segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Com o ímpeto daquele que avança em direção a uma muralha de névoa, o seu ritmo não compassa a mansidão, mas o temporal



Lúcio Cardoso (1912 – 1968) foi um escritor corajoso que percorreu uma trajetória literária liberto de idiotismos e tendências, e o livro Crônica da Casa Assassinada, publicado em 1959, atesta isso com bravura.


De longe ainda, através da ramagem, distingui as luzes da Chácara. A fachada, que se ia descobrindo aos poucos ao jogo dessa claridade esbatida — mantida pelo esforço de um gerador deficiente, as luzes esmoreciam com frequência — adquiria um aspecto mortuário.


O magnum opus do escritor descreve a ruína da família Meneses, que, tomada pela ganância, pela ambição, pela inveja e pelo ciúme, termina se devastando. Com uma linguagem metafórica e simbólica, o livro é um romance que, narrado por diversas vozes, anotações, depoimentos e passagens de diários (projeto ousado para o seu tempo), cria, ante os olhos do leitor, uma atmosfera inquietante, intensa, sombria e profundamente psicológica. Com isso, Lúcio Cardoso desbrava o íntimo da psique humana, refletindo o ambiente opressivo da mansão e as sombras que compassam as sensações de cada membro da família.


E eu sou desses que não sabem viver sem exaltação: foi consciente que eu me degradei, porque sentindo-me menor do que os outros, era pelo caminho do martírio que conseguiria elevar-me acima deles, e tornar-me o maior do que todos.


O livro expõe as hipocrisias de uma sociedade que vive de aparências. O interesse é o que sempre está em jogo. Dinheiro, extravagância, controle, influência são algumas armas usadas para se alcançar benefícios próprios, mesmo que isso signifique passar por cima do outro.

Remando contra a maré, Lúcio Cardoso inverte todas as polaridades e sugere ao longo da narrativa que o maior pecado é não experienciar a vida em sua totalidade, furtando-se da possibilidade de compreendê-la em todas as suas dimensões e contrastes. É justamente nesse sentido que desperta grande interesse episódios que se desenrolam em um círculo onde a ideia do pecado é arraigada à moral e ao pensamento religioso.


André, não renegue, assuma o seu pecado, envolva-se nele. Não deixe que os outros o transformem num tormento, não deixe que o destruam pela suposição de que é um pusilânime, um homem que não sabe viver por si próprio. Nada existe de mais autêntico na sua pessoa do que o pecado — sem ele, você seria um morto. Jure, André, jure, como assumirá inteiramente a responsabilidade do mal que está praticando.


A narrativa é recheada de figuras complexas, cada uma arrastando consigo os seus segredos soturnos e os seus pesadelos. Esse ponto de vista desenha o panorama exato da carioca Nina, personagem ambiciosa que foi ludibriada pela aparente fortuna de Valdo Meneses. Assim que toma ciência da real condição do esposo ao chegar à mansão da família em Minas Gerais, Nina resolve abandonar tudo e voltar para o Rio de Janeiro; a sua presença, no entanto, ainda que breve, foi suficiente para abalar todas as estruturas da mansão.


Um dia, no jardim, disse-me que o pecado é quase sempre uma coisa ínfima, um grão de areia, um nada — mas que pode destruir a alma inteira. Ah, Betty, a alma é uma coisa forte, uma força que não se vê, indestrutível. Se uma minúscula parcela de pecado — um nada, um sonho, um desejo mau — pode destruí-la, que não fará uma dose maciça de veneno, uma culpa instilada gota a gota no coração que se quer destruir?


Angustiante, lancinante e encantadora, a leitura de Crônica da Casa Assassinada é uma experiência literária de claustrofobia. À medida em que a Chácara se esfacela ao longo da narrativa, seus cheiros e barulhos submergem com violência. Talvez seja justamente ela, a Chácara – sempre mencionada com inicial maiúscula –, a grande personagem do livro, a matriarca, que, página após página, é encarnada como o ser que concentra e espelha todas as desgraças que acontecem dentro de seus limites. 


A casa é a mesma, mas a ação do tempo é bem mais visível: há outras janelas que não se abrem mais, a pintura passou do verde ao tom escuro, as paredes gretaram-se pelo esforço da chuva e, no jardim, o mato misturou-se as flores.


