domingo, 27 de novembro de 2022

167.

Destece o linho o pensamento salgado e com ele interroga o bramido crepuscular; sob as pequenas umidades, sentimos o segredo pequeno de seus brancos olhos, esclarecendo o interior da palavra recolhida. Nossa polposa felicidade é o fantasma, se obedecemos ao olhar menor cuja branca dúvida não visa agradar o poeta, mas recordar a ideia que, como a de Orfeu, nossos dias, para avistar precisa antes viajar ao trono de Hades.

Todas as escalas só nos valem de leitura, lentíssima tarde dos anos avistados, e onde, se tudo andar derramado, poderemos morrer do antigo e monótono remendo que a cada monstro se ampara e se escorre de nossos dedos. Densidade côncava acima os dias. O ar zumbe nos panos da infância. Para fixar-me, devo me consumir e sonhar entre os vegetais anos felizes cujas mesas são crepúsculos, e o funcionamento embebido.

Nessas paredes apenas o verão germinado. Nosso antigo papel, redes construídas. Alegra-nos pensar que somos palavras pousadas, sangue e amor alastrados. E assim chamamos uma outra vez, curvados, o esquecimento de ninguém.

sábado, 26 de novembro de 2022

166.

A natureza começava a repintar na tristeza o crepúsculo do dia consumido na vida. Os choros, com as mãos no tempo, coroavam os monstros. Do pano de um dos poetas, o pensamento observava a umidade, e a evaporação se derrama como um pouso de pinhais.

Que pensamento imóvel aquele que o choro antigo contempla. A embebida cidade torna-se lida; os poetas acabaram de ser criados, quando a antiga reta dos anos vem devolver o musgo ao envelhecido mar que existe entre as flutuações. Eis que ele decifra novamente o que vê. Um papel curvado canta. O mar é o pó. O nome da rosa é uma feliz lua. Todas estas cartas são um olhar. O pouso dessas galerias é mais espantado que as infâncias germinadas da mais desatada sombra.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

165.

Continuam consumindo os lápis de carvão, sol branco em noturno oceano com cegos rostos ou com a infância, essa fixa vela. Quando a pertencida rua é caiada nos olhos do corpo, voltam à sua sílaba, vegetal e iluminada, ao seu linho e ao seu silêncio. Perduram em imóveis flores, em um modo de esconder, no mar do poeta, da risca, do remendo, em reduzidas felicidades e em alastrados nomes. Na sonhada ideia do papel quando o sol escreve o poeta.

O ar, o verão, o dia, a embarcada água, as recolhidas físicas que não lerão as extintas cerejas que me restam, o meio-dia e o dragão, um olhar e em suas palavras a magoada palavra, palavra de uma folha sem dúvida aérea e já branca, o debruçado receio pequeno em que arde um imóvel som. Quantos poemas, luas, papéis, lutas, veias, linhas, nos servem como embebidas cidades, desaparecidas e loucamente bordadas. Durarão, todos estes poemas, para além do nosso abandono.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

164.

Deixo-o na sombra, com esses mortos diurnos que buscou o mago. Que de todos os mortos de seu dicionário este perdure, numeroso e gris. Avança pela sombra a loucura da eternidade e do cristal. O minucioso instrumento espreita opiofágico. Como uma gravura, a peça vai em pó. Está no espelho, com o ouro do rei. Mágico, deixa-o com sua outra pena e quase não tocado pelo fio.

***

Sou, mas sou também a água, a pena, a água da sombra e do morto. Sou uma confusa linha e o cone que deteve os minutos da eternidade. Volto ao mundo do poema, onde nunca estive, ao mundo do poema, espada mágica. Ouves-me, sândalo ou repetição fortuita, ou não ouves na terra de cristal o bispo invulnerável? Buscas nos numerosos destinos o severo mundo do acaso, a peça que plantaste no abismo, o pó e, no ponto, o mago e os seus gostos. Imagino-te gradual, um pouco côncavo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

163.

Para mim não é verdade que o poema tenha começado. Julgo-o tão infecundo como a brisa e o gesto. Uma flor perfumou com rigor as mãos. O brilho se aprofundou aos toques. As tormentas compartiram uma lamentação marítima. Só faltou uma coisa: a aspereza da dobra.

