Não existe medida aceitável que possa arrombar as colunas dessas salgadas balanças? O tempo navegará quer queira, quer não, em nós, sem nós.
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Do mar — 15
As hélices. As gáveas indeterminadas totalizam algumas linhas de costas. As flâmulas. Os gualdropes se perdem achatadamente no horizonte. As escotilhas rasgadas de cabos e ilhas areentas. É o vapor iluminado. A árvore. O laço. O canto e a veia. Barco de ar. Dos dois remos, quaisquer ânsias, redes distantes. O roçar de cordas, de perto, ao longo das muralhas e ao redor das câmaras. As chapas das salas. A barra negra da passagem, navios vistos dos portos. Ramagem. Engula o ócio do corpo. A fronte, o osso, a terra, a centelha sobre as ausências, a lembrança toca o terreno. Áurea pedra! Sombra da árvore. Preguiças e futuros arranhariam securas. Diadema, perfeição, segredos selvagens. A noite caminha sobre os mármores pesados. O diadema grandioso mostrou defeito. O povo e as errâncias partidas sobre uma raiz de árvore. A rosa simbólica. Há curvas cintilantes e espumas, as democráticas gargantas. Mandava ao longe os luzires dos amontoados corpos. O nome das colinas, o meandro dos espantos. Até parece intriga de máscaras coniventes. Sonolência longínqua, imobilidade de ventos brancos. Os pingos erguidos acima do convés, carminando lentamente o frio Capitão. Os finados jazendo no alto, todo cheio de uma fremente flâmula. Trompas trinadas estalando como se fossem sinos. Estava ali o levante das guirlandas e, em torno delas, os laços mais tensos. As massas de rostos mais clamantes, magnetizando tudo. Roubaram de repente o sonho caído do braço do finado, desfraldando a nuca erguida acima do convés. As praias chamadas derrubam os nomes. Arrojam as ausências. Guardar numa fuga criada o caminho da mão a colher as ervas.
quarta-feira, 21 de agosto de 2024
Do mar — 14
A modernidade lenta, engenhada no beijo maquinal. Estrangeiro de madeira, sem educação, estende os pés de vida oca nos mares antigos. Um puro peso conduz a liberdade abaixo das lembranças. Sabedoria viajante: alguns pés das ilhas de morte e os afogamentos contornam as andanças e as falas. Para a vastidão da beleza, a perdição é inconcebível. O barco profundo é travessia só de ida. Águas nos pulmões. Não soam mais os acasos. O apito no rio tremido. Alguns psiquismos, vida de brinquedos. Quilhas velhas. Na ânsia de procurar velas nos mastros. As cordagens devem conter as confusões mais febris. O leme. A roda deve ser tão imaginária que desiste. Queimam os sóis, latejam os tempos! Ao segredo? Os véus, as chamas, os sonos! É a boca, a forma extinta! Eram belezas de céus transfigurados, estranho orgulho impuro, o abandono e o espaço, as nuviosas mortes. E é ainda a tocha! Mais tarde, os olhos da criatura serão menos piedosos. Os sóis, os mares aguardam só a subida, mas a estátua vive de gestos. Certa é a cor do barro. Lá se foi a liberdade – o vosso fundo é. Quê? O coral abafado nos búzios. Sob os lisos dias emerge a surdez do desastre. Ao longe, no mar azul, aos brancos das pedras, já se agitam. Soar o começo, salgo. Abandono das sílabas. Os rios da cidade abrem o nome das coisas. Batidas de palmas. Enfunado navio de palavras. A voragem dos sinos. O carpinteiro em forma de morcego flameja na viga, soltando a gaiola. Em frente, segue a badalada, arrojando a edificação recém-exposta no ombro batido.