Desafiador, sensível e cheio de entretons, Crônica da Casa Assassinada é um livro que reivindica dedicação e concentração. É uma experiência que praticamente nos leva à paranoia, fazendo-nos suspeitar de todas as personagens, inclusive daquilo que lemos. É impossível sair ileso dessa jornada, pois, de alguma forma – quer gostemos ou não –, é um livro com o qual estabelecemos diálogos profundos.


Só eu poderia ali penetrar, e tocar o desenho daquela mancha, continente preto alargando-se na cal, abrindo-se como uma teia num dos seus extremos, alongando-se, subindo mais num único traço agudo e rebentando, afinal, como um fogo de artifício que se desfizesse mudo e sem luz.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Bem-vinda ao continente dos frágeis: podes parar de nadar


Na fenda do instante onde a luz se petrifica e o tempo desaba sobre si mesmo, fui varrido para fora do que se poderia chamar de antes. Não houve aviso, não houve prenúncio, apenas o desfiar súbito do tecido invisível que separa o que se espera do que se é. Não foi rito, pois ritos pressupõem consciência, e o que me coube foi o rapto de um desígnio sem escolha. Despertei outro, não porque me tornei, mas porque sempre fora sem saber. Ali, entre o silêncio metálico dos aparelhos e a penumbra que sustém o intervalo entre a súplica e o milagre, meu corpo tocou o teu. Corpo sobre corpo, substância sobre substância, verbo antes de voz, sopro antes de nome — e o mundo se retraiu até caber no exato contorno de um abraço.

Se existe nome para aquilo que escapa a todos os nomes, se há imagem capaz de apreender o informe, que seja esta: eu sustentava o inexprimível entre os braços. O que não se reduz, o que não se dissolve, o que, sendo Um, multiplica-se em Ti. Pequena divindade, espelho lapidado em miniatura, cifra visível do que já era sagrado antes mesmo de haver boca para pronunciá-lo. O ar não me pertenceu, pois já te habitava; o mundo se dissolveu ao redor, pois o centro pulsava em ti. Restamos somente nós num universo que se extinguia para inaugurar-se novo, exato, redimido na justeza de um milagre que não pede testemunhas.

Mas toda luz, ao revelar, fere, e todo saber, ao instaurar-se, esmaga. O terror não veio de fora, mas de dentro — lucidez afiada que atravessa e refaz. Nenhuma mão sustenta este peso senão a que o recebe. Não há como repartir o vértice desta montanha, não há terceiras vozes, não há alívios. Serei eu, apenas eu, e para sempre eu, o nome irreversível que, ao ser pronunciado, chama-te filha. E, se o abismo do compromisso assusta, o amor é vertigem que paira sem medo da queda. Ele não se aprende, não se escolhe, não se dosa; ele é anterior a mim, além de mim, desmedido e inevitável.

Agora, tu, filha — que redesenhas meu rosto no espelho do tempo, que refazes meu ânimo no fôlego de cada amanhecer, que me ensinaste a fé de quem crê sem garantias —, és a órbita onde gravitam todas as esferas da minha substância. És prova de que o amor, em sua natureza última, não é oferta, mas destino; que doar-se não é virtude, mas sentença; que certos vínculos não se extinguem, pois existem antes da matéria e para além dela.

Serás sempre a prioridade. Antes das hesitações, antes das buscas, antes mesmo do eu que um dia fui. És a lei que ordena todas as leis, o eixo invisível que determina o giro das minhas escolhas. Mas há gênese, e dela não se aparta quem sabe que toda colheita pertence ao campo que a gerou. Antes de ti, havia nós, e esse nós precisa ser cultivado como se cultiva a terra: com mãos abertas, com tempo, com a paciência da seiva que sabe que só cresce quem primeiro se afunda. À tua mãe, Priscilla Morandi, raiz e fundamento deste milagre, minha gratidão sem nome. O amor que em nós brotou fez-se constelação, e nos cabe agora mantê-lo vivo para que dele sigamos colhendo eternidades.

Que a bênção recaia sobre aqueles que ouviram o chamado e seguem, com a reverência que o mistério exige, na honra inominável de ser pai.

domingo, 27 de novembro de 2022

167.

Destece o linho o pensamento salgado e com ele interroga o bramido crepuscular; sob as pequenas umidades, sentimos o segredo pequeno de seus brancos olhos, esclarecendo o interior da palavra recolhida. Nossa polposa felicidade é o fantasma, se obedecemos ao olhar menor cuja branca dúvida não visa agradar o poeta, mas recordar a ideia que, como a de Orfeu, nossos dias, para avistar precisa antes viajar ao trono de Hades.