O injusto galho salvava a noite com sua enquadrada aparição, sua escuridão e seu copo. O mundo bravo já opinava o medo. Uma madeira mandava vento no muro. Uma tristeza arruinada como consternação de surpresa brilhou e no frio da noite conversaram um mundo. A tristeza arruinada floresceu numa contorção, já canção alta, já decadente e mundana.

Um choro sobre a mesa, mas na água da caverna, presenciados bosques, liquidezes e transparências. Um choro virgem que persiste na dor: vento, nuvem, instante, realidade. Fincaram os injustos galhos na virgindade, dormiram em gesto. Dizem que na caverna, mas são instantes rigorosos na tela do quadro. Foi um choro sobre a mesa e na dor: contorção de mundos.

O certo é que mil mortes arribaram pelo vento que tinha infecundas nuvens de tormenta, povoados bosques e mundos e águas dobradas que enlouquecem o corpo da escrita. Pensando bem na decadência, suponhamos que o copo era madeira então como aparições reais com sua ruína de dor para marcar o medo em que a escuridão jejuou e as mãos comeram.

E foi por este mundo de tristeza e de brilho que as lamentações vieram-me afundar a aspereza. Iriam balançando os poemas do vento entre a liquidez do mar noturno.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

162.

Pela quentura do sol, ondulação cujo imóvel gesto possuo, cuja natureza não abarcamos, há na consumação uma força poética até a germinação, uma física força que não estou destinado a rever, mas que me espera nesta sujeira com as veias de um bicho nas sanguíneas coisas do dia leve de luas transparentes, noturnas, em danças de papel.

A linha gasta as cidades; nossos terrores estão morrendo na agonia, formosamente. E a antiguidade, o fogo, a terra está sob os assombros marítimos da tarde e o resplendor do dia nos dará um sonho mais para a cosmogonia e violentos acasos da lua para merecer devagar e coisa tecida sobre o abismo que volta e o elemento que da ventosa visão nos livra: o olhar da fogueira.

Comovem-me os brancos funcionamentos que em nova salvação de lápis se perdem – luminosidade de águas, de terra, de montanha entre montanha – em pousos iluminados que foram o dia e o sal da voz para o fantasma. Sei que toda nuvem, apesar da emoção, é da imobilidade do poeta, reunida ao redor do mundo: da mesa, reunida para sua extinta ideia na onda.

Branda a vida, no princípio do ar, chego ao impulso e ao desabrochar e à marítima manhã que busco e me recebem tinteiros de poetas ao carvão que participaram das densidades dos círculos, e nivelamos o meio-dia num prazer aquático que dá para a flor – flor que está sob as ilhas e na monstruosa solidão – e dizemos, porque a luta é de papel, folhas de sonho, e somos nomeados e mortos no papel e a palavra assustada mede fixações azuis.

Para a evaporação que gravita em percepção caminho pelas palavras múltiplas como utilidades, pelo botão desenhado do meio-dia, sem mais pássaro salino que as recolhidas vozes do céu juntas às nervosas corridas e algum vento consumado no verão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

161.

Gosto quando te entregas porque estás como atuante e me invades sem tristeza – minhas mãos te forjam. É como se tivessem essas tuas flechas voado para colinas distantes, como se houvesse um caminho lacrado o teu púbis. Como as alvuras estão repletas de tuas coxas, repletas de tuas coxas, dos saltos do teu corpo te irradias. Amor de pássaros, sou igual às tuas coxas e me assemelho às ânsias das tuas fugas. Gosto quando te entregas e estás com sede. Como se te doesse, amor em pelos. E persistes em infiltração. Minhas mãos te firmam. Deixa-me que me entrego em teu mundo indeciso. Deixa-me que te viaje também em teu mundo fundo como uma voz, eterno como um filho. Tu és igual aos olhos, infinito e gracioso. Teu mundo é sem limites, tão ávido e branco. Gosto quando te entregas porque estás atuante – selvagem e noturna como se tivesses se ausentado. O corpo então e uma só hora bastam. E estou no túnel, fatigado por não ter sido em tuas terras.

domingo, 20 de novembro de 2022

160.

As grutas lavram no líquido os desenhos, e o vermelho que morre é caminho e água. Os pousos e os olhos que empalidecem na balança quase não existem para a fuga que está sonhando uma mudez. Não o turba a linha, esse mar no surgimento do mundo, nem o toque do silêncio. Livre da rouquidão e do olhar, lavra um palácio, o deslumbramento do mundo que é todos seus espantos.

E continuam escorando as tempestades, claridades em cristais com vibração ou com respeito, esse outro sagrado. Quando o serviço é tempo no centro dos magos, voltam à sua casta, à sua música e à sua vida. Perduram em imensidão, na fórmula constelada, num espírito, num ninguém, em bênção e em venerandos. Num fluído de encanto quando um mestre embravece o mistério.

sábado, 19 de novembro de 2022

159.

Ele fecha o livro da estranha espera e sai em busca do homem e do touro. A tarde já exalta o abarcado crepúsculo de pedra. Em direção ao fundo do segredo atrás das portas, caminha pelo centro do horror como agora pela anversa maranha dentro da espera de quem escreve a forma sem fim. Li os livros dele e outros compus com o universal rigor que o murado caminho da existência não apagará. Ele me concedeu o que é dado saber ao interminável destino. Por todos os cantos, anda a outra pluralidade do negrume. Não vivi por lá. Quisera ser tudo isso de novo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

158.

Pois do destino do universo ninguém sabe. Ninguém testemunha pelo reverso da porta. E, no entanto, sempre escolhemos uma investida dentro da existência: não só para escrever no interminável anverso da pluralidade, mas para algo que pulsa em nós como a espera rigorosa da fera, fora disso, que tem necessidade de que sejamos, na pedra, o juízo artístico da forma do outro. Companheiro no caminho de maranha ao centro do alcácer, a mesma perda que está doravante abarcada no extremo segredo do horror. Onde buscar o crepúsculo ao fim do negrume para o qual não há nunca a espera do homem ante o muro de ferro?

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

157.

No cabo curvo, a morte dirige os dias de solidão. A fadiga demora nos caminhos até as ânsias, no outro homem em que se odeiam monótonas redes. Dentro irradiam circulares sombras. Usura côncava, aérea busca, retas galerias, Zeus esquecido, anos pálidos e bramidos desatados. Quando a morte tiver ido, quando o temor tiver decifrado Hades, certamente o sangue não terá cessado a desolação. No pó se acendeu esta tarde cujo eco é agora toda a espera. Como as pedras, este rastro é secreto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

156.

Na terra de Marco Polo estão os sonhos do novo mundo, desde aquela transformada terra desenhada a oeste – em que um paradisíaco tempo prefixou as navegações e o diário de bordo – até a sabedoria em que a mágica vida da vida viajante retorne à sua utopia, que é o próprio Marco Polo, e se apague em Cristóvão Colombo, o aventureiro, o próprio relato, que é agora um declínio místico. Entre a raridade e o toque está a agulha da palavra. De dentro do livro vejo em narrativa os encantamentos do mapa de Toscanelli, leitura descoberta, ideia e mapa. Dá-me fôlego e coragem para navegar sem rumo à terra de tetos dourados.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

155.

Acaso do olhar, tecidas terras, sonhos mitológicos, à violência os dias se assemelham ao assombro dos dias. A cosmogonia antiga do tempo escava e faz saltar a visão do resplendor do mar. O mar e o vento. Da fogueira fugiam tardes, e o elemento infiltrava coisas na agonia marítima. Para sobreviver forjei o abismo com fogo, lua entre os pilares e terror nas formosuras.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

154.

Assim faço o círculo do sol, tomando o meio-dia branco, entre a noite que conserva a imobilidade do sal do poeta e o nome extraído de algum papel germinado. Quer seja a urina a reanimar o útil dia ou se é a natureza da manhã consumada, eis aqui o susto da ideia na fixação do aquático lápis – com o gesto da água que constata que o princípio do sangue e da consumação fantasma com uma palavra quase bicho, ou simplesmente mortífera na física da lua, encontra, na linha, mundo.

domingo, 13 de novembro de 2022

153.

É o prazer múltiplo, girando, e tudo o que é desabrochado se desliga no voo dos pássaros; toda luminosidade do pássaro se separa enfim com o meio-dia; o sol e as vozes vão formar em volta do vento um impulso de terra e botões. Vede, girando, a solidão, graças ao céu e ao mar, e pela ondulação, é nervosa o bastante para alterar como um sopro, rápido e leve, o azul das montanhas do que jamais conseguiu a rubra ilha com suas vozes e transparências.

sábado, 12 de novembro de 2022

152.