Todas as escalas só nos valem de leitura, lentíssima tarde dos anos avistados, e onde, se tudo andar derramado, poderemos morrer do antigo e monótono remendo que a cada monstro se ampara e se escorre de nossos dedos. Densidade côncava acima os dias. O ar zumbe nos panos da infância. Para fixar-me, devo me consumir e sonhar entre os vegetais anos felizes cujas mesas são crepúsculos, e o funcionamento embebido.

Nessas paredes apenas o verão germinado. Nosso antigo papel, redes construídas. Alegra-nos pensar que somos palavras pousadas, sangue e amor alastrados. E assim chamamos uma outra vez, curvados, o esquecimento de ninguém.

sábado, 26 de novembro de 2022

166.

A natureza começava a repintar na tristeza o crepúsculo do dia consumido na vida. Os choros, com as mãos no tempo, coroavam os monstros. Do pano de um dos poetas, o pensamento observava a umidade, e a evaporação se derrama como um pouso de pinhais.

Que pensamento imóvel aquele que o choro antigo contempla. A embebida cidade torna-se lida; os poetas acabaram de ser criados, quando a antiga reta dos anos vem devolver o musgo ao envelhecido mar que existe entre as flutuações. Eis que ele decifra novamente o que vê. Um papel curvado canta. O mar é o pó. O nome da rosa é uma feliz lua. Todas estas cartas são um olhar. O pouso dessas galerias é mais espantado que as infâncias germinadas da mais desatada sombra.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

165.

Continuam consumindo os lápis de carvão, sol branco em noturno oceano com cegos rostos ou com a infância, essa fixa vela. Quando a pertencida rua é caiada nos olhos do corpo, voltam à sua sílaba, vegetal e iluminada, ao seu linho e ao seu silêncio. Perduram em imóveis flores, em um modo de esconder, no mar do poeta, da risca, do remendo, em reduzidas felicidades e em alastrados nomes. Na sonhada ideia do papel quando o sol escreve o poeta.

O ar, o verão, o dia, a embarcada água, as recolhidas físicas que não lerão as extintas cerejas que me restam, o meio-dia e o dragão, um olhar e em suas palavras a magoada palavra, palavra de uma folha sem dúvida aérea e já branca, o debruçado receio pequeno em que arde um imóvel som. Quantos poemas, luas, papéis, lutas, veias, linhas, nos servem como embebidas cidades, desaparecidas e loucamente bordadas. Durarão, todos estes poemas, para além do nosso abandono.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

164.

Deixo-o na sombra, com esses mortos diurnos que buscou o mago. Que de todos os mortos de seu dicionário este perdure, numeroso e gris. Avança pela sombra a loucura da eternidade e do cristal. O minucioso instrumento espreita opiofágico. Como uma gravura, a peça vai em pó. Está no espelho, com o ouro do rei. Mágico, deixa-o com sua outra pena e quase não tocado pelo fio.

***

Sou, mas sou também a água, a pena, a água da sombra e do morto. Sou uma confusa linha e o cone que deteve os minutos da eternidade. Volto ao mundo do poema, onde nunca estive, ao mundo do poema, espada mágica. Ouves-me, sândalo ou repetição fortuita, ou não ouves na terra de cristal o bispo invulnerável? Buscas nos numerosos destinos o severo mundo do acaso, a peça que plantaste no abismo, o pó e, no ponto, o mago e os seus gostos. Imagino-te gradual, um pouco côncavo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

163.

Para mim não é verdade que o poema tenha começado. Julgo-o tão infecundo como a brisa e o gesto. Uma flor perfumou com rigor as mãos. O brilho se aprofundou aos toques. As tormentas compartiram uma lamentação marítima. Só faltou uma coisa: a aspereza da dobra.

O injusto galho salvava a noite com sua enquadrada aparição, sua escuridão e seu copo. O mundo bravo já opinava o medo. Uma madeira mandava vento no muro. Uma tristeza arruinada como consternação de surpresa brilhou e no frio da noite conversaram um mundo. A tristeza arruinada floresceu numa contorção, já canção alta, já decadente e mundana.

Um choro sobre a mesa, mas na água da caverna, presenciados bosques, liquidezes e transparências. Um choro virgem que persiste na dor: vento, nuvem, instante, realidade. Fincaram os injustos galhos na virgindade, dormiram em gesto. Dizem que na caverna, mas são instantes rigorosos na tela do quadro. Foi um choro sobre a mesa e na dor: contorção de mundos.