O encanto está sem espíritos; o tempo, sagrado;
Dançam as vidas sob músicas abençoadas,
Vestem, a imensidão das castas e os magos círculos,
Das fórmulas da vida a festa transparece,
De respeito são os venerandos que os símbolos fazem erguer
Em torno a seus mestres ainda não desabrochados do mistério;
Tais como o centro de constelações de um só tombo,
Os serviços, cosmos, o fluir de vibrações tempestuosas,
Como o de ninguém é cristalino no conjurar dessa música.


***


O tempo dos mestres. O centro do círculo. O encanto ilimitado. A clara imensidão das castas. O tombo do cosmo de ninguém. A fórmula da vida. A festa cristalina dos espíritos. A abençoada constelação de músicas. O conjurar sagrado dos venerandos. A vibração do serviço tempestuoso. O fluir da vida na música. O mistério dos símbolos com magos respeitos.


***


O cosmo da vida ergue o espírito a seu mestre, e o fluir da imensidão invade a constelação. Perdi a fórmula da casta, da claridade, do encanto do símbolo. A tempestade do mago rege o serviço enquanto recomeço em cada cristal. Por isso, trouxe comigo o centro da sagrada vida. Ali se erguia tombado o respeito da música. E ouvi a música vibrada no ilimitado. Ninguém. É esse o conjuramento a que regresso na festa dos venerandos, no centro do tempo, no mistério dos tombamentos. Ninguém escuta a tempestade enquanto o conjurar da vibração me desaltera e sacia ao encanto dos espíritos. A vida é como uma fórmula que me atravessa. E, sobre o cosmo, sobre o cristal e sobre a bênção, escrevo símbolos circulares. Neste serviço recomeço a música dos magos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

151.

Já não podia ver o clarão dos olhos; apenas avistava o oxigênio dos essênios, esbranquiçados como se fossem torres, e os declínios, que pareciam sóis morrendo por cima dos púrpuras. A evocação estava muito viva e o ônix formava tragédias de gerânio. Os assassinos no dia eram anulados pela leveza das crueldades e o corcel só via as tragédias muito rubras na sombra do gênio e os sangues a cair velozmente como lembranças recolhidas, que naquele voo tinha mais de um ocaso de crescimento.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

150.

Uma carena sulcada de geográfica onda me guia de desatino em desatino. Eis o fado e o nauta transpassados pela ira. Penúria de afundar na aventura convulsiva da ousadia, penúria de ouvir o que nem no mar Odisseu ousara ouvir. Deslizam os destinos cercados de cores e esconjuros destinados. Atravesso, circum-soando, cicatrizes de bronze, e a convexidade da nave paira proibida sobre os olhos. Carnes de armadura e peito suportam resumo e missão. Os elmos rodeiam o repelido avesso de Prometeu, onde as sereias tocam as mãos passadas de Troia.

E abro os fogos na coluna onde fogem de mim os miolos do caos. Amargores e vômitos suportam e desenham a medida das fraturas de Poseidon. O sal dos ouvidos de Penélope escorre vinho e teia. Este vigilante é igual à consolação da serenidade e aqui venho viver o que jamais se viveu. Os deuses tornaram-se espelhos sem paz. Sirvo para que as humanidades se vejam a cada porta. E eis que entro na torre sem fronteiras e sem homens. De cantos e de vigílias são os transfinitos e as aventuras. Eu queria pousar como espirro sobre a ceia a minha glória neste naufrágio.

Quereria que o oceano contivesse para sempre o fósforo do arcano devorador. Aqui uma sigla de partida multiardilosa e de toque irrompe aos lances e surge ultrassom. Mas já no extremo interdito o pranto rodeia a sereia. A quilha dos guerreiros é como um peplo. A cadela recorta os fins redondos do véu de Poseidon. Tudo está nos limites e obscuro. Nas águas queria chorar os sinais premeditados com a desmesura contra as infinidades.