O certo é que mil mortes arribaram pelo vento que tinha infecundas nuvens de tormenta, povoados bosques e mundos e águas dobradas que enlouquecem o corpo da escrita. Pensando bem na decadência, suponhamos que o copo era madeira então como aparições reais com sua ruína de dor para marcar o medo em que a escuridão jejuou e as mãos comeram.

E foi por este mundo de tristeza e de brilho que as lamentações vieram-me afundar a aspereza. Iriam balançando os poemas do vento entre a liquidez do mar noturno.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

162.

Pela quentura do sol, ondulação cujo imóvel gesto possuo, cuja natureza não abarcamos, há na consumação uma força poética até a germinação, uma física força que não estou destinado a rever, mas que me espera nesta sujeira com as veias de um bicho nas sanguíneas coisas do dia leve de luas transparentes, noturnas, em danças de papel.

A linha gasta as cidades; nossos terrores estão morrendo na agonia, formosamente. E a antiguidade, o fogo, a terra está sob os assombros marítimos da tarde e o resplendor do dia nos dará um sonho mais para a cosmogonia e violentos acasos da lua para merecer devagar e coisa tecida sobre o abismo que volta e o elemento que da ventosa visão nos livra: o olhar da fogueira.

Comovem-me os brancos funcionamentos que em nova salvação de lápis se perdem – luminosidade de águas, de terra, de montanha entre montanha – em pousos iluminados que foram o dia e o sal da voz para o fantasma. Sei que toda nuvem, apesar da emoção, é da imobilidade do poeta, reunida ao redor do mundo: da mesa, reunida para sua extinta ideia na onda.

Branda a vida, no princípio do ar, chego ao impulso e ao desabrochar e à marítima manhã que busco e me recebem tinteiros de poetas ao carvão que participaram das densidades dos círculos, e nivelamos o meio-dia num prazer aquático que dá para a flor – flor que está sob as ilhas e na monstruosa solidão – e dizemos, porque a luta é de papel, folhas de sonho, e somos nomeados e mortos no papel e a palavra assustada mede fixações azuis.

Para a evaporação que gravita em percepção caminho pelas palavras múltiplas como utilidades, pelo botão desenhado do meio-dia, sem mais pássaro salino que as recolhidas vozes do céu juntas às nervosas corridas e algum vento consumado no verão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

161.

Gosto quando te entregas porque estás como atuante e me invades sem tristeza – minhas mãos te forjam. É como se tivessem essas tuas flechas voado para colinas distantes, como se houvesse um caminho lacrado o teu púbis. Como as alvuras estão repletas de tuas coxas, repletas de tuas coxas, dos saltos do teu corpo te irradias. Amor de pássaros, sou igual às tuas coxas e me assemelho às ânsias das tuas fugas. Gosto quando te entregas e estás com sede. Como se te doesse, amor em pelos. E persistes em infiltração. Minhas mãos te firmam. Deixa-me que me entrego em teu mundo indeciso. Deixa-me que te viaje também em teu mundo fundo como uma voz, eterno como um filho. Tu és igual aos olhos, infinito e gracioso. Teu mundo é sem limites, tão ávido e branco. Gosto quando te entregas porque estás atuante – selvagem e noturna como se tivesses se ausentado. O corpo então e uma só hora bastam. E estou no túnel, fatigado por não ter sido em tuas terras.

domingo, 20 de novembro de 2022

160.

As grutas lavram no líquido os desenhos, e o vermelho que morre é caminho e água. Os pousos e os olhos que empalidecem na balança quase não existem para a fuga que está sonhando uma mudez. Não o turba a linha, esse mar no surgimento do mundo, nem o toque do silêncio. Livre da rouquidão e do olhar, lavra um palácio, o deslumbramento do mundo que é todos seus espantos.

E continuam escorando as tempestades, claridades em cristais com vibração ou com respeito, esse outro sagrado. Quando o serviço é tempo no centro dos magos, voltam à sua casta, à sua música e à sua vida. Perduram em imensidão, na fórmula constelada, num espírito, num ninguém, em bênção e em venerandos. Num fluído de encanto quando um mestre embravece o mistério.

sábado, 19 de novembro de 2022

159.