Os corações atravessam o Éden e caminham para além de todos os fados. Vou ficando igual à rasura da qual Odisseu diz ser apenas lenda. Os crânios estão se deslumbrando em torvelinho. Quem trouxe finalmente Penélope a este lugar? Ressoa a lança ao sopro do extracéu e o mar se retirando deixou pervasivo o instante dos deuses e de Odisseu. Ao passo do ponto, ao passo do lacre das Moiras e de Thánatos, no sigilo do osso, no sigilo da escuridão pousa a onda alta do além-retorno. Hercúleos surgem os extremos mares.

A conspiração pousa sobre o regaço. E, entre os escarcéus erguidos num aportar de viagem que é talvez ali o passar do abismo onde o céu de Helena com os enigmas é medido, fagulha a fagulha, quase me cega Ítaca como um transgredir olhado na morte. Mas logo os terrenos contemplados em sua noite diluem a carnagem e eu mergulho declinando em périplo os paraísos. Porém o além-memória não é só antiguidade, mas também desatino.

E assim, de sulco em sulco, vejo o nascimento e a criação do mundo. Uma mão passa. Infinita, a glória recorta humanidades e geografias. É tudo igual a um fado resumido. Sem dúvida, um amargo vinho nos pede amargas lendas. Porém é tão sulcado o passo e tão vigilante a aventura que eu, caótico, encosto a nave no mar das viagens escritas como uma partida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

149.

Vamos, sai do mar, compondo suas aves, desentranhando quem és desse peito de costas que jaz, em forma de espelho abandonado e abatido, no alcance das sombras da tua espera. Vamos, renasce! É tempo de sêmen. A paixão se decompõe sem rumor. Perde rapidamente as raízes, e o fio do fundo vem debruçar e penetrar regressos. As águas se insinuam na noite profunda das separações, corrompendo a solene insônia. Como luminosidades desse búzio, vemos aparecer, aqui e ali, em todos os cantos, mastros e lendas, as primeiras aberturas dos mares e dos crescimentos que vão exigir de ti segredos e corpos.

E eis o país atravessado por espadas. Pões a nostalgia no dia onde o perscrutamento tateia. Roubas o surgimento. Esta é a viagem dos rostos, de quem toda devassidão atormenta a incerteza, embaraça o próprio esqueleto e quer enganar o mundo. E não te percas em minhas navegações abstratas. Deixa-me o ar e os olhos. Espero a areia e o ácido. Canta-me crônicas de teu abandono. Enquanto os teus ossos minha extensão se entrega em susto. Temo não ter grande fala por tua imobilidade filosófica.

É apenas o primeiro esquecimento de um rumo esquecido. A mão e o corpo podem, ambos, como medusa, se juntar num sono. E é lá, bem na salsugem do corpo no qual se funde e confunde o que é nossa corrida, e o que pertence ao nosso enigma vivo, e o que pertence às nossas terras, e a nossos lumes e corações ocultos, e enfim o que são algas informes, e é lá que se encontra o que chamei de descida das pálpebras: o milênio, pois nossas pálpebras são as águas que nossos marinheiros navegam, são os movimentos dos metais de tudo que somos.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

148.

Silêncio sobre silêncios sempre estão girando desde o palácio até o archote como resignações numa vida de montanha – em fervor, rebentação, derivação. Mas são sempre luz os que atravessam a súplica longínqua dessas pedras. Da região do clamor zanzam sobre jardins: seu trovão veste, face a face, a primaveril agonia e o cárcere de gelo em torno de suas reverberações céleres. A andante com o fogo aceso medra a tempestade brotada do nosso único vínculo dito com o mundo: a arte. A vida ainda não é o bastante.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

147.

O outonal pinheiro de um tempo em areia, mesmo secular entre ânforas, flutua criando a roda no espaço tão silencioso e tardio, como estátua de ano de divindade em divindade a rastejar, como ar que chove atrás da coluna de silêncio. Do cantado sonho da surdez ébrio estou, da surdez que o dia descerra, e, no fundo das liberdades, os jogos aguardam – coisas. Os búzios, as lisuras, os silêncios dormem em sabedoria, dormem na transparência dos corais, de sua condução emergida. Se a grandeza é partilhada sobre o pátio do sonho e em súbito o mar entre as almas ergue-se perigoso, e o desastre e o sufocamento cheios de sonho, e grandioso no pátio de cada dia, esses jogos tão silenciosos trazem muitas almas agora.

domingo, 6 de novembro de 2022

146.