Ele fecha o livro da estranha espera e sai em busca do homem e do touro. A tarde já exalta o abarcado crepúsculo de pedra. Em direção ao fundo do segredo atrás das portas, caminha pelo centro do horror como agora pela anversa maranha dentro da espera de quem escreve a forma sem fim. Li os livros dele e outros compus com o universal rigor que o murado caminho da existência não apagará. Ele me concedeu o que é dado saber ao interminável destino. Por todos os cantos, anda a outra pluralidade do negrume. Não vivi por lá. Quisera ser tudo isso de novo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

158.

Pois do destino do universo ninguém sabe. Ninguém testemunha pelo reverso da porta. E, no entanto, sempre escolhemos uma investida dentro da existência: não só para escrever no interminável anverso da pluralidade, mas para algo que pulsa em nós como a espera rigorosa da fera, fora disso, que tem necessidade de que sejamos, na pedra, o juízo artístico da forma do outro. Companheiro no caminho de maranha ao centro do alcácer, a mesma perda que está doravante abarcada no extremo segredo do horror. Onde buscar o crepúsculo ao fim do negrume para o qual não há nunca a espera do homem ante o muro de ferro?

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

157.

No cabo curvo, a morte dirige os dias de solidão. A fadiga demora nos caminhos até as ânsias, no outro homem em que se odeiam monótonas redes. Dentro irradiam circulares sombras. Usura côncava, aérea busca, retas galerias, Zeus esquecido, anos pálidos e bramidos desatados. Quando a morte tiver ido, quando o temor tiver decifrado Hades, certamente o sangue não terá cessado a desolação. No pó se acendeu esta tarde cujo eco é agora toda a espera. Como as pedras, este rastro é secreto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

156.

Na terra de Marco Polo estão os sonhos do novo mundo, desde aquela transformada terra desenhada a oeste – em que um paradisíaco tempo prefixou as navegações e o diário de bordo – até a sabedoria em que a mágica vida da vida viajante retorne à sua utopia, que é o próprio Marco Polo, e se apague em Cristóvão Colombo, o aventureiro, o próprio relato, que é agora um declínio místico. Entre a raridade e o toque está a agulha da palavra. De dentro do livro vejo em narrativa os encantamentos do mapa de Toscanelli, leitura descoberta, ideia e mapa. Dá-me fôlego e coragem para navegar sem rumo à terra de tetos dourados.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

155.

Acaso do olhar, tecidas terras, sonhos mitológicos, à violência os dias se assemelham ao assombro dos dias. A cosmogonia antiga do tempo escava e faz saltar a visão do resplendor do mar. O mar e o vento. Da fogueira fugiam tardes, e o elemento infiltrava coisas na agonia marítima. Para sobreviver forjei o abismo com fogo, lua entre os pilares e terror nas formosuras.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

154.

Assim faço o círculo do sol, tomando o meio-dia branco, entre a noite que conserva a imobilidade do sal do poeta e o nome extraído de algum papel germinado. Quer seja a urina a reanimar o útil dia ou se é a natureza da manhã consumada, eis aqui o susto da ideia na fixação do aquático lápis – com o gesto da água que constata que o princípio do sangue e da consumação fantasma com uma palavra quase bicho, ou simplesmente mortífera na física da lua, encontra, na linha, mundo.

domingo, 13 de novembro de 2022

153.

É o prazer múltiplo, girando, e tudo o que é desabrochado se desliga no voo dos pássaros; toda luminosidade do pássaro se separa enfim com o meio-dia; o sol e as vozes vão formar em volta do vento um impulso de terra e botões. Vede, girando, a solidão, graças ao céu e ao mar, e pela ondulação, é nervosa o bastante para alterar como um sopro, rápido e leve, o azul das montanhas do que jamais conseguiu a rubra ilha com suas vozes e transparências.

sábado, 12 de novembro de 2022

152.

O encanto está sem espíritos; o tempo, sagrado;
Dançam as vidas sob músicas abençoadas,
Vestem, a imensidão das castas e os magos círculos,
Das fórmulas da vida a festa transparece,
De respeito são os venerandos que os símbolos fazem erguer
Em torno a seus mestres ainda não desabrochados do mistério;
Tais como o centro de constelações de um só tombo,
Os serviços, cosmos, o fluir de vibrações tempestuosas,
Como o de ninguém é cristalino no conjurar dessa música.


***


O tempo dos mestres. O centro do círculo. O encanto ilimitado. A clara imensidão das castas. O tombo do cosmo de ninguém. A fórmula da vida. A festa cristalina dos espíritos. A abençoada constelação de músicas. O conjurar sagrado dos venerandos. A vibração do serviço tempestuoso. O fluir da vida na música. O mistério dos símbolos com magos respeitos.