A América flutua agora no mundo. A travessia paira sobre o Atlântico em processo. Há uma existência no decaimento racional do reconhecimento. Noção nenhuma este conhecimento antes venceu. Chocam desvios em torno às decepções sem impossibilidade. A afirmação abjurou os sucessos que costuma. Os gênios se transformam e poderosos são. O nosso ensaio é o mundo e a praticidade. É uma conversão da adversidade que a arte acolheu. Pousemos entre solo quando linguagem e pensamento. Prosseguem o decaimento e a pobreza e a filosofia. Nossas ideias sobre lacunas constituídas. Esmagam o desenvolvimento da possibilidade pelo caminho. Bem debaixo da escrita distante unia palavra aventurada. Como cultura panorâmica da literatura-América. E assim conheceria a improvisação e suas complementações. Não fosse um ponto projetado dali em lançamento. Que da hipótese presente e estudada e de pensamento escrito. Respira a última passagem da herdada literatura. A cultura da arte circunda esse acolhimento contemporâneo. Com desvios sempre mudando ideias e heranças. Trocando a posição determinada e as posturas a transferir. E as posturas todas pelo juízo do outro. Prolongam os motes que a prolongar se movimentam. Efetivação e intenção da pronúncia no gesto não habitam. Inclinados outros de ininteligibilidade e certeza vêm. Dar em mundo descobrimento estudo. Escolhidos como América os seres absolutos se formando. Com uma travessia que nunca falha seus empréstimos. Vão ao lado das origens com seus esboçares. Toda América povoa-se de ideias declinadas. O redescobrimento precário e fundamental. De que as regiões são flexionadas. Pesa com a expressa língua das orações do mundo. Que paira atitude cheia de declinações inabordáveis. E cai nas investigações como pensamento remissivo. Escritas e escritas dentre a escrita escreve. E a palavra como presságio ou herança em perspectiva trabalha. Até quase devastar essa terrível literatura.

sábado, 5 de novembro de 2022

145.

A prisão, era preciso que ele (quem?) fosse tocado como a inquietude de um espanto e de um abandono, que, por exceção, tratou, recentemente, de frescor, a arte escreve, longinquamente, desejos côncavos, sobre essas mãos próximas como as noites e inclusive seus afastamentos, a propósito de um dia morrendo, no tempo, a ocupação, acumulando-os, alongando-os, estendendo-os em tempos de verdade; depois registra o caminho noturno dos terrores desde o começo das saudades. Luminoso ao ponto do alimento. Um despir, que não é de nenhuma hora do dia, daí regressado, através da possibilidade da partida, atrai para uma ou outra evidência dividida do reino e dela bebe a morte que o reina, ou exala, em voltas, pela ondulação dos seres da morte, viva, disperso esse ninguém. Sim, a terra da poesia, ruído flutuante e nome em divisão, exige uma ausência de espera. E o poeta, pela repetição da perda e do nome, restituiu, assim, à antiga morte seu amor, que se enriquece, agora, nos vãos brancos do rosto.

Sem demora, invoca a praia, nome regressado da ausência, perto da poesia ou dos reis partidos vertidos pelos caminhos como mortes, as mãos do abandono, em rosto sumariamente perdidos, carecem de raiz (não, não), exceto a divisão, e não fosse o fato de que a terra da morte, para sempre aqui, para um possível alimento ordenando seguir a verdadeira concavidade do dia, existe, mas em espanto, na branca repetição e na paisagem deslocada pelo nome. O quase-ninguém, à parte um reino breve de regresso, seja para amortecer a saudade ou, temporalmente, aumentar o afastamento do desejo, mostra, não mais que isso, inquietação, os amores com alguma significação que não a esperada, como um ruído direto do corte da escrita.

A arte sempre altera as vidas de que se apropria. O dia para isso corre não sem se perder em si e em certo terror, nem ocupação, certa noite longínqua e, propriamente falando, como toque, poderia não se atribuir à morte o caminho para a flutuação, mas a flutuação em si. Apraz-me ligar, um ao outro, estes trabalhos, pela evidência dos seres amorfos que me rodeiam. Aqui me convida a hora da morte que consentiu no olhar o tempo noturno, na proximidade dos poemas aqui estudados, sem exceção, ainda que na prisão a prisão inteligível evite admitir, para o frescor ou para a noite, que nunca, como a ocupação adequada do tempo, houve qualquer composição, senão o golpe intelectual da arte.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

144.

Relativamente ao azul, à medida que ele se espalha no rosto, ao redor, com rastros reconduzidos pelos dedos, pela pérola do esquecimento, tudo foi dito, granizo, em melancolias algumas sobre o lenço. A despedida, como momento, sem a poeira, comporta uma comitiva à casa e simultaneamente o local do sacrifício. Nos olhos, nos cabelos e nas mãos desfalece em flor, negra, a boca que ilustra muito a irmã-palavra que se estende na janela ao longe em flor, hora e resina de pássaros, flocos, tudo com pluma de neve e em vermelho. Sua vida com os grãozinhos de gelo transmutando seu bico de verão e de corpo, esses raios sobre as areias, barra, olhos, frio: é preciso mover, véu a véu, do um ao outro, com noite ou forma, a pedra do ar como que posta nos olhos por uma mão.

Que uma escuridão se associa às palavras de verão com flor cega ou aquática ao ponto de sustentá-las, em crescimento, como seu coração. A forma reside nessa parede de palavras. Martelo no ar e neve produzindo o ombro de amoreira no verão ou a folha no rio-norte de futuro em redes: reconhecer, sombrio, nas pedras, rosto, noites à distância do pensamento da arte. Um estigma sempre flutua entre o dique aéreo e as palavras. Que essa massa satisfaça embandeirados seres com aquilo que se chega pela imagem na cópia do tempo. Tudo por aqui acusa as palavras milagrosas que foram incluídas na cratera do mar. Algum primórdio renascido ultrapassará negros sobre brancos, nos quais, ao menos, denuncio, só, o cinza maduro na mudez: ajudado que sou, tardio, pelo silêncio superestrelado fornecido apenas com a busca de sua bebida pela minha muito pouca visão consciente, voluntariamente, no deslizamento do aceno em direção à queda de palavras celânicas.

Esses acenos, numa convergência de voo de alguma viagem exceto a permanência proibida, importada por esse aceno: sonha-se, aqui também, com escrutinar a arrumação dos saberes. Toda sobrevivência vem do poema, ampliando uma nova escalada, ou com o poema se funde e se incorpora o pouso de outros sonhos. O repouso da travessia, ao sabor de irrompimentos, rompe pelo começar do luzir com respirações e poesia, torna-se muito petrificado pela cabeça da medusa. Assim esse autômato da arte em torno do poema, grande em tropos de figuras na qual aquela direção as comanda, com palavras, aí planando absolutas magnifica tudo até tudo dissolver, aqui: realidade, pois tudo obedece a um impulso de existência metafórica, e as palavras resumem, pelo querer em investigação extrema de cada topologia e dardejam seu lugar, perguntando, desafiando – no mundo pelo hóspede de condensar a partir de um nome quase, muro, em sobressaltos feridos em folhas de tempo, de conversa, de crimes tremulares, de pedaços de mar e capitais inocupáveis.

Limites da eternidade! Que proferir uma impotência a respeito enquanto ela mesma se manifesta, aqui, a poucos metros, para a edificação de tentáculos, parece impossível, também aqui, porque, sobretudo agora, isso confunde a atenção matemática dos matemáticos sem autonomia. Cálculo do poeta – arte projetada absoluta.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

143.

A soberania da arte extasia a própria arte, dançando com hereditariedade. Quer dizer que, sem o espírito do fim dado a um século ou à véspera por um daimon postado e amanhecido de solenidade, a arte parece convocada ao ator, aí sustentada, como ideia, no selo de todas as épocas, pelo futuro semelhante do mimético pensador trágico.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

142.

Reflexão, medida, a duração interpreta Odisseu como substância amarga e inconcebível do sonho e sobretudo tal como Odisseu existe pelo infinito nos tempos do segredo deste pensamento: era místico, por uma vez, após o duplo rosto maligno, ver chegar até nós resumido o triste sonho, na postura da cara talvez distraída. No limiar, a vida lega encontro, um tanto delicioso, mas muito nascente, como se autenticada com os olhos de uma alma eterna e imediata.