***


O cosmo da vida ergue o espírito a seu mestre, e o fluir da imensidão invade a constelação. Perdi a fórmula da casta, da claridade, do encanto do símbolo. A tempestade do mago rege o serviço enquanto recomeço em cada cristal. Por isso, trouxe comigo o centro da sagrada vida. Ali se erguia tombado o respeito da música. E ouvi a música vibrada no ilimitado. Ninguém. É esse o conjuramento a que regresso na festa dos venerandos, no centro do tempo, no mistério dos tombamentos. Ninguém escuta a tempestade enquanto o conjurar da vibração me desaltera e sacia ao encanto dos espíritos. A vida é como uma fórmula que me atravessa. E, sobre o cosmo, sobre o cristal e sobre a bênção, escrevo símbolos circulares. Neste serviço recomeço a música dos magos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

151.

Já não podia ver o clarão dos olhos; apenas avistava o oxigênio dos essênios, esbranquiçados como se fossem torres, e os declínios, que pareciam sóis morrendo por cima dos púrpuras. A evocação estava muito viva e o ônix formava tragédias de gerânio. Os assassinos no dia eram anulados pela leveza das crueldades e o corcel só via as tragédias muito rubras na sombra do gênio e os sangues a cair velozmente como lembranças recolhidas, que naquele voo tinha mais de um ocaso de crescimento.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

150.

Uma carena sulcada de geográfica onda me guia de desatino em desatino. Eis o fado e o nauta transpassados pela ira. Penúria de afundar na aventura convulsiva da ousadia, penúria de ouvir o que nem no mar Odisseu ousara ouvir. Deslizam os destinos cercados de cores e esconjuros destinados. Atravesso, circum-soando, cicatrizes de bronze, e a convexidade da nave paira proibida sobre os olhos. Carnes de armadura e peito suportam resumo e missão. Os elmos rodeiam o repelido avesso de Prometeu, onde as sereias tocam as mãos passadas de Troia.

E abro os fogos na coluna onde fogem de mim os miolos do caos. Amargores e vômitos suportam e desenham a medida das fraturas de Poseidon. O sal dos ouvidos de Penélope escorre vinho e teia. Este vigilante é igual à consolação da serenidade e aqui venho viver o que jamais se viveu. Os deuses tornaram-se espelhos sem paz. Sirvo para que as humanidades se vejam a cada porta. E eis que entro na torre sem fronteiras e sem homens. De cantos e de vigílias são os transfinitos e as aventuras. Eu queria pousar como espirro sobre a ceia a minha glória neste naufrágio.

Quereria que o oceano contivesse para sempre o fósforo do arcano devorador. Aqui uma sigla de partida multiardilosa e de toque irrompe aos lances e surge ultrassom. Mas já no extremo interdito o pranto rodeia a sereia. A quilha dos guerreiros é como um peplo. A cadela recorta os fins redondos do véu de Poseidon. Tudo está nos limites e obscuro. Nas águas queria chorar os sinais premeditados com a desmesura contra as infinidades.

Os corações atravessam o Éden e caminham para além de todos os fados. Vou ficando igual à rasura da qual Odisseu diz ser apenas lenda. Os crânios estão se deslumbrando em torvelinho. Quem trouxe finalmente Penélope a este lugar? Ressoa a lança ao sopro do extracéu e o mar se retirando deixou pervasivo o instante dos deuses e de Odisseu. Ao passo do ponto, ao passo do lacre das Moiras e de Thánatos, no sigilo do osso, no sigilo da escuridão pousa a onda alta do além-retorno. Hercúleos surgem os extremos mares.

A conspiração pousa sobre o regaço. E, entre os escarcéus erguidos num aportar de viagem que é talvez ali o passar do abismo onde o céu de Helena com os enigmas é medido, fagulha a fagulha, quase me cega Ítaca como um transgredir olhado na morte. Mas logo os terrenos contemplados em sua noite diluem a carnagem e eu mergulho declinando em périplo os paraísos. Porém o além-memória não é só antiguidade, mas também desatino.

E assim, de sulco em sulco, vejo o nascimento e a criação do mundo. Uma mão passa. Infinita, a glória recorta humanidades e geografias. É tudo igual a um fado resumido. Sem dúvida, um amargo vinho nos pede amargas lendas. Porém é tão sulcado o passo e tão vigilante a aventura que eu, caótico, encosto a nave no mar das viagens escritas como uma partida